| Publicado por: | cisco.devair |
| Data: | 14/02/2009 |
| Hora: | 09:15:53 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Na categoria: | x |
| Leituras: | 91 |
A ODISSÉIA DE STARSOL & LUASAT
CAPÍTULO: VIII
O Retorno ao doce lar...
Como tudo que nos cerca nesta vida acontece ao mesmo tempo, nunca sabemos o que está acontecendo com nossos entes queridos quando os mesmos não estão em nossas presenças, ou quando não há uma constante comunicação.
Enquanto Nicanor e Samanta acabavam de viver uma das mais incríveis e inimagináveis aventuras no espaço; E só mente agora pisassem: O que nós dizemos: terra firme e, retornassem a respirar nossos ares novamente; O casal ainda em choque se sentia, como acordando de um sonho, que havia inicialmente sido um verdadeiro pesadelo.
Se assim era com eles, lá no doce lar a vida era quase rotina.
Só não era porque a chegada das moças alterara um pouquinho aquele ambiente familiar.
Seu pessoal lá no rancho acabava tranqüilamente de saborear a gostosa e bem feita comida caseira de Dolores.
Um arrozinho com feijão mulatinho, franguinho caipira com uma saborosa mandioquinha amarela, uma farofa com farinha biju e pedaços pequenos de carne de porco, que ainda era conservada como antigamente, dentro de uma lata de 20 litros, junto com a própria gordura do animal, apesar de haver geladeira e freezer no sítio, ali se mantinha este costume antigo que era uma das maneiras praticadas para conservação dos alimentos perecíveis. Antes do advento da geladeira e freezer doméstico, realmente a carne conservava-se por longo tempo, mas também é constatado que poderia ser um verdadeiro conservante de bactérias que podiam danar a saúde do ser humano. Contudo muitos ainda mantêm a antiga tradição.
Acompanhava a farta mesa uma variada salada de produtos da bem cuidada horta, salada essa que era temperada apenas com um pouquinho de azeite, limão e sal a gosto; nunca faltava nas refeições um suco de laranja lima ou uma limonada, algumas frutas e a sobremesa, que na ocasião era um saboroso doce de abóbora em calda. Realmente quem já teve o privilégio de saborear uma verdadeira comida caseira, com produtos frescos direto da roça, quando é cozida naqueles fogões a lenha não esquece nunca mais, sempre tem saudade e nunca deixa de elogiar.
Era o que fazia neste momento Susy que gostava muito da comida de Dolores. Margot também elogiava, pois até hoje não se habituara à comida lá da capital. A menina Tatá, além de elogiar, costumava ganhar uns quilinhos a mais quando passava uns dias no rancho. Ambas gostavam muito da bóia da Dolô, também conhecida como gororoba da Dolô, que era a expressão usual das bocas masculinas do rancho, ao referirem-se a boa comida, principalmente nas festas ou em época de colheita, oportunidade essa que alterava a rotina do rancho, aumentando em muito o serviço da cozinheira, pois Nicanor contratava uma boa leva de peões, sendo que todos tiravam suas refeições no rancho. Dolores tinha que pular antes do galo cantar para que pudesse preparar 20 a 30 marmitas a mais, que lá pelas 9:00 da manhã já tinham que estar no eito.
Após o regado almoço, todos se reuniram na grande varanda para o costumeiro cafezinho. O dia estava quente, um forte sol abrasava a natureza, fazendo os três cachorros de estimação ficar afogueados com as rosadas línguas para fora, todos balançando suas caudas, contentes por estarem próximos dos donos. Os bovinos mugiam tristemente lá na invernada, as galinhas cacarejavam, procurando sombra, a juriti cantava ao longe, os bem-te-vis cantavam por todos os lados, os pequenos beija-flores com suas asinhas freneticamente voavam por sobre as flores, beijando-as, alguns praticando vôos em marcha-ré. De repente, começou cair uma refrescante chuva, acarretando um muxoxo e um suspiro de Suzy que reclamou.
--Que pena, nós íamos pegar um sol lá na cachoeira!
--Ela é passageira, é uma chuvinha de verão, chuva e sol casamento de espanhol! - comentou Urias, fazendo alusão ao fato de estar chovendo e fazendo sol ao mesmo tempo.
--Sol e chuva, casamento de viúva! Não é assim que é pronunciado? Em Seo Orias? - falou Mané, que gostava de irritar o velho matuto.
--É. Também se coloca desta maneira - disse com aparente calma, o bom homem, que intimamente orgulhava-se do pequeno sapeca, sentia-se realizado toda a vez que o menino demonstrava que aprendia suas tiradas literárias.
