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Uma boa Peleja...

 

Data: 20/10/2007
Hora: 21:59:12
Publicado por: cisco.devair
Publicado na página: biblioteca_ler

 

Uma boa Peleja...
CEGO! QUEM É CEGO?

“A maior e melhor universidade, sem dúvida é a universidade da vida, não é sempre que um lindo anel de formatura fabrica um sábio”.

Cisco Devair:
Aquele escaldante dia de verão abrasava até as almas penadas.
Era um daqueles, que até os lagartos quebram suas rotinas e procuram o frescor das sombras, o sol ardia.
Aproveitando a deixa da vida e o insistente convite do dia, um jovem senhor que carregava seu meio século adentrou o recinto de uma concorrida lanchonete.
Foi chegando com seu andar maneiro de mineirinho descansado, enquanto sua voz de gaúcho trovador cumprimentava aos presentes.
Uma mesa e uma cadeira, que ficavam em um cantinho do aconchegante recinto, se aprumaram para receber seu conhecido de longa data.
O velho estradeiro usando seus aguçados sentidos auditível e tátil para lá se dirigiu, caminhava sem dívidas, não carregava pecado algum.
Seus olhos foram tocando suavemente os obstáculos, o percurso continuava o mesmo, até as formiguinhas que zanzavam pelo esmerado piso, não se assustaram, sabiam que aqueles passos não as pisoteariam.
O homem ainda não acabara de acomodar-se, e à sua frente o barulhinho refrescante de uma loira gelada enchia o generoso copo de cristal.
Aquele néctar dos deuses não chegou a fazer amizade com a longa taça, sumiu em segundos, agradando a ressequida garganta, viajando igual a um ônibus expresso, indo parar na esvaziada bexiga.
O som de uma língua satisfeita estalou, ecoando no ar sem malícia alguma. O paladar aprovava a temperatura e a qualidade da saborosa.
O rapaz que servia, enquanto gracejava com o freguês, abordou um velho assunto, enquanto aguardava com a suada garrafa em suas mãos prestativas e interesseiras.
Ato seguinte, novamente encheu a taça, profissional e cuidadoso, evitando o colarinho, suas atitudes nada tinham de primárias.
Enquanto o espumante líquido voltava a colorir a sedenta taça, o rapaz que a servia brincou com o freguês:
--Hei Seu Cisco! Será que seu tricolor segura meu coringão hoje à noite?
A resposta encontrou a provocadora pergunta no meio do caminho:
--Claro! Vai ser uma bucha! Só do Leandro vão ser dois e quem sabe mais uns dois do Rogério.
O homem da bengala deixou escapar uma frouxa gargalhada e completou:
--Quem tem goleiro artilheiro, já começa o jogo ganhando.
Aquelas palavras saíram provocadoras, e não deu outra, mexeu com os brios dos palmeirenses, corintianos e santistas que lá também arejavam suas cucas e fugiam da força irradiada e provinda do majestoso Rei.
Em pouco tempo, o bate boca igual poderoso rastilho de pólvora acesa, espalhou-se em todas as mesas, incendiando os ânimos de todos que ali estavam.
Um dos freqüentadores que ocupava a mesa vizinha daquela onde se acomodara o homem da bengala, em pouco tempo destacou-se dos demais.
Arrogante e canastrão, verbalizando, com fluência, dizia entender de tudo.
Conversa vai, conversa vem. Do futebol para a política; da política para os problemas do mundo; volta e meia, retornavam ao futebol, assim acontecia.
As irmãs das garrafas suadas vieram fazer companhia ao grupo, junto com elas uns “birinaites” e alguns tira-gostos também marcaram suas presenças.
A disputa de opiniões, entre o homem da bengala e o outro que dizia ser poliglota: estudado e bastante viajado, acirrou-se.
