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Parte XVIII

Publicado por: luis.campos
Data: 31/01/2009
Hora: 20:28:40
Página: biblioteca_ler
Na categoria: x
Leituras: 95

 

Assim que eles perderam a cegonha de vista, recomeçaram a marcha de
volta à estrada de tijolos amarelos...

- Tive medo de ficar dentro do rio o resto da minha vida! - confessou
o espantalho.

- Nós não sabíamos como salvá-lo, mas não desistiríamos nunca!

- Obrigado, amigo Danyl!

Agora ouviam o canto dos pássaros e admiravam a beleza do campo:
flores amarelas, brancas, azuis, roxas e vermelhas estendiam-se como um
tapete na orla do rio. Mais adiante estas flores foram substituídas
por canteiros de papoulas rubras, de um exuberante colorido e perfume
inebriante. Como o odor da papoula pode causar sono e até provocar a
morte, Dorothy, que se aproximara demais das papoulas, sentia as
pálpebras pesadas e caiu adormecida no meio destas flores. Ao vê-la no
chão, Danyl correu em seu socorro...

- E agora? - perguntou, perplexo, Danyl.

- Se abandonarmos Dorothy aqui, fatalmente ela morrerá! - ponderou
Scarecrow.

- Eu mal consigo manter os olhos abertos! - disse Lyon.

- E eu também! Até Totó dormiu! - disse Danyl.

- Danyl e Lyon, saiam daqui! Eu e o Scarecrow levaremos Dorothy e Totó
para um lugar seguro! - disse Tin Man.

No mesmo instante Lyon e Danyl desapareceram. Scarecrow e Tin Man
fizeram uma cadeirinha com os braços e transportaram Dorothy, colocando
Totó no colo da menina. Andaram por um bom tempo e encontraram Lyon
caído, dormindo entre algumas papoulas. O campo das papoulas parecia
não ter fim, até que, finalmente, após uma curva do rio já não havia
qualquer destas flores. Scarecrow e Tin Man andaram mais um pouco e
encontraram Danyl dormindo sob uma árvore, à beira do rio. Deitaram
Dorothy e Totó ao lado dele e sentaram-se para descansar...

- Mesmo para um leão robusto como o Lyon, o aroma dessas flores é
violento demais! - falou Tin Man.

- Pelo menos, onde estamos agora, eles não correm perigo!

- Teremos que trazer o Lyon para cá!

- E como faremos isso, Tin?

- Eu não sei, Scarecrow, mas teremos que dar um jeito!

- É verdade! Se Lyon ficar lá por muito tempo, é capaz de morrer!

Scarecrow e Tin calaram-se, aguardando que o vento acordasse os amigos.
Os dois, em vigília, passaram a noite. Já eram quase nove horas do dia
seguinte, quando Dorothy despertou. Pouco depois foi a vez do Danyl e
em seguida, do Totó. Depois que a menina se restabeleceu, Scarecrow
deu-lhe algumas frutas, bem como ao Danyl e ao Totó...

- Que aconteceu?

- Você, Danyl, Totó e Lyon foram narcotizados pela papoula, Dorothy!

- Caramba! E eu dormi muito?

- Você, Danyl e Totó dormiram desde ontem à tarde!

- Cadê o Lyon, Tin? - perguntou Dorothy.

- Ele está caído perto das papoulas e está adormecido desde ontem!

- E agora? Que faremos, Scarecrow?

- Se eu tivesse cérebro, Danyl, saberia o que fazer... acho!

- O Lyon, coitado, deve estar sofrendo com aquele fedor terrível!

- Acho que não, Tin, pois está entorpecido pelo cheiro da papoula!

- Eu sei, Scarecrow, mas ele ainda não acordou!

- E eu acho que não acordará tão cedo, Tin!

- E agora, Danyl... o que faremos?

- Eu acho que devemos aguardar o Lyon despertar, Dorothy!

- E se ele não acordar, Danyl?

- Será que ele morreu, Tin?

- Acho que... ainda não, mas corre esse risco, Dorothy!

- Temos que tirá-lo de lá, Dorothy!

- Eu sei, Tin, mas como?

- Lyon é pesado demais para que possamos carregá-lo, Dorothy!

- Teremos de deixá-lo aqui, dormindo por toda a eternidade. É capaz
dele sonhar que encontrou a coragem!

- Não podemos fazer isso, Danyl!

- Sinto muito! - disse o espantalho. - O Lyon, apesar de covarde,
era um bom sujeito!

- Mas temos de ir em frente!

- Nada disso, Danyl! Vamos esperar mais algum tempo!

- Tudo bem, Dorothy... eu não tenho pressa mesmo!

E eles continuaram ali sentados. Cerca de uma hora depois eles ouviram
um miado agressivo...

- Que foi isso? - indagou Dorothy.

