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Dura Lição

 

Data: 24/11/2007
Hora: 12:38:02
Publicado por: cisco.devair
Publicado na página: biblioteca_ler

 

Dura Lição - 1ª parte


DURA LIÇÃO- 1ª parte


"Deus Criador quando arquitetou o Universo, certamente criou as aves, para que o homem olhasse para o céu, para as alturas, mirasse e contemplasse as estrelas;
Certamente sua intenção foi à de que: o homem, não ficasse olhando apenas e somente para seu próprio umbigo".
Cisco Devair:

Não vai longe no tempo, meus olhos físicos ainda eram considerados : poéticos e dominadores.
Hoje um véu de viúva sem marido defunto cobre meu olhar; E só me deixa receber uma nesga daquilo que antes me parecia tão importante e imprescindível.
Na época que estes fatos que aqui serão narrados se deram, este cisco humano pensava viver então salutar passatempo.
Eu Mantinha uma penitenciaria de segurança máxima, onde os detentos eram em numerosa população.
Cerca de trezentos internos se destacavam nas mais variadas plumagens.
As cores do arco-íris ali nesta prisão estavam bem representadas, o colorido enchia aos olhos de qualquer um.
Todos aqueles reclusos aparentavam contentar-se com aquele universo. Só conheciam aquele. Seus cantos, gorjeios e pequenos revoares logo ao romper da aurora diziam: "Somos felizes!".
Singelos e miúdos prisioneiros que apesar de serem possuidores de ágeis asas eram iguais ao Ícaro, pois seus vôos nunca se aproximariam da liberdade que impera nos pomares e bosques.
A quem eles deviam estas suas desventuras? Áh! É isso mesmo. A este humilde garatujador das letrinhas, que um dia foi um respeitado e dedicado criador de canários e de seus pequenos primos alados.
Como me davam trabalho aqueles bichinhos, se eles eram meus prisioneiros, escravo deles eu era.
Minha dedicação e o conforto de primeiro mundo que eu lhes proporcionava me davam o direito de egoisticamente amá-los, e considera-los felizes e protegidos dos perigos do mundo externo. Assim era.
Como muitos ainda o fazem até os dias de hoje, erroneamente eu do mesmo modo também agia.
Sendo esta uma antiga prática mundial, originária dos primórdios da civilização humana, O bicho denominado de homem e dito semelhante ao Criador de tudo, sempre viveu a aprisionar os ditos irracionais e transforma-los em Bichinhos de estimação.
Se o neto nasceu no cativeiro, o avô com certeza um dia foi surpreendido e sem o querer foi arrebatado da sua doce liberdade.
Quem sabe de onde provêem esta prática que sempre se tentou justificar escudando-se hipocritamente atrás das palavras afeto, estimação e companheirismo.
D quando? Acho que desde lá "do tempo de Adão, com certeza o CAím tem culpa nesta história.
Se tal costume não é oriundo de lá, quem sabe se não foram os Deuses astronautas que aqui desembarcaram e nos ensinaram à engenharia da fabricação da arapuca e o desativar das molas dos alçapões; Bom, sei lá quando, esse maléfico costume, se enraizou dentro da gente, espalhando-se Planeta afora e continuando alcançou nossos dias atuais.
Esta prática continua a ser comum.
, A criação de animaizinhos em cativeiro é legal e como é sabido, coibido com algumas "leizinhas".
Lei dos homens existe, são elas no papel: severas, mas não deixam de ser bem hipócritas.
Falsos defensores sempre existiram e as ditas leis estão aí espalhadas pelo Planeta afora, porém a lei do Criador, nunca foi respeitada.
Manter pássaros presos não é pecado? Acho que deve ser... No mínimo um pecadinho! Você não pensa assim também?
Não obstante a tudo isso, quase ninguém deixa tal prática pelo medo de não alcançar as benevolências dos céus, ninguém se preocupa em arder no fogo dos sete infernos!
Mas sem dúvida é uma prática considerada por muitos, um agradável "hobby". Assim eu também pensava e agia.

