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Dura Lição
| Data: | 01/12/2007 |
| Hora: | 13:02:12 |
| Publicado por: | cisco.devair |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
Dura Lição - continuação
DURA LIÇÃO – 2ª parte
“Sou aquele canarinho que pousou no seu terreiro,
Embaixo da sua janela, eu cantava o dia inteiro,
Depois fui pra uma gaiola, me fizeram prisioneiro,
Me levaram pra cidade, me trocaram por dinheiro...”
Continuação:
Nos dias que sucederam aos fatos que antes foram narrados, no final da que antecedeu a esta parte da estória dentro da história, um sentimento de vazio nostálgico e uma inquietude quase incontrolada deixaram cicatrizes profundas na minha alma já quarentona. ,
A tristeza que tomou posse do meu coração com a perda daquele casal de aladinhos, também aparentou contagiar os seus companheiros de celas que permaneceram por aqui, na penitenciária DE SEGURANÇA MÁXIMA.
Recordo-me que nestes dias, quando eu para tentar espairecer pegava meu pinho para entoar minhas preferidas e jogar pra fora minhas tristezas e assim, fugir um pouquinho daquela saudade que insistia em arranhar minha alma, a passarada já não fazia aquele coral que antes era costumeiro e tão Animado.
Então nestes momentos eu estacava no que fazia e me punha a recordar do veterano e da sua companheira preferida.
Aquele casal de canários realmente possuíam algo de diferente, eles se amavam.
Como é sabido, um canário macho pode se relacionar com mais de uma fêmea, mas sempre eles, guardam certa fidelidade a uma em especial.
Clarabela, com sua realeza de bela estampa de amarelo ouro era o nome da preferida de nosso “Zezé de Camargo”.
Quando em vida, ele ainda forte e galante reprodutor, e ela, formosa e incansável mãe e fêmea honravam seus status. Eram inigualáveis.
Em um determinado ano, quando acasalados para procria, chegaram a tirar, em três ninhadas seguidas: 21 filhotes; Sendo que na época, milagrosamente todos vingaram.
Mesmo com todas as resistências que hoje tomam conta do meu espírito ao retratar o abaixo, para não passar como grande hipócrita sou obrigado a confessar meus sentimentos da época.
Como era gratificante apreciar, quando ela, a Clarabela ensinava seus filhotes a enfrentar seus primeiros dias de vida.
Para isso a valorosa sempre contava com a valiosa ajuda de seu fiel parceiro.
Ambos, nestes momentos se revezavam e davam uma grande lição de vida para aqueles que porventura vissem estas cenas.
Sempre os dois: pai e mãe enchiam seus papinhos de alimentos, para em seguida golfar e vertê-lo nos bicos abertos dos esfomeados e barulhentos filhotinhos.
Os bichinhos, quando nascem são desprovidos até das penugens e são pouco maiores que um grão de feijão jaula. Suas cabeças e bicos são desproporcionais ao tronco.
Beleza neles só mesmo, após um par de meses; E para tal uma alimentação cabocla, porém balanceada, à base de: ovo cozido, pão umedecido, almeirão e pepino eram: o cardápio ofertado. Isto era o básico em suas dietas e era o que em pouco tempo os tornaria em graúdos e fortes.
Eu ainda guardo no cofre das memórias que era assim que eles cresciam saudáveis, até que um dia começavam seus gorjeios e depois abriam suas jovens gargantas e soltavam o peito e quando cantavam seus papinhos se enchiam até quase irem ao estouro.
Registra-se (Iguais aos humanos antigos; só o macho é quem sabe cantar), não como os dias atuais que muitas fêmeas cantam de galo.
Do mesmo modo também, Iguais aos humanos, infelizmente os valores comerciais entre o macho e a fêmea, são bem distorcidos, A fêmea só é valorizada em época de procria.
A rotina dos encarcerados seguia um padrão quase matemático.
