| Publicado por: | vander.christian |
| Data: | 12/09/2009 |
| Hora: | 19:51:43 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Na categoria: | x |
| Leituras: | 158 |
A IDEIA DE MILENA
Afinal tudo havia chegado ao fim. De maneira bem dramática, é verdade. O velório começou por volta das vinte e uma horas. E nenhum dos presentes conseguia se conformar com a morte de Tico. Todos pareciam incapazes de dizer algo para o outro; era um respeito mudo à dor alheia. Os amigos de Tico fizeram questão que ele fosse velado vestindo uma roupa branca – a cor de que mais gostava.
Por volta das dez da noite, Marcio chegou ao velório. Teve que ir ao hospital para que um especialista cuidasse de seus ferimentos e depois teve que ir a delegacia prestar depoimento. Foi em direção de Rogério que estava abraçado com Roberta, ambos com olhos inchados de tanto chorar.
-Eu sinto muito Rogério – disse com a voz fraca. – Eu sei a dor que é perder alguém que realmente amamos de verdade.
-Sim – falou Rogério soltando Roberta, - como disse o Danilo, às vezes é preciso que alguém que nós realmente amamos morra para darmos valor a vida – e abraçou Marcio.
Do outro lado da sala, Milena falou para Simone:
-Eu acho que esse é a hora de você dizer tudo que sente por ele Simone.
-Ele jamais vai entender. De todos nós, quem esta sofrendo mais coma morte do Tico é ele.
-Mais um motivo pra você se declarar – opinou Tadeu. – Vai ser bom pra ele saber que existe alguém que o ame de verdade.
Simone não disse nada. Estavam sendo comum, de repente, todos se calarem. Minutos depois Horacio chegou. Levou os pêsames a todos os amigos de Tico. Até mesmo Diego, Rosana e Fernando foram prestar solidariedade ao grupo.
-Marcio eu preciso dar uma palavrinha com você – disse Horacio para Marcio.
O rapaz se afastou um pouco do caixão.
-O que foi delegado, pensei que já estava tudo esclarecido pra você.
-Sim, esta tudo esclarecido pra mim Marcio. O problema é o Caio, me ligaram do hospital; ele não tem muito tempo de vida, esta querendo falar com você.
-Falar o quê? – estranhou Marcio.
-Eu não sei.
Caio estava completamente irreconhecível. Os médicos tiveram que enrolar uma faixa em sua cabeça. Em sua boca havia um tubo pela qual respirava. Marcio se aproximou da cama junto com Horacio, imaginando o que aquele sujeito tinha para lhe falar.
-Chegue mais perto – disse Caio num sussurro. Marcio chegou mais perto da cabeça da cama sem dizer nada.
“Eu e o meu irmão”, começou Caio coma voz muito fraca, “trabalhamos oito anos para os seus pais. Durante todo esse tempo nunca recebemos um sinal de consideração da parte deles”.
Ficou em silêncio. Marcio continuou calado, enquanto Horacio fazia um grande esforço para ouvir o que Caio dizia; o delegado parecia muito interessado.
-A verdade – recomeçou Caio – é que eu e o Guilherme nunca fomos certinhos. Chegou um dia então que nós resolvemos se vingar do Floriano. Conseguimos desviar para nossa conta uma boa quantia de dinheiro – Caio tomou fôlego e prosseguiu: - Mas eu não lembro direito o que aconteceu, sei que o Floriano descobriu porem não sabia que era eu e o Guilherme.
“A sua mãe era mais inteligente, foi investigando até chegar a nós”.
-Hum – disse Marcio – por que esta me dizendo tudo isso?
-Para você ficar sabendo que os seus pais eram mesquinhos. Jamais ajudaram alguém, eles jamais se importaram em ajudar quem quer que fosse.
-Olha aqui... – começou Marcio.
-Espera – pediu Caio cada vez mais fraco. – O Guilherme e eu entramos como auxiliar geral na rede de supermercados e nunca fomos promovidos! Floriano e a Madalena só promoviam pessoas como eles, arrogantes e corruptos; não valorizavam a humildade e o trabalho honesto...
-Chega! – gritou Marcio. – Eu não vou ficar aqui ouvindo mentiras sobre os meus pais!
-Calma Marcio – pediu Horacio. – Calma.
-Calma uma ova delegado. Ele esta ofendendo a memória dos meus pais.
-Caio, continue por favor.
