| Publicado por: | cisco.devair |
| Data: | 14/02/2009 |
| Hora: | 09:18:10 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Na categoria: | x |
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A ODISSÉIA DE STARSOL & LUASAT
Capítulo: XII
A dura realidade...
Enquanto a conversa franca e proveitosa entre Urias e Manoel se estendia, o mundo girava, as coisas aconteciam. Nicanor e Samanta, após passarem pela casa de Dona Maria, haviam pegado a estrada com destino à cidade.
Eram treze horas, Nicanor esperava ansioso que o médico viesse explicar o que estava acontecendo com sua Santinha.
Já ia para mais de duas horas que ali estavam, a última novidade que ele sabia era que, após os exames ginecológicos, uma ultra-sonografia e mais alguns exames, haviam-se reunido o Doutor com mais uns quatro especialistas para discutirem o caso de Samanta.
Ao lado da cama onde Samanta repousava, após ser medicada, Nicanor roía as unhas de ansiedade e preocupação. Samanta dormia tranqüila e serena, recuperando suas energias. A jovem senhora carregava em seu ventre, dois bebês: um menino e uma menina. Ambos, mais ou menos com o mesmo tamanho, apesar de estarem sendo gerados em placentas separadas.
Era de se esperar, uma gravidez de gêmeos, deveria trazer alegrias. Mas, infelizmente o quadro de gestação, não se apresentava normal. Conforme exames iniciais, seria uma gestação de risco. Os fetos apresentavam anomalias.
A menina apresentava um leve achatamento na parte superior do pequeno crânio. Sua cabecinha, ainda desnuda de pêlos, destacava-se na ultra sonografia. A angústia foi maior quando neste exame de ultra-sonografia apareceu o visual do menino. O corpinho apresentava pêlos. Uma grande cabeleira e sua pele uma cor diferenciada. Seu corpinho trazia dois bracinhos a mais. Além dos dois normais que pendiam dos ombros, mais dois pequenos braços pendiam frontais, nascendo mais ou menos no tórax. Sua cabeça também era achatada e aparentemente tinha quatro cavidades oculares, seus pêlos eram diferentes, aparentavam ser umas penugens de plantas. Seu membro sexual trazia certa desproporção em comparação ao restante do corpinho.
O doutor Batista, explicara ao casal que, apesar de toda aquela aparência diferente impressionar negativamente à primeira vista; clinicamente ambos estavam com o crescimento normal, ambos tinham seus membros internos normais.
Seus corações, rins, pulmões, fígado e demais membros internos trabalhavam em ritmos normais e satisfatórios. As duas crianças eram, portanto, saudáveis, suas aparentes anomalias diminuiriam com a evolução da gestação, até seu nascimento.
O veterano doutor transmitia confiança e otimismo, salientando, no entanto que era muito cedo ainda para uma análise mais profunda. As dores que Samanta sentira, clinicamente, foram consideradas normais. Conforme garantiu o médico, tratava-se de uma pressão de possível acomodação dos bebês no útero.
Samanta fora medicada, fora recomendado repouso e aconselhado que o casal, nos próximos dias, fosse a um hospital lá na capital.
O caso de Samanta era considerado raro, merecendo que um grupo de especialistas fizesse mais uns exames.
Quando o casal tomou conhecimento, quando viram a ultra-sonografia e puderam visualizar as aparências dos bebês, seus corações quiseram pular pela boca, pois ambos recordaram imediatamente dos Owusplantex.
A aparência de seus filhos, que ainda cresciam em segurança no ventre de Samanta, lembrava muito os bebês daquele mundo, diferenciando apenas nos tamanhos.
O jovem casal, com sabedoria, guardara para si aquela assustadora impressão. Ambos sabiam o que acarretaria, qualquer alusão, sobre tais suspeitas.
A brisa suave vinda do minuano merecia comentários de prazer, o Sol irradiava um calor gostoso e seu brilho refletia como chama suave por entre as folhas.
A estrada estava quase deserta; de repente em uma curva, apareceu um velho opala branco. Sua velocidade era moderada, demonstrando que seu condutor era precavido.
Tudo parecia igual: A mesma estrada quase deserta, um dia de sol, o mesmo carro cortando devagar a estrada. Tudo parecia idêntico.