Urias pediu licença, dizendo que ia buscar os cavalos lá no pasto e em seguida arreá-los para que as moças pudessem dar aquele passeio pelas margens do rio. A chuva havia ido embora, deixando uma temperatura mais agradável. A cachoeira era perto, mas antes as meninas sempre faziam um longo passeio a cavalo, para depois usufruírem da maravilha que era a pequena represa de águas límpidas que Nicanor, com a ajuda de Urias, havia construído. Após a queda d'água estava uma verdadeira piscina natural muito bem organizada, com grandes pedras nas margens, possibilitando um bom banho de sol; as moças, quando lá iam, costumavam ficar horas e horas lagarteando sobre as grandes pedras.
À tarde daquele sábado começava a cair, “eram mais ou menos 14 horas“ falou Urias a Manoel que o acompanhava na busca dos cavalos. Ao falar o horário, Urias havia olhado a posição do sol como era de hábito fazê-lo, sua base de cálculo era supimpa, ou seja, a margem de erros era mínima.
--Vamos lá seu comedor de feijão! Vamos lá ver como você está no laço! Agora, que é a hora da onça beber água! Eu quero ver a giripoca piá! Agora que quero ver com quantos paus você faz uma canoa!
O menino preparou o laço com destreza, rodou-o sobre a cabeça, deu um grito de guerra, jogando certeiro na cabeça de ventania, conseguindo na primeira. A corda de couro envolveu o pescoço do forte animal, que, dando um forte arranco, levou o pequeno aprendiz ao chão, arrastando-o por uns metros pelo úmido pasto. Urias correu para ajudar, mas não foi necessária sua ajuda, pois, demonstrando que era tinhoso, o fedelho conseguiu ficar de pé e, fincando os dois pés no chão com habilidade e determinação, foi gritando com o quadrúpede até conseguir finalmente dominá-lo. Vermelho como tomate maduro, suando feito vapor de fervura, ofegante como velha locomotiva entregou a corda a Urias e disse zombeteiro:
--Mim conseguir cumprir tarefa, agora é a vez de grande chefe!
O traquejado vaqueiro errou a laçada uma vez, fez de propósito, pois era exímio laçador, já por várias vezes campeão de torneios na região.
Retornaram a casa, rindo muito e contando bravatas. Mané estufava o peito e bradava:
--O Ventania é muito mais ligeiro e bem mais forte que o Sultão, esse aí nem com reza brava, não tira farinha com o Ventania, é um pangaré. - dizia isso enquanto acarinhava com palmadinhas o forte pescoço do lindo animal, um robusto cavalo árabe branco como neve, com uma linda crina em um branco amarelado. Sultão, o menosprezado cavalo baio, não era aquilo que dizia o farofeiro Mané, era um mestiço muito forte e rápido, apenas não tinha uma beleza que impunha respeito, mas além de bom de montaria, era também um bom animal de tração.
Ao ouvir a maneira como Mané fazia comparação, Urias resolveu sair em defesa de Sultão, enumerando as qualidades de ambos. Fez questão de diferenciá-los apenas na beleza de suas estampas, mas completou em seguida:
--Vê se aprende seu porco espinho: a beleza não se põe na mesa!
As moças já aguardavam no alpendre, realmente eram duas lindas amazonas a caráter, pareciam mocinhas dos antigos filmes de faroeste americano, Suzy já foi dizendo:
--O meu é o Sultão, ele é mais manso e obediente - ao falar, parecia uma criança grande pulando e batendo palmas, ela demonstrava que sempre estava de bem com a vida.
Margot concordou imediatamente, pois Ventania, o fogoso cavalo branco era seu xodó, os dois conviviam desde quando o garanhão era um pequeno e frágil potrinho e praticamente fora a moça que o criara, tratando-o com mamadeiras e outros mimos; quem via o forte e belo animal, não diria que o mesmo havia sido um animalzinho doente quando pequeno.
As duas ginetes, demonstrando habilidades e conhecimento da arte de montar, pegaram as rédeas, pularam com destreza nas respectivas selas, Margot gritou:
--Bye! Bye! Dolôoo! Até la vista baby!
--Espera! Espera um pouco, leva um lanchinho que eu arrumei. - gritou, Dolores correndo com um embornal nas mãos.
--Não precisava, por que você foi se incomodar?
--Precisava sim, saco vazio não pára de pé! - ao pronunciar o conhecido dito popular, tirou uma generalizada gargalhada de todos. Pelo jeito a mania de Urias também contaminara Dolô.
--Tchau, tchau - gritaram as moças, atiçando suas montarias e saindo a galope. Gritando como verdadeiros índios xavantes, pensou Urias, com um olhar nostálgico lembrando de seu povo, em seguida chamando Manoel para cumprirem algumas tarefas no rancho. Dolores também foi para a labuta, pois estava amassando pão e queria assar antes do jantar. Dolores ainda costumava assar seus apetitosos pães, no forno a lenha, envolvendo-os em folhas de bananeiras, conforme ainda é costume na área rural. O pão de torresmo que ela fazia, era de dar água na boca, sendo considerado o favorito de Nicanor.
