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emerson silva

Publicado por: ortega3
Data: 22/04/2008
Hora: 20:40:22
Página: biblioteca_ler
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emerson silva - nos bastidores do reino de deus
##################################Nos Bastidores do Reino#A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus
PREFACIO#Os originais de Nos Bastidores do Reino chegaram as minhas mãos ha mais de um ano. O intrigante e que eu morava no meio do nada, perto das montanhas de
São Francisco, na Califórnia, e o remetente era um desconhecido brasileiro que vivia em Nova York. Abri o envelope na varanda da minha casa, me perguntando como
ele me achou e por que eu. Estava ocupado, tinha compromissos marcados, mas li a primeira linha e só sai da varanda ao anoitecer, depois de ter lido o livro em uma
tacada. A primeira coisa que me veio a cabeça: ainda bem que ele me achou e me escolheu.##Prepare-se: ler Nos Bastidores do Reino e um evento de transformação. Ninguém
será o mesmo depois de conhecer os detalhes da vida de Mário Justino, mas vale a pena correr o risco. Ainda não se criou uma designação para este estilo literário.
Seria o que, literatura emocional, visceral? Pensando bem, pouco importa o estilo. e um livro, como todos os livros buscam ser: um acontecimento na vida do leitor.
A começar, a historia nebulosa da formação de um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, que cresceu com a crise espiritual do homem moderno, dando respostas
objetivas a carência moral de milhares de fieis abandonados por outras seitas. Os métodos da Igreja são questionados. Aproveita-se da fé para extorquir milhões?
Poderíamos concluir que a religião vira um negocio, e uma técnica e desenvolvida para confundir a "vitima", relendo a Bíblia e deturpando o pensamento cristão. Nos
bastidores, premiam-se os pastores que conseguem arrecadar mais dinheiro. As fofocas giram em torno do sucesso ou fracasso financeiro de tal filial. O poder sobe
a cabeça, e um estilo de vida nada religioso passa a ser a norma entre os lideres da Igreja. De festa em festa, nosso personagem e contaminado pelo vírus da AIDS.
e expulso da Igreja, e desce aos poucos os degraus do inferno. Em pouco tempo, o garoto da Universal perde tudo e vive seu calvário pessoal, nas sombras de uma estação
de metrô de Nova York, aquecendo-se numa fogueira com outros mendigos (os de possuídos),pensando em roubar para comprar drogas e planejando o assassinato do bispo
Edir Macedo, líder da seita. Não e apenas um livro denúncia. A própria teologia esta em debate. De repente, estamos, agora sim, em frente à pobreza e à verdade do
ideal cristão. Chegamos a acreditar que Mário Justino e mais Jesus que toda a pompa papal e a conta bancaria da Universal. São escritores como ele que podem nos
salvar e iluminar alguns caminhos. Faça bom prato das palavras de um homem que viu de tudo, que viveu os extremos, e pode ser considerado, em teoria, um herói.#MARCELO
RUBENS PA1VA#São Paulo, primavera de 1995###Introdução#Não considero este livro uma autobiografia. Essas são escritas por aqueles que já viveram tudo. Ele também
não pretende ser uma busca de remissão, nem uma tentativa de me justificar a quem quer que seja. Acima de tudo, este livro não tem a pobreza de ser uma forma de
vingança.#Talvez eu não tivesse o direito de escrever uma historia que envolve tantas pessoas. Mas, no decorrer dos últimos anos, eu vinha sentindo uma irresistível
vontade de contar a minha verdade. Entretanto, seria impossível contar essa historia sem que se revelasse, no andamento natural da narrativa, a historia dos porões
da Igreja Universal.#Infelizmente, as duas historias estão fundidas em uma só. Sexo, dinheiro e drogas se confundem, no mesmo púlpito, com orações e salmos de Davi.
Lamento pelas pessoas que se sentirão traídas por esta obra. Mas espero que ela contribua para que se forme uma discussão de âmbito nacional sobre a influencia nociva
que pseudopastores vem exercendo sobre as massas, fazendo com que menores abandonem famílias, e estudos, desgraçando assim seu futuro e sua vida. Isso, se não é,
deveria ser caso de policia. As poucas pessoas que conseguem se liberar desse crack religioso se vêem no meio de um profundo vazio. Como se o tapete mágico tivesse
sido puxado repentinamente de sob seus pés. Em muitas vezes as seqüelas são irreparáveis. Nos Estados Unidos existem varias organizações, algumas governamentais,
que dão apoio psicológico e legal a essas pessoas vitimadas por grupos como a "igreja" de Edir Macedo. Eu acredito que no Brasil essas vitimas sejam em grande numero
ex-pastores, missionários, evangelistas, obreiros, membros. Pessoas de boa fé que deram seus lombos para que sobre eles fosse construído o império de Macedo. Somente
denunciando elas serão ouvidas. Recuso-me a acreditar que a Constituição, quando protege a liberdade de culto, também proteja a lavagem cerebral e a exploração financeira
da credulidade publica. A principio, este livro pretendia ser uma denuncia, um clamor por justiça, mas, na medida em que foi sendo concebido, foi assumindo a forma
daquilo que realmente e: a trajetória de alguém que, buscando o desconhecido, encontrou a si mesmo.#MÁRIO JUSTINO#Nova York, verão de 1995#####PRELÚDIO#Ora, não
se faca de imbecil! Você sabe por que tem de ir. Mas vou refrescar sua mente. Você não pode mais ficar com a gente porque tem AIDS! Quando Edir Macedo, o bispo da
Igreja Universal do Reino de Deus, me chamou em seu escritório, no fundo eu sabia que era isso que ele me diria. Dois meses antes eu enviara uma carta ao pastor
Honorilton Gonçalves, na qual contava o meu problema. Gonçalves fora um grande amigo, desde os meus dezesseis anos, quando fui transferido do Rio para ser pastor
na Bahia, estado em que ele era o vice-líder. Gonçalves agora era líder nacional, e, em nome da nossa antiga amizade, pensei nele como alguém que podia me ajudar
a sair daquele estado de torpeza e confusão. Na carta, contei a ele tudo o que estava acontecendo comigo. Disse, inclusive, que achava estar com "aquela doença incurável"
Por varias semanas esperei pela resposta do pastor Gonçalves. Nunca chegou. Em compensação, fui chamado ao escritório do bispo Edir Macedo, que na época encontrava-se
em Nova York fugindo das acusações de charlatanismo feitas pela policia de São Paulo. Com o conhecido olhar que aterrorizava seus subalternos, o bispo ordenou que
eu juntasse minhas coisas e fosse embora. Eu não interessava mais a Igreja Universal do Reino de Deus. Pior, podia "comprometê-la". Ao insistir em saber por que
estava sendo varrido da Igreja depois de onze anos de serviços prestados, recebi do bispo aquela resposta áspera, bem no estilo dele. Disse que não tinha para onde
ir e implorei que ao menos me mandasse de volta para o Brasil. Respondeu-me afirmando que eu tinha uma passagem de volta e que deveria usa-la. Mas não existia passagem
alguma. A passagem com que tinha ido do Brasil para Portugal fora obtida numa promoção e tinha apenas três meses de validade. Como permaneci em Lisboa por quase
um ano, perdera a validade. O mesmo acontecera com a passagem de Lisboa para Nova York. Inutilmente, disse que escrevera a carta num momento de desespero e que não
tinha certeza se estava mesmo com a doença. Não adiantou. Ele se mostrou irredutível diante das minhas suplicas e explicações. Nada poderia demove-lo da idéia de
me punir severamente. Ao sair do escritório do bispo, a primeira coisa que me veio a cabeça foi ligar para Eliane. Disse-lhe que algo terrível me havia acontecido
e que precisava de sua ajuda. Ela me recebeu em sua casa sem ao menos perguntar o motivo pelo qual a Igreja estava sendo tão severa e cruel comigo. Fiquei lá por
uma semana. Depois, tornei a implorar ao bispo Macedo para que me desse algum dinheiro ou me mandasse de volta para o Brasil. Inflexível como sempre, o que achava
ser uma virtude, o bispo não voltou atras: Aqui, o!!! - disse ele, ao mesmo tempo que desferia uma "banana", aquele clássico gesto em que, erguido, o punho cerrado
assume a forma de um imenso pênis em estado de ereção. Depois do que acabara de experimentar, comecei a caminhar feito um desnorteado pelas ruas da cidade. Com passadas
largas e firmes, tentava entender o que estava acontecendo comigo. Uma das razoes pelas quais me tornara uma das figuras mais populares dentro da imensa comunidade
da Igreja Universal tinha sido exatamente a habilidade com que conseguira me movimentar, a habilidade para contornar problemas e sempre ter, nas situações difíceis,
a tal carta escondida na manga. Agora, no entanto, todo aquele jogo de cintura também parecia Ter virado as costas para mim. Sentia-me inteiramente impotente. Desarmado.
