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Consuelo. A bela misteriosa...

Publicado por: cisco.devair
Data: 14/02/2009
Hora: 09:19:37
Página: biblioteca_ler
Na categoria: x
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A ODICÉIA DE STARSOL & LUASAT

Capítulo 15

Consuelo. A bela misteriosa...
As coisas lá no rancho Santa Margarete continuavam a caminhar em seu ritmo normal. O belo sol deste dia já declinava em busca do poente.
Neste momento da tarde, Urias chegava à casa grande. Vinha suado e cansado da lida e adentrando a cozinha, foi saudando não como era hábito fazê-lo a cozinheira. -- Oi, Dolô. Tudo bem?
Cortou seus cabelos? Ficou legal. Sem esperar uma resposta emendou educadamente, nova pergunta:
-- Hei Dolô, você por acaso sabe dizer onde se meteu aquele cabelo de espiga de milho verde?
Dolores surpreendeu-se um pouquinho com aquela maneira amável e carinhosa usada pelo príncipe encantado de seus sonhos, pois normalmente quando Urias dirigia-se a ela, qualquer fosse o assunto, seu tom sempre era diferente, quando não malcriado, às vezes sarcástico, quase sempre mal humorado, dificilmente sua voz demonstrava aparente afeto.
Apreciando por demais aquela consideração, a boa alma, chegou ir ao rubor e suavizando languidamente suas palavras respondeu com encantamento:
-- Eu, vou bem. E você Urias como vai indo? Gostou dos bolinhos? Quer mais alguns?
O grande apreciador de bolinhos abaixou a guarda, aceitando com rapidez a tentadora oferta. Dolores usava a velha e antiga tática em prender seu amado pelo estômago. O clima entre os dois estranhamente rolava pela primeira vez, cheio de ternura, ambos naquele momento procuravam agradar ao outro. A pergunta, onde se metera aquele cabelo de espiga de milho verde, que se referia ao menino Manoel ficara perdida no ar.