Lá na estrada, o jovem casal tentava coordenar suas idéias, acabavam de avistar a nave dos Owusplantex, sumir no infinito; de repente sentiam-se diferentes, como se acabassem de sair de um sonho, parecia que faltava alguma coisa, só agora percebiam que havia ficado tantas coisas para conhecerem.
Ficaram uns bons minutos parados, mudos, cada um com seus pensamentos, cada um com suas dúvidas.
Depois de um determinado tempo, Nicanor falou com carinho, soltando um profundo suspiro.
--Vamos embora santinha, vamos para casa, teremos muito tempo para entender o que realmente nós passamos.
Samanta continuava em silêncio; como uma sonâmbula entrou no carro; Nicanor deu a partida, funcionou o carro, pegando a estrada. Rodou mais ou menos uns dois quilômetros, quando percebeu que estava voltando para a cidade, só então foram perceber que, ao desembarcarem, o carro havia ficado na direção contrária. Realmente os dois estavam desorientados, a carga emocional havia sido muito grande, só com o tempo as coisas voltariam ao normal.
Virou o carro em uma pequena curva do caminho e exclamou rindo:
--Puxa vida, parece que fiquei maluco. - ria nervosamente e tenso, tentando demonstrar tranqüilidade:
--
--Hei santinha! O que foi? Perdeu a língua? Fala alguma coisa.
--O que você quer que eu fale? Eu só estou tentando coordenar minhas idéias, minha cabeça parece que vai entrar em parafuso. Fala você, como nós vamos contar tudo isso para os outros, ninguém há de acreditar em nós.
--Que isso santinha, nós não vamos contar para ninguém, você já esqueceu o que Gallus pediu? Se tivermos de contar, eu penso só em contar para o Urias. Pois além de sua experiência, sabe ouvir e é de plena confiança. O que você acha?
--É, acho que você tem razão. - concordou Samanta que continuava com seu olhar distante, aparentando que mil pensamentos povoavam sua cabeça ao mesmo tempo. Depois de alguns segundos em silêncio, perguntou:
--Que horas que é agora Nic?
--Não sei santinha, meu relógio parou de funcionar às 11:47 horas - falou Nicanor olhando para o antigo relógio Orient cinco estrelas que havia herdado do falecido pai. E então os dois foram perceber que o relógio havia parado mais ou menos na hora que encontraram com a nave. Foram fazendo suas comparações, analisando quanto tempo haviam ficado com os owusplantex. Mas logo em seguida cruzaram com um vizinho que vinha do lado oposto com sua velha carroça. Nicanor parou o carro no encostamento e ouviu:
--Boas tarde! Seo Nicanor, boas tarde dona Samanta!
--Boa tarde! Senhor Genésio, como vai o senhor? E dona Ana e o pessoal como vão?
--Tudo bem, graças ao nosso bom Deus, pedindo que ele mande uma chuvinha, o sol está de estralar mamona, não é verdade Seo Nicanor?
--É, é verdade o calor está bem forte; e falando nisso que horas o senhor tem aí no seu relógio, o meu parou de funcionar.
--Bom, deixe ver, é, são, são duas e vinte em ponto tá quaji na hora do café.
--É verdade, senhor Genésio, muito obrigado.
--Oh! Seo Nicanor, o senhor e sua patroa, por acaso viram aquela luz que passou agorinha mesmo no céu? Parecendo uma estrela voando, piscando, piscando e depois sumiu?
--Estrela! Que estrela é essa, Senhor Genésio? Estrela de dia? Nós não chegamos a ver não. Será que não é o sol, Senhor Genésio?
--É, acho que era mesmo, sou eu que tô ficando com a vista curta.
--Até loguinho, Seo Nicanor até loguinho dona Samanta, mande lembranças pro Urias, e a Dolores, vão com Deus!
--Até logo senhor Genésio. Dê um recado para dona Maria passar lá em casa para ver uns guardanapos novos que eu acabei de bordar. Falou Samanta. - vendo o marido ser obrigado a mentir, fraqueza que não fazia parte de sua personalidade.
--Até mais ver senhor Genésio, saudações e recomendações para dona Maria e todo o pessoal, muito obrigado pela hora.
--Vamos para casa santinha. Lá pelas três estaremos lá na porteira mal assombrada, acho que vamos pegar chuva na estrada, lá pelas bandas de casa já está chovendo. - o carro retornou a rodar enquanto o casal ia relembrando as últimas horas vividas. Pouco a pouco assimilavam a realidade.
Lá em Santa Margarete, duas lindas sereias banhavam-se lá na cachoeira...
Tudo isso e mais no próximo capítulo!
Twitter | Comunidade no Orkut | Definir Página Inicial | Adicionar aos Favoritos
Busca no site
Digite abaixo a palavra chave.
|
Atenção: Para visualizar corretamente este site é necessário resolução mínima de 1024 X 728.
Desenvolvido pelo estúdio gráfico vanmix - SP
© Copyright 2002 - 2010 vanmix.com todos os direitos reservados