O homem de lata ia responder quando avistou um estranho animal que
avançava aos pulos sobre um capinzal perto do local onde eles estavam.
Um enorme gato-do-mato, orelhas coladas à cabeça, a boca escancarada,
deixando à mostra duas fileiras de dentes assustadores. Seus olhos
brilhavam como fogo. O lenhador viu, correndo desesperado à frente da
fera, um ratinho cinzento. Apesar de não ter coração, Tin sabia que
aquele gatão não se comportava de maneira decente ao perseguir um
bichinho tão pequenino e que lhe pareceu inofensivo e até bonitinho.
Tin Man ergueu seu machado e, quando a fera passou por ele, decepou-lhe
a cabeça. Livre do inimigo, o camundongo parou e agradeceu ao seu
salvador...

- Obrigada, Senhor Lenhador!

- Por nada, amigo...

- Amiga, Senhor...

- Meu nome é Tin Man... sou um homem de lata e estou sempre pronto a
ajudar os mais necessitados... mesmo que seja apenas uma ratinha!

- "Apenas uma ratinha"! - exclamou a ratinha, indignada.

- Eu não quis ofendê-la, Madame!

- Pois saiba que sou uma rainha... a Rainha dos ratos silvestres!

- Mil perdões, Majestade! - disse Tin, curvando-se numa reverência.

- Salvando minha vida, o Senhor executou um feito importante, além de
ter praticado um ato de bravura!

Nesse momento, de dentro do capinzal, saíram centenas de ratinhos...

- Oh, Alteza, pensamos que tivesse morrido! - disse um dos ratinhos.

- Como escapou das garras do monstro, Majestade? - perguntou um outro.

Os demais ratinhos do bando, à proporção que chegavam diante da rainha,
saudavam-na com salamaleques exagerados.

- Este estranho homem de lata matou o gato e me salvou, Ministro!

- Em nome da nação dos ratos silvestres de Oz, agradecemos por ter
salvo nossa rainha e parabenizamo-lo pela proeza!

- Como gratidão e por seu ato de louvor, devemos satisfazer todos os
seus caprichos!

- Perfeitamente, Majestade! - guincharam os ratinhos em coro.

Totó, ao ver aquele bando de ratos, pensou logo em brincar com eles,
como fazia na fazenda dos tios de Dorothy...

- Au au au au!

Ao ouvirem o latido e o cachorrinho, os ratos debandaram em todas as
direções. Imediatamente Tin carregou Totó...

- Calma, gente... ele só queria brincar com vocês! - gritou Tin Man.

Botando a cabeça pra fora, do meio duma touceira, a rainha dos ratos
perguntou timidamente...

- Tem certeza de que ele não vai nos atacar?

- Pode ficar tranqüila, Majestade! - respondeu o homem de lata.

Embora desconfiados, os ratinhos foram se aproximando. Um dos maiores
fez uso da palavra, curvando-se numa reverência...

- Podemos fazer alguma coisa em retribuição ao seu nobre gesto?

- Que eu saiba, nada! - respondeu Tin.

O espantalho aproximou-se do homem de lata e dos ratinhos...

- Podem, sim: podem salvar um leão amigo!

- Um leão? - sobressaltou-se a rainha. - Ora, ele vai nos devorar!

- Qual nada! - retrucou o Scarecrow. - O nosso leão é um covarde!

- É mesmo? - perguntou a Rainha, admirada.

- Estamos indo à Cidade das Esmeraldas para pedirmos alguns
benefícios ao Mágico de Oz... e ele vai pedir pra ser corajoso!

- Foi ele mesmo quem disse! - completou Tin.

- Garanto que, quando ele souber que vocês salvaram a vida dele, vai
tratá-los com gratidão, educação e respeito! - disse Dorothy, que se
aproximara do grupo.

- Está bem! - consentiu a Rainha. - confiaremos em vocês!

- Que devemos fazer? - perguntou o rato ministro.

- São muitos os seus leais súditos? - perguntou Dorothy.

- Milhares, milhares! - respondeu a rainha.

- Então, chame todos aqui... e que cada um traga consigo um barbante
comprido! - falou Dorothy.

- Ministros... convoquem todo o nosso povo! Quero todos aqui e com um!
bom pedaço de cordão!

- Sua ordem será cumprida, Majestade! - responderam os três ministros,
a uma só voz.

Os ratinhos desapareceram em todas as direções. Scarecrow virou-se para
Tin...

- Agora, amigo Tin, é com você!

- Qual é a idéia, Scarecrow?

- Vá até a margem do rio e faça uma carreta capaz de transportar Lyon!