Tudo o que queria era chorar. E nem isso conseguia. Não levaram muito tempo para descobri r que Eliane estava me abrigando. Ao regressar a casa, encontrei o pastor
Natanael. Ele estava ali a mando do Bispo. Queria checar meus pertences. Natanael disse que depois da minha saída fora notado o sumiço de um gravador, que era usado
para gravar testemunhos dos milagres de Macedo. Desconfiavam que eu havia roubado o equipamento. Ao tentar impedi-lo de revistar minha mochila, atracamo-nos em uma
inglória (para mim, dado o meu estado cambaleante) luta corporal. Enquanto isso, aos gritos, Eliane suplicava que parássemos com aquilo. Fui dominado facilmente
por Natanael, que, tento rasgando a bolsa, ia chutando tudo o que caia, espalhando minhas roupas, procurando pelo gravador. Provando uma humilhação que nunca imaginei
passar, fiquei jogado num canto da sala tossindo e jurando que me vingaria de todos eles. Um por um. Como se você fosse viver para isso - disse Natanael com um sorriso
irônico, saindo sem encontrar o que viera buscar e deixando para trás a minha figura miserável recolhida ao chão. Não sei por quanto tempo fiquei ali, no canto daquela
sala, a cabeça baixa, os olhos parados e o tempo se esvaindo diante deles. As imagens de minha trajetória na Igreja passavam velozmente pela minha mente, como num
aparelho de vídeo. O ódio me desvirginava. Encolhido no canto, sentia-me a pior das criaturas. Rastejando no pó, como a serpente amaldiçoada. Como Lucifer, caído
em desgraça. Destituído de toda a gloria. De toda a luz. Esforçava-me para não chorar. Seria reconhecer a vitoria deles. Com um no na garganta e a respiração pesada,
senti minha boca se encher de uma saliva amarga. Por entre os dentes, emitia grunhidos cujo significado nem eu mesmo sabia. Naquele momento, foi definitivamente
possuído pelo pior sentimento conhecido pela raça humana. E esse sentimento, agora, iria reger a minha vida. Meus pensamentos, que corriam longe, arrebentaram a
linha tênue que separa o bom senso da loucura quando eu comecei a considerar a idéia de matar. Eu não tinha mais nada a perder. Tudo o que tivera havia escorrido
por entre os meus dedos: mulher, filhos, meus pais, meus sonhos, minha fé, meu Deus. Tudo tinha ido. A única coisa que me restara era o ódio mortal pelo bispo Macedo
e sua Igreja Universal. A idéia de mata-lo pareceu-me uma forma deliciosa de fazer justiça. Ainda fraco, levantei a cabeça e fiquei de pe. O pensamento me revigorou
e me fez sentir melhor A saliva se fez doce. Havia, enfim, encontrado uma razão para continuar vivendo.##CAPITULO UM#1980: BEM-VINDO AO REINO#Era uma típica noite
de sábado, em que os barzinhos estavam repletos de gente jovem, entretidos por animadas conversas em suas mesinhas ao longo da calcada. Em meio a esse burburinho
de casais e amigos que ocupavam as ruas, eu caminhava sem rumo e com o semblante caído. Minha figura contrastava com aquelas pessoas que, indo e vindo, passavam
por mim exibindo uma invejável alegria. Tinha medo de estar dando o passo errado. Por alguns instantes pensei que talvez fosse melhor voltar para casa e fazer de
conta que aquela idéia nunca me ocorrera. Mas sabia que algo me faltava e, por uma estranha razão, tinha certeza de que naquela noite encontraria o que vinha buscando,
mas não sabia exatamente o que era.#Duas semanas antes, eu havia sintonizado um programa na Radio Metropolitana do Rio de Janeiro. O programa prendeu minha atenção
e a partir dali me manteve cativo todas as noites. Esperava com ansiedade ouvir o tema de abertura e, quando isso acontecia, eu já tinha colocado sobre o radinho
de pilha um copo cheio da água que beberia depois da "prece poderosa". Ainda hoje não estou bem certo do que me atraia naquela programação. Afinal de contas, tinha
apenas quinze anos, uma fase em que a maioria dos jovens não ocupa a mente com determinados problemas que afligem os adultos. Porem, eu era diferente. Estava sempre
preocupado com as dificuldades dos meus pais. Alem disso, eu era uma criança profundamente triste. Desde muito pequeno, escondia-me pelos cantos do quintal. Era
um obstinado que buscava indiscriminadamente a solidão. Em certas ocasiões, sem nenhuma razão aparente, passava horas calado e triste. Esse vazio acabou por impulsionar-me
ao meu destino Foi ele, o vazio, que me levou a sair de casa naquela noite rumo ao centro de São Gonçalo procurando o lugar onde, de acordo com o programa de radio,
"um milagre espera por você". O milagre esperava por mim no velho prédio do Cine Santa Maria, que durante a semana exibia filmes pornográficos. Aos sábados e domingos,
entretanto, tinha o seu cenário radicalmente mudado. A bilheteria fechava, a catraca era removida e os cartazes da Aldine Müller eram levados para o outro lado da
tela. O profano emprestava seus assentos ao sagrado. O sagrado era materializado por um cálice de azeite bento colocado no centro de uma mesa forrada com uma toalha
de renda branca, sobre a qual jazia uma Bíblia aberta em um salmo qualquer. As pernas tremulas e vacilantes conduziram-me aquele santuário improvisado, quase vazio.
As poucas senhoras sentadas contrastavam com o grande publico que, durante a semana, se deleitava ali com As taras sexuais de um cavalo. Enquanto procurava um lugar
para me sentar, o silencio que do- minava a sala fez com que, por alguns momentos, eu tivesse a impressão de ouvir hinos de louvar; hinos entoados por um exercito
de anjos invisíveis. Não demorou muito para que um jovem pastor começasse a palestra. Nervoso e ainda tremulo, não conseguia acompanhar a fala acelerada do pastor.
Por fim, ele ordenou que fechássemos os olhos para que fizesse uma oração. Eu não era religioso. Meus pais se diziam católicos, porem nunca iam a missa. Nós rezávamos
somente quando alguém caia doente em casa. Na rua das Mangueiras, onde eu morava, havia uma benzedeira pronta para curar todo tipo de moléstia: de sarampo a caxumba;
de espinhela caída a erisipela, tudo ela curava. Era para ela que corríamos sempre que necessitávamos de ajuda espiritual. Durante a oração, o jovem pastor pediu
a Deus que aliviasse a carga que trazíamos. Suplicava-lhe que perdoasse nossos pecados e nos desse a oportunidade de nascer de novo. Isso era tudo o que eu queria.
A idéia de um renascimento abalou-me ate os ossos. Queria ser uma outra pessoa. Se essa dadiva existia, estava determinado a alcança-la, custasse o que custasse.
Enquanto prosseguia em sua oração, o pastor colocou as mãos sobre a minha cabeça, e eu comecei a chorar. A principio eram lagrimas de angustia. Depois, tornaram-se
lagrimas de alivio e alegria. Sentia-me leve enquanto deixava extravasarem os sentimentos sem me importar se estava sendo observado pelas pessoas ao meu redor. Ao
mesmo tempo que chorava, sentia meu ser encher-se de um prazer imensurável. Um prazer que preenchia todo o vazio. Um prazer que me era introjetado ate que explodia
numa espécie de orgasmo espiritual, fazendo minha alma transbordar em gozo. O encontro com a religião fazia-me sorrir e chorar de uma só vez. E com a mesma intensidade.
