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Mais que um beijo.
| Data: | 09/04/2008 |
| Hora: | 18:14:20 |
| Publicado por: | vander.christian |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
Mais que um beijo.
Não quis que ninguém soubesse do retorno do namoro entre eu e o Edson, tirando a Juliana e a Carla. Eu ainda não estava convicta que daria certo.
As férias chegaram ao fim para tristeza minha o mês de agosto entrou trazendo um monte de trabalhos escolares. Setembro chegou num piscar de olhos, trazendo agora o aniversário do Valter. Sempre muito discreto, ele reunia os amigos e ia para a pizzaria fazer bagunça.
Depois de muita reflexão, decidi que se era pra mim ficar numa boa com o Edson, teria também que fazer as pazes com o Valter.
No dia do seu aniversário, eu cheguei da escola fui para a casa dele. Caminhei lentamente pensando no que ia dizer. Cheguei e já fui entrando; queria ver ele dizer que não ia me receber. Não estava na sala; fui à cozinha, também não estava, no início do corredor que dava para os quartos eu o chamei.
Apareceu penteando os cabelos.
- Me desculpa ir entrando sem chamar é que...
- Tudo bem. Não tem importância.
Percebi que o Valter tinha acabado de tomar banho.
- Aconteceu alguma coisa Joyce pra você vir até aqui? – falou – Parece que você quer dizer alguma coisa.
- Eu vim te dar os parabéns e desejar que essa data se repita por muitos e muitos anos; que você consiga realizar todos os seus sonhos, nunca desista deles, vai em frente!
- Obrigado. Obrigado mesmo pela força.
Sorriu timidamente eu retribuí o sorriso.
- Você quer um suco? – o ofereceu – Tava saindo do banho...
- Aceito sim e se você deixar eu faço o suco.
- Então vamos.
Foi na cozinha que tudo aconteceu. Ao pegar a lata de açúcar eu deixei cair à tampa no chão e no momento que fui pegar o Valter também se abaixou para pegar. A sua mão tocou a minha. Não foi a mesma sensação de antes; era como se o meu corpo estivesse levado um choque... Foi ali o nosso primeiro beijo. Mas não ficou só no beijo. De repente um desejo invadiu o meu corpo e o dele, desejávamos a mesma coisa...
E não conseguimos resistir a essa tentação.
******
É difícil como eu me senti depois do que aconteceu naquele dia. Fiquei mais confusa ainda; decididamente eu precisava de ajuda, mas quem poderia me ajudar? Lembrei-me de um colega que tinha quase a idade de papai, era médico super inteligente e poderia me ajudar. Como casa dele era perto do hospital onde trabalhava, fui até lá. Quebrei a cara; o vi com uma amante. Voltei arrasada pra casa, notei que tudo tava errado. Será que eu estava sendo uma galinha, como dissera a irmã do Edson?
Bem, o Valter me perdoou. Não trocou de turma, mas todos os dias na hora do intervalo vinha conversar comigo. E quando falei que estava namorando com o Edson, não falou nada, mudou de assunto, sobre o acontecimento do dia do seu aniversário também não conversamos mais.
Quando pareceu estar tudo resolvido, que tudo ficaria por isso mesmo, veio uma bomba pra cima de mim, uma bomba que eu não esperava e não estava preparada...
Fui na casa da Juliana fazer um trabalho de biologia durante a manhã. Na hora do almoço ela me veio com aquele molho de bacalhau... Senti um enjôo, veio uma ânsia de vomito, pedi pra ela levar aquele molho o bem longe o possível de mim. Foi só, ficou nisso.
De tarde fui pra casa, na hora da janta comi um pouco, na boa, sem sentir nada.
Só que de noite a ficha caiu. Eu sempre adorei bacalhau ao molho e aquele enjôo eu nunca tinha sentido e tinha mais; a minha menstruação estava atrasada. Vários pensamentos vieram em minha cabeça. Em pânico não consegui dormir.
No outro dia estava péssima. Fui beber o café com leite não consegui. Sorte que fui à última a levantar; papai e mamãe tinham ido caminhar. Não consegui almoçar, saí fui andar para tentar organizar os pensamentos. Eu precisava era ter certeza, de repente eu nem tava grávida.
Precisava comer, melhorar a cara, só que não conseguia, vinha uma inquietação... Era a insegurança por não ter usado camisinha. Eu só iria ficar tranqüila se tivesse certeza. Com o coração a mil fui até a farmácia comprar um daqueles testes.
Nem voltei pra casa; entrei no banheiro da praça mesmo. Fiquei tonta quando o teste deu positivo.
Chorei. Soquei várias vezes a parede do banheiro, quebrei o espelho quando vi a minha imagem refletir nele. Lembrei-me de tantas as vezes que prometi a mim mesma, que não engravidaria solteira. Dos professores dizendo que não valia a pena perder a virgindade sem existir amor. Das palestras que assisti, dos filmes, das novelas, todos eles diziam para se prevenir... Eu falhei, chutei a porta com raiva, mas quebrar as coisas não iria resolver os meus problemas, me lembrei da minha mãe... E do meu pai dizendo que não suportaria. Quase fui atropelada ao atravessar a rua sem olhar, estava sem rumo e nem direção, perdida estava sozinha.
Sentei-me encostada no muro. A culpa era minha, eu não tinha nada que ter ido na casa do Valter naquele dia, caramba! Eu não tinha que ter aceitado transar com ele sem camisinha, culpa era e é minha!
Como eu ia chegar em casa e dizer que estava grávida e que o pai era o meu melhor amigo?! Como eu ia olhar pra minhas amigas? Como seria a minha vida dali pra frente? Não, eu não estava preparada...
Com a cabeça quente do jeito que eu estava, acabei tendo a idéia mais louca e mais feia que existe. Não procurei as minhas amigas, não fui contar pra minha mãe, como deveria fazer.
******
Resolvi me isolar. Não ia falar pra ninguém que estava grávida e abortaria esse filho...
É crime esse aborto se for ilegal, eu iria tentar ajuda com algum médico. Sempre ouvi dizer que se for ter um filho e não ter recurso era melhor tirar e eu não teria recursos porque, com certeza papai me expulsaria de casa e se fosse para o meu filho nascer eu ter que abandona-lo em um orfanato eu preferia abortar, pelo menos eu não o veria nascer. Sequei as minhas lágrimas e fui pra casa decidida a ir no hospital na segunda-feira.