Aquela cena parecia repetida, um observador desavisado, com certeza diria: “tudo já aconteceu da mesma maneira, há uns meses atrás”, “tudo é igual”.
Mas como sempre, nem tudo que aparenta ser é a realidade, nem sempre aquilo que enxergamos retrata o real. Aparentemente, tudo coincidia, até o horário, eram mais ou menos quatorze horas, realmente o sol irradiava um gostoso calor. Realmente Nicanor era um motorista muito precavido, realmente aquela cena já ocorrera há meses passados.
Apesar de tudo indicar que tudo era como outrora, Nicanor ao volante, desta feita, mantinha um semblante carregado, sua voz era amarga e angustiada, esforçava-se para disfarçar com a finalidade de confortar sua querida Santinha. Samanta seguia ao lado, quieta, olhar tenso, amedrontado, triste, rosto abatido e marcado pelo efeito das péssimas notícias.
A jovem grávida, em poucas horas havia aparentemente envelhecido alguns anos, os desalinhados cabelos e o rosto abatido, deixava transparecer o verdadeiro drama que se tornara sua gravidez.
O carro continuava a rodar pela deserta estrada. Já se encontrava próximo do lugar aonde Nicanor e Samanta, naquele Sábado, naquele dia considerado feliz, ali naquele lugar que tudo começara. Ali suas vidas mudariam, ali seus destinos como pais, estavam traçados.
Por quê? Como? Quando? De que maneira, aquilo acontecera? Aquelas perguntas que Nicanor vinha matutando, seus miolos fritavam, rebuscando nas profundezas de sua memória, relembrando passo a passo aquele dia.
De repente uma luzinha acendeu iluminando seu cansado cérebro. Automaticamente, ele gritou exclamando:
--Santinha do céu!
Assustada, Samanta olhou para frente, pensando que tudo fosse acontecer novamente. Perguntando para o agitado marido, que nervosamente batia as mãos no volante.
--Que foi Nic? O que aconteceu?
O rapaz disparou aquilo que finalmente lembrara; atropelando as palavras, sua voz era agitada, explicou:
--Eu lembrei Santinha. Eu lembrei, quando ocorreu a interferência em sua gravidez.
Em seguida o rapaz, recordou a esposa, daquele incidente, que ocorrera quando ela acidentalmente esbarrara em um dos berçários dos Owusplantex.
Samanta imediatamente concordou com o marido e ambos começaram a lembrar os detalhes, pesando as possibilidades e todos os riscos aparentes e outras dúvidas.
De olharem o problema por vários ângulos resolveram chegar o mais rápido possível em casa. Fazia-se urgente, manterem um contato com Gallus. Pela primeira vez, usariam a parafernália eletrônica.
Nicanor, fugindo de suas características de pilotar, acelerou o carro, quando em certo momento Samanta gritou:
--Cuidado Nic!
A vida continuava, o mundo continuava seu lento giro, o dia entrava na descendência
...
Um SÁBIO, não é aquele ser considerado superior em sua cultura terrestre, aquele ser que aprendeu de outros suas filosofias, suas teorias, seus conhecimentos e tudo aquilo que transmita.
Um SÁBIO é sim aquele ser que, mesmo sabendo muito, sempre aprende com seus interlocutores ou com quem o cerca ou ainda com tudo aquilo que acontece à sua volta, aquele ser que transmite seus conhecimentos, com humildade de quem não sabe nada.
Um SÁBIO consegue extrair de um inculto novos conhecimentos para sua sapiência. Uma criança ou qualquer ser humano, por mais simples que seja, consegue transmitir e deixar para um SÁBIO, conhecimentos que ele nunca desprezará.
Talvez uma pequena pergunta infantil ou algum tema conflitante ou qualquer situação que necessite de uma solução de um SÁBIO, por menor que seja; com certeza obrigará este SÁBIO a buscar em seu íntimo uma solução.
Um SÁBIO nunca sabe que é um SÁBIO.
Um verdadeiro SÁBIO, quando é chamado a filosofar, questionar, elaborar ou praticar um ato nunca se furtará, nunca demonstrará falsas certezas em uma coisa apenas, sempre pensará nos resultados finais.
Normalmente, um SÁBIO só é reconhecido e respeitado por outro SÁBIO. É costumeiro confundir-se sabedoria com experiências, vivências culturais ou mesmo prepotência e arrogância verbal.
