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Cisco. Apenas um cisco.
| Data: | 12/04/2008 |
| Hora: | 20:30:55 |
| Publicado por: | cisco.devair |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
Cisco. Apenas um cisco.
Cisco. Apenas um cisco.
Quem és tu? Oh Devair!
A história registra e narra, que no momento que os ponteiros marcavam 13:00 de um límpido sábado, no décimo segundo dia do mês de março, no ano de 1955dc, na pequena cidade conhecida como Jaguapitã, situada na região norte do fértil solo Paranaense, nascia o caçula entre a numerosa prole que foi de 13 filhos do Senhor Urias Sabino de Souza e Dona Luzia Francisca de Souza.
Ao ser realizado o assento do novo brasileiro, o pai, que foi o declarante declinou ser antigo morador desta localidade; Sendo que seu lar encontrava-se alicerçado na renomada fazenda primavera onde o mesmo exercia a honrosa função de administrador.
O senhor Urias ainda declinou nesta ocasião e consta nestes apontamentos, ser oriundo dos pampas, da histórica São Borja, enraizada no valente e pujante Rio Grande do Sul.
Sua companheira que se fazia presente disse ser filha do rico solo mineiro, mais precisamente da cidade de Varginha.
Neste dia que por sinal, conforme os mais antigos narram: chovia torrencialmente, ficou registrado no cartório daquela localidade aquele novo brasileirinho, que levou o nome: Devair de Souza.
Nestas anotações registradas, porém como é lógico seria impossível, nada constou que o robusto bebê trouxera do berço uma companheira que o acompanharia pelo resto de sua vida.
Muitos anos depois, com o avanço da ciência, esta companheira que na época era conhecida popularmente como abre aspas “cabra cega” fecha aspas, veio a levar um nome completo: Retinose pigmentar. Esta traiçoeira amiga que como é sabido é uma patologia degenerativa não conseguiu impedir, que após ser transcorrido apenas cinco anos, deste dia que foi lavrado este registro de nascimento; Que as débeis pupilas castanhas Esverdeadas, daquele menino sapeca vertessem lágrimas de sangue ao sentir na carne a separação física do pai querido que naquele dia fatídico, se foi.
O dono daquelas frágeis pupilas recebia sua primeira E dura lição que a vida lhe impunha. Seu Urias em uma triste tarde de sexta-feira de um janeiro, após ‘ser acometido de fulminante ataque do miocárdio embarcou no trem da eternidade.
Após este triste acontecimento mais uma história de um deficiente visual começou ali, a ser escrita com a pena da superação e a tinta da própria evolução espiritual; E os anos se escoaram no ralo do tempo.
E aquele menino com sua baixa visão seguiu sua sina. E sempre ao seu lado estava ela, sua inseparável amiga inimiga: limitando suas ações, magoando, judiando, diminuindo, empurrando aos tropeços, dificultando os segundos, minutos e horas vividas. Ela sempre estava ali: maligna, maldosa, ladina e deveras traiçoeira. Roubando e tirando certas alegrias, dificultando e amarrando certas iniciativas. Ali sempre ela estava.
Assim foi.
Um dia ela venceu parcialmente o menino. Ela conseguiu seu objetivo: Fechou de vez o caminho da luz e das belezas do mundo.
Aos 46 anos o mundo escuro chegou para ficar, as trevas invadiram de vez aquelas pupilas.
Não obstante aos percalços que a vida lhe impôs, o menino em sua caminhada sempre abominou a palavra auto piedade e felizmente com a ajuda de muitos, a famigerada que o acompanhava nunca, nunca conseguiu invadir e contaminar malignamente a alma do eterno menino; Pois, se de um lado no transcorrer dos seus dias a vida lhe impunha tantas coisas ruins, por outro lado também lhe muitas graças.
Dádivas divinas, que o até hoje menino recebeu e vem recebendo no campo do amor e da amizade, que o mesmo não se cansa de agradecer ao Onipotente; e assim o fará até seu último suspiro por mais esta curta passagem neste mundo terreno.