******
Era loucura o que eu planejei em fazer. Marquei a consulta com o Robson, meu colega. Estava disposta a tudo pra continuar ao lado de meus pais e dos meus amigos. Fui à última a ser consultada.
- Joyce?! Você aqui, aconteceu alguma coisa? – o estranhou a me ver entrar.
- Aconteceu, Robson. É só você que pode me ajudar.
- Você está sozinha? Cadê a sua mãe?
- Eu estou sozinha, minha mãe não sabe que to aqui, ninguém sabe.
- Certo. O que está acontecendo?
- Robson, eu estou grávida!
Ele mudou a sua fisionomia. Deixou escorregar a caneta em suas mãos.
- Espera aí – balbuciou ele chegando mais próximo de mim para ouvir melhor. – Você disse que está...?
- Grávida.
A sua boca se abriu.
- Joyce, você...! Eu não posso acreditar!
- Eu também não quero acreditar – falei começando a chorar. – Mas é verdade.
- Alguém sabe que você está grávida?
- Não.
Ele se levantou e pediu pra mim ficar calma.
- Eu vou fazer algumas perguntas e vou pedir também uns exames para...
- Não vai precisar, Robson.
- Como não vai precisar, Joyce?
- Eu quero abortar essa criança.
O meu coração batia fortemente. A minha boca estava completamente seca. O Robson se aproximou de mim e disse firme:
- Você não vai tirar essa criança. Eu não vou deixar.
Não contava com aquilo. Eu sabia que ia ser difícil, mas contava com a ajuda do Robson.
- Robson, você sabe muito bem que eu não posso ter essa criança, isso destruiria toda a minha família!
- O aborto é um crime, Joyce! Se você veio até aqui pra buscar a minha ajuda eu vou te ajudar, mas para que você encare tudo que vier a sua frente de cabeça erguida. Vai ser difícil para seus pais entenderem, vai ser difícil para você ter que encarar tudo isso, contudo é o que se deve fazer.
- Essa gravidez não estava nos meus planos, Robson, eu não quero ter esse filho! O aborto é um crime se for ilegal, mas eu estou aqui, dentro de um hospital e conversando com um médico!
- As coisas não são tão simples assim, Joyce como você está pensando. Abortar uma criança, não é como tirar um dente, você vai estar pondo um fim na vida de um ser que está sendo gerado por você e que é o seu filho!
- Se for pra essa criança sofrer, é melhor que ela não seja gerada!
- Por que você vai sofre, Joyce? Eu conheço você e tenho certeza de que será uma boa mãe, assim como os seus pais serão bons avós.
- Eu não estou preparada ainda pra sua mãe, Robson, você vai me ajudar a fazer o aborto. Toda mulher tem o direito de ter um filho.
- Deveria ter pensado nisso antes. Uma mulher escolhe se quer ser mãe ou não, antes de ficar grávida. Não seja ignorante, Joyce, vai por um fim na vida de seu futuro filho, porque está com medo de ser mãe.
- Você não conhece os meus pais direito! Eles vão me matar, se eu errei fazendo sexo sem camisinha, quero concertar o erro agora. Você acha que eu seria feliz em ter um filho sem vontade?
- Não se repara um erro com outro erro, Joyce? Pensa um pouco, você é inteligente! Agora mesmo que a tua mãe vai te matar só porque você está grávida? Acha que você vai passar esses nove meses sem ter ajuda de ninguém?
- Eu não quero, Robson, quando o meu filho estiver grande eu olhar para ele e me lembrar que eu não queria ter ele eu não quero que ele saiba o quanto os meus pais sofreram com isso! Se o aborto é um pecado, Robson, pecado maior é ter um filho sem querer!
- Você vai aprender a amá-lo! Todos vão amá-lo. Tira essa idéia louca da sua cabeça, por favor.
- Sou eu que vou levar o nome de irresponsável. Não vai ser a minha mãe, não vai ser o meu pai, não vai ser você e nem o pai dessa criança, não vai nenhum de vocês que vai ser apontado nas ruas, que vai ser falada; vai ser só eu, como se eu tivesse feito sozinha o filho!
- Aí vai depender de você, Joyce. Se você for forte como parece ser, encare isso de cabeça erguida com orgulho.
- Eu não vou conseguir ter orgulho de estar grávida com dezessete anos, Robson! Eu não quero ter esse filho!!
Fui até a porta. Com a mão na maçaneta da porta falei:
- Se você não me ajudar, eu conto pra sua mulher e pra suas filhas que você tem uma amante!
Robson empalideceu-se. Ficou por um momento pensando no que dizer, quando falou tinha um toque de rispidez na sua voz.
- Por favor, Joyce, eu quero o seu bem. Eu sou um médico formado há oito anos. Durante todos esses anos eu vi muitas crianças nascerem; pra mim isso é uma felicidade enorme, é um dever cumprido. Nós fazemos um juramento pra salvar vidas não acabar com elas.
- Ah é? Do que adianta você falar em juramento? Você jurou no altar da igreja que seria fiel a sua esposa! Você é fiel?
- Isso não está em questão agora, Joyce, é em você que você tem que pensar agora.
- Eu posso acabar com o seu casamento! Quantos anos ela tem? Diz! Quantos anos ela tem? Dezessete? Fala!
- Deixe os acontecimentos da minha vida fora do assunto, Joyce. Você pode fazer o que quiser, mas eu não vou permitir que você tire essa criança.
Perdi a cabeça. Com as duas mãos empurrei a estante que estava próxima de mim.
- Não faz isso, Joyce! – pediu o Robson tentando me segurar.
- Você não disse que eu posso fazer o que eu quisesse?! – falei chutando as cadeiras.
- Eu vou acabar com tudo isso aqui!
Consegui me livrar dele. Virei a sua mesa com toda a força e empurrei a porta que dava pra sala de parto.
- Joyce, isso não vai fazer bem pra você, procura ficar calma!! – pediu Robson urgentemente.
- Ficar calma por quê?! Você vai me ajudar?! Você não presta é um cafajeste, que só presta pra enganar os outros!!
Quebrei mais coisas. Logo entrou um médico e uma enfermeira atraídos pelos meus gritos.
- O que está acontecendo aqui? – perguntou o médico com ignorância.