O lenhador fez rapidamente uma carreta de madeira. Pouco depois, os
ratinhos começaram a chegar de todos os lados, aos milhares, pequenos,
médios e grandes, cada um trazendo nos dentes um pedaço de barbante.
Dorothy ficou de boca aberta ao ver-se cercada por milhares de ratos.
Os camundongos a olhavam com espanto e timidez, mas ao verem sua rainha
conversando amigavelmente com a menina, descontraiam. Scarecrow e Tin
Man, com os barbantes em forma de laço, ataram os ratinhos à carreta,
depois os guiaram até onde estava Lyon. Foi uma dificuldade colocar o
leão na carreta, mas os ratinhos eram incentivados por sua rainha e,
com a ajuda do espantalho e do homem de lata, conseguiram colocá-lo
sobre esta, bem como puxar a carreta até onde ficara Dorothy. Assim
que chegaram ali, foram desatados da carreta por Scarecrow e Tin...

- Obrigada, amigos! - agradeceu Dorothy, com entusiasmo.

- Se precisarem novamente de nós, é só soprar este pequeno apito que
viremos! Adeus, amiga!

- Obrigada, amiga! Adeus, amigos!

- Adeus! - responderam todos os ratinhos, dispersando-se pela relva,
indo cada um para sua casa. Dorothy, com Totó nos braços, Scarecrow e
Tin Man foram sentar-se junto a Danyl que, durante todo esse movimento,
dormira um bom sono...

- Agora vamos esperar que Lyon acorde para prosseguirmos nossa viagem!

- É isso aí, Dorothy! - disse Tin Man.

Pelo meio da tarde o leão despertou. Tin Man contou-lhe como ele fora
salvo e ele ficou muito agradecido aos amigos. Levantou-se da carreta,
deu uma espreguiçada, um bocejo e deu uma corridinha para esticar as
pernas...

- Já estou em forma, pessoal! Podemos partir!

- Vamos procurar a estrada dos tijolos amarelos! - disse Dorothy.

Acordaram Danyl e se puseram a caminho...

Vocês vejam como a vida é engraçada: eu sempre me achei o máximo, mesmo
sendo um covarde e fui derrotado por umas flores de nada e salvo por
pequenos camundongos!

- Agora você aprendeu que, tamanho não é documento! - disse Danyl.

- Pois é, amigo Lyon, vocês que são de carne e osso pensam que são
fortes e que podem tudo, mas não é verdade!

- Você está certo, Scarecrow! - disse Tin Man.

Após alguns minutos de caminhada sobre a relva verde e macia, eles
encontraram a estrada que os levaria à Cidade das Esmeraldas. Com
prazer, descobriram que o calçamento era perfeito, a paisagem alegre
e , entusiasmados, viram que a cerca que ladeava a estrada agora era
pintada de verde e, aqui e ali, havia uma casinha na mesma cor...

- Que alívio, gente, ver essa cerca verdinha! - exclamou Dorothy.

- Acho que já estamos chegando à Cidade das Esmeraldas!

- É possível que, depois daquela curva, já avistemos a cidade, Tin!

- Estou tão ansiosa! - disse Dorothy.

- Acho que todos nós sentimos o mesmo, Dorothy... até mesmo o Totó!

- Au au au au!

- Eu não disse! Hahahahaha! - falou Danyl, dando uma boa risada.

- Hahahahahahaha! - Sorriram todos.

À proporção que caminhavam, aumentava o número de habitações e os
moradores de algumas dessas casas, curiosos, chegavam à porta só
para ver o estranho cortejo composto de uma menina, um cachorrinho, um
gato que andava como gente, um espantalho, um homem de lata e aquele
enorme leão. Todos se vestiam de verde e tinham chapéus pontiagudos,
iguais aos usados pelos Pimpolhos que foram libertados da escravidão
quando a casa de Dorothy caiu sobre a da Bruxa Má do Leste, matando-a
soterrada. Pareciam querer puxar conversa, mas a presença de Lyon era
bastante para que se retraíssem amedrontados...

- Só pode ser o Reino de Oz! - observou Dorothy.

- Devemos estar bem perto da Cidade das Esmeraldas! - completou Tin.

- É mesmo! - concordou o espantalho.

- Tudo aqui é verde. no País dos Pimpolhos era azul! - disse Danyl.

- O povo não parece tão simpático! - disse Lyon.

- É você quem os assusta, Lyon! Hahahahaha!

- Ora, Danyl... eles teriam medo de um leão covarde como eu?

- Mas eles não sabem disso, Lyon! - disse Scarecrow.

- Você já comprovou que não é nem um pouco covarde, Lyon!

- Obrigado, Dorothy, mas sei que sou medroso!

- Acho que não vai ser fácil encontrar hospedagem por estas bandas!

- Talvez não, Lyon... pode ser que encontremos um certo baiano ou uma
simpática niteroiense! - Falou Dorothy.

- Eu também acho! - concordou Danyl.

 

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