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Guardando o segredo...

Publicado por: cisco.devair
Data: 14/02/2009
Hora: 09:17:30
Página: biblioteca_ler
Na categoria: x
Leituras: 117

 

A ODISSÉIA DE STARSOL & LUASAT
Capítulo: XI

Guardando o segredo...
Um jantar cheio de alegria, descontração e harmonia familiar. Uma noite reparadora: Tranqüila e de um sono cheio de sonhos mirabolantes e fantasiosos.
No dia seguinte, um domingo de sol maravilhoso alvoreceu, o mundo girava, a vida continuava; Cada ser daquela família tinha em seus íntimos suas inquietudes naturais de uma existência normal.
Nicanor, Samanta e Urias, além das coisas normais do dia a dia, carregavam também em seus peitos, encravado no fundo da alma, aquele pesado e incrível segredo. Enquanto as moças passavam aqueles dias no rancho, era quase impossível aos três, disfarçarem o que sentiam.
Nicanor ficou tentado mais de uma vez, em revelar à irmã, a aventura vivida, mas com determinação lembrava da promessa feita e continuou com o segredo. O rapaz confiava muito em sua irmã, respeitava muito sua inteligência; mas também conhecia de sobra o sentimento de preocupação que ela tinha com todos ali do rancho.
Trinta dias transcorreram dentro de uma normalidade mais ou menos rotineira, aquela aventura incrível pouco a pouco aliviava o peso em suas mentes. Quanto mais o tempo se ia, tudo aquilo que fora vivido, parecia um sonho mágico. Os dias se passaram; As moças já iriam retornar para a capital. Antes das despedidas, Nicanor surpreendeu Margot ao pedir que a mesma conseguisse material e informações atualizadas sobre discos voadores e seres extras terrestres. Como a irmã demonstrasse surpresa, procurou não mentir, apenas argumentou que tanto ele como Urias achavam o assunto diferente e interessante.
Com a promessa de que iriam pesquisar no meio universitário e que mandariam o material pelo correio, as duas moças partiram.
Margot deixava para trás um coração sangrando de paixão. Bruno e a moça, apesar de haverem convivido quase todos aqueles dias, apesar de ambos sentirem aquela intensa paixão que corrói por dentro, não reataram o antigo romance. Suzy, em compensação, levava consigo a esperança de rever em breve seu novo amor. A alegre morena começara um romance meteórico com Alonso. O jovem senhor demonstrara haver caído na lona, enfeitiçado pelos encantos da bela feiticeira.
Alonso, com certa freqüência, ia à capital a trabalho. E promessas e juras de amor foram feitas de encontrarem-se em breve.
Os dias no rancho transcorriam serenos, a calmaria do prelúdio do verão, diminuía as atividades locais, o mormaço levava qualquer ser vivente a procurar o frescor das sombras.
Os pássaros cantavam por todos os lados, os novos filhotes começavam suas primeiras excursões na arte de voar, lindos canários do reino dividiam com pardais sanhaços e bem-te-vis as árvores frutíferas, pequenos e ágeis tico- ticos pulavam na laranjeira seca. Lá no pasto chupins atazanavam as vidas dos bovinos, o céu era límpido parecia uma grande lona azul anil.
Os dias se passavam. A vida continuava... Dois meses já haviam transcorrido em calmaria desde aquele inesquecível sábado.
Longas conversas sobre a aventura aconteceram entre o casal. Trocas de recordações vividas foram lembradas... Nicanor e Urias gastaram grande parte de seus tempos em leitura sobre outros mundos.
Como prometeram, as moças haviam enviado pelo correio, farto e atualizado material referente ao assunto.