Conheci, naquele momento, o fenômeno da conversão. Alguém me abraçou. E eu chorava mais e mais. Nesse momento o pastor colocou a mão na minha cabeça e, enquanto
as pessoas cantavam alto e batiam palmas, falou, quase sussurrando em meu ouvido, que meu nome era Exú Caveira e que eu tinha câncer. Depois me fez ir ajoelhado
ate a frente da tela que ocultava os posters da atriz Aldine Mulher. Uma vez na frente, fui sabatinado pelo homem de Deus: QUAL e O TEU NOME, SAFADO? - vociferou
no meu ouvido. Um silencio profundo invadiu o cinema. Todos esperavam uma resposta. Eu não sabia se o pastor perguntava meu nome verdadeiro ou aquele que ele havia
sussurrado no meu ouvido. Mário - respondi. MENTIROSO! - berrou o pastor. SATANÁS! O silencio voltou a predominar na sala: FALA TEU VERDADEIRO NOME. Exú Caveira?
- respondi, como a perguntar se era esse o nome que deveria falar. TA AMARRADO, CAPETA! EM NOME DE JESUS! - gritou o pastor, enquanto pisava na minha cabeça, forcando-a
para o chão. TA AMARRADO! QUEIMA! QUEIMA! - responderam, em coro, as excitadas velhinhas, ao testemunhar a autoridade de seu pastor sobre mim, o espirito imundo.
Ao final do culto, o jovem me deu um Novo Testamento e me falou que Deus me amava. Depois de conversarmos por alguns minutos, despedi-me, prometendo voltar. Prometi
e cumpri. No dia seguinte, fui um dos primeiros a chegar. Ao contrario da noite anterior, o cinema estava cheio naquela manha. Durante um culto acompanhado com música
e distribuição de rosas brancas, fizeram um convite para os que quisessem ser membros da Igreja. Não pensei duas vezes. Afinal, pela primeira vez na vida experimentava
paz. Estava no meio de pessoas que, apesar de não me conhecerem, me aceitavam como um membro de sua própria família. Eu queria ser um deles. Queria pertencer aquele
grupo que era tão poro, tão unido, tão desligado das coisas deste mundo e tão cheio de amor. Algumas coisas eu não entendia ainda, como a questão das altas ofertas
e os dízimos, por exemplo, mas não me importava com isso. Dinheiro não era importante Ensinaram-me que "o dinheiro e a raiz de todos os males". Não demorou muito
para que minha família se desse conta da mudança de meu comportamento. Em vez de andar triste pelos cantos, como fazia usualmente, agora eu cantava hinos e lia a
Bíblia. Meus pais, que a principio gostaram da mudança, logo mudaram de opinião, quando perceberam que eu estava indo longe demais: já não me interessava pelos estudos
e faltava as aulas para ir a igreja. Quando o Cine Santa Maria se transformou definitivamente em um templo da Igreja Universal do Reino de Deus, eu passei a frequentara
os cultos todos os dias. Muitas vezes nos quatro turnos. Meu pai chegou a me proibir de ir a igreja durante a semana, como uma maneira de me prender aos estudos.
Mas isso não funcionou. Eu precisava ir todos os dias. As brigas com meus pais por causa de meu fanatismo religioso começaram a ser constantes. Mas o pastor Luiz,
que naquela época ainda não tinha rompido com a Igreja Universal para se tornar um adventista do Sétimo Dia, alertou-me para as palavras de Cristo quando Ele disse
que, por causa do Evangelho, haveria distensões entre pais e filhos, e que os maiores inimigos da nossa fé seriam os de nossa própria casa. Um mês depois de ter
entrado para a Igreja, o pastor Luiz me convidou para ser obreiro. Pensei que isso talvez fosse me atrapalhar ainda mais nos estudos, mas eu achava que daria um
jeito de conciliar as duas coisas. Não deu certo. E entre a Igreja e o colégio, optei pelo conhecimento da graça. Meus pais continuaram, sem sucesso, tentando fazer
com que eu desistisse da Igreja Universal. Varias vezes, durante nossas discussões dizia-lhes que não deixaria de maneira alguma a Igreja em que Deus me havia curado
de câncer. E que me mataria se eles tentassem me impedir de ser obreiro. A ultima gota d’água veio quando abandonei o colégio de uma vez por todas. Aquele esquema
conciliatório entre aulas e cultos não funcionou, e, sem pensar duas vezes, abri mão da bolsa de estudos que tanto havia me esforçado para conseguir. O pastor, então,
me disse que a melhor solução seria eu sair de casa. Falou que eu poderia ficar morando na igreja. Afinal, eles estavam mesmo precisando de alguém para abrir e fechar
o templo, alem de um vigia para a noite. Aceitei o convite do pastor Luiz e, com apenas quinze anos de idade, resolvi abandonar a casa de meus pais e entrar de vez
para o Reino de Deus. Ao chegar em casa para apanhar as minhas roupas, encontrei minha mãe, que trabalhava no tanque - ela estava sempre no tanque. Não sabia como
contar que estava indo embora. Nunca pensei que um dia fosse lhe dizer isso. Dos três filhos, eu era o mais ligado a ela. Por que esta fazendo isso, meu filho? Que
mal te fizemos? Imbui minha alma de sentimentos nobres para tentar explicar tudo a ela, mas no fundo sabia que era um esforço inútil. Ela jamais entenderia. Então,
desviando meus olhos dos dela, disse-lhe que aquela era a primeira vez na vida que não me sentia triste. Que me sentia em paz comigo mesmo e com Deus. Eu queria
ficar na Igreja. Eu queria morar no templo. Filho, quem sou eu para disputar com Deus o seu coração disse-me ela. Lembro-me de todos os detalhes daquele dia, por
duas razoes: foi a primeira vez que vi minha mãe chorar; e foi a primeira vez que ela me disse que me amava. Enxugando a mão no avental molhado, ela me acompanhou
ate a porta. Tentou disfarçar o que sentia com o velho truque do cisco no olho, mas pude ver que chorava. Benção, mãe - disse com um no na garganta. Deus te abençoe
- respondeu ela. Carregando a sacola de roupas, caminhei em direção ao ponto de ônibus que ficava embaixo das mangueiras. Ao passar pelo nosso campinho de várzea,
meus amigos pararam a pelada e vieram se despedir de mim. Eles ouviram que eu estava indo embora. Quem vai ser o presidente? - perguntou Dilcinho, secretario- geral
do "Clube dos Batutinhas", que havíamos copiado do seriado americano exibido pela TV Educativa. Dilcinho, por certo, já estava pensando em assumir o meu lugar. E
quem vai ser o técnico? - perguntou Dude, também de olho na minha posição. Péssimo em futebol, eu me autoproclamara técnico do time da rua. Como cartola, protegia
minha falta de talento com a bola. Ainda tive tempo de distribuir meus cargos, figurinhas premiadas, uma replica do carro do Speedy Racer, selos e bolas de gude
antes de entrar no ônibus que me levaria a cidade. Quando a "baratinha" passou em frente ao portão de casa, de sua janela enlameada acenei para minha mãe, que se
debruçava na cerca. Não sei explicar por que ela me deixava ir. Eu era praticamente uma criança. Ela poderia ter me forcado a ficar. Poderia ter impedido, pois talvez
acontecesse comigo o mesmo que acontecera a ela quando tinha quase a mesma idade. A rapidez da "baratinha" ainda me permitiu vê-la respondendo com outro aceno. E,
por alguns instantes, ficamos acenando um para o outro ate que ela desapareceu em meio a poeira vermelha. Anos mais tarde, eu me daria conta de que a havia perdido
naquele dia. Perdido para sempre. Hoje em dia e inconcebível a idéia de uma mulher que faz o próprio parto dentro de um barraco de pau-a-pique, tendo como única
ajudante uma filha de dez anos que, a cada momento do agonizante processo, traz a beira da cama canecas com água quente e pedaços de pano, enquanto a mulher, tentando
ignorar a fumaça do fogão de lenha, galinhas e patos que correm em algazarra - e a própria dor- traz, literalmente, o filho ao mundo. Foi assim que eu nasci. Nesse
estado de pobreza passei toda a minha infância. Minha mãe era de Curvelo, cidadezinha do interior de Minas Gerais. Não se cansava de contar historias da infância
vivida entre arvores e riachos, mas nunca se aprofundava nos detalhes. Como, por exemplo: quem teriam sido seus pais? Tudo o que sabíamos era que, ainda adolescente,
tinha sido vendida para trabalhar na casa de uma madame no Rio de Janeiro e que desde então nunca mais vira a mãe e os Irmãos. As madames para as quais ela havia
trabalhado diziam que era a melhor lavadeira que conheciam. Ela recebia o comentário como elogio. De fato, o jeito como minha mãe tratava as roupas era algo próximo
a um ritual: depois de lavadas com sabão de coco, elas eram fervidas com anil e ficavam quarando ao sol durante um dia. Em seguida, engomava e passava peça por peça,
enquanto soprava as brasas do ferro. Algumas patroas levavam a roupa em minha casa. Outras, como dona Jurema, minha mãe atendia em domicilio. Dona Jurema viria a
ser a única amiga de minha mãe. Feliz era o dia que íamos a casa dela. Enquanto minha mãe lavava a roupa e conversava com a amiga, eu ficava brincando com os seus
netos no quintal, subindo nos pés de goiaba ou assistindo ao National Kid, no programa do Capitão Asa. No final da tarde, ela me oferecia café com bolo e sempre
antes de irmos embora me dava uma mão cheia de balas e bombons. Dona Jurema era uma senhora bondosa. Posso estar correndo o risco de cair na pieguice, mas eu adorava
mamãe. Ela era, para mim, uma espécie de santa. Uma Maria mãe de Deus ou coisa semelhante. Ela era tão pura aos meus olhos e eu sabia que era tudo que eu tinha.
