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O PRIMEIRO PASSO

Publicado por: vander.christian
Data: 12/09/2009
Hora: 20:00:06
Página: biblioteca_ler
Na categoria: x
Leituras: 426

 




Karina estava na casa de seus pais. Matilde, sua mãe, veio me receber no portão. Estava muito abatida, mas se alegrou a me ver. Deu graças a Deus por eu estar ali com vida. Serviu uma xícara de chá com biscoitos. Ademar também tinha uma expressão abatida no rosto quando veio me cumprimentar. Conversamos um pouco e depois eles me autorizaram a ir até o quarto ver Karina.
Abri cautelosamente a porta. Karina estava sentada em uma poltrona de frente pra janela. Tinha um retrato nas mãos – era o retrato de Fabiano. Encostei a porta levemente ao entrar...
-Karina? – chamei hesitante. Ela se virou e minha expressão mudou imediatamente.
Daquele rosto tão bonito de outrora restavam poucas coisas. O seu cabelo fora cortado; as orelhas estavam sem brincos – varias escoriações podiam ser vistas por todo rosto. Karina tinha uma fisionomia péssima – nunca a vi com olheiras e parecia mais magra. Da Karina de antes, só restava uma coisa: aqueles belos olhos pretos com um brilho intenso, talvez o brilho estivesse mais fraco, ainda assim era impossível não enxerga-lo. Cheguei mais perto.
-Perdi tudo Jéferson! – disse Karina pondo o retrato de Fabiano sob a cama. Estendeu os braços e dessa vez o abraço veio.
Ficamos ali abraçados. Abraçados como no dia do seu casamento. Não sei quantos minutos se passaram enquanto Karina chorava em meu ombro. Quando se afastou de mim, tornou a repetir:
-Perdi tudo.
Ela voltou a sentar – se na poltrona. Eu sentei na cama.
-Você não perdeu tudo Karina. Você esta viva.
-O Fabiano esta morto! – gritou ela. – O meu grande amor esta morto, assim como a minha visão!
-Também não é bem assim – falei pegando em sua mão. Ela soltou com violência ao gritar:
- O que não é bem assim Jéferson?! Pode vir um batalhão de gente até aqui, mais nada do que elas disserem vai aliviar a minha dor!!
Eu estava me sentindo estranho. Karina gritava olhando em minha direção – embora não estivesse me vendo.
-A vida precisa continuar Karina. Eu perdi um amigo e uma amiga, estou com o corpo cheio de cicatrizes...
-Eu tinha tantos planos! – rebateu ela. – Eu não sei se vou conseguir planejar alguma coisa desse... desse jeito!
Karina se levantou. Precisei tirar o pé esquerdo rapidamente do lugar em que estava, ou ela tropeçaria nele. Fiquei de pé também.
-Você vai poder planejar coisas como antes do acidente Karina – falei com receio. Não estava me sentindo a vontade.
-Nada vai ser como antes! – Karina balançou a cabeça negativamente. – Eu não tenho mais nada.
-Tem a mim! Sou o seu amigo Karina!
-Amigo que me abandonou há cinco anos!
Demorei a me recuperar do impacto causado por aquelas palavras. Karina estava agindo exatamente como eu esperava. Contudo, não esperava ouvir aquilo.
-Eu não te abandonei- disse me explicando – Só me afastei de você, porque eu a amo; não guardo rancor de nada.
Karina tateou a procura da poltrona. Com certa dificuldade sentou – se calada.
-Cadê aquela moça cheia de energia, hein?- falei sentando-me a sua frente. – Sempre enfrentamos os problemas de cabeça erguida. E agora você topou com um problema a sua altura – peguei a sua mão; estava agora bem próximo dela – a sua fé e a nossa amizade é maior do que tudo isso que esta acontecendo. Durante todo esse tempo eu estive afastado de você, mas agora eu estou aqui do seu lado e eu vou te ajudar a viver.
A mão direita de Karina pousou sob a minha. Em meio a lagrimas, Karina falou:
-Desculpa. Eu não deveria ter falado aquilo. É que – soluçando declarou: - é que lá, no avião quando eu te vi, naquele momento terrível, queria te abraçar... Soltei o cinto... e o Fabiano quis ir junto e eu não deixei...
Karina se atirou em meus braços e continuou a falar:
-Se ele tivesse junto comigo não teria morrido!
Dessa vez foi diferente. Não consegui dizer nada. Fiquei mudo. O que dizer? Sempre ouvi dizer que às vezes só de ouvirmos o desabafo de alguém já estamos ajudando. Mas eu estava me sentindo inútil. Karina era minha melhor amiga e a cima de tudo eu a amava. Não falei nada, fiquei ouvindo os soluços de Karina; as suas lagrimas molhando a minha camiseta... O cheiro de shampoo em seus cabelos... Acabei me entregando a emoção.