Os negros olhos da enamorada brilharam de prazer ao ver seu oculto amado devorar vorazmente não só um bolinho, mas sim quase todos da bacia. Um observador experimentado na arte da sedução e no magnetismo natural de dois seres que sintam em seus íntimos a formiguinha da paixão, diria com toda certeza que para amar alguém com paixão não depende da idade, mas sempre em qualquer momento da vida o amor sincero é maravilhoso e divino.
Urias colecionava muitos troféus em sua longa vida, mas nunca se comprometera em relações demoradas, até então o mesmo acreditava ser: Um eterno e convicto solteirão. E Dolores, uma imaculada virgem, sonhadora, uma verdadeira menina com sua meia idade alcançada.
Mas ali, naquele momento, O jogo do amor deixava mais uma vez em evidência que qualquer fase da vida sempre é e será sem dúvida, encantador e sinuoso.
Tudo que ali naquela cozinha, impregnada de cheiros aromatizantes de temperos, acontecia era um singelo flerte entre duas almas desejosas de carinhos. Assuntos íntimos escaparam, sonhos para o futuro foram confidenciados.
Uma boa hora de prosa escorreu no tempo. Os segundos mudaram com sua cadência interminável os ponteiros do velho relógio de parede.
O cupido fazia sua obrigação. O anjinho do amor desta feita enviava suas certeiras flechas. O deus do amor cumpria seu dever de casa.
Os corações daquelas duas almas ainda juvenis naquele momento batiam mais fortes em seus peitos, com ardência de puro fogo. Urias, o matreiro percebendo a perigosa armadilha do desejo, o cheiro de paixão a se misturar com os aromas de temperos, as respirações alteravam seus domínios, as bocas careciam de saliva; Urias acovardou-se e recuou com prudência. Pigarreou como de hábito, levantou-se com delicadeza, agradeceu os bolinhos e avisou que ia banhar-se, pois se fazia urgente dar um pulinho na vila da igreja.
A aludida vila, era um pequeno vilarejo com meia dúzia de comércio, duas igrejas: uma católica e outra evangélica e a escola de Dona Florisbela.
O armazém do Seu Juca seria o destino buscado por Urias. Este último ainda perturbado, pela comichão dos desejos da carne sem o perceber, justificava sua ida lá na vila:
-- Eu vou lá no armazém do Juca para contratar pessoal para a colheita de frutas, pois o dito do Patrãozinho é que o caminhão do fruteiro virá sexta-feira.
Dolores ao ouvir a notícia que Urias iria à vila. Amarrou seu semblante, uma pontada de ciúmes faiscou seus negros olhos. O motivo era o mesmo de sempre. Lá no dito armazém de Seu Juca tinha de tudo um pouco. Ali reuniam todos da região, ali era um verdadeiro centro de negócios local. Mas não era isto que incomodava Dolores, mas sim o fato de que em anexo ao sortido empório, o seu proprietário mantinha uma espelunca, um bordel disfarçado de clube social.
Ali, naquele antro já muito criticado pelas beatas locais, militavam sempre duas ou três quengas. Nada de muito escandaloso era praticado, música ao vivo, bailes e um carteado em amistoso, era a prática do local. Mas uma dessas mariposas da noite incomodava muita gente, inclusive a ciumenta Dolores.
A famigerada dama da noite era a gerente da casa. Uma bela índia paraguaia. A bela era o principal pesadelo das senhoras casadas e moças casadoiras da próspera região. Consuelo era o nome da bela e fogosa potranca de cabeceira. Uma jovem insinuante de corpo escultural, pele morena cor de bugre, grandes olhos amendoados e negros como noite escura em breu, longos cabelos que alcançavam as arredondadas ancas, um rebolar provocante, do largo quadril em um gingado de cobra sinuosa, uma boca de lábios carnudos, vermelhos e sensuais, duas fileiras de dentes alvos e perfeitos.