Os ensinamentos trazidos do berço e que ficaram a cargo da inigualável genitora que graças ao Criador ainda vive e goza de boa saúde, sempre direcionaram o menino Devair A cultivar as boas amizades.
E assim ao longo de sua vida ele vem cultivando este nobre sentimento.
Os bons amigos possuem um cantinho especial em seu coração e seus nomes ali são gravados com pedrinhas de diamantes e a todo o momento são banhados com o perfume da sinceridade.
Dona Luzia, a inigualável mãe e grande guerreira como ela só continua a demonstrar sua garra e hoje no alto dos seus 96 anos ainda responde com orgulho sobre o clã da família Souza. Mas, voltando a falar do caçula desta grande mineirinha:
Aquele menino em sua caminhada evolutiva, um dia chegou há uma maravilhosa conclusão:
Abre aspas “Sou uma humilde centelha, apenas um minúsculo cisco”. Fecha aspas.
E assim pensando o já idoso menino sentiu e sente hoje ainda mais, o mundo girando; E suas têmporas que buscam o branco do juízo a cada minuto vivido o aconselham a continuar tentando buscar e aprender para cumprir o papel que sempre lhe coube; e dia após dia sempre está a declarar:
Abre aspas “Nem um mérito me cabe. Sou apenas um humilde cisco” Fecha aspas. Poucos anos depois deste último acontecimento que narrou o cair do enegrecido véu sobre os olhos físicos do antigo menino, para ser mais preciso quase 53 após aquele sábado de 55, os ares de uma movimentada rua central da próspera e acolhedora Londrina presencia e escuta um interessante diálogo:
--Hei moço, o senhor quer ajuda?
--Sim! Por favor, se a senhora me emprestar seu braço e me ajudar na travessia eu agradeço!
--O senhor não enxerga nada?
--Com os olhos físicos não.
--Puxa! Nem parece. Seus olhos são tão perfeitos e eles irradiam um brilho tão vivo e forte!
--obrigado dona menina, bondade sua. São seus olhos! – Ao falar o cinqüentão dirigiu seu falso olhar para a moça que o ajudava a atravessar a movimentada avenida.
--Nossa moço, este olhar castanhos esverdeados que o senhor tem engana a gente, parece que o senhor está enxergando até minha alma. – A moça de voz suave deixou escapar uma leve risadinha que entrou agradável nos ouvidos do cinqüentão.
Este também sorriu e disse:
--Obrigado dona menina, aqui já está bom pra mim, agora minha “zóinha” me ajuda. –Eles já haviam atravessado a grande avenida e ele ao falar a palavra zóinha, com gestos demonstrou estar se referindo a sua bengala.
-Ah! O nome dela é zóinha?
--É sim.
--E o senhor como se chama? –-Eu sou o Devair e você?
--Clarice.
--Oi Clarice muito prazer! –Ao dizer estas palavras sua mão foi estendida e a moça deixando sua pequena e suave mão ser envolvida pela mão do homem respondeu: “prazer também”
E os dois continuaram a caminhar lado a lado.
--Aonde o senhor está indo?
--Por favor, esqueça este senhor aí. Só Devair mesmo, ou se preferir pode me chamar de Cisco!
--Ta bom. Mas porque Cisco? Isso é diminutivo de Francisco?
--Não Clarice. Este cisco é de miudeza mesmo.
-Ué! Mas você não tem nada de pequeno, sua altura está bem proporcional ao seu corpo, me parece que o senhor... – a moça em seguida corrigiu:
--Digo: você tem um metro e oitenta por aí, não é?
O homem da bengala respondeu:
--Um pouco menos. – Em seguida completou:
--Este cisco é a representação do tamanho do ser humano que sou. Ou seja, um nadinha de nada neste grande universo!
--Mas respondendo sua pergunta Estou indo ao Banco Bradesco.