Todos se prepararam para a batalha que viria em seguida. Seria uma batalha difícil; Karina teria que ser forte e ia precisar de muita ajuda.
Como já era de se esperar não foi nada fácil. A começar coma relação de Karina e seus pais.
-Não precisa me segurar! – reclamava ela quando dona Matilde pegava em seu braço. – Eu ainda conheço essa casa, morei aqui durante dezoito anos!
E quando dona Matilde soltava o braço, logo Karina trombava em algum móvel da casa; o que já servia pra ela disparar um monte de palavrões.
Seu Ademar chegou a cogitar uma possível participação de um psicólogo para ajudar Karina. Mas a hipótese foi afastada por dona Matilde, que achou que Karina não aceitaria ser aliviada por um psicólogo. Foi um tio de Karina que indicou uma famosa escola para cegos localizada na capital paulista.




O tempo foi passando. Decidi dar um tempo na minha faculdade de biologia. Decisão esta, compartilhada por Sandra – que após o acidente ficou menos extrovertida. Também não era pra menos, todas às vezes em que estávamos juntos, lembrávamos de Tatiana e Marcelo; era muito difícil. Acredito que todas as vitimas de acidentes passavam por esse desafio: tentar recuperar a normalidade de antes. Eu cheguei a pensar que nunca a minha vida voltaria ao normal. É sempre assim, vemos coisas terríveis acontecerem todos os dias e nunca imaginamos que um dia venha acontecer com a gente. Eu mesmo quando via uma cena da novela ou de um filme achava uma tremenda bobagem. Hoje, porem, penso diferente; tento imaginar me dentro do personagem – o que eu faria se estivesse em situação parecida? Mudei muito os meus pensamentos depois daquele acidente.
No telejornal a noite anunciou que a caixa – preta do avião seria enviada a Alemanha para ser analisada e o presidente da empresa aérea declarou que estava fazendo o possível para recuperar e devolver os pertences aos sobreviventes e parentes das vitimas. Coisa que com certeza demoraria alguns meses, assim como o resultado das investigações feita na caixa – preta.



E eu embarquei junto com Karina naquela nova fase. O médico me deu uma licença de quarenta e cinco dias do serviço. O que me ajudou bastante, pois eu ia todos os dias na casa de Karina. Ela continuava deprimida, sempre calada, quase nem deixava o quarto. Ficava horas em sua companhia, mas era como se eu estivesse falando sozinho, então eu me calava e reinava o silencio – um silencio constrangedor... Nesses momentos, eu sentia pena dela. Meses depois fiquei sabendo que os cegos não gostam que sintam pena deles.
-Fala alguma coisa Karina – pedi a ela. Havia se passado vinte dias após o acidente. Nós estávamos sentados em uma mesa, na sombra de uma arvore no quintal da casa dela.
-Falar o que? – disse Karina.
-Ah conversa comigo, até agora você só me ouviu, ficou aí calada, é a sua vez de falar.
Decorreram – se alguns minutos de silencio total. Apenas as folhas das arvores faziam barulho.
-Eu to com sede Jéferson – falou Karina finalmente. – Busca um copo com água, por favor?
-Claro.
Busquei a água. Depois de tomar a água ela perguntou:
-Como esta o dia hoje Jéferson?
-O dia esta lindo – falei feliz por estar mantendo uma conversa “completa”com Karina. –O céu esta completamente azul, sem uma nuvem – acrescentei.
-Eu estava aqui pensando, - continuou Karina segurando o copo vazio – achei que nunca mais sentaríamos juntos para conversar.
-É. Aqui estamos juntos como nos velhos tempos – fiz uma pausa. Uma borboleta passou perto de nós e desapareceu no quintal vizinho. – Só tem uma diferença – completei.
-Uma diferença?
-Sim, naquele tempo, quando estávamos juntos, não existia esse silencio monótono que tem surgido entre os nossos diálogos.
Quase me arrependi de ter falado aquilo. Achei que eu estava pressionando a Karina. E ela respondeu:
-É muito bom estar aqui com você do meu lado num momento difícil como esse que eu estou passando. Mas é complicado pra mim, aceitar que nunca mais vou enxergar. É difícil ter que aceitar a morte do Fabiano. Eu preciso de um tempo, pode ter certeza Jéferson, você e todos vão se orgulhar de mim. Eu só preciso de tempo...
Abracei-a. Aquele era o primeiro passo, de muitos que viria a seguir.

 

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