Ficava com medo só de pensar que um dia ela pudesse morrer, deixando-me só. Não me imaginava vivendo sem ela. Chegávamos ao extremo de comer no mesmo prato. Cresci
prometendo a mim mesmo que ganharia muito dinheiro e tiraria minha mãe daquela miséria. Compraria para ela uma casa com laje e água encanada, uma televisão para
que pudesse acompanhar as novelas e, vingança das vinganças, pagaria alguém para lavar-lhe as roupas. Essa era, basicamente, a minha maior ambição. Não sei como
meus pais se conheceram e passaram a viver juntos. Eles nunca tocaram no assunto, e nos, os filhos, nunca nos interessamos em saber. Mas, qualquer que tenha sido
o motivo, certamente não foi amor. Eles eram completamente distantes um do outro. Dormiam separados, e minha mãe sempre se referia a meu pai com um "seu" antes do
nome. Não me lembro tê-los visto brigar, mas também nunca testemunhei um mínimo gesto de carinho ou afeição entre eles. E pensar que essas duas pessoas viveram juntas
por mais de quarenta anos. Meus pais faziam todo o sacrifício do mundo para nos dar uma vida, no conceito deles, decente. Eu sabia que eles nos davam muito mais
do que aquilo que haviam recebido de seus pais. Mas odiava aquela vida. Odiava aquele bairro. Era como se o meu mundo não fosse aquele. Como se o fato de ter nascido
ali tivesse sido um grande erro, sei lá de quem. e difícil imaginar que possa existir um outro lugar como Boa Vista. As ruas de barro vertiam poeira quando passava
um cavalo ou a "baratinha" - era assim que chamávamos o ônibus. A poeira ia se depositando por sobre a comida na mesa, os lençóis na cama e as roupas no varal. Nos
dias de chuva, as estradas se transformavam em um pântano. As pessoas que trabalhavam na cidade tinham de cobrir os sapatos com sacos plásticos e levar consigo uma
garrafa d’água, para que, uma vez no ônibus, pudessem lavar os pés. A água salobra que usávamos para beber e cozinhar vinha de um poço infestado de sapos, cavado
no fundo do quintal. Foram muitas promessas e muitos prefeitos ate chegar luz elétrica. Para que nos transformássemos de vez em trogloditas, só nos faltavam as vestimentas
de pele, um osso no cabelo e ter os Flintstones como vizinhos. Eu sabia que estudar e me formar era o único meio de sair daquele lugar. A única forma de poder ajudar
meus pais. Enquanto alguns garotos da rua eram bons de bola, eu devorava livros e nunca era reprovado na escola. Sempre na metade do segundo semestre já tinha nota
suficiente para passar. Mas também sabia que precisava mudar de escola se quisesse chegar a algum lugar. O grupo escolar Padre Manuel da Nóbrega era um colégio de
bairro que não me daria nenhuma base para chegar a faculdade, o meu objetivo. Em um certo 7 de setembro, fui a Niterói assistir a parada cívica escolar. O meu colégio,
que pertencia a outra jurisdição, não participava desses eventos. De qualquer forma, quem ali estaria interessado em ver o Padre Manuel desfilar? As escolas de Niterói
eram, se não totalmente burguesas, muito finas. Com um nível de educação satisfatório, essas escolas eram frequentadas pelos filhos da classe media da cidade. Nenhum
de nos, filhos da Boa Vista, sonhava ingressar numa daquelas instituições privadas. No desfile, a segunda escola que ocupou a avenida Marechal Floriano Peixoto chamou
minha atenção, pela correção e beleza de sua apresentação. A banda e os integrantes de todas as alas usavam um elegante uniforme branco e verde, com certeza as cores
da escola. Fiquei encantado com o que vi e acompanhei o desfile ate que ele se dissolvesse na frente do Colégio Plínio Leite, um dos mais caros da cidade. Funcionava
num imponente prédio localizado bem no centro de Niterói, foi a primeira coisa que notei. Aproximei-me da portaria e pedi ao segurança para dar uma olhadinha no
lado de dentro. o que vi me causou surpresa. O colégio tinha quadra de futebol de salão, um enorme ginásio, laboratórios modernos e um excelente nível de ensino.
Ali haviam estudado intelectuais, jornalistas e políticos. Era ali que eu queria estudar. Queria fazer parte daquele mundo, daquela realidade diferente da minha.
Voltei para casa e passei aquela tarde pensando numa maneira de ingressar naquele mundo. Por diversas vezes reli a brochura de matricula e cada vez estava mais convencido
de que aquele era meu lugar. O meu dilema era não saber de onde tiraria dinheiro para pagar a matricula e as mensalidades. Eram caras demais para as condições da
minha família. Não tive nem mesmo a coragem de tocar no assunto com meus pais. Cheguei a conclusão de que a única saída era uma bolsa de estudos. Com informações
adquiridas na brochura de matricula, enviei uma carta ao diretor do colégio. Pedi uma bolsa de estudos e prometi ser um dos melhores alunos se aquela oportunidade
me fosse concedida. Quatro meses se passaram depois do envio da carta. Aquela altura já não acreditava mais que receberia uma resposta. Aliviava-me o fato de não
ter falado com ninguém sobre o assunto. Não suportaria as chacotas. Numa tarde, eu tinha ido ao boteco comprar cerveja para meu pai. Ao voltar para casa, com passos
lentos e cansados devido ao calor insuportável e a poeira da rua, avistei o carteiro que se aproximava. O homem com uniforme amarelo feito de um material semelhante
a lona de circo também caminhava com passos lentos e cansados e, como eu, tentava se livrar do suor que, misturado a poeira, se transformava num lodo que escorria
pelo rosto, formando uma espécie de mascara de barro e fazendo arder os olhos. Raras vezes o carteiro passava por ali. As pessoas que moravam naquela rua não recebiam
nem mandavam cartas, não havia correspondência para sair, nem para chegar. Nem mesmo a conta de luz, que a prefeitura desistiu de mandar, já que ninguém pagava.
Recentemente, só me lembrava de o carteiro ter passado por ali por causa de minha correspondência com uma garota de Parati. Mas fazia quase um ano que eu não recebia
uma carta dela. Por isso, foi com muita ansiedade e já adivinhando o que poderia ser que corri em direção ao homem. Moço. e para mim, não e? Qual e o teu nome? -
perguntou, ofegante, enquanto se abanava com a minha carta. Ainda sem acreditar que alguém ali estava recebendo correspondência, o homem, depois de conferir o nome
e o endereço, me estendeu um envelope com o emblema da escola de Niterói. As batidas do meu coração eram tão fortes que pensei que o carteiro podia ouvi-las. Aquela
altura, meus irmãos já me rodeavam, querendo saber o que eu havia recebido. Extasiado, não conseguia explicar o que estava acontecendo. Tinha medo de abrir a carta.
Temia ser uma recusa educada. Algo como "recebi sua carta, mas infelizmente não posso ajuda-lo". Não era. A carta, assinada pelo próprio Dr. Plínio Leite, dizia
que eu ganhara uma bolsa de estudos que cobria o segundo grau técnico e os quatro anos de faculdade. Minha mãe me beijava e meu pai se incumbia de anunciar a vizinhança.
