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O ALFABETO BRAILLE

Publicado por: vander.christian
Data: 12/09/2009
Hora: 20:03:18
Página: biblioteca_ler
Na categoria: x
Leituras: 776

 




Conforme eu esperava, Paulo trouxe uma das duas malas eu levara na viagem. O estado da mala não era muito ruim. O mesmo não podia dizer das roupas – também não era nenhuma novidade – se a policia ligasse dizendo que não foi possível recuperar nada das minhas coisas, eu não me surpreenderia.
As poucas coisas que restaram de Fabiano, foi devolvido a sua família pelas próprias mãos de Karina.
Dias depois, quando me encontrei com ela, fizemos um breve comentário sobre o ocorrido e fui poupado de dizer que não queria mais falar do acidente por uma grande novidade: Karina conseguira comprar uma máquina de Braille.
-Que bom! – falei sorrindo.
-E a Michele me deu uma reglete que ela não estava mais usando – acrescentou ela – agora eu não preciso usar mais a reglete do Leonardo!
Segundo Karina, Leonardo havia passado uma atividade e ela estava tentando fazer.
-Pode fazer – disse eu – não quero atrapalhar.
Fiquei observando ela escrever com o punção na reglete. Ela tinha que escrever um poema de Manoel Bandeira e depois ler. Até onde eu estava sabendo, Karina não estava conseguindo ler com tanta facilidade como aprendera as posições dos pontos. Analisando uma folha, cheguei a conclusão que não era nada fácil.
-Tem certeza de que vai conseguir ler para o Leonardo?- perguntei devolvendo a folha ao seu lugar.
-Vou ter que tentar, não é? Tanto no instituto como nas aulas com o Leonardo estão exigindo que eu treine a leitura.
-Você tem muitas dificuldades?
-Tenho. Não consegui melhorar nada ainda. Mas vem aqui, vou te dar o alfabeto Braille pra você.
-Pra quê?
-Você tem que aprender, o Leonardo falou que quando ele estudava dois amigos o ajudavam, inclusive escrevendo o alfabeto...
-A letra “a” é tecla de numero “1”, o “b” as teclas “1” e “2”...
Depois que ela terminou o alfabeto eu perguntei:
-E como eu vou saber aí na máquina aonde são os números?
-Fácil esta vendo as teclas?
-Sim.
-Essa tecla aqui é para o espaço – e apontou uma tecla maior que as outras localizadas no meio do teclado. – Você começa a contar do meio para a ponta, primeiro do lado esquerdo.
-Então a tecla do espaço funciona como uma divisória? – perguntei.
-É aí você conta do meio para a ponta: um, dois, três... do lado direito a mesma a coisa, do meio para a ponta: quatro, cinco e seis... entendeu?
-Sim.
Abrindo um sorriso ela falou:
-Escreve o meu nome então.
Um pouco nervos, é verdade, posicionei a máquina na minha frente e com cautela digitei o “k” (1 e 2), o “a” (1), o “r” (1, 2, 3 e 5), o “i” (2 e 4), o “n” (1, 3, 4 e 5) e novamente o “a”.
-Acho que esta certo – disse eu meio confuso.
-Me deixa ver – dizendo isso Karina passou a ponta dos dedos na folha. – Esta certo, mas o “K” não esta como letra maiúscula.
-E como é a letra maiúscula em Braille? – falei na defensiva.
-Teclas quatro e seis, depois você digita o “k”.
-Ah você já sabe bastantes coisas, parabéns!
-Imagina tenho muito a aprender. Você sabia que o Braille foi usado durante a guerra?
-Durante a guerra? Não, não sabia.
-O Leonardo contou que a origem do Braille é bem antiga.
Karina fez uma ligeira pausa na qual cruzou as pernas e se ajeitou na poltrona. Em seguida continuou:
-Braille é um sobrenome de um francês, chamado Luis Braille. Segundo o Leonardo, Luis Braille i ficou cego aos três anos de cidade; depois de sofrer um acidente na oficina de seu pai. Com vinte anos, Louis começou a se empenhar em desenvolver uma forma mais simples de escrita e leitura para as pessoas cegas. Nos seus estudos, ele usou como base o sistema de escrita noturna, criado pelo capitão, acho da artilharia francesa.
-E era muito diferente do Braille?- perguntei interessado.
-Bem diferente. Pelo que eu entendi, era como se fosse um tabuleiro com 36 quadrados; não me lembro se esse número ou não; sei que cada quadrado estava relacionado com um som. Cada som era representado no tabuleiro por um plano paralelo de pontos. Aí, eu acho que os soldados se comunicavam através dos sons; com o fim da guerra, o capitão apresentou esse sistema a uma escola, para ser utilizado pelos alunos cegos, mas como disse o Leonardo, o sistema de leitura tátil vem desde o século XIV.
-Nosso... o Leonardo é bem inteligente – comentei pensativamente.
-Ele fez essa pesquisa na internet – explicou Karina juntando as folhas que estavam esparramadas sobre a poltrona. – Mas ele tinha mais ou menos uma idéia de como surgiu o Braille.
-Só isso que o Leonardo te falou aconteceu lá na França, e aqui no Brasil?
-Eu não lembro direito o ano que o Braille chegou aqui no Brasil, sei que faz muito tempo.
-Legal saber essas coisas – disse me levantando.
-O que você pedir para o Leonardo pesquisar na internet ele acha – falou Karina depositando a máquina na poltrona.
-A irmã dele pesquisou na internet, você quer dizer né? – corrigi-a pegando o retrato da família que estava sobre a mesinha de centro da sala.
-Não, o Leonardo mesmo pesquisou.
-Como?
-Tem um programa instalado no computador dele que lê tudo que aparece na tela.
-Nossa, ele é bem equipado.
-Sim, o programa é desenvolvido exatamente para pessoas cegas – Karina se levantou e com a bengala na mão me convidou para ir a cozinha comer um lanche.