Vivia-se uma terça-feira no rancho. Eram oito horas, mais ou menos, o sol da manhã lambia as desnudas e fortes costas de Nicanor e Urias, os dois haviam pulado cedo para consertarem uns mourões que estavam tombados.
A tarefa estava findando quando ouviram lá da mangueira o chamado de Manoel. O menino gritava e gesticulava, pedindo que retornassem a casa, pois Samanta estava passando mal.
Nicanor largou tudo e correu, como um louco, desesperado para junto da esposa. Sua preocupação era grande.
Urias, com pressa, foi recolhendo o que ficara para trás, seguindo o rastro do patrão.
Samanta sentia dores. Corajosa como era; Já se aprontava com a ajuda de Dolores. Sua idéia era ir lá na casa de dona Maria, velha e experiente parteira da região.
Nicanor, ao tomar pé da situação, decidiu passar na casa da vizinha e posteriormente chegar até a cidade. A correria foi grande, pois as dores aumentavam e o risco de um aborto assustava a todos.
Dolores, apesar de não haver sido ainda mãe, tentava acalmar os jovens, ressaltando que não havia sangramento, portanto não havia perigo de um aborto.
Manoel, esperto como ele só, com habilidade já tirara o carro da tuia. Rapidamente foi tirando a poeira dos bancos do automóvel, deixando o motor ligado pronto para sair.
Na hora da correria, ninguém se deu conta que o menino nunca aprendera a dirigir. O fedelho havia praticado aquilo com a maior naturalidade e precisão. Tudo estava pronto. Samanta foi embarcada com todo o cuidado. Nicanor ia dando as últimas instruções para Urias, as tarefas do dia e algumas recomendações sobre o que era mais urgente fazer.
Ao ver as feições contraídas de dor da esposa, o rapaz não perdeu mais tempo, assumiu o volante e partiu. Dolores, marejando os olhos, desejou boa sorte. Urias ao lado, esfregava as grandes mãos silenciosamente em atitude impaciente.
O menino Manoel adiantara-se, correndo para abrir a porteira; sua velocidade em percorrer a longa distância era espantosa, corria como um verdadeiro puma faminto atrás de uma caça. Realmente, aquele garoto sabia ser prático e demonstrava uma esperteza acima da média. Retornando para junto de Urias e Dolores foi perguntando:
--A tia Samanta vai perder o neném Seo Orias?
--Urias! Cara de pastel. - respondeu o velho índio corrigindo o menino. Continuando - Claro que não, isso não há de ser nada, as mulheres algumas vezes tem estes tipos de dores.
Apesar de pronunciar estas palavras otimistas, o rosto curtido e enrugado demonstrava preocupação.
--Vamos para a lida. Venha dar uma mãozinha para terminar o que eu mais o patrãozinho fazíamos. - com o forte braço, sobre os ombros do menino, foram terminar a tarefa inacabada.
Dolores encaminhou-se para sua cozinha lamentando, em resmungo, que mais uma vez os patrões não almoçariam em casa e que não dera tempo de levarem um lanchinho. Lá da cozinha gritou:
--Daqui a pouco a bóia fica pronta! Viu? Seus comilões!
Enquanto desciam para o pasto, com destino ao local onde faltava terminar o serviço, na conversa de Urias com o menino, o velho astuto quis saber quem ensinara o espoleta a dirigir, pois não recordava, em momento algum, o patrão havê-lo ensinado.
--Então. Seu cara de pamonha azeda, quem ensinou você a dirigir carro? Como foi que você conseguiu tirar o carro de dentro da tuia?
--Ah! Seo Urias, ninguém. Eu que sempre observei o tio, do jeito que ele faz e aprendi. Falou sério o esperto moleque, continuando a seguir em tom zombeteiro: -- Mim ser grande Ayrton Senna, mim ser grande piloto de fórmula um.

