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Dura Lição

 

Data: 08/12/2007
Hora: 21:01:25
Publicado por: cisco.devair
Publicado na página: biblioteca_ler

 

Dura Lição - Final
DURA LIÇÃO – parte final

“Um dia de tardezinha veio a filha do patrão,
Me vendo naquela tristeza, comoveu seu coração,
Abrindo a porta da grade e me tirando da prisão,
Vai se embora canarinho,
Va cantar no seu sertão...”.

Continuação:

Os anos se foram e a noite começou a aumentar sua negritude nos meus olhos, minha visão já cansada de fazer o papel de meia luz, resolvera jogar a toalha. A aposentadoria era inevitável.
E ela chegou: desnutrida e magra foi entrando na minha vida e fincou suas raízes no topo dos meus quarenta e seis anos.
Mesmo magra como se Olívia palito fosse; Ela chegou determinando novos caminhos.
Rumos até então desconhecidos eram necessários serem percorridos, o leme da vida direcionava e buscava novos nortes no horizonte. E assim se deu.
Meus olhos físicos não enxergaram quando eu realmente fiquei cego, nem se deram conta do dia em que as manhãs de sol brilhante se foram, Eles só estavam preocupados com a penumbra dos entardeceres que insistia em dormitar nos castanhos esverdeados que nunca aceitaram perder seu brilho. Este brilho ainda habita nos mesmos, apesar que a luz foi desconectada para sempre.
Então o ex empresário que já não mantinha sua penitenciária de luxo e que no bem da verdade e sem falsa modéstia, conforme a sua própria opinião poderia ser apontado como: um veterano velho de guerra, que após voar boa parte pêlos caminhos da vida, sempre conseguindo em distintas etapas de sua trajetória terrena, o sustento de suas companheiras e seus filhotes, se vê obrigado a aceitar novas regras impostas pela vida.
Concordando com a vida e aceitando argumentos de sua atual e sem igual Clarabela, ele um dia se viu: sentado ao lado da companheira e à frente de ambos uma distinta e amável senhora, que era diretora de uma renomada Creche.
O assunto ali discutido era o acerto final, para que sua caçulinha de nome Pâmella Gabrielle Que só tinha três aninhos viesse a se tornar mais uma das internas daquela arejada prisão que se disfarçava de nobre escolinha.
É! O então alquebrado e antigo criador de aves recebia sua dura lição.
O próprio sendo obrigado pelos novos rumos que a vida lhe impunha, agora empurrava seu mais novo filhotinho para que o mesmo levasse e sofresse suas primeiras bicadas da vida.
Ali naquela pequena sala naquele fatídico dia, ficaram acertados os detalhes para que minha princesinha praticasse seus primeiros passos longe do seu pai babão e da sua valorosa e perfeita mãe, sendo orientada por mães de outros, ou quem sabe mães de nenhum.
Refiro-me aqui, às experientes tias ou as estudadas e qualificadas pedagogas, que são cheias de teorias e nadam no mar da ignorância cultural.
Estas que também são pobres Clarabelas, pois ELAS são as primeiras a deixarem OS SEUS filhotes entregues às mal remuneradas e incultas babás.
As Clarabelas da vida que possuem uma condição financeira mais sustentável não empurram seus filhotinhos para uma creche, elas entregam suas crias nos braços de uma babá para que esta faça o seu papel.
(Esquisita esta frase, não é mesmo? Ppesado não é verdade? Você não pensa assim também?).
Mas voltemos à matrícula da minha princesinha.
Lá estávamos nós: Minha Dalva, minha princesinha e eu, que me remexia naquela cadeira como se a mesma estivesse cheia de pulgas. Meus princípios resistiam a tudo aquilo que ali se discutia.
A conversa estava bem encaminhada, o destino diurno de minha miudinha, estava sendo traçado e assim seria:
Eu e minha Clarabela deixaríamos nossa princesa caçula ali, durante longas oito horas, aos cuidados daquelas estranhas.
Bom minha gente, Tudo que até então aqui foi narrado; e que intitulei Dura lição, são as lembranças, dos fatos que ficaram bem marcados na minha cabeça.
Nos dias que sucederam a este, o da matrícula.
Foram terríveis.
Ainda me lembro até hoje como se fosse ontem, as imagens do triste filme em preto e branco: O pranto e o desespero da minha princesinha, seus gritos chamando pela mãe, as lágrimas da minha companheira e as minhas que eram tão quentes que por onde desciam sulcavam e já deixavam novas rugas.