Dois dias depois eu encontrei o Flavio em Jundiaí. Conversamos um pouco, ele me explicou que o Braille no Brasil, foi introduzido no ano de 1850 e quatro anos depois o sistema passou a ser ensinado regularmente. Fiquei em dúvida entre o Flavio e o Leonardo qual dos dois era mais inteligente.
No dia seguinte Karina me ligou dizendo que no sábado iria a Perus e que contava com a minha companhia. Com os problemas do trabalho e com os resultados da causa da queda do avião eu me esqueci que havia prometido acompanha-la naquela viajem. Não sei por que, mas eu estava meio cismado com aquela idéia de ir à casa que Karina vivera com Fabiano.
Mas como promessa é dívida, no sábado, às dez horas, eu e Karina embarcamos no ônibus intermunicipal com destino a Perus. Mesmo depois de tantos dias que Karina andara de ônibus, eu senti que ela estava um pouco nervosa. Fiquei pensando se o nervosismo era por conta da viagem ou se era porque dentro de alguns minutos ela estaria dentro de seu antigo lar.
Durante a viagem, fomo conversando sobre as aulas de mobilidade que ela estava fazendo.
-A professora Ilda fica bastante estressada quando eu trombo em alguma coisa – ia dizendo ela, - é muito difícil andar sem a bengala.
-Pensei que você já conhecia os obstáculos do prédio – comentei dando de ombros.
-O problema é que eu não me lembro direito dos locais exato onde tem obstáculos; ontem mesmo teve uma espécie de prova – Karina contou séria.
-E aí como você foi? – perguntei já sabendo a resposta.
-Com a bengala eu fui bem, mais a professora disse que eu deixo a bengala muito longe do corpo...
-E não pode?
-Bem... Na rua se estiver muita gente, eu vou bater a bengala nos pés das pessoas como no dia em que você me levou na Rua Barão de Jundiaí, lembra?
-É mais você esta melhor agora, não?
-A professora acha que não.
De fato, eu me lembrava muito bem do dia em que fomos a Rua Barão de Jundiaí escolher um presente para o meu pai. Karina deixava o braço muito longe do corpo. A bengala batia no calcanhar de qualquer pessoa que estivesse a nossa frente. Todas as vezes que íamos sair de uma calçada se eu não avisasse Karina continuava batendo a bengala muito a frente e não conseguia achar a calçada para descer devagar.
-A professora que eu tenho que andar sem segurar no braço de alguém – continuou Karina.
-Ótimo –falei sorrindo – toda vez que sairmos juntos agora, você vai andar do meu lado sem segurar no meu braço.


Quando descemos do ônibus, eu e Karina fomos surpreendidos por um vento gelado que não estava presente em Franco da Rocha. Seguimos em uma rua larga, mais de uma calçada muito precária. Passamos por uma oficina de carros e por uma lanchonete.
-Estamos em frente a clinica que você falou Karina – disse eu parando.
-Isso, agora logo ali na frente tem uma esquina, nós vamos descer a direita até o final dela. Lá embaixo nós dobramos a esquerda, o número da casa é 38.
Parecia estranho, mas era a Karina que estava me guiando. Olhei pra trás e tive uma idéia:
-Karina eu estava olhando aqui é uma rua que passa poucos carros, que tal você tentar andar sem segurar no meu braço?
-Pode ser – concordou ela.
Em minha opinião, ela andou bem. Quando tinha algum poste ou placa eu ia dizendo direita, esquerda e assim por diante; até ela bateu a bengala em um corsa, que disparou o alarme imediatamente.

 

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