- Ele está se recusando a me ajudar, ele não é um profissional como...
Não falei mais nada, senti uma agulha entrar em minhas costas e depois a escuridão.
******
Quando retornei a abrir os olhos, estava deitada em um sofá com o Robson sentado na minha frente.
- O que aconteceu? – perguntei me levantando.
- Está tudo bem Joyce. Agora vamos conversar calmamente.
- Quem me deu aquela coisa que me fez apagar?
- Fui eu. Você ia destruir tudo e estava chamando a atenção com os seus gritos.
- Robson, por favor...
- Sou eu que peço por favor, Joyce. Ouça o meu pedido: tira essa idéia boba da sua cabeça. Eu chamo a Milena aqui agora e termino o nosso romance escondido de três meses. Eu vou com você na sua casa e te ajudo a falar para os seus pais! Eu faço tudo que você quiser! Mas não tire essa criança!
Chorando abracei o Robson. Ele estava certo; eu tinha que ser forte. Tinha que ser mulher!! Só que não seria fácil.
- Obrigada – eu disse olhando para o rosto do meu amigo; notei que ele também olhava. – Obrigada por tudo.
Tornei a abraçá-lo. Respondi todas as perguntas que ele me fez. Foi aí que me senti mais leve. Eu não estava só, tinha o Robson. Ao sair do hospital fui até a capela. Pedir forças a Nossa Senhora Aparecida...
- Nossa Senhora Aparecida, tu que és mãe me ilumine, me cubra com o seu manto, me dê forças para encarar o que virá pela frente. Eu lhe peço Nossa Senhora: dai-me coragem. E prometo levar a fé para todos aqueles que necessitam de ajuda. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
******
Pisei os pés em casa e não foi como das outras vezes. Não ia falar para os meus pais naquele dia. Senti-me suja ao dizer para minha mão que eu estava na lanchonete com o Edson, a partir daquele dia passei a ser uma traidora para os meus pais, eles depositaram em mim toda a confiança e por minha vez não correspondi.
Senti-me mais suja ainda ao me lembrar do Edson, nós estávamos bem! E tinha o Valter, como ele reagiria quando soubesse? Ser pai era o seu maior sonho. Senti ódio de mim por querer acabar com o sonho do Valter. Porém de tudo restava ainda um dúvida: como eu ia fazer com os dois? O Edson era o meu namorado e o que o Valter era? Meu amigo. E eu engravidei dele. Nós três íamos sair feridos com certeza.
Foi uma noite péssima. Não podia ser melhor, a hora da verdade estava chegando. Decidi que com o Edson e o Valter eu me entenderia depois. De manhã fui para a escola completamente aérea.
- Nossa, Joyce hoje você está daquele jeito. O que aconteceu com, hein? – disse Juliana
O Edson não apareceu na escola e o Valter também não. Na medida em que a tarde ia chegando ao fim, fui ficando mais calada. Às seis da noite papai chegou do serviço, tinha chegado à hora. A campainha tocou anunciando a chegada do Robson. Mamãe estranhou ao vê-lo entrar e me complementar. Já o meu pai não estranhou, ficou dói contente em recebê-lo.
Era costume nosso jantarmos as oito da noite, então mamãe serviu café com bolo para o Robson. O assunto demorou no futebol, depois foi para a violência. Quando o assunto entrou no numero de crianças nascidas durante o ano, o meu coração disparou. O Robson olhou para mim e não adiantava fugir, desviando o olhar de mim ele iniciou o que seria pra mim o pior dia e o pior momento da minha vida.
- Bruno eu vim até aqui numa hora dessas para conversar um assunto muito sério e peço para e para a Célia que fiquem calmos. Vai ser difícil eu sei mas, tentem ficar calmos, por favor.
- O que aconteceu, Robson? – perguntou mamãe... Cobri o rosto com as mãos.
- A Joyce foi me procurar ontem – disse Robson cautelosamente – Para e pedir ajuda e eu disse que ajudaria.
- Você Joyce? Ta com algum problema? – quis saber meu pai, continuei com as mãos no rosto.
- Ela está com um problema sim, Bruno. Porém não é um problema grave.
- Que problema você tem filha? – perguntou mamãe já nervosa.
- A Joyce, Célia ela ta grávida.
Ergui a cabeça chorando e vi mamãe abrir a boca e levar as duas mãos na boca como que para abafar o grito, só que não saiu grito nenhum. Já papai nem se mexeu, ficou parado como se o Robson não tivesse dito nada.
- Filha, diz que isso é mentira!
- Não é mãe – falei chorando – Me desculpe mãe mas, eu to grávida.
- Não... Assim você acaba comigo, Joyce. Tanto que te avisei, tanto que eu te pedi!
- Eu não queria mãe, eu juro que não queria que isso fosse verdade!
- Como isso foi acontecer, Joyce? Sempre que você saía eu falava pra você se cuidar pra ter juízo! Não valeu de nada, né? Você fingia que me ouvia, era isso?
- Claro que não, mãe eu sempre ouvi o que a senhora dizia só que eu não consegui me segurar! A culpa não é sua mãe, a culpa é toda e só minha!
Robson ouvia calado. Papai continuava do mesmo jeito, sentado no sofá com os olhos em mim e em mamãe.
- Grávida com dezessetes anos, Joyce! Você não tem vergonha?! As suas amigas todas aproveitando a juventude, procurando uma vaga nas faculdades, procurando um trabalho e você grávida! Você sabe com quantos anos eu engravidei de você?! Com vinte e cinco anos e eu já estava casada com o seu pai!!
- Mãe, eu não queria ter esse filho eu ia tirar mais o Robson não deixou!
- Quê?! – foi papai quem gritou. Era a primeira vez que ele falava.
- É isso mesmo, Bruno. – disse Robson – ela queria tirar o bebê eu que não deixei.
- Ficou louca, Joyce? Acha pouco o fato de estar grávida?
- Pai eu tenho medo do que...
- Pra ficar grávida você teve medo.
- Eu não quero esse filho! – gritei.
- Agora vai ter! – retrucou papai quase gritando. – Você vai ficar com ele aí na sua barriga durante nove meses, pra você ver como é difícil ser mãe!
- Calma, Bruno – pediu Robson.