O menino brincava com Urias, imitando o dialeto indígena e fazendo alusão ao grande e inesquecível Ayrton Senna, um dos maiores pilotos de Fórmula Um em todos os tempos.
Urias achou graça do menino, lembrando também do grande brasileiro, tri campeão de Fórmula Um. Pela mente de Urias rapidamente passaram as imagens do trágico acidente ocorrido naquela manhã de domingo de 94.
Ayrton Senna da Silva, grande atleta da velocidade, querido por todos e temido pelos adversários, um brasileiro que se orgulhava de erguer uma bandeira brasileira, um brasileiro que tinha uma determinação esportiva acima da média.
Naquele triste dia de sua morte, em uma curva de sua vida, em um domingo de grande prêmio, o mundo via, ao vivo pela televisão, um dos grandes heróis brasileiros tombar, lembrado com méritos hoje como Ayrton Senna do Brasil.
Urias apreciava muito corridas de carros e também de cavalos. O velho aroeira, em sua mocidade, havia sido um excepcional atleta; campeão várias vezes em corridas de longa distância.
Os dois já estavam levantando os restantes dos mourões caídos, quando Urias, mudando totalmente o rumo da conversa, quis saber do menino:
--E você, seu espinho de porco do mato, por acaso já lembrou alguma coisa da sua vida? Quem na realidade você é? Por acaso lembrou como foi parar lá na estrada, aonde o patrãozinho te encontrou?
O menino olhou para Urias, com cara de bezerro desmamado, pensou um pouco, esfregou o nariz, balançando a cabeça em tom negativo respondeu:
--Lembrei nada Seo Orias. Minha cabeça só lembra daquele dia de chuva, que o tio achou eu lá na estrada. Vai ver que eu caí do espaço!
Falando isso, deu uma cristalina risada juvenil. Depois ficou sério e perguntou:
--Será que um dia saberei quem sou? Quem são meus pais e como é meu verdadeiro nome? Como chama este treco que deu na minha cabeça, mesmo. Heim! Seu Orias?
--Aminésia. O nome certo é: aminésia.
Enquanto falava o nome do horrível mal, que algumas pessoas são acometidas, principalmente em casos de queda ou alguma pancada forte na cabeça, Urias olhava, prestando bastante atenção no menino, de repente uma dúvida tomava conta de seu coração. O observador Urias buscava detalhes, ou quem sabe penetrar naquela pequena cachola, para saber mais do que sabia. As recordações voltavam como um filme à sua mente. Urias lembrou o dia que Nicanor chegou naquele dia de chuva, há uns quatro anos atrás, trazendo um assustado e mudo menino de mais ou menos cinco anos. Nicanor havia narrado a todos que quando voltava da cidade, lá pelas bandas do entroncamento das estradas, próximo da conhecida porteira assombrada, encontrara o assustado menino.
O relato do patrão dava conta do jeito que avistara o molhado, assustado e perdido garoto. Chorando, emudecido pelo pânico e totalmente fora de si, usando apenas um velho e sujo calção, sem camisa ou outra peça de roupa.
Urias lembrou que não mediram esforços em divulgar e procurar para descobrir seus pais, algum parente, conhecido ou quem soubesse alguma coisa. Mas tudo havia sido em vão. O menininho demorou uma semana para pronunciar as primeiras palavras.
Com uma autorização do juiz da comarca, Nicanor e Samanta ficaram com a custódia provisória do infeliz e desamparado menino. Urias lembrava de tudo isso, enquanto observava o garoto, que notando o olhar sobre si, perguntou:
--O que foi Seo Orias? Eu falei alguma coisa errada? Ou o senhor acaba de descobrir que eu sou mais bonito que dona Suzy?
--Saí para lá seu cara de pafúncio! O senhor está ficando muito dos abusados. - exclamou Urias, enquanto martelava com força os grampos que seguravam os arames farpados nos mourões.
Como é normal, nas crianças de 10 anos, Manoel continuou atropelando Urias com suas perguntas:
--Seo Urias, é errado um garoto na minha idade achar uma mulher bonita?
Limpando um pigarro da garganta, com uma tosse de inveterado fumante: Respondeu Urias, com ares de avô preocupado.
--Errado não é... Nunca é errado a gente achar as coisas belas. Principalmente o sexo oposto sentir atração pelo outro. Isso não quer dizer que fedelhos com a cara igual uma fuça de tatu, que eu conheço, fique cobiçando uma mulher adulta. Continuando Urias arrematou:
--Tem certas coisas que acontece com a gente, que faz parte da natureza humana.
--Ó, Seo Urias, quem o senhor acha mais bonita: A tia Margot, a dona Suzy ou a minha professora lá da escola?
Sabendo que aquela pergunta, de certa maneira era perigosa, preocupado em dar uma resposta honesta que não atrapalhasse a formação do curioso garoto, o velho sábio pensou um pouco e respondeu com jeito saindo pela tangente:
--As três são mulheres bonitas. Em seguida completou:
--A Menina Margot é um botão de rosa que desabrocha, com uma beleza e o perfume de uma verdadeira rosa vermelha, exalando um perfume suave e excitante. Dona Suzy é linda como uma estrela no céu, como o sol que mesmo de longe irradia calor, ela é como um vulcão em constante erupção, derramando suas larvas quentes a sua volta. A senhorita Flor, também é uma bela mulher, seu nome faz-lhe justiça, ela é uma verdadeira flor silvestre que não é cuidada artificialmente. A menina Flor é, sem dúvida nenhuma, uma bela flor do campo, até seu nome encaixou como luva. - finalizou Urias, referindo-se por último a senhorita Florisbela, jovem professora, que lecionava para Manoel e a meninada da região.
--Nossa! Puxa vida! Seo Urias, como o senhor falou bonito, parece até um poeta dos livros.
--Ah! Ah! Ah! Ah! Gargalhou, com vontade Urias. Contente com a admiração do menino.

Nossa Odisséia continua no próximo capítulo!

 

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