Urias não era prepotente, arrogante, mas sim um velho caboclo autodidata.
Assim era Urias: simples, observador e muito inquieto. Nunca deixava uma questão no ar. Era o que diariamente acontecia. Urias era sem dúvida um verdadeiro SÁBIO que, com certeza, não aprendera só uma linha de cultura, não envelhecera apenas, mas sim acumulara sabedoria dos anos vividos, com culturas e estudos diversos, ajuntando com o discernimento natural de um espírito elevado. Uma verdadeira mistura de quem sabe muito e, ao mesmo tempo, considera que não sabe coisa nenhuma.
Neste momento, o velho aroeira, disparava uma verdadeira aula filosófica, sobre um simples assunto que o menino Manoel perguntara.
Isto acontecia enquanto os dois continuavam a cumprir suas tarefas rotineiras no sítio. Neste momento ambos, tratavam das galinhas, perus, patos e marrecos que inundavam a propriedade. A bicharada dava um trabalho danado, pulavam, piavam e ficavam alvoroçadas, pois eram em grande número.
Manoel, sempre que podia, aproveitava tudo que Urias, ensinava; tudo que precisava saber ou tinha dúvidas, procurava com confiança a verdadeira enciclopédia ambulante.
O menino, em certo momento da labuta, com sua habitual naturalidade perguntou a Urias:
--Ô, Seo Urias: existe Lobisomem de verdade? É verdade que dentro do homem tem um lobo?
Como era costume fazer, o índio pigarreou, cofiou a rala barba e respondeu pausadamente:
--Existe sim! Claro que existe. Primeiro vou explicar sobre a lenda do lobisomem. O lobisomem é uma lenda antiga, boa parte do mundo tem conhecimento de tal lenda. Quando uma coisa, um fato, uma história ou mesmo uma história fantasiosa é contada; ela existe. Talvez, não materialmente, mas na fantasia das cabeças do povo, eu, quero dizer que tudo é possível, mesmo que seja uma fantasia. Penso eu, que aquilo que é mentira para um, pode ser verdade para outro e vice-versa.
Continuando completou:
--Se algo não é verdadeiro, conforme a realidade que enxergamos, desde que não venha a prejudicar aos outros, podemos dizer que ela realmente existe.
Um sonho não existe. Mas ele interfere em nosso dia-a-dia. Em seguida Urias continuou:
--Agora, falando do lobo, ou de qualquer bicho que seja comparado ao homem. O bicho homem não tem só um lobo dentro de si. Mas se analisarmos bem, diremos que o homem tem dentro de si vários lobos. Usamos a expressão “lobo faminto” quando referimo-nos a um homem com vontade acentuada de praticar algum ato. Usamos dizer que um homem é traiçoeiro como um lobo, pois esta é sem dúvida uma das piores características deste animal.
Um velho lobo representa alguém cansado ou também muito experiente. Um lobo em pele de cordeiro significa um falsário, um fingido.
Ser um lobo feroz normalmente quer dizer que tal pessoa é violenta e irracional. Dizer que uma MÃE é uma velha loba quer dizer que esta mãe é zelosa, que é desprendida, uma mãe que cuida muito bem de seus filhos e que é capaz, se preciso for, de sacrificar sua vida por eles.
Urias arrematou, dizendo:
--Os lobos, como nós seres humanos, também vivem em sociedade, que chamamos de matilhas. Como nós, também existem os chamados lobos solitários, aqueles que apreciam a solidão.
--Nossa! Seo Orias, como o senhor está poético. Falou o menino, com verdadeira admiração.
--Muito obrigado Seo ouriço do mato. E vê, se aprende, a falar meu nome. UUURIAS!
--A vida é sem dúvida um drama maravilhoso.
--O que é vida?
Será que vida não seria apenas e somente VIVER...
Será que tudo acontecerá novamente, será que o mundo ao girar, trará mais dramas para o casal Ortega?
Uma gravidez de riscos, uma gravidez a princípio assustadora.
Será que não é hora de aprendermos cada vez mais a deixarmos de lado as aparências?
O mundo gira. Será que ele gira mesmo?
Será que nosso planeta é um mundo? Será... Será... Será...
Isto e muito mais no próximo capítulo!
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