Obtuso como muitos, até então, nadinha de mal eu pensava estar praticando.
Igualzinho a tantos "inteligentes", eu, em minha cegueira de vidente também assim acreditava, Enquanto levava minha vida e labutava em meu pequeno comércio de periferia.
Um dia, porém, meus olhos físicos se viram iguais a dois pirilampos sem baterias, olhos que fatigadamente mortiços e aprisionados pelo manto da escuridão, só passaram a servir para que outros os observassem com aquela curiosidade mórbida da interrogação.
"Nossa! É verdade que o senhor não enxerga? Não parece! Seus olhos são perfeitos!". Pois é, duas brasas apagadas ao se desconectarem do brilho da luz talvez tenham sido as responsáveis pela mudança de rumo. Minha prisão e o tempo que passou a sobrar e consequentemente as reflexões de crescimento me impuseram uma nova realidade.
Entre tantas mudanças que a dor me impôs, a perda da visão física também sabiamente me presenteou com um abrir dos olhos.
Minha perda física e minha prisão no calabouço tétrico das trevas induziram meus olhos espirituais, a ter um outro entendimento sobre o assunto.
Nunca é tarde para despertar e tomar juízo. Não é verdade? Assim aconteceu.
Meus conceitos mudaram e minha desatinada e tirânica prática morreu.
Alguns aprendem pelo amor, outros, porém só aprendem com a dor.
Hoje convicto estou: manter os bichinhos subjugados, sem dúvida, no mínimo é uma idiotice! Sendo aqui brando comigo mesmo, pois, chamar tal façanha de covardia não é proferir heresia alguma.
Bom, mas enfim: assim era. Eu possuía e criava grande quantidade de pássaros em hediondo cativeiro.
Uma criação mais ou menos dentro das normas legais e idiotas, pois os silvestres eram sempre menos que os meus dedos, (entre estes um papagaio boiadeiro perpetua por aqui, enchendo os ares com suas alegres e safadas papagaiadas. Este é igual a um filho).
, Belos exemplares naqueles dias povoavam meu humilde castelo, mas sempre predominaram os chamados: canários do reino, os belgas e outros, originários da Ilhas que lhes deu o nome, como também exemplares de outros países.
Pequenas aves mestiças que já são procriadas em cativeiro, um exemplo deles é o pintagol, (que ignorância mais estúpida), mais enfim...
Eu era o supremo diretor, mantenedor e próprio otário de Um grande viveiro, uma bem arejada prisão onde aparentava possuir toda infra-estrutura necessária para o conforto que os internos necessitavam e mereciam.
Zelar e me dedicar a eles, perceber e acompanhar seus desenvolvimentos e ouvir seus "alegres" cantos era o descarrego de meu estresse urbano.
Mas uma coisa eu garanto: Carinho e dedicação de pai, eu nunca lhes deixei faltar; orgulho e prazer de expor-los aos outros, era uma de minhas recompensas; separa-los para cruzamento e posterior constatação das boas ninhadas, era uma inenarrável satisfação pessoal, meu ego sentia-se polido, igual: esmerado sapato engraxado e bem lustrado. Um gozo comparado ao saboreio do melhor prato servido ou quem sabe, tão intenso ao prazer sentido nas melhores das relações sexuais. Era uma glória.
Na época da procria a rotina dos miudinhos sofria grande mudança, O aumento da população carcerária exigia alguns ajustes para que se mantivesse a harmonia. Os bichinhos alteram seus comportamentos. As desavenças acontecem.
Aqueles novatos que vão chegando na hora de iniciar seus vôos são transferidos para o viveiro que é conhecido popularmente como: Voadora. : Para ilustrar melhor, vamos dizer que este viveiro conhecido como voadora é comparado à primeira escola dos humanos. Uma popular creche pode se dizer.
Ainda me lembro, quando nestes momentos mágicos, que aquele menino caçador que perdura dentro da gente se agigantava e fazia meus olhos brilharem de pura satisfação enquanto uma mão descarada e sem juízo se esfregava na outra, um bico de assovio afunilava meus lábios ou uma exclamação vitoriosa escapava por entre os dentes que sorriam. Imagine tal cena!