Tudo o que lembro ter sentido naquele momento foi uma imensa gratidão. Mas, por mais que eu tenha tentado, depois, nunca tive a oportunidade de agradecer-lhe pessoalmente.
Dois anos mais tarde, fui um dos escoteiros que carregaram a bandeira do colégio no funeral do Dr. Plínio. Meus irmãos eram muito mais velhos do que eu e por essa
razão tínhamos pouca afinidade. Cosme e eu éramos verdadeiramente distantes. Já Pingo - que ganhou o apelido por ser um pinguinho de gente quando nasceu -, era mais
chegada a mim. A única coisa de que ela não gostava era o fato de ter de me levar a tiracolo quando ia aos bailes, nos fins de semana. Era essa a condição exigida
por meu pai para permitir que ela fosse. Mas, em troca de doces e pipocas, eu nada contava a papai sobre os inúmeros namorados que ela arranjava numa só noite. Quer
dizer, não contava ate a próxima briga. O meu dia-a-dia, vivendo agora na Igreja Universal, era completamente diferente daquele que levava ate sair de casa. Levantava
as seis horas da manha. Começava por lavar os banheiros. Depois, limpava o piso e tirava o pó das dezenas de bancos que se enfileiravam uns atras dos outros no grande
salão do templo. Procedia a essa limpeza depois de cada uma das quatro reuniões diárias. Também fazia as vezes de segurança, tanto a noite como ao longo do dia.
Tudo isso alem de atuar como obreiro nas reuniões. Geralmente, eu fechava a igreja as 23 horas, encerrando assim uma jornada diária de dezessete horas de trabalho,
cumprida religiosamente de segunda a segunda. Entretanto, eu nada recebia por esse serviço, quer dizer, não recebia nada em dinheiro Meu pagamento era basicamente
a comida: café da manha, um PF no almoço e o jantar, que consistia normalmente em um sanduíche e uma sopa. Só não comia quando o pastor decretava jejum.#... pessoas
afirmam que quando ouvem o rádio sentem como se o pastor estivesse falando diretamente com elas. Na nossa programação comentamos, ao som do piano de Richard Clayderman
ou da flauta de Zamfir, os problemas que afligem a maioria dos humanos desemprego, vícios, doenças, problemas conjugais e financeiros. Depois de um debate no qual
discutíamos os efeitos desses problemas na vida das pessoas, apresentávamos a solução para tudo isso como uma única visita a um dos endereços da Igreja. Uma vez
que a pessoa ia a igreja, ela era orientada a fazer uma corrente de doze semanas. Corrente na qual ela viria a se tornar emocionalmente presa. Os que quebravam essa
corrente imediatamente passavam a ter visões e ouvir vozes. Como Hollywood, nos sabíamos explorar o medo infantil que as pessoas tem da figura do diabo.#Informado
do sucesso na Bahia, o bispo Macedo resolveu marcar uma concentração no maior estádio de Salvador. Ele havia acabado de lotar o Maracanã. E estava disposto a lotar
todos os estádios das grandes capitais. Dois meses antes começamos a trabalhar na promoção do que seria o maior de todos os nossos desafios: lotar o Fonte Nova.
Queríamos mostrar aos padres, pastores, pais e mães-de-santo da Bahia#que o reinado deles havia acabado. éramos nós quem dávamos as cartas agora. Também queríamos
mostrar aos pastores da própria Universal em outros estados que nos, da Bahia, éramos os melhores. Todos os pastores do interior ficaram incumbidos de alugar um
ônibus e levar o maior numero de pessoas possível. Vinhetas nas rádios e nas televisões, outdoors espalhados pelo estado prometiam curas e soluções. Durante as reuniões
na igreja, distribuíamos envelopes e fazíamos com que os fieis colocassem ali o que chamávamos de "oferta de sacrifício" (algo como o salário do mês) e um pedido
de oração, que o bispo levaria para Israel, a Terra Santa. No dia da tão propalada concentração, uma multidão já se aglomerava ao redor do estádio muito antes de
os portões serem abertos, as nove da manha. Quando, enfim, o #Woodstock religioso começou, milhares de pessoas, pisoteando velhinhas e crianças, travaram uma disputa
agressiva para obter um bom lugar para ouvir o bispo e receber dele os milagres, que era o que interessava aquela gente. #Naquela época em que o termo yupie estava
em voga, o bispo Macedo, portando Rolex, Ray-ban, Mont Blanc e a sempre presente Hermes, subiu no palanque que fora especialmente armado para ele no centro do gramado.
Não conseguia esconder sua alegria. O estádio da Fonte Nova estava completamente lotado. Repetia-se em Salvador o fenômeno do Maracanã, no Rio. Naquela tarde, depois
de recolher os envelopes com o "sacrifício" e com os pedidos de oração, que seriam levados para o monte das Oliveiras, em Jerusalém, o bispo pediu aos seus seguidores
baianos uma oferta especial para comprar uma emissora de radio em Salvador, assim como seus fiéis cariocas o haviam contemplado com a radio Copacabana. Será que
os cariocas tem mais fé que os baianos; - perguntou o bispo a multidão. NÃO! - a resposta retumbou como um trovão.#As ofertas vieram em forma de dinheiro e jóias.
Passamos três dias trancados em uma sala contando os sacos de dinheiro levantados no Fonte Nova. No final, o dinheiro foi depositado na conta da Igreja,#no Bradesco,
em Salvador. O ouro seria levado para o Rio de Janeiro e transformado em barras. Quanto aos pedidos de oração que seriam levados para Israel - bem, eles foram queimados
na praia da Boca do#Rio. Quando eu era um simples fiel, não imaginava o que se passava nos bastidores, depois que a cortina cai. Os atos de alguns pastores logo
me levaram a descobrir que a Igreja Universal nada mais era do#que uma empresa com fins lucrativos como qualquer outra na ciranda financeira A única diferença era
o produto vendido: sal que tira vicio, lencinhos molhados no "vinho curativo" - o conhecido Ki-Suco -, água da Embasa, que dizíamos ter vindo do Rio Jordão, azeite
Galo, que dávamos ao povo como legitimo óleo ungido proveniente de Jerusalém, e uma longa lista de outros produtos tão falsos quanto as gotas#de leite extraídos
dos seios da Virgem Maria, que eram vendidas na Europa, nos primeiros séculos, aos otários em busca de milagres. Como ser pastor era antes de tudo uma "vocação"
e jamais uma profissão, não tínhamos vinculo empregatício com a Igreja Universal. Nossos salários eram pagos em cash, isentos de qualquer taxa ou imposto. O valor
desses salários variavam: cada caso era um caso não leis do Reino.#Apesar de sermos estritamente proibidos de comentar nossos ganhos uns com os outros, sabíamos
da injustiça salarial. Pois enquanto dirigentes de igrejinhas de periferia ganhavam salários minguados e insuficientes para sustentar a família, os pastores notáveis
trocavam de carro a cada ano e passavam fins de semana em resorts acompanhados de suas belas mulheres trajando Chanel e portando bolsas Louis Vuitton.#IV#A Liberdade
era o maior bairro de Salvador. Lugar cheio de gente, vielas e ladeiras com coloridas favelas encrostadas em sua pedra. Berço do internacional Ile-Aye. Ali já existia
um templo da Universal#que funcionava ha quase um ano, mas que não havia ainda alcançado as metas desejadas. Quando ganhei a liderança isolada da Igreja naquele
bairro sabia que na verdade estava ganhando um abacaxi para descascar. Durante o pouco tempo de existência a Igreja, ela tinha sido sacudida por dois grandes escândalos.