O demônio de saia costumava trajar-se muito bem usando, como se manequim fosse, longos vestidos ora branco da cor da neve, ora vermelho de sangue. Habitualmente encontrava-se bem maquiada e perfumada com cheiro de flores silvestres.
A ardilosa exercia com muita classe sua profissão, cortejada por muitos e invejada por muitas, diversas propostas de casamentos milionários enjeitara com sua natural ciganice. Muitos homens ela tinha aos seus pés. Um lindo pássaro que privava pela liberdade como principal. Dono não teria, ser dominada por um homem nunca; suas idéias era a de dominar a todos os machos que a cobiçavam. Realmente uma perigosa e mortal pistoleira. Ao apresentar-se aos novos fregueses, com malícia debruçava-se sobre o liso e grande balcão de atender, deixando a mostra abusado decote de fartos seios e com sua úmida boca gracejava, em um espanhol das Arábias:
-- Buinas noche muchacho, my nombre, es Consuilito, my direcion es tu coracion. Soy mui caliente e no tengo neguno machio, que tal piensa i qui Bueno ser my hombre!
O prazer da fogosa era indescritível ao sentir o desejo sórdido nos olhares dos homens, ao pronunciar as mensagens de cativo costumava soltar frouxas e alegres gargalhadas acompanhadas com trejeitos insinuantes de ajeitar seus longos e sedosos cabelos de metro.
Explicação lógica não tinha, por tal pedaço de mau caminho viver naquele fim de mundo, pois além da beleza física aparente, Consuelo era um rouxinol para o canto. Em um pequeno palco que ali existia, a bela cantava com sua afinada e quente voz, uma constante e numerosa platéia masculina ouvia.
Longas distâncias de fronteiras municipais eram percorridas no intuito de disputar uma vaga para ouvir o canto da linda sereia. Consuelo a todos encantava com seu timbre, sua voz enrouquecida propositadamente, arrepiava a todos de desejos, quando se fazia acompanhar com seu violão. Realmente, Consuelo nada perdia para as grandes cantoras que habitualmente apresentam seus números em cassinos de Las Vegas ou em famosas boates Parisienses.
Não era de se entender como tal grande talento ali se refugiara. A estrela era grande especialista em cantar lindas guarânias, quentes baladas, alegres boleros e tudo que cantava tinha o sabor picante de pimenta com chocolate. Em noites de apresentação, o que era costume uma vez por mês, grande festa típica com churrasco de boi no rolete e arroz carreteiro. A farta comida era devorada por muitos, regada com grande ração de chope escuro. A pequena vila, nestas ocasiões, multiplicava em mil seus habitantes. Todos faturavam boas rendas.
A praça da igreja diminuía por não agasalhar tantos freqüentadores que se acotovelavam disputando um bom ângulo para apreciar o canto e um bailado da dança do ventre que era apresentado pela artista. A Melodiosa voz da musa da noite ouvia-se nos potentes alto-falantes. O som ia a quilômetros ao longe o vento levava. Cantando e dedilhando seu violão.
Nas oportunidades dos eventos, repetia-se em bis uma conhecida canção em espanhol.
O tom em ré menor combinava por demais com a harmoniosa voz.
Assim, ouvia-se ao longe.
Bésame
Bésame mucho Como si fuera esta noche Lá última vez
Bésame Bésame mucho,
Que tengo miedo a perderte, perderte despues
bésame bésame mucho
Que tengo miedo a perderte, perderte
otra vez
quiero tenerte muy cerca
Mirar en tus ojos, verte junto a mí
Piensa que talvez mañana
Oy estará lejos, muy lejos de ti.
Beija me beija me muito
Como se fosse esta noite a ultima vez.
Beija me beija me, muito
Que tenho medo de perdê-lo, perdê-lo depois.