Esporadicamente negocia-los, era o justificar idiota daquilo que onerava em meu bolso para mantê-los. Enfim, tudo me fazia bem.
Em certo período desta época se tornou rotineiro um hábito meu: Presentear: aos amigos, uma prisãozinha chamada de gaiola com um jovem casal, que já estivessem gorjeando.
Mas, como sempre pensava em seus bem estares, junto ao conjunto seguia farta quantidade de alpiste e ração, seus históricos e ainda algumas instruções básicas para o futuro ou novo carcereiro. É sempre assim: O pecador instintivamente nunca quer pecar sozinho. :
Além da grande penitenciaria de luxo, também era fácil de se ver em meu castelo, diversas gaiolas, penduradas por todas as bandas: No bar, na área de serviço, na sala, nos banheiros, na varanda, gaiolas e mais gaiolas, cada uma com uma bem feita tarja, onde se lia o nome do encarcerado.
Sempre um ou outro amigo, vinha em busca de comprar um recluso, ou também na intenção de vender algum.
As transferências de cárceres e alterações das custódias dos “penados” eram rotineiras por aqui.
Meu leque de amigos que também cultivavam a mesma prática era grande, muitos me procuravam.
Em certa ocasião em um domingo de sol, um deles, um pequeno criador de cognome “Soró”, foi chegando e adentrando ao meu comércio. O amigo trazia uma gaiola, firmemente segura nas calejadas mãos de operário braçal.
Ele, exclamou bem humorado, deixando transparecer um certo “grau” em sua habitual voz pastosa de apreciador de água que passarinhos não bebe:
--Hei Seu Souza, este aqui, é: O verdadeiro coroné!
Ato contínuo proferiu mais uma meia dúzia de adjetivos ao serelepe bichinho, que me encarou desafiador com seus olhinhos vermelhos.
E a seguir, Depositando a pequena gaiola em uma mureta que aqui existia, o amigo Soró com boca cheia exclamou transbordando em orgulho:
--Ouça só que maravilha! Escuta só este atentado!
Assim dizendo afastou-se um dois ou três passos.
Aí o pequeno tenor, abriu o bico e soltou a garganta.
Realmente, aquele canário merecia o significativo apelido de: CORONÉ!
Seu canto de sete dobras: melodioso, alto e dominador, levado pelo vento, foi ouvido até lá na rua da feira, ecoando singularmente e inundando o ar daquela inesquecível manhã de Domingo.
Negociamos, fiquei com ele. Naquele mesmo dia formalizei seu nome como Coronel.
Sendo que: daí por diante, a hierarquia militar tornou-se uma maneira de conhecê-los e qualifica-los.
Conforme suas proezas e seus cantos viveram por aqui: Coronéis, Majores, Capitães, tenentes, Sargentos e assim por diante.
Até simples soldados e meros recrutas. Ah! Até um delegado andou passando por aqui.
Com o tempo outro veio a ser: o “coroné” e este primeiro passou a general, marechal e finalmente Veterano.
Conforme o tempo passava, e as divisas o enobreciam ele continuava soberano, pai e avô de muitos, com galhardia de nobre fidalgo ele continuou a cantar e a reproduzir cobiçados herdeiros.
Cantava, cantava, seu belo canto, encantava aos ouvidos, seu graúdo e majestoso porte em penas: cinzas e brancas impunham respeito e admiração; na região não se tinha notícias, de haver existido outro mestiço igual. Sua fama cresceu. Seus filhotes eram disputados por muitos; Muitos também, o cobiçavam.
Ofertas tentadoras eram quase diárias e comuns em recebê-las, sua cotação chegou a ser expressiva, leigos o confundiam como se um pintagol fosse.
Os anos se escoaram no ralo do tempo, o mundo girou alterando o tempo e este passou, com este passando: o já veterano começou a engordar, já estava alquebrado e idoso, suas unhas necessitavam ser aparadas com uma certa freqüência, sua canela, começou a engrossar com uma casca grossa ( fenômenos naturais nas aves), sendo que: uma pomada especial era necessário nelas aplicar.
Seus pulos nos poleiros foram escasseando, seu cantar já não era o mesmo de outrora, uma de suas asinhas teimava em ficar desalinhada, seus olhinhos diziam a necessidade que tinham de pequenos óculos. Mas mesmo assim, ele se mantinha majestoso e imponente. Era no poleiro mais alto de sua cela que sua figura soberana sempre era encontrada.
Em sua prisão agora já não havia portas a fechar, sua condicional finalmente acontecia.
Minhas preocupações com ele aumentaram, eu me esmerava, sempre um pouco mais ao zelar de sua ampla cela.
Sua alta graduação dava-lhe certas regalias, como se curso superior ostentasse.
Em um determinado dia, ainda me lembro como se ontem fosse: Era uma sexta-feira carrancuda de agosto, ao iniciar minhas atividades no bar notei que, seu comportamento habitual se alterava.
Meu querido veterano inquieto e meio esquisito agia, estava diferente, sem nenhuma explicação aparente.
Os longos anos de convivência me alertaram, logo percebi que meu companheiro não era o mesmo: piava, piava e piava, assim agia: igual frágil filhote, triste e dolorido, como se chamasse por mim.
O longo tempo de convivência entre nós veio a nos ensinar, uma fala especial.
Até os dias de hoje, consigo entender as prosas dos bichinhos.
Mas voltando ao negro e triste episódio. Atendi seu chamado, foi o tempo. Meu amiguinho morreu.

Veio a expirar seu último sopro de vida, em minhas impotentes mãos. Enquanto seu corpinho estremecia, seus olhinhos vidraram.
Pareceu adormecer.
O pranto que caiu dos meus olhos, foi como um banho de despedida, sua última viagem foi aquecida com o calor de minhas lágrimas, ali, novamente apenas uma criança eu era.
Na época, após o pranto, um consolo. Seus filhotes e netos, em fim sua nobre linhagem o perpetuava, Seus herdeiros por algum tempo ainda tentaram honrar suas origens.
Tudo dizia ser o ciclo normal da vida, só que algo me chamou a atenção na época.
, Sua companheira de nome clarabela também não agüentou. Nesta mesma semana começou a definhar e mesmo recebendo cuidados merecidos sete dias depois também foi finalmente voar junto com seu companheiro de tantos anos.
O casal finalmente buscava a liberdade dos bosques e pomares, que com certeza existem também para eles lá no paraíso.

Esta estória continua na sua terceira parte. Aguardem!

"A frase construtiva e generosa é princípio de solução nos mais complicados processos de sofrimento". (Chico Xavier)
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Autor: cisco.devair

 

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