O primeiro ficou por conta do pastor que a inaugurou, Rodrigues da Encarnação. Achando que seria melhor negócio abrir sua própria Igreja, o pastor Encarnação saiu,
arrastando consigo metade dos membros da Liberdade. O pastor Santos, que lhe sucedeu, alem de sofrer de um sério problema de alcoolismo, se envolveu com algumas
das mulheres que frequentavam a igreja e teve de ser transferido, numa tentativa de abalar os comentários que surgiram entre os obreiros e já estavam chegando ao
povo. Ao colocar-me na Liberdade para arrumar a casa, o pastor Paulo estava me dando um voto de confiança. E eu aceitei o desafio. No inicio surgiram protestos,
no interior da Igreja, contra minha posição. Alguns membros achavam que, por eu ter somente dezessete anos, era muito inexperiente para o cargo. A meu favor, eu
tinha a opinião do líder e das pessoas que já conheciam meu trabalho.#Apresentando um programa diário com duração de duas horas na radio Bahia, emissora recém-comprada
pela Igreja Universal, em pouco tempo elevei a Liberdade à condição de terceira igreja do estado. Atras#apenas da sede e do templo de Feira de Santana, do pastor
Teixeira. Passei então a ser o centro das atenções dos outros pastores, que me pediam uma ponta no programa e disputavam espaço na minha agenda para uma visita a
suas igrejas. O simples anuncio de que eu estaria visitando a igreja tal já era suficiente para arrastar uma grande multidão aquele lugar. Talvez o que me destacasse
fosse que, ao contrario da maioria dos pastores, eu ainda me mantinha fiel aos princípios religiosos, que me acompanhavam desde que tinha tomado a decisão de ser
um pregador do Evangelho. Esse meu sucesso me garantiu um lugar no fechado circulo dos notáveis, o primeiro escalão da Igreja. Como eles, passei a ter ganhos extraordinários.
Alem de um inacreditável salário, recebia também 10% da arrecadação mensal da Liberdade, o que, para um menino de dezessete anos, era muito dinheiro.#Ganhando muito
mais do que precisava, eu me dava ao luxo de todo fim de semana entrar num taxi aéreo com destino as praias de Ilhéus e Porto Seguro. Nunca tive problemas de consciência
por isso. Afinal, aquilo não era dinheiro roubado. Era o meu salário. Eu não tinha culpa se a maioria dos outros pastores não eram tão bem sucedidos como eu. A única
coisa que me causava um certo mal-estar era o fato de que#todo aquele dinheiro gasto futilmente vinha de pessoas que mal tinham o que comer e iam a pé para a igreja,
economizando o dinheiro do ônibus para oferta-lo durante as reuniões. Contudo, o comportamento dos lideres me absolvia de qualquer sentimento de culpa. Entre os
pastores comentava-se a boca pequena#que as famosas "peregrinações da fé a Terra Santa" não passavam de excursões turísticas ao Oriente Médio, com direito a cassinos,
noitadas em Tel Aviv e divertidos passeios de camelo às pirâmides egípcias. Alem disso, os lideres estavam constantemente em viagens "de interesse da Igreja" a cidades
européias com forte apelo turístico, como Paris, Roma e Londres.#Por que, então, eu me sentiria culpado por passar fins de semana em Porto Seguro? A falta de amigos
era uma coisa que me afligia durante a adolescência na Igreja Universal. A diferença de idade entre mim e os outros pastores era uma barreira que me impedia de ter
comunhão com eles. A maioria deles era composta de pais de família e mesmo os solteiros eram muito mais velhos que eu. As vezes sentia falta do convívio com jovens
de minha própria idade para ir ao cinema, passear e conversar sobre coisas concernentes aquela fase. A Igreja Universal me prejudicou no sentido de que, me tirando
da convivência de meus pais, não assumiu o lugar deles na minha vida. Durante a adolescência, uma fase em que o homem edifica a base do seu caráter, eu fui deixado
só, entregue as minhas duvidas, sem nenhum esclarecimento ou orientação. #Uma das minhas funções como pastor era fazer as vezes de psicólogo. Passava as tardes atendendo
as pessoas naquilo que chamávamos de Consultório Espiritual. Ficava horas atras de uma mesa aconselhando os fieis na solução dos seus problemas pessoais. Para mim
além de estressante, isso era embaraçoso. Sem nenhuma idéia do que seria uma relação sexual, eu me via aconselhando senhoras que me perguntavam o que fazer quando
o marido queria ir alem do sexo convencional. Outras funções que eu detestava eram fazer enterro e visitar pessoas a beira da morte em UTIs. Em uma ocasião, visitando
um rapaz que havia sido severamente esfaqueado, simplesmente desmaiei ao ver o sangue que jorrava de sua garganta dilacerada. Uma outra vez, vez fui levado a uma
roça em Cachoeira, no interior da Bahia, para orar por um homem que sofria de uma doença rara que comia a sua carne. Ao chegar lá, encontrei aquela massa de carne
viva posta sobre folhas - terrível mau cheiro. Em outra ocasião visitei uma moça retardada que tinha sido estuprada no sanatório em que recebia tratamento. O estuprador,
certamente um dos empregados do sanatório, deixou a menina em tal estado que vários dias depois da visita eu ainda tinha dificuldades de comer e dormir.#Acredito
que todas essas cenas explicitas de mundo cão vividas na adolescência influíram na minha personalidade, fazendo com que eu me tornasse uma pessoa vazia e deprimida.
A questão do sexo era para mim um total mistério, alem de tabu. Sem nenhuma orientação dos meus superiores ou de quem quer que fosse, tudo o que eu sabia do assunto
havia aprendido nas páginas da Bíblia. Numa ocasião, ejaculei enquanto dormia e, quando acordei molhado, achei que tinha cometido o mais grave dos pecados contra
Deus, o que me lançou numa serie de jejuns e varias horas de joelhos implorando o divino perdão. Nesta mesma época um pastor veio para ser treinado por mim. O meu
bom desempenho a frente da igreja da Liberdade fizera com que ela se tornasse um dos pontos de treinamento de novos pastores. Por minhas mãos passaram, entre outros,
a missionaria Lindanil, que veio a ser a primeira pastora do Nordeste, e Alberto Peçanha, que começou o trabalho da Universal na Espanha e na Argentina. Sendo o
pastor que eu deveria treinar (por respeito a sua pessoa e família prefiro ocultar seu nome) uma pessoa sorridente e falante, logo ganhou minha amizade e confiança.
O fato de ele ser quinze anos mais velho que eu tornava-o mais experiente. Isso fez com que eu confiasse a ele o meu segredo. Ele então me liberou daquelas neuras.
Aprendi#que amanhecer molhado era comum em um jovem sem vida sexual. Ele certamente me ensinou muitas coisas.##Continuamos amigos mesmo depois que seu treinamento
terminou. Ele foi transferido para uma igreja no subúrbio de Salvador, mas pelo menos duas vezes por semana nos encontrávamos para ler a Bíblia juntos ou sair para
um sorvete. Nossa amizade era uma coisa inédita entre os pastores, pois eles normalmente não tinham comunhão. Desde meus primeiros momentos na cúpula da Universal
pode perceber o clima de competição reinante entre os pastores. Todos queriam destaque e consagração. éramos todos engajados numa verdadeira guerra santa: espionando
uns aos outros, copiando idéias, dedurando, fazendo lobby. Era a lei da selva. Esses eram os mesmos indivíduos que ocupavam os microfones e púlpitos pregando irmandade
e amor entre os homens.#A hipocrisia era parte do nosso trabalho. Entre mim e aquele pastor existia uma verdadeira amizade. Eu confiava nele e ele em mim. Numa tarde
estávamos conversando enquanto tomávamos um sorvete e eu lhe disse que estava gostando de uma moça que era obreira de minha igreja. Percebi que ele mudou imediatamente
de comportamento, passando a ficar inquieto e atrapalhado com o sorvete na mão. Em nenhum momento me passou pela cabeça que o motivo de sua visível perturbação era
o fato de eu estar querendo ter uma namorada.#No dia seguinte ele me procurou e disse estar apaixonado por mim. Eu tive uma crise de riso. Ele era um cara brincalhão
e naturalmente engraçado, do tipo Jerry Lewis. Teria sido um ótimo comediante se não tivesse optado pelo pastorado. Mas naquele momento ele não estava brincando
e eu parei de rir quando percebi isso. Você e homossexual? - perguntei. Jurou que não era e disse não saber o que estava acontecendo com ele. Eu o aconselhei a conversar
com o pastor Paulo, em busca de ajuda, e ameacei eu mesmo contar se ele não o fizesse. Na verdade, tanto ele quanto eu sabíamos que se o líder viesse a ter conhecimento
daquilo ele seria provavelmente expulso da Igreja. Mesmo porque naquela época ele era um pastor sem nenhuma expressão, o que o tornava facilmente removível. Mas,
usando o bom senso, decidimos então que deveríamos manter distancia até que ele superasse aquela fase confusa. Eu só não entendia porque aquilo havia mexido tanto
comigo. Passei varias noites depois daquela conversa pensando no assunto. Aquilo serviu para aumentar todas as minhas duvidas em relação a sexualidade. Não vi meu
amigo nas semanas que se seguiram. Nem mesmo nas reuniões de pastores que eram realizadas nas tardes de segunda-feira. Ate que um dia recebi um bilhete dele: "Estou
indo passar o fim de semana em Recife. Se você quiser vir comigo, me encontre hoje a noite no aeroporto." O bilhete com as passagens tinha sido enviado por ele por
intermédio de um obreiro. O fato de estar se arriscando daquele jeito foi uma prova de que realmente ele sentia alguma coisa por mim.#Ao voltar daquela viagem ao
Recife eu sabia que minha vida não seria mais a mesma. Eu sempre havia sido sincero no teor da minha pregação. Pregava aquilo que vivia e esse era o segredo da minha
popularidade. Leituras diárias da Bíblia e vigílias de orações eram para mim tão essenciais quanto comer e beber. Eu amava a Deus de todo o meu coração e seria capaz
de morrer pela causa do Evangelho. Procurava levar uma vida pura, respeitando o meu corpo e a Igreja. Convivia com constantes escândalos de pastores adulterando
e roubando a Igreja, mas eu sempre procurava me esquivar de mulheres e dinheiro, as principais razoes da queda de um pastor. No entanto, eu havia perdido numa noite
todo aquele sentido de pureza que havia guardado intacto dentro de mim. Havia pecado contra Deus e contra mim mesmo. Havia tido minha primeira relação sexual, com
um homem, também pastor, da própria Igreja Universal do Reino de Deus. #Pensei em largar tudo, pois já não me sentia mais digno de continuar pregando a palavra de
Deus A condenação de Levíticos martelava diuturnamente a minha mente: "maldito e o homem que se deita com outro homem". Uma terrível angustia tomou conta de mim.