Antes de começar falar, Caio deu um longo suspiro. Reuniu forças para poder abrir a boca e dizer:
-É toda a verdade Marcio. Sei que vou morrer, por isso estou dizendo tudo pra você.
Marcio baixou a cabeça. Horacio tinha os olhos fixos em Caio.
-Depois de alguns dias – falou Caio ainda mais baixo que Marcio e Horacio tiveram que se aproximar mais da cama. Para ouvi – lo – interceptamos uma carta do seu pai. Na carta, o seu pai combinou com a sua mãe, para se encontrarem no aeroporto do Rio de Janeiro e juntos levariam o dinheiro – que nós ainda não tínhamos conseguido pegar – para um banco. Mas como eu disse, a sua mãe era muito esperta. Depositou o dinheiro no banco da Bahia e ao se encontrar com o seu pai no aeroporto, combinaram nos denunciar a policia. Não tivemos alternativa, precisávamos impedir. Colocamos uma bomba caseira no motor do carro e...
-BASTA! – explodiu Marcio se afastando da cama. – ALÉM DE MENTIROSO É ASSASSINO!
-Marcio, por favor! – pediu Horacio.
-DELEGADO DURANTE TODO ESSE TEMPO EU ACREDITEI QUE A MORTE DOS MEUS PAIS TINHA SIDO UM ACIDENTE! ESSE CARA MERECE MORRER!
Caio se debateu na cama. Os seus batimentos cardíacos começaram enfraquecer. Fez um aceno com a mão. Horacio se aproximou da cama e chamou Marcio. O rapaz hesitou, mais obedeceu.
-Não... não nego que sou um... um assassino – disse Caio fazendo um grande esforço para juntar as palavras. – Mas eu pre-preciso... terminar.
-Pode falar – incentivou Horacio. – Nós estamos ouvindo.
Após um breve momento de suspenso, Caio conseguiu dizer:
-A-anos... anos de- depois... o Guilherme... per- perseguiu o seu irmão... e- ele se... recusou a di- dizer aonde estava... o resto do dinheiro... e então... Guilherme o ma-matou.
Horacio viu a boca de Marcio se abrir. Mais ele não gritou, não conseguiu.
-Eu... precisava te dizer isso... Eu n-não teria te chamado se não fo-fosse muito importante... pra mim di- dizer a ver- verdade... pra você. Pa-para muitos... os seus pais... não pres- prestavam – encerrou Caio.
E Marcio perdeu o controle.
-É MENTIRA! EU NÃO VOU FICAR AQUI OUVINDO TUDO CALADO!
-Marcio você não pode gritar aqui!
-TUDO QUE ELE FALOU É MENTIRA!! OS MEUS PAIS JAMAIS SERIAM ODIADOS!!- berrou Marcio de novo, havia lagrimas em seus olhos.
NA cama, Caio parecia agoniado. Os seus batimentos cardíacos foram caindo rapidamente. Surgiu, na porta, uma enfermeira ( provavelmente atraída pelos gritos de Marcio). A enfermeira correu para a cama tentou reanimar Caio... Era tarde demais.
-Vamos sair daqui Marcio – disse Horacio. Os dois deixaram o quarto.
-Desculpe delegado. Eu não deveria ter gritado – falou Marcio meio sem jeito. – Mais é que esse cara acabou com quase toda a minha família!
-Esta tudo bem Marcio.
No dia seguinte, à tarde, foi o enterro. Se Rogério, Roberta, Tadeu, Milena e Simone tinham finalmente conseguido controlar as lágrimas durante o resto da noite passada, não obtiveram o mesmo resultado ao ouvirem as palavras do padre. Um enorme vazio tomou conta de todos. Nunca mais o rosto alegre e bonito de Tico seria visto pelos seus amigos.
Cada um jogou um pouco de terra sob o caixão e uma rosa. Por fim foi colocado a sua maquina fotográfica. Aos poucos as pessoas foram indo embora.
-Nós estamos indos Rogério, você não vem? – perguntou Roberta para Rogério que ficara perto da lápide de Tico.
-Num instante Roberta eu vou.
O rapaz respondeu sem olhar para a amiga. De longe, Simone ouviu atentamente. Foi falar com ele.
-Vai ser difícil agora sem ele não é?
-Vai. Vai sim, mas precisamos aprender a viver sem ele.
Ficaram em silêncio. Ambos olhavam para a lápide; era difícil de acreditar que ali, de baixo daquele chão estava o corpo de Tico.
-Rogério eu tenho uma coisa pra te dizer – quando terminou a frase, Simone percebeu que estava cheia de coragem. Rogério a encarou.