--Então não é mais fácil você apoiar aqui no meu braço, pois eu vou passar lá em frente mesmo.
--Falou menina, obrigado hein! -e lá se foram eles papeando.
Em certo momento a moça perguntou:
--Não vejo aliança no seu dedo Devair, Você é casado?
--Sou sim! Já estou no meu terceiro casamento.
--Nossa! Você não perde tempo hein!
--Coisas da vida menina. Coisas da vida! E você é casada?
--Já fui. Não deu certo.
--Tem filhos Clarice?
--Não. E você?
--Tenho só oito.
--Vichi! Tudo isto! - Ambos riram.
--É menina. Oito filhos e três netos.
--Todos com sua atual esposa?
--Não menina. As minhas filhas mais velhas são gêmeas; E quando elas chegaram neste mundo eu era ainda um guri e o que me uniu a mãe das mesmas foi loucura de adolescentes, enfim foi apenas um relacionamento colorido que não durou muito, mas que deixou herança.
Bom, depois desta experiência alguns anos se passaram e então eu me casei pela primeira vez.
Nesta união eu fui pai duas vezes; aí quando me separei, eu mantive um pequeno caso com uma guria e nós tivemos um filho.
O cinqüentão falava sério e aí completou:
--Depois eu me casei com minha secretaria, que é minha atual companheira e com ela nós temos três filhos.
Os mais velhos já estão casados e em casa eu ainda tenho para criar: O Ramon Gregório que fez quinze estes dias atrás, o Daniel Devair que está na casa dos treze e a minha princesinha que tem cinco aninhos e que se chama: Pamella Gabrielle. ´
--Lindos nomes, vocês souberam escolher... E ela como se chama?
--Ela quem?
--Sua esposa
-Ah! Minha briguenta se chama Dalva e ela já me agüenta ha quase vinte anos. –Ambos sorriram desta colocação e a moça disse então:
--Que isso! Eu acho que foi ela a sortuda por haver conseguido fisgar como companheiro uma pessoa como você que é um exemplo de vida.
--O homem ao ouvir isto retrucou imediatamente: Exemplo de vida, eu? Que isso menina! Exemplo ruim você quer dizer não é! – Desta vez o cinqüentão deixou escapar uma gostosa gargalhada. A moça o acompanhou com uma cristalina e melodiosa risada.
Aí eles pararam de andar e ela ainda: risonha disse:
--Chegamos. Você quer que eu lhe ajude aí dentro do banco?
--Não que isso menina, você já me ajudou por demais. Obrigado viu! –A moça então perguntou:
--Você vai demorar muito aí?
--Acho que não. Só vou fazer um tal de recadastramento. Acho que é coisa rápida.
--Bom Devair eu vou ali à Sonqei pagar uma continha e daqui uns quinze minutos eu passo aqui. Se você quiser me esperar, eu gostaria muito de conversar mais com você. Quero te conhecer melhor... –Ela deixou a proposta no ar.
--Ta bom menina. Quem chegar primeiro espera o outro. Ta falado?
--Ta legal! Então tchauu!
Após esta despedida, cada um seguiu seu caminho.
Quinze minutos depois o homem da bengala saía do banco e esperou sua nova amiga por mais ou menos uma meia hora e ao constatar que a mesma não viria mais, ele pegou o caminho da roça e se foi.
E enquanto trilhava o percurso que o levaria ao terminal central onde pegaria seu ônibus, uma frase de aceitação se insinuou em sua mente:
“Foi melhor assim seu Devair! Lembre-se macaco velho não deve meter a mão na cumbuca!”.
E a vida continua...
Se um dia você por um acaso vier respirar os ares acolhedores de minha querida Londrina, de uma passadinha aqui e venha conhecer o meu castelo!
Cisco Devair.
Meus contatos- skype: cisco_devair. MSN: souzapedra90@hotmail.com
E-mail: centelha.viva@yahoo.com.br. E-mail privativo: ciscodevair@sercomtel.com.br.
Autor: cisco.devair
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