Sufoquei todo aquele sentimento e tentei seguir adiante sem pensar no que havia acontecido. Como se isso fosse possível. Não consegui conviver com aquele#sentimento
de culpa e pecado por muito tempo. Mesmo pensando que seria expulso da Igreja, procurei o pastor Gonçalves, que era o novo líder do estado, e lhe contei tudo o que
havia se passado entre mim e o outro pastor. Ele me perguntou se mais alguém sabia disso. Com a minha resposta negativa, me orientou a esquecer o ocorrido e não
fazer "uma tempestade num copo d’água". #Por algum tempo eu vinha sendo pressionado pelos lideres para casar Achavam que comandando uma igreja do porte da Liberdade,
eu precisava de uma esposa, que alem de me ajudar na organização de grupos de senhoras e crianças me daria um ar de responsabilidade, fazendo me parecer mais velho
do que meus dezoitos anos. A escolhida foi uma das mais dedicadas obreiras da Igreja. Uma moça bonita, inteligente e profundamente crista. Marcamos a data da cerimônia
e convidamos o bispo Roberto Augusto para celebra-la. A rua General Savaget estava intransitável naquela tarde. Centenas de pessoas, inclusive do interior do estado,
haviam comparecido a cerimônia religiosa, que seria celebrada pelo bispo. Naquela igreja#lotada, decorada com uma variedade de flores brancas, fizeram-se ouvir as
primeiras notas que saiam do órgão acompanhando um coral que havia sido contratado exclusivamente para a ocasião. Ali na frente,#sem ainda ter certeza do que estava
fazendo, eu me preparava para receber a noiva que caminhava em minha direção com passos lentos, trazida pelo braço do pai. Enquanto isso, sua mãe, ao meu lado, enxugava
as lagrimas que teimavam em lhe borrar a maquilagem. O bispo começou o seu sermão nupcial, enquanto na minha cabeça os pensamentos movimentavam-se como um furacão.
Ele pregava a fidelidade como receita para uma união feliz e eterna. Estavam ali todos os pastores, inclusive o meu amigo. Eu não estava casando por amor. Casava
somente para provar a mim mesmo que era homem. Num predeterminado momento do ritual, fomos instruídos a olhar um ao outro nos olhos e repetir as palavras do livro
de Rute. Na frente#do altar, sendo alvo da atenção de todas aquelas pessoas, olhando nos olhos de Graça, pela primeira vez eu percebi o quanto ela me amava, e o
quanto esperava o mesmo de mim. "Aonde você for, irei eu", começamos o juramento "...onde dormir, ali dormirei também. O seu povo será o meu povo e o seu Deus,#meu
Deus". A igreja emocionada, em completo silencio, nos olhava naquele momento de juras de amor eterno: "...e que não seja outra coisa alem da morte a me separar de
ti", concluímos.
#CAPITULO TRÊS##SAMPA#I#A primeira coisa que senti quando soube que o pastor Carlos Alberto Rodrigues seria o nosso líder na Bahia foi uma explicável sensação de
pavor. Afinal de contas, todos nos já tínhamos ouvido falar da sua fama de durão no trato com pastores e obreiros. O pastor Rodrigues era a figura mais popular da
Igreja Universal depois do Bispo, a quem ele se dirigiria tratando simplesmente por "Edir". Ele era o único que fugia da linha vaquinha de presépio seguida por todos
os pastores. O único que ousava levantar a voz quando discordava de alguma decisão tomada pelo bispo. A amizade entre eles era mais velha que a própria Igreja Universal.
Ela vinha dos tempos em que os dois faziam parte das Igrejas Casa da Benção e Nova Vida. Naquela época, Carlos Alberto Rodrigues era um obreiro adolescente e o recém-convertido
Edir Macedo de Bezerra apenas um auxiliar de escritório da LOTERJ. Sem ter ainda o sonho messiânico e napoleônico de que no futuro bibliotecas inteiras e evangelhos
seriam escritos sobre a sua pessoa.#Sem o apoio dos lideres de suas igrejas aos seus métodos revolucionários de atrair fieis, como distribuição de sal milagroso,
o então evangelista Macedo se juntou a um grupo de amigos evangélicos e#fundou a sua própria Igreja. Alem de Rodrigues, fazia parte desse grupo o missionário R.
R. Soares (cunhado de Macedo, que mais tarde rompeu com ele, fundando a Igreja da Graça), o reverendo De Paula#(que também brigou com Macedo e saiu), o pastor Joacir
(também saiu), o pastor Benedito (saiu), e o contador Naylton Nery (esse, quem diria, acabou no Irajá). Hoje em dia esse pastores devem estar tão#arrependidos quanto
aquele quinto Beatle.##Com o crescimento imprevisível do bolo, e com cada um querendo a melhor fatia, começou uma luta interna pelo poder que terminou com a dissolução
do grupo, o que deu a Macedo a liderança total daquilo que viria a ser um milionário aglomerado de empresas que, alem da fé, atuaria em ramos tão diversos entre
si quanto redes de comunicação e madeireiras, construtora e banco. Alem da Universal Produções, uma holding que administra uma gráfica, uma editora, um jornal e
uma gravadora. Rodrigues era o único remanescente daquele grupo de 1977 que continuava com o bispo. Se bem que muita gente achava que essa sua#fidelidade ao rei
era semelhante aquela de primeiro-ministro de desenho animado. Talvez porque ele nunca se preocupasse em esconder sua gana pelo trono. Com um visual que lembrava
John Lennon, um pigarro eterno na garganta e sempre procurando ajeitar os óculos que teimavam em escorregar pelo nariz, era conhecido como o "pastor das multidões".