A mãe, como eu esperava, disse um monte de coisas que fez eu sentir uma vergonha enorme. Papai não disse muita coisa somente acrescenta algumas coisas nas falas de mamãe. O Robson foi embora logo depois de dizer que o começo da minha gravidez estava ótimo. Após a sua saída, corri para entrar no quarto e chorei muito.
Me lembrei de quando era uma criança. Não sabia que naquele tempo eu era feliz. Acordava cedo e brincava a manhã inteira. Depois a tarde toda e de noite ia dormir tranqüila sem quase acordar. Na infância eu não tinha preocupação... Era feliz e não sabia. Mamãe chamou na porta, queria me ver eu não queria ver ninguém. Ela insistiu tive de abrir a porta ia ser assim agora, não tinha como fugir.
- Como você está se sentindo?
- Bem – respondi tentando disfarçar.
- Eu não queria que fosse assim. Tinha sonhos... Mas já que aconteceu... Eu quero te ajudar em tudo e estar sempre ao seu lado.
Ela me abraçou. Então agradeci a ela por tudo que ela tinha feito por mim e tudo que ainda iria fazer.
- O Edson já sabe? – perguntou ela sorrindo.
Tive vontade de sumir. Não sabia o que responder. Fiquei em dúvida se falava ou não que o filho era o Valter. O que mamãe ia pensar de mim? Que eu era uma galinha como dissera Liza.
- Não – respondi sem convencer.
- Ele precisava ficar sabendo. Se você quiser eu chamo ele até aqui aí vocês conversariam melhor e...
- Não mãe, não precisa, amanhã talvez eu falo com ele.
Mas eu não tinha muita certeza se teria coragem de contar para o Edson que o filho não era dele. Só que logo a verdade chegaria em seus ouvidos então eu precisava agir. Contei tudo para a Juliana e ela ficou do meu lado. Grande amiga a Juliana mas, ela também me falou um monte de coisas e me aconselhou a falar primeiro com o Edson e não conseguia nunca uma boa explicação. Gostava tanto dele! Aí veio aquela atração chata pelo Valter que resultou nessa gravidez. Tinha quase certeza que o Edson não me entenderia e nunca iria me perdoar...
Outro dia papai pediu para falar comigo.
- O que foi, Pai?
- Só queria te dizer que... Que eu não estou com raiva de você. Afinal eu vou ser avô, não é?
- É mas, eu traí a sua confiança.
- Não, você não me traiu. Traiu a si mesma. É bem verdade que eu sonhava com você me dando um neto mas, depois te casada, terminado os estudos e tendo frutos desses estudos...
- Me adiantei, não é?
- Sim. Até pra nascer, você nasceu antes de completar nove meses. Sabe, Joyce é tão difícil ter de se acostumar com o fato de você estar grávida. Eu te vi nascer, andar, ir a escola, virar moça mas, nunca imaginar você grávida mas, eu acostumo, pode deixar. E o Edson já sabe que vai ser pai?
- Não eu ainda não falei pra ele.
- Será que ele vai gostar?
- Não sei, talvez sim.
- Por que talvez?
- Acho que ele não esperava... Igual a mim, vai ser uma grande surpresa.
Foi um alívio quando sai de perto do meu pai. Estava ficando muito perigosa o rumo daquela conversa.
******
Com muito custo cheguei à decisão: falaria para o Edson na quinta à noite. Uma coisa porem, estava me incomodando: o Valter não estava indo a escola. Só que eu tinha algo mais importante pra resolver.
- To te achando tão estranha, Joyce. Está acontecendo alguma coisa?
Eu Já estava nervosa, quando ele perguntou isso fiquei mais ainda.
- Está.
- O que?
- Eu não sei como isso foi acontecer, Edson. A minha vida estava um calvário e... Agora está pior.
- Fala logo o que é Joyce!
- Primeiro eu preciso saber o que você sente por mim.
- Por quê?
- Eu preciso saber, Edson. É muito importante!
- Está bem. Algum tempo atrás, eu pensei que gostava de você. Agora... Eu gosto de você demais! Sofro por você, tenho ciúmes de você, não consigo viver sem você.
Só Deus sabe como eu me senti naquele momento. O Edson me surpreendeu ao dizer essas palavras. Comecei a chorar; no momento que eu ia falar pra ele que estava grávida de outro, ele me disse tantas coisas bonitas.
- Me perdoa Edson? – pedi chorando.
- Te perdoar?
- Eu fiz uma coisa muita grave e preciso que você me perdoe.
- Te perdoou. Agora fala logo o que é.
Olhei pra ele. O seu rosto tão bonito estava com um traço de preocupação. Se eu pudesse não falaria.
- Eu estou grávida do Valter.
O Edson estava tão próximo de mim, que vi os seus olhos ficarem vermelhos e a sua expressão mudar.
- Grávida do Valter? – disse ele com a voz fraca.
- É, Edson, não sei como isso foi acontecer! – ao falar isso me atirei nos braços dele. E novamente ele me surpreendeu, ao contrário de que eu pensava, ele me abraçou e pediu que eu ficasse calma.
- Como isso foi acontecer?
- Não sei! Fraqueza minha, insegurança sei lá! Eu estraguei tudo! Estraguei sua vida estraguei a minha vida, estraguei a do Valter!
- Calma, Joyce – pediu Edson chorando. – Vamos conversar. Você gosta de mim?
- Gosto – respondi com sinceridade
- E o que você sente pelo Valter?
- Nada de importante.
- Você tem um filho dele aí dentro.
- Juro pra você Edson eu queria tirar mas, não deixaram.
- Tirar?! Joyce, o sonho do Valter é ser pai, você ia acabar com o sonho dele!
- Quero ficar com você... Porque é de você que eu gosto.
- Então nós vamos ficar juntos... Por que é de você que eu gosto.
- Não vai dar certo! Dentro de mim, tem uma parte do Valter, não vamos conseguir ser feliz tendo uma criança entre nós!
- Vamos sim. É queremos.
- Você quer?
- Quero e você?
- Quero... Muito.
- Então você agora vai explicar pro Valter tudo, pra que ele entenda e não fique magoado.
- Você me surpreendeu sabia? – falei tentando sorrir.
- Eu faço tudo por você.
Nos abraçamos fortemente. Estava feito o laço entre ele e eu.