-Talvez outra pessoa, ou até mesmo você, ache que essa não é uma boa hora. Eu penso o contrario. Não existe melhor hora do que essa.
Rogério continuou a encara – la.
-Eu amo você Rogério.
O rosto de Rogério continuou impassível. Não movera um músculo sequer. E então ele sorriu e falou:
-Nada é por acaso, não é mesmo? Estou muito feliz de ouvir isso de você.
Abraçaram – se. Estava feito um laço entre Rogério e Simone. Na lápide estava escrito a seguinte frase:
AQUI JAZ TICO – CURUPIRA
AMANTE DA NATUREZA
E mais a baixo frase:
TONÍCO FERNANDES
1985 – 2008
Em outra parte de Vila das Arvores, Marcio conversava com Roberta.
-Eu pretendo mudar pra São Paulo – disse Marcio lentamente. – Só que antes eu tenho que ir ao Rio de Janeiro.
-Fazer o que? – estranhou Roberta.
-Uma visita ao túmulo dos meus pais. E você, vai continuar aqui?
-Não. Acho que todos vão embora daqui. Não tem mais clima algum continuar morando em vila das Arvores.
-Entendo.
Marcio segurou a mão de Roberta e deu-lhe um beijo.
Quatro dias depois Marcio desceu do táxi em uma tranqüila Rua do Botafogo, Rio de janeiro. Sem dar atenção ao olhar intrigado do taxista ele pagou a corrida e retirou todas as ferramentas de que precisava.
Durante aqueles dias que passaram Marcio refletiu muito sobre a estória de Caio. Acreditava na boa reputação de seus pais; por outro lado, Caio não teria motivo algum para chamá-lo em seu leito de morte e lhe dizer todas aquelas coisas. Talvez, Marcio pensou, toda aquela herança deveria ser sempre dos seus pais. Todo aquele dinheiro só lhe trouxera dor. Perdeu pai, mãe, irmão e um grande amigo, sem contar que a sua vida esteve por um fio diversas vezes. Marcio queria paz. E só tinha uma maneira de obter essa paz.
A chuva apertara. Marcio caminhou mais depressa; o vento batendo com toda a força em seu rosto. Nas mãos uma maleta, uma pá e uma picareta. Tinha finalmente chegado a frente ao cemitério. Devagar empurrou o portão e seguiu entre as lápides. Parou perto de uma onde estava escrito “FLORIANO BITENCURT NETTO 1948 – 1993 e MADALENA TAVAREZ NETTO 1965 – 1993”.
-Aqui estou – disse se ajoelhando junto a lápide de seus pais. – Vim devolver o pouco que vocês me deixaram do muito que conquistaram. Não posso continuar com esse dinheiro, porque não quero ter o mesmo fim que vocês. Perdoem-me.
Marcio ficou de pé. Cavou ao lado da lápide. Meia-hora depois, a herança de setecentos mil reais estava enterrada ao lado dos ossos dos pais de Marcio.
A chuva escorreu no rosto de Marcio quando ele terminou o serviço e levantou a face para o céu.
Um ano depois, Rogério, Roberta, Tadeu, Milena e Simone estavam juntos a caminho do saguão de entrada do aeroporto de Congonhas.
-Terminou de escrever o seu livro Rogério? – perguntou Marcio abraçado com Roberta.
-Falta o fim – respondeu o rapaz sorrindo. – Eu estou sem idéias e a Simone não ajuda em nada.
-Mentira – defendeu – se a moça indignada. – Ajudei muito. Quase escrevi o livro pra ele!
A turma caiu na risada.
-Estou me sentindo estranha – comentou Milena.
-Por quê? – indagou Roberta.
-São dois pares de casais, eu e o Tadeu estamos sobrando!
-Esta sobrando porque quer – disse Tadeu pomposo. – Eu estou aqui: livre, leve e solto!
Todos aplaudiram Tadeu, menos Milena que mudou de assunto:
-Vamos tirar uma foto?
O grupo se reuniu. Depois do flash, Rogério anunciou:
-Sabe pessoal, acabei de ter uma idéia para o fim do meu livro.
-“QUAL É A IDEIA?” – perguntaram todos em uníssono.
-Vou reunir todos os personagens e vou bater uma foto, o que acham?
O grupo caiu na risada.
FIM
18/ 02/ 2008 – 23H: 32M
VANDER CHRISTIAN
LEAL DOS SANTOS
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