Seu programa de radio, de apelo populista, assemelhava-se mais ao Show do Paulo Lopes do que a uma programação evangélica com o propósito de pregar a Bíblia. Seu
programa era sintonizado principalmente pelo ouvinte típico de AM: "As senhoras donas de casa e as minhas amigas empregadas domesticas". O seu Bom dia, vida era
líder no horário. Em um espaço de três horas ele comentava as novelas da Globo, dava o horóscopo do dia, respondia carrinhas assinadas por pseudônimos#como "coração
abandonado de Vila Valqueire" ou "desesperada de Guadalupe" e criticava a prefeitura pelo buraco na rua tal. Mas o ponto alto do programa era o momento da distribuição
de quilos de carne e feijão. A sua igreja no bairro carioca de São Cristóvão era um verdadeiro sucesso. Diferente de outros estados como Sergipe, Rio Grande do Sul
ou Goiás, onde nós tínhamos um numero pequeno de templos e seguidores, a Bahia era um porto seguro para a Universal. Houve ali um tempo em que toda igreja que se
plantava dava Mas o pastor Gonçalves, como todo vice que se preza, assumiu o poder e fez uma serie de trapalhadas durante a sua gestão, o que veio prejudicar a Igreja
em todo o estado.#Logo que recebeu a liderança do estado das mãos do experiente pastor Paulo, Gonçalves começou a lidar com problemas graves, como prisões de pastores
por envolvimento com drogas (foi o caso do pastor Paulo César), adultérios e rebeliões de pastores que, em massa, abandonavam a Universal para abrir seus próprios
templos. Afinal de contas, templo é dinheiro.##Havia também aqueles cujo nível de vida era bem superior ao que seus salários poderiam proporcionar. Estava claro
como azeite santo que desviavam dinheiro da Igreja para as suas contas pessoais. O bispo, então, decidiu enviar Rodrigues, numa tentativa de resgatar a Universal
baiana da desmoralização e evitar a perda dos poucos fieis que teimavam em continuar na Igreja Gonçalves, por sua vez, foi transferido para a humilhante posição
de pastor auxiliar da matriz, na Abolição. Mas, vingança e um prato que se come frio. Anos mais tarde, ele deu a volta por cima e se tornou o líder nacional, enquanto
o bispo se transferia com a família para Nova York, na ilusão de que os americanos comprariam o seu produto.##II#As primeiras reuniões de pastores que Rodrigues
realizou foram basicamente uma enxurrada de ameaças e baixarias. A mensagem foi curta e grossa: o pastor que não atingisse a meta de oferta que ele havia estipulado
levaria um chute no traseiro (prefiro usar esta palavra). Sabendo da nossa origem humilde, ele prometeu fazer cada um de nos voltar a antiga vida dura de pedreiros,
garis e padeiros caso não#levantássemos o dinheiro que ele queria. Depois que mordia, assoprava. Chamava na frente uns matutões, pastores de cidadezinhas como Xique-Xique
e Alagoinhas, e dava ao sujeito um vale para a extração#do dente podre ou presenteava o infeliz com um terno de tergal lilás. Fico imaginando se e isso o que o setor
empresarial quer dizer quando fala de "prêmio de incentivo". Rodrigues tinha de positivo o fato de não ostentar a tradicional mascara franciscana com a qual os lideres
freqüentemente exercitavam sua#demagogia. Era evidente que a razão maior de sua transferencia para Salvador fora a necessidade que a Igreja tinha de fazer mais dinheiro
naquele ano de 1985. Alem de ter ainda as ultimas parcelas da radio#Bahia para quitar, o bispo estava comprando quase todos os imóveis em que a Igreja operava, incluindo
os que ficavam em áreas nobres como a Barra, em Salvador, Copacabana e Ipanema, no Rio e Vila Mariana e#Santo Amaro, em São Paulo. Alem disso, ele já havia iniciado
negociações para a compra de uma "emissora de TV para Jesus".#Como a Bahia era o segundo maior estado gerador de ofertas e Rodrigues um expert em lidar com o povo,
o casamento dos dois foi uma feliz c rentável idéia. Na sua gestão, o dizimo, secularmente 10%, passou para 30%. Ele criou também o "Pacto da Comunidade", um carnê
de doze prestações que as pessoas pagavam mensalmente. Muito parecido com o Baú da Felicidade, com a desvantagem de que, caso os milagres não acontecessem, o fiel
não teria direito a eletrodomésticos nas lojas Tamakavi. Sob a nova direção, a Igreja Universal do Reino de Deus da Bahia voltou a ser o pátio dos milagres da época
de Paulo Roberto. Com o programa de rádio mais ouvido de Salvador entre oito e onze horas da manha, Rodrigues arrebanhava diariamente centenas de pessoas para os
cultos que realizávamos. Na tentativa de se fazer passar por um "apresentador polemico", ele batia boca, ao vivo, com os seguidores de mãe Menininha do Gantois e
do cardeal dom Avelar Brandão Vilela. O ano de 1982 marcou também o período em que a Igreja começou a se politizar. Alegando querer salvar o Rio de Janeiro do "comunista"
Leonel Brizola e das "mazelas do pedetismo", o bispo apoiou abertamente a candidatura da professora Sandra Cavalcanti para o governo do estado. Isso soou como uma
espécie de, digamos, quebra de promessa de campanha, pois a pregação de Macedo ate o início dos anos 80 era a de que a igreja nunca se envolvesse diretamente com
política, que para ele era "uma coisa do diabo". Mudou o diabo ou mudamos nos? Foi, porém, em 1986 que vendemos de vez a alma para Satã. Naquele ano, começamos a
apoiar candidatos em vários estados do país e, no Rio, pensava-se abertamente na possibilidade de lançar a própria mulher do bispo Macedo, ou um de seus irmãos,
Eraldo ou Edna, como candidatos da Igreja. Já não queriam apenas intermediários. No final, decidiram que o bispo Roberto Augusto seria candidato a deputado federal
e Eraldo Macedo a deputado estadual. Poucos anos depois, já eleito, o bispo-deputado brigaria com Edir Macedo e abandonaria a Igreja Universal. Rodrigues, vendo
a sua intenção de ser deputado federal abortada pelo bispo, teve de se conformar em ser apenas o coordenador político da Igreja. E nesta função ele se saiu muito
bem. Alem de eleger um bom numero de vereadores e deputados, elegeu também o prefeito Mário Kertz, que, sendo desafeto de Antônio Carlos Magalhães, jamais teria
chegado a prefeitura de Salvador sem o apoio da Igreja.#O prestigio político de Rodrigues estava tão alto que o maior problema de Enir, sua mulher e secretária particular,
era conseguir espaço na agenda para o grande numero de parlamentares em busca de audiência. Ele chegou ao requinte de ser convidado para a posse do governador Waldir
Pires, no Palácio de Ondina.#O que o governador eleito não sabia era que Rodrigues, em troca de verbas para sua recém criada "fundação", jogava nos dois times, trabalhando
também, por baixo dos panos, para a eleição de seu adversário, Josaphat Marinho, candidato do PFL, partido dos neocoronessauros do Nordeste. Política deve ser coisa
do diabo! Enquanto se tornava uma figura importante na política baiana e era endeusado pelo povo, para os seus pastores Rodrigues era cada vez mais um constante
pesadelo. Muitos não concordavam com seus#métodos, mas, por amor a seus empregos, não tinham coragem de se manifestar. Para mim, não existia dia pior do que as segundas-feiras,
dia das reuniões de pastores. Durante esses encontros, nos éramos psicologicamente estuprados pelo cinismo e pelo sarcasmo do pastor Rodrigues. Toda semana ele mandava
pastores "improdutivos" embora. Mas, para não passar aquela imagem de a-gente-so-pensa-em-dinheiro, ele#lançou mão de um plano maquiavélico: durante as reuniões,
lia cartas anônimas de veracidade duvidosa, em que alguém relatava a ma conduta daquele pastor que Rodrigues já pretendia mandar embora. Depois de lidas as cartas,
era feita, na base do "levante a mão", uma eleição que decidia a sorte do pobre coitado.#Tínhamos então nas mãos, literalmente, um dilema: se levantássemos a mão
pedindo a degola do pastor, estaríamos, baseados em denuncias de uma carta sem assinatura, traindo um amigo e irmão de muitos anos, com uma família para sustentar
e que, como todos nos ali, um dia teve a boa intenção em tempo integral.#...para servir a Igreja... Por outro lado, se não o fizéssemos estaríamos comprando briga
com Rodrigues, que já havia decidido pela exclusão daquele pastor mas cruelmente transferia para nossas mãos a tarefa de consuma-la. Covardemente, levantamos a mão
pela saída. Cada pessoa tem uma razão especial para odiar as segundas-feiras. A minha era a agonia da expectativa de saber quem seria o sacrificado do dia.#Existia
entre mim e Rodrigues uma relação de amor e ódio que aos poucos foi consumindo minha fé e credibilidade na Igreja. Eu era um dos mais populares entre os pastores
da Bahia, e o segredo do meu#sucesso era a formula que havia copiado do próprio Rodrigues, que eu ia conhecia do Rio de Janeiro. Eu o imitava na maneira de dirigir
os cultos, apresentar os programas de radio e no falar aos fieis. Usando sempre a linguagem do "zé povinho" (esse e o apelido que o bispo deu a camada pobre que
freqüentava a Igreja). O pastor Rodrigues nunca aceitou competiç

 

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