Mas tudo dizia que tal era necessário e apesar de que lá no fundo do íntimo eu sabia que era uma simples questão de adaptação, mesmo considerando e pesando todos os prós e contras, tendo como base o que antes ouvira, , ou seja: os dados estatísticos que sempre asseguraram ser benéfico e favoráveis ao bom desenvolvimento da criança; Mesmo assim, eu nunca os aceitei.
No exercício de meu papel de pai antigo ainda sou contrário às teses sustentadas pela lógica da psicologia dos letrados.
Eu acredito ser uma idiotice das grandes a restrição que estes letrados hoje fazem naquilo que envolve as singelas musiquetas de ninar e outras que nossos avós nos legaram.
Será mesmo que “atirei o pau no gato” vai incentivar um miudinho a judiar dos animais?
Será mesmo que “o boi da cara preta” é uma ameaça?
Será que “nana nenê que a cuca vem pegar” peca na pedagogia infantil?
Estas e outras musiqinhas que trazem uma singeleza nas letrinhas agora sofrem descriminações dos inteligentes e estudados pedagogos!
Mas é gozado não é? A violência é cantada em todos os recantos e principalmente nos meios de comunicações
Será que estas violências nasceram e são oriundas dos ensinamentos dos nossos avós, ou ela, esta violência é oriunda dos ensinamentos prematuros de competitividade que atualmente vem sendo ministrado aos miudinhos?
Acho que sou um pai ultrapassado, quem sabe um pobre retrógrado, pois continuo a pensar que:
Creche sempre foi e sempre será um depósito de pobres crianças que aprendem mais cedo a disputarem os espaços que a vida lhes apresentará.
Estudos indicam que nossas crianças a cada dia que passa tem suas infâncias encurtadas.
Pensando assim, eu não conseguia digerir o sapo, intimamente não aceitava aquela situação.
E não deu outra, eu não agüentei ver minha princesinha sofrer, alias, eu não suportei a situação e joguei tudo para o alto.
Minha Pâmella e nós de casa amargamos uma longa semana, foi o que durou a estadia da minha miudinha nesta creche.
Com algumas adaptações em nossa rotina familiar nós enfrentamos a nova situação.
Depois de alguns meses passados, depois da Dalva haver tentado um emprego, que por motivos diversos não deu certo, ela finalmente foi chamada para assumir uma sala de aula.
Foi aí então que a dona vida volta a me dar uma nova e dura lição.
Eu que vivia soltando meus mais refinados impropérios contra as creches, Eu que ainda me sentia culpado pelo que nós havíamos passado, Eu que arrotava aos ventos e blasfemava nas alturas:
Abre aspas “Nem que a vaca tussa! Nem que eu veja boi voando! Eu não quero nem saber quem envernizou a asa da barata! Eu não quero nem saber! Mas minha filha e creche? NUnca, nunca mais!” fecha aspas.
Bom meus amigos, rosas perfumadas e espinhos, foi nesta época que eu assumi o cognome de Cisco Devair.
E mais uma vez eu saliento que meu Cisco não é de Francisco e sim de miudeza.
Um cisco que não passa de uma humilde centelha que está tendo o privilégio de poder contar com este corpo físico para ir levando suas lições e seguir os caminhos de sua evolução espiritual.
A nossa passagem neste plano terreno, a nossa vida aqui é interessante e sempre estão a nos pregar duras lições.
Minha esposa, depois de alguns meses dos fatos acontecidos com a creche, por circunstâncias que só a dona vida sabe as razões, tinha logo que ser chamada para trabalhar com crianças de três a quatro anos.
Sua nova colocação ia de encontro às nossas expectativas, pois permitia que minha princesinha também freqüentasse aquela salinha de aula.
Será que você amigo leitor adivinha aonde a rainha daqui do meu castelo, vem labutando nos últimos anos? É isso mesmo! Uma creche! Ou melhor, dizendo; Centro de Educação Infantil Criança Futuro.
Bom minha gente, apesar de ainda manter minha opinião sobre os C E Is, como não passo de um humilde cisco humano já faz um determinado tempo que sou um voluntário nesta entidade e ali tento transmitir aos miudinhos os primeiros passos na área musical.
Afirma à antiga máxima: “Deus escreve certo com linhas tortas
!”.

DEUS ESTEJA


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Autor: cisco.devair

 

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