Tudo ali, tinha seu tempo e o manejo da população primava pela boa organização.
Finalmente chegava a hora dos novos miudinhos começarem a luta pela vida.
Então, Clarabela a mãe zelosa, desembestava interessante ritual: pulava frenética e determinada, indo de um poleiro para o outro, ia até o ninho, voltava a pular para lá e acolá, enquanto emitia singular pio.
Piava, piava e piava. Enquanto assim fazia suas asinhas gesticulavam em frenético abrir e fechar.
Seu comportamento podia ser Traduzido em nossa linguagem, assim: “vem, vem, vem, vamos pula: assim filhinho, assim, vai bata suas asas, vamos filhinho não tenha medo, a mamãe está aqui. Vamos filhinho!
Os filhotes, que então, já possuíam arrepiadas penas e apesar de seus rabinhos ainda nada serem, começavam a tentar imitar a mãe.
Primeiro: afirmados em esqueléticas e saracuradas pernas ficavam inseguros e trêmulos, na borda do ninho. Miravam medrosos para o imenso abismo. Olhavam, olhavam, ameaçavam pular, tremiam e às vezes recuavam.
A mãe incansável: batia as asas e pulava de um poleiro para o outro, piava, piava e piava.
Quando acontecia de algum deles, se acovardar ou simplesmente demonstrasse para aquela mãe, certa preguiça, aí então, o bicho pegava!
Clarabela nesta hora demonstrava o quanto era uma mãe enérgica.
Assim são as aves mães.
Ela não pensava duas vezes, aplicava uma DURA LIÇÃO: voava até o ninho e carinhosamente bicava e bicava o danadinho, obrigando-o a saltar.
As quedas se não aparentassem doloridas, seriam cômicas.
Enquanto este ritual se estendia, empoleirado em um canto do poleiro mais alto: impassível e imponente o pai já Veterano, a tudo assistia.
Calcula-se cronologicamente em uma comparação com os humanos, pegando como parâmetro, um filhote como o aqui descrito, seria uma criança de oito anos.
Tendo como base este cálculo, nós humanos estamos jogando nossos filhotes muito mais cedo para fora do ninho. Se seguíssemos o exemplo e as atitudes dos pássaros, nossas crianças só poderiam ser empurradas para novos mundos, só após ultrapassarem essa idade.
Mas, não é assim que acontece.
Entre tantos problemas sociais vividos, na sociedade moderna está um que justifica este atual comportamento. A sobrevivência.
Muitas clarabelas da vida necessitam trabalhar, para garantir o sustento, ou ajudar no orçamento familiar, ou ainda, apenas para se verem livre de suas crias.
Quando os motivos são os dois primeiros, além do choro desesperado das crianças, Deus presencia: prantos de lágrimas amargas e impotentes que são derramadas silenciosamente pelas mães.
Quando, porém, a necessidade é a ultima e os motivos para que uma mãe fique longe de seu filho ou filha, não são tão dignos ou justificáveis, tal atitude é reprovável.
Qual o caminho que a maioria das crianças que nascem e vivem na área urbana seguem? A Creche!
É isso mesmo. A Creche. Ou melhor, dizendo: Centro de Educação Infantil...
A vida nos leva, a aceitarmos coisas que nem sempre está de acordo com os nossos princípios.
E foi uma dessas coisas que me inspirou a fazer esta narrativa.
Esta estória com e; dentro da história com h, continua na sua terceira parte.
Aguardem!
“No porão daquele prédio era onde eu morava,
Me insultavam pra cantar, mas de tristeza eu não cantava,
Naquele viver de preso, muitas vezes imaginava,
Se eu arrombasse esta gaiola,
Pro meu sertão eu voltava...”
Ciscodevair@sercomtel.com.br – Skype: cisco_devair – MSN: souzapedra90@hotmail.com
Londrina – Paraná.
Autor: cisco.devair
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