******
No dia seguinte o Valter novamente não foi para a escola. Achei estranho era o quarto dia seguido! Cheguei em casa e fui telefonar pra ele. Sua mãe falou que ele tava com catapora. Pensei em ir visitá-lo mas, acabei me lembrando que eu também não tivera catapora. Agradeci a dona Lurdes e desejei melhoras pro Valter. O jeito era esperar. Não sei qual seria a reação dele.
Para piorar, veio novamente aquela ânsia chata, agora acompanhada por uma tontura. Mamãe fez questão de dizer que viria muito mais pela frente.
Veio o sábado. Logo de manhã e telefone tocou, fui atender era o Valter. Disse que estava melhor e com saudades de mim. Falei que também estava sentindo sua falta e que precisava falar muito com ele. Só que eu teria de esperar mais uns dias... Ele tinha compromisso.
Na tarde do sábado fui finalmente conhecer a casa do Edson. Adorei os pais dele. A Liza me olhou demoradamente quando me viu sentada provocando uma deliciosa geléia de morango. Fiquei imaginando qual seria a reação dela e dos seus pais quando descobrisse que eu estava grávida de outro.
******
É incrível como dormi bem naquela noite. Sabe fazia muito tempo que eu não conseguia dormir daquele jeito. Sonhei que estava fazendo o chá-de-bebê; aí entrou a Liza trazendo uma banheira azul e dizendo que queria considerar meu filho um sobrinho dela.
Acordei disposta, comi tudo que estava na mesa, estava com uma fome!
Dez horas o telefone tocou. Era a vizinha do Valter.
- Joyce é você?
- Sim é ela que está falando.
- É... Joyce, eu...
- O que aconteceu Madalena? – perguntei desconfiada.
- Joyce, o que eu tenho pra te dizer é muito grave!
O meu coração disparou: algo me dizia que alguma coisa de ruim tinha acontecido.
- Fala logo, Madalena o que é!?
- O carro que o Valter estava... Capotou e... Ele está entre a vida e a morte no hospital!
O telefone caiu da minha mão no mesmo momento em que eu gritei. Mamãe chegou na sala nesse momento.
- Joyce! O que foi?
- Mãe... O Valter...
Fiquei tonta. Tomei água com açúcar. Nunca imaginei que um dia fosse passa por aquilo. Uma agonia tomou conta do meu corpo; um desejo enorme de ver o Valter, saber como ele estava.
- Mãe, arruma um carro! O Valter sofreu um acidente e eu quero saber como ele está!
- Joyce mas...
- É urgente mãe, por favor!
Liguei para Madalena para saber em qual hospital estava Valter. Enquanto isso, mamãe procurava um táxi.
******
Parecia que ia morrer dentro do táxi. Meia hora para chegar no hospital! Saltei do carro primeiro que mamãe. Fui direto para a recepção.
- Quero saber o quarto que está o paciente Valter Soares! – falei sem fôlego.
- Que isso, Joyce – reclamou mamãe também cansada – esqueceu que você não pode correr!?
- Preciso ver o meu amigo, mãe!
- Calma moça – pediu a recepcionista – ele está na U.T.I você segue o corredor direto, lá no fim dele você vira pra esquerda e sobe uma escada, terceira sala à esquerda.
Que raiva que me deu. Tamanho era o desespero e a droga da U.T.I era nos quintos e ainda minha mãe buzinando em meu ouvido:
- Cuidado, Joyce com a escada, você pode se ferir!
Cheguei na U.T.I e o que eu vi fez as minhas pernas bambearem. O meu amigo tão bonito, tão cheio de vida e saúde estava ali com a cabeça enfaixada, com um tubo que cobria o nariz e a boca; os braços com agulhas de soro. Não suportei, abracei a minha mãe chorando. E o Valter ali, deitado naquela cama completamente imóvel.
Fomos para a sala de visitas. Lá estava à dona Lurdes e o seu Carlos abracei-os.
- Como isso foi acontecer? – perguntou mamãe.
- Eles foram desviar de um outro carro que vinha na contra mão – disse seu Carlos chorando. – o Jonas, que estava no volante perdeu o controle do carro, o carro por sua vez capotou várias vezes... Jonas morreu antes de entrar no hospital.
Conheci o Jonas quando tinha treze anos, adorava ele. Já fazia três anos que eu não o via, agora vivo, eu não mais o veria.
Logo depois o Edson chegou com os seus pais...
O médico chegou e atendendo o pedido de dona Lurdes, falou:
- O Valter sofreu traumatismo craniano. O estado dele é muito grave. Ele vai ter que passar por uma cirurgia complicada, é rezar para ele sobreviver.
- Quais são as chances dele sobreviver? – perguntei aflita.
O doutor olhou para nós, por um momento pareceu que ele não tinha o que dizer.
- Bom... Nós estamos fazendo o possível... Pensar positivo.
Tenho certeza que todos sentiram que as chances eram poucas.
Sentei-me no sofá. O Edson sentou-se ao meu lado. Decididamente aquele ano não foi dos melhores. Olhei para os pais do Valter, depois para o Edson. Era a hora de acabar com a farsa.
Fui à janela, me virei para todos e comecei:
- Eu não sei como será de agora para frente... Por isso eu quero dizer que... Eu estou grávida do Valter.
Todos olharam pra mim. De repente minha face esquentou. A minha mãe tinha me dado um tapa na frente de todos.
- Repete o que você disse! – pediu mamãe.
A sala em silêncio.
- É isso mesmo! – falei claramente.
Levei outro tapa.
- Isso é pra você aprender a ter vergonha nessa sua cara, sua mentirosa! Enganando todos nós!
- Calma Célia – pediu o pai de Edson. – Joyce você está dizendo que está grávida do Valter? E o Edson?
- Eu sei, pai – falou Edson tranquilamente.
- Você acha isso certo, Edson? – ironizou Carmem. – ficar escondendo isso de nós?
- Não estava escondendo, mãe. Nós eu e a Joyce, só estávamos esperando a hora certa para falar.
Lurdes, desesperada perguntou:
- O meu filho está sabendo disso?
- Não eu...
- Ele não sabe que ia ser pai? – perguntou Carlos.
- Foi como o Edson falou, seu Carlos, nós estávamos esperando o momento certo.
- Como isso foi acontecer, filha? – exigiu saber mamãe. – Namorando um rapaz e grávida do Valter, do Valter, Joyce! O seu amigo!