Beija me beija me muito, que tenho medo
de perder-te, perder–te
Outra vez

Quero ter-te bem perto
Olhar em seus olhos
Ver-te junto a mim.
Pensa talvez que a manhã,
Eu esteja longe bem longe de ti.
Besame, besame mucho...

A patativa misturava os idiomas enquanto o som de castanholas em seus dedos ecoava nos ares.
Ao largar seu violão na mão de um ajudante, com graça e maestria, extraía com seus longos dedos de unhas vermelhas de esmaltes, frenéticos dobrados de castanholas e, com leveza, bailava lindas canções ciganas, remexendo-se toda em excitante dança do ventre.
Sua vestimenta era apropriada para alcançar sucesso, uma saia colada ao corpo em justeza, quase transparente, com duas aberturas laterais, que subiam até alcançar as bem torneadas coxas.
Ao bailar em movimentos sincronizados e estudados, deixava em diversas ocasiões aparecer duas longas e bem torneadas pernas. Era um delírio em massa.
Uma diminuta blusa cobria mal-e-mal seus rijos e generosos seios.
O ventre desnudo retorcia-se como ondas de mar fosse em uma cintura de miss universo.
Seu ágil quadril parecia deslocado em quebra destacando certos dotes do corpo perfeito, com as cintilantes miçangas do vestuário irradiando fulgurantes reflexos da lua e da iluminação artificial.
Encerrava seu número em movimento brusco deixando de propósito seu bustie soltar-se do corpo. Por segundos seus desejados seios ficavam disponíveis à cobiça dos olhares.
O strip-tease fracionava segundos de minuto; o ato era relâmpago, pois a brilhante artista logo em seguida cobria os dois belos seios, com seus longos cabelos. Aquela cena era sem dúvida Uma estonteante e maravilhosa visão.
O público masculino ia ao êxtase. Em delírios, uivavam como lobos enlouquecidos. Olhos arregalados, mãos em conchas em volta das mal intencionadas bocas gritavam em coro:
-- TIRA, TIRA, TIRA OS CABELOS DAÍ!
A alegria dos lobos famintos findava quando alguém, que antes fora orientado, vinha lá de trás do palco e com rapidez jogava um camisão sobre os desnudos ombros da bela mulher.
Enquanto aquela ajudante que trouxera o camisão se abaixava e pegava o bustie, que se encontrava esquecido no palco e o atirava no meio da multidão: que enlouquecida cometia verdadeiras loucuras para poder pegar aquele cobiçado troféu, a diaba semidesnuda, Usando gestos estudados e insinuantes, iguais aos efeitos de uma câmera lenta, ela se retorcia sensual. Seus movimentos lembravam uma linda pantera em espreguiço.
E assim a bela endiabrada com a desenvoltura própio de uma boa atriz que sabe o que faz, ia aprisionando os olhos da platéia, principalmente a parte masculina e com muita sensualidade completava com chave de ouro, o interessante número; A talentosa artista realmente sabia fazer uso de uma boa técnica e com muita graça e leveza se recomponha da seminudez, para em seguida agradecer os apupos.
Então, enquanto era ovacionada com gritos de hurras e pedidos de bis, ela se desmanchava em sorrisos e com as pontinhas dos dedos das duas mãos distribuía e jogava com sensualidade estalados beijinhos.
Dolores que já presenciara estas cenas mais de uma vez e as guardava na memória, ali sozinha absorta em seus pensamentos remoia Sua dor de cotovelo Ao ver Urias partir trotando o branco ventania.
Estas lembranças provocavam fisgadas de ciúmes no coração da pobre alma apaixonada.
Ela espalmando a mão sobre os olhos para que assim pudesse enxergar com mais clareza e buscar mais uma vez a imagem do seu amado deixou escapar um queixoso suspiro, ao vislumbrar ao longe a imagem de Urias, que após arrumar-se com primor já ia sumindo lá na curva da figueira seca. O cavaleiro ainda acenou com a mão, para em seguida espalmá-la com firmeza na anca de sua montaria e obrigá-la a empreender um firme galope.
Dolores de onde estava, ainda pode ver que ele ia todo garboso e faceiro, suas vestes eram domingueiras.
Com seus pensamentos de recatada donzela ciumenta, ela por alguns instantes ficou ali no patamar da escada da varanda, Com ares melancólicos ruminava seus temores.
Ela tinha consciência que nunca teria chance em uma disputa direta com a fogosa rapariga.
Apesar de seus pensamentos serem negros e aquela pontadinha de ciúmes insistir em beliscar seu coração, ela tinha plena consciência que a possível rival, que aos seus olhos não passava de uma perigosa desfrutada vivia enjeitando propostas de casamentos que para ela: Consuelo, seria financeiramente vantajosa.
Era de conhecimento do povo da região que Fortes fazendeiros dali, alguns ricaços da agropecuária e também de outras paragens mais longínquas cobiçavam, a bela paraguaia para companheira.
Outros também sonhavam com isto, Inclusive o próprio Juca do armazém, este, o patrão.
O bem apanhado viúvo cinqüentão, que era: O mais forte comerciante dali, e em riqueza não perdia para muitos, parecia um pobre cachorrinho sem dono, que vivia atrás da bela mulher.
As más línguas locais se fartavam de cochichar comentários maldosos sobre este assunto.
Dolores de tudo isso tinha conhecimento, pois o dia de missa aos domingos era também o dia de saber das coisas.
Uma reunião acontecia, após ouvirem o sermão de padre Oliveira; as beatas, guardiãs da boa conduta e ordem moral da região faziam se em grande presença, inclusive as seguidoras da igreja evangélica do pastor Hermenegildo tomavam chá, enquanto discutiam assuntos diversos da comunidade. O cunho da ditas reuniões era filantrópico e bem intencionado. Mas fofocas saiam.
Dolores ruminava, ruminava, sua distração era grande, lembrava com certeza de coisas do passado, quem sabe arrependia-se de algo que não praticara quando mais jovem. Seus pensamentos neste momento eram fantasiosos, nada tinham de puros, se igualavam aos atos praticados pelas vulgares mariposas do famigerado clube.
Neste momento a sonhadora estremece ao levar um susto.
Uma voz que soa pequena diz:
--Oi!
Confira no próximo capítulo!

(Fale com este autor. Skype: cisco_devair. MSN: souzapedra90@hotmail.com . E-mail: ciscodevair@sercomtel.com.br ).

 

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