- Isso não importa mais mãe.
- Como não importa? Você acha isso certo? Uma pouca vergonha dessas!
- Mãe, não adianta fazer mais nada!
- Adianta sim. – falou Lurdes. – Eu quero que o Valter fique sabendo ao menos que irá ser pai assim que sair do coma.
- É isso mesmo. – completou Carlos. – Ele tem o direito de saber.
******
Ficou decidido assim eu falaria toda verdade pro Valter quando ele saísse do coma. Quando papai ficou sabendo, falou pra mim que não era pra repetir toda essa loucura novamente e me aconselhou a ir à igreja rezar. Pedi desculpa e jurei que não tornaria a repetir aquilo de novo.
******
Resolvi ficar a noite no hospital. No final da tarde, levaram o Valter para a sala de cirurgia. Eu e os pais dele ficamos tensos; andando e um lado para o outro. Passaram-se as horas... Eu, dona Lurdes e seu Carlos fazendo uma corrente de oração para que Deus salvasse o Valter.
Completou cinco horas que ele estava na sala de cirurgia. Jamais vou esquecer aquele dia, o médico entrou na sala trazendo um olhar de pena.
- E então, doutor? – perguntou aflita dona Lurdes.
O doutor olhou para nós. O Relógio na parede marcava onze e meia da noite.
- Nós – falou o médico devagar – fizemos o possível... Ele não vai resistir por muito tempo.
Seu Carlos abraçou dona Lurdes. Eu chorando pedi para ver o Valter.
- Ele não fala e...
- Por favor é de extrema importância!
- Está bem, pode ir.
Senti um vazio dentro de mim. O Valter não podia morrer. Entrei na sala onde ele estava. Aproximei-me da cama. Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, abracei-o e chamei o seu nome.
- Valter, fala comigo! Abre os olhos, sou eu quem está aqui, a Joyce.
Mas, ele continuou imóvel, sem se mexer. Chorei abraçada com ele, enquanto me lembrava de tudo que vivemos... Não, ele não podia morrer, tinha um filho dentro de mim e o sonho dele era ser pai. Tão jovem, tão bonito morrer assim de uma hora pra outra.
Tentei me controlar um pouco. Sentei-me e olhando para o rosto de meu amigo, falei:
- Valter – sorri como fazia quando conversava com ele um assunto que me envolvia – lembra do dia que você me jogou dentro do rio, eu nem sabia nadar; gritei feito louca até você ir me salvar. Quando você fez dezessete anos, eu joguei você na lama, lembra? Aí você, com o corpo cheio de lama, falou que quando eu fizesse aniversário iria me jogar dentro de uma fossa!
Olhei pra ele. Parecia que eu estava falando sozinha.
- Só estou dizendo isso por que...? – quase não conseguia falar; as lágrimas estavam me dominando. – Porque você vai ficar sempre aqui, no meu coração, pra sempre...
Foi aí que para minha surpresa ele abriu os olhos, sorriu pra mim.
- Valter, diz que você vai ficar bem! Fala pra mim que tudo isso vai passar!
- Não posso – disse com a voz fraca.
- Por quê?
- Estaria te enganando – ele falava com muita dificuldade. Parecia que lhe faltava ar nos pulmões. – Já te enganei muito – completou.
- Mentira – falei pegando a sua mão – eu é que sempre te enganei, nunca tinha coragem de dizer a verdade.
- Eu sempre te enganei – disse ele tão baixo que quase não ouvi. – Tinha vergonha de te dizer o que eu sentia o sinto por você – as lágrimas começaram a surgir nos seus olhos, me deu uma pena dele. – Sabe por que nós sempre se entediamos?
- Porque sempre fomos amigos.
- Não. Eu me apaixonei por você e você também sente alguma coisa por mim! Eu sinto. Todas as vezes que ficávamos juntos, só nós... Eu tinha vontade de te dizer mas, não tinha coragem! Agora já não adianta, é tarde demais!
Chorou. Chorou como uma criança.
- Por que nunca me falou? Eu ia te entender, juro que ia!
- Não podia. Você sempre era pra ser minha amiga, não mais que isso. Era uma paixão proibida.
- Que se acabou no dia do seu aniversário – completei.
- Aquilo – teve dificuldade para pronunciar o resto. – Aquilo foi uma besteira. Você era a minha amiga, só isso. Foi um erro meu!
Socou levemente o travesseiro.
- Foi uma besteira nossa – falei secando as lágrimas. – uma besteira que... Que poderá realizar o seu sonho!
- Poderá?
- Eu estou esperando um filho seu.
A reação do Valter me partiu o coração.
Em meio às lágrimas veio o sorriso. E como ele não podia pular ou gritar, se debateu com as mãos e com as pernas. Sua respiração acelerou como se ele estivesse correndo... Tentou se levantar para me abraçar só que não conseguiu. Então o abracei. A emoção nos dominou por completo.
- Um filho! – exclamou.
- Sim, um filho seu!
- Agora... Agora que eu estou aqui, quase morrendo... Vou ser pai! – dizendo isso, o meu amigo desandou a chorar.
- Valter, olha só; eu... Eu tiro, se for para você morrer triste eu tiro!
- Não! Eu vou morrer feliz, Joyce, muito feliz.
- Esse filho merece um pai como você, Valter.
- Mas como... Como isso é possível, diga ao Edson que o momento dele chegou. Vocês dois merecem.
- Quem merece esse filho é você, Valter, é seu sonho crescer e...
- Sinto muito, Joyce. Sinto muito...
Abraçamos-nos. Ele já estava ficando mais fraco, ainda assim pediu:
- Quero que prometa uma coisa pra mim, Joyce. Você promete?
- Sim. Eu prometo que se for um menino, você vai levar ele aos domingos junto com o Edson para jogar bola e que vai soltar pipa com ele, que vai ensiná-lo a andar de moto?
- Prometo – respondi soluçando de tanto chorar. A voz do Valter foi ficando mais baixa e mais demorada.
- Proo... Promete que... Que se for menina, você... Vai levar ela nas aulas de balé e vai fazer a festa de quinze anos dela e também o casamento na... Na igreja.
- Prometo, Valter.
A hora estava chegando. Seus olhos foram ficando vermelhos.
- Te amo, Joyce – disse ele quase não agüentando mais.
- Eu também te amo, Valter. Pra mim você foi um grande amigo, mais que um amigo, foi o meu amante... Não vou te esquecer nunca!
- Também não.
Senti a sua mão afrouxar o aperto sobre a minha.
Partiu sorrindo.
Debrucei-me sobre ele como nunca fizera antes.
- Não! Por favor, Valter, não!
Não restava mais nada. Fechei os seus olhos. E chorei como jamais acho que vou chorar de novo. O Valter ali deitado... Era apenas um cadáver... Era o que restava do meu amigo... Que era pai do meu filho.
******
A emoção continuou no enterro. Pobre dona Lurdes, não merecia aquilo, o seu Carlos também não e eu também não merecia! Será que eu conseguiria viver sem meu amigo? O meu filho, já sem pai! É incrível, as coisas acontecem com as outras pessoas e nós não ligamos, achamos que nunca vão acontecer conosco!
Joguei flores e um punhado de terra sob o caixão. Que momento horrível aquele: jamais tornaria a ver o rosto alegre e bonito do Valter. Por quê? Comecei me questionar, por que as pessoas partem tão cedo? Fazendo nós que aqui ficamos, sofrer!
Abracei dona Lurdes, depois seu Carlos. Naquele momento ouvi da mãe do Valter essas palavras:
- Pode contar conosco, Joyce pro que der e vier. Estaremos sempre do seu lado.
Agradeci, dizendo que eles também podiam contar comigo pra tudo. Na saída do cemitério porém, notei que algumas pessoas me olhavam de um jeito estranho. Percebi na hora o motivo daqueles olhares. A morte do Valter trouxe a verdade a todos do que tinha acontecido antes do acidente. Para as pessoas, eu seria sempre a traidora, a moça que engravidou do próprio amigo. Seria aquela moça inteligente, quieta, mais que de repente, apareceu grávida.
******
Acabei, no entanto, surpreendendo a mim mesma. Encarei tudo de cabeça erguida. Foi uma batalha difícil. Na escola, percebi que quando passavam, as pessoas cutucavam as outras e falavam aos cochichos; os professores olhavam pra mim como quem diz: “Logo você!”. Mas o mais difícil pra mim era conviver sem a presença do Valter. A minha mãe disse que era pra mim fingir que ele estava viajando e que iria demorar a voltar... Mas pra mim isso não funcionou eu sabia que a sua ausência não era uma viagem.
Outra surpresa pra mim foi os pais do Edson. Eles apoiaram a sua decisão de cuidar do meu filho como se fosse filho seu. Liza chegou em mim outro dia e perguntou se fosse menino qual nome eu daria.
Quanto ao Edson, nossa, ele foi muito carinhoso comigo, deu o maior apoio.
******
Demorou também para mim me acostumar que estava grávida. Um monte de coisas chatas; ver uma comida que sempre gostei, de repente não poder nem sentir o cheiro. Ter de descer as escadas sempre segurando no corrimão pra ter cuidado de não cair e acontecer alguma coisa, ir ao banheiro de hora em hora e os meus pés inchando como uma bexiga... Decididamente eu não estava preparada mas, depois entendi que todas essas coisas e algumas precauções eram para o meu próprio bem e pro bem da criança que vai nascer.
Eu também andava muito estressada, com medo de não conseguir ter o bebê, de não conseguir cumprir as promessas que tinha feito ao Valter e que saudade!
******
No quinto mês de gravidez fiz a Ultra-Sonografia na qual fiquei sabendo que seria mãe de uma menina. Não consegui esconder o meu desapontamento; queria tanto que fosse um menino.
- Não fique assim, Joyce – disse o Edson me abraçando. Estávamos em sua casa. Deitei no seu colo; não estava me sentindo nada bem.
Também não sei o por quê? Queria que fosse menino. Senti um receio ao ficar sabendo que seria menina; algo estranho...
- Joyce não fique pensando nisso. Sendo menino ou não, será o seu filho – falou o Edson. E você vai ter que amá-lo. E tem mais: eu vou estar sempre do seu lado – completou.
- Feche os olhos. – pediu e obedeci. – Agora escuta com bastante atenção esta música que eu vou cantar.
O Edson começou a acariciar o meu rosto com as suas mãos e cantando:
“Hoje eu descobri;
Uma coisa que há no mundo.
Que tocou o meu coração bem lá no fundo...
Acho que é paixão;
Talvez seja mais profundo,
Eu só sei que ela é meu próprio mundo.
- Sabe?
- O que?
- Ela é meu grande amor.
- Então me diga o que nela te tocou?
Ééé um olhar de princesa ao luar, mexeu
Com um coração e dessa vez eu saberei
O que é amar...”
Adormeci. Quando acordei estava deitada na cama do Edson e já estava de noite. Chegando em casa mamãe também me deu o maior apoio dizendo que quando estava grávida de mim queria também que fosse homem, no entanto, me amava muito.
Tinha também outra preocupação comigo; o casamento. O Edson conseguiu passar para a turma da noite porque conseguiu emprego numa soverteria. Meu pai e o seu Carlos se juntaram com o pai do Edson e compraram a casa. Foi uma corrente muito forte que nós formamos.
Quando completou seis meses e meio de gestação, me casei. Um dos meus maiores sonhos era de casar na igreja. Não foi como sonhei mas, adorei mesmo assim... Quando entrei na igreja, notei que algumas mulheres fizeram um olhar de censura mas, continuei firme, olhando para o Edson que estava me esperando no altar. Estava finalmente realizando o meu sonho.
******
Depois de casada tive de me acostumar também a viver sem meus pais. Foi outra parada dura; o Edson saia logo cedo e só voltava no final da tarde e mamãe e papai não podiam ir sempre lá. A casa tinha seis cômodos, três no andar de baixo e três no andar de cima, não tinha nada de luxo, tudo muito simples.
Mesmo estando sozinha, uma coisa eu estava adorando, podia receber quem eu quisesse, ficar do jeito que eu quisesse... Uma liberdade que eu não tinha quando era solteira. Só que mamãe não entendeu assim, pediu para um colega minha, que morava mais perto de casa que fosse lá dar uma força algumas vezes, durante o dia ver se estava tudo bem comigo. Uma mulher grávida não pode ficar sozinha, disse mamãe.
Elen era minha colega dês de quando eu estava na quinta série. Ela era três anos mais velha que eu.
Nos quatro primeiros dias foi tudo bem mas, depois Elen começou levar com ela a sua prima Mariana e eu não fui muito com o jeito dela. Tipo bem esnobe, sabe, adorava se meter na minha vida. Pelo jeito, ela também não gostou de mim...
Mesmo assim, consegui conversar na boa, sem arrumar confusão. Chegou o sétimo mês de gestação e foi aí que explodi com a tal Mariana. Elen desceu para a cozinha dizendo que ia fazer um chá de erva doce pra mim, eu não estava muito bem. Fiquei sozinha no meu quarto com ela.
- Que nome você vai escolher? – perguntou ela com um ar de deboche.
- Ainda não escolhi – respondi sem vontade.
- É verdade que você queria que fosse menino no lugar de menina? – insistiu Mariana.
- É, eu tinha preferência por menino.
- Eu também quero ter primeiro um menino, a preocupação é menor – olhou pra mim e perguntou: - O que você ia fazer se o Valter estivesse vivo? Sim, porque tenho certeza que ele não iria querer viver separado sabendo que tinha um filho com você e o Edson não ia ficar feliz de toda hora ver o Valter indo visitar o bebê quando nascesse. Ia ser bem estranho, né não?
- Não sei talvez não.
- Olha, nunca tinha visto uma história como a sua, Joyce, namorando um rapaz e ficar grávida do melhor amigo, parece até novela!
- Você está brincando comigo, é isso, Mariana?
- Não, claro que não, é que estranho; parece que você não é dessas mulheres...
- Chega! Não quero mais ouvir! Vai embora, por favor!
- Credo, Joyce, eu só estava...
- Não quero saber! Eu não gostei de você dês de o primeiro dia em que eu te vi, agüentei demais e quer saber de uma coisa eu já cansei!
- Você é mesmo cheia de graça, né? Sabe que eu estou dizendo a verdade e fica aí, se fazendo de certinha!
- Pedi pra você ir embora.
- Sim, eu vou sair, só que antes quero dizer umas boas pra você.
Ela se aproximou de mim e disse:
- Você não queria que fosse uma menina, porque tem medo de quando essa criança crescer e fazer o mesmo que você fez, afinal uma filha dá mais trabalho do que um filho!
- Não fala do que você não sabe!
- O que está acontecendo aqui?
Elen chegou trazendo o meu chá.
- Essa aí – falei apontando para Mariana. – está se intrometendo na minha vida! Eu quero que ela vai embora!
A Elen pediu que eu me acalmasse e a Mariana, antes de sair falou:
- Eu vou, mais eu volto quando você ficar grávida de outro amigo seu!
Não consegui me conter. Saí correndo atrás de Mariana com a Elen gritando que era perigoso eu correr mas, eu não escutei e continuei a correr. No primeiro degrau da escada, perdi o equilíbrio e rolei até o ultimo degrau...
Foi horrível, bati várias vezes à barriga no chão. Uma forte dor tomou conta de mim. Elen gritava por socorro; Mariana cobriu o rosto com as mãos e desapareceu... Chorando eu gritava que estava perdendo o bebê.
O socorro demorou mais veio. Os vizinhos atraídos pelos meus gritos e os da Elen, chegaram querendo saber qual o motivo. Fui colocada dentro de um carro em estado grave. Comunicaram a minha mãe e também o Edson.
Pedia a Deus para que eu não perdesse o bebê... Lembrei-me do Valter pedindo que eu prometesse que realizaria todos os seus pedidos com relação ao seu filho... Mas a dor era muito forte.
Chegando no hospital, fui jogada em cima de uma maca e levada às pressas para a sala parto e eu chorava pedindo para que salvasse meu filho... Que o Valter salvasse nossa filha.
Fizeram cesariana em mim. Por precaução, minha filha foi levada para a incubadora. E todos os dias quando a via chorava pensando no Valter. Não só nele como em um monte de coisas que me aconteceu naquele ano.
Recebi a visita de todos. Com o Edson presente, escolhemos o nome. Chamar-se-ia Gabrieli.
A pobrezinha ficou trinta dias na incubadora. Tive tanto medo.
******
Mas, para compensar quando ela foi para a casa fizeram uma festa, até parecia que ela tinha nascido naquele dia. Com todos juntos me senti finalmente feliz como não me sentia há muito tempo.
Quando completou quinze dias que Gabrieli estava em casa, tive a impressão de que o Valter estava ali, no quarto comigo. Minha filha estava dormindo e eu observava ela dormir; era incrível como parecia com o Valter, de mim, ela só tinha o nariz, o resto era tudo do Valter.
Então senti a sua presença. Era como se ele estivesse ali do meu lado, observando a nossa filhinha dormir.
- Valter? – chamei tolamente.
Senti que o Valter disse: “fala, Joyce que eu estou ouvindo”.
Então eu falei.
- A nossa filha é tão linda, não é? Parece com você.
“Ela tem a sua beleza”, senti ele dizer.
Sorri procurando ver o seu rosto. Mas não consegui... Aí chorei. Eu estava sendo boba, o Valter estava morto, não podia voltar. As pessoas que amamos mesmo depois de morta continuam vivas dentro de nós, disse uma voz dentro da minha cabeça. Aconteceu bem rápido. No vidro da janela surgiu o rosto bonito do Valter.
- Estarei sempre do seu lado, Joyce – disse ele. – Eu te amo muito, muito...
Desapareceu. O meu corpo estava todo suado e eu estava chorando. Aí a Gabrieli acordou sorrindo, me deixando completamente confusa.
E todos os dias, no mesmo horário, eu ficava com a esperança de vê-lo novamente. Mas sentia que ele estava sempre do meu lado...
******
Gabrieli agora está com quatro anos; é a coisa mais linda. O Edson continua trabalhando na sorveteria e a noite faz curso de bibliotecário. Eu estou, graças a Deus, terminando o primeiro ano de Psicologia. Eu e o Edson estamos muito bem, recebo todos os sábados a visita dos pais do Edson e em alguns domingos levo a Gabrieli para os pais do Valter verem e brincarem com sua netinha. E ainda procuramos um tempo para irmos à igreja rezar para a alma do Valter e ao cemitério levar flores.
Agora sim posso dizer que encontrei a tão esperada paz.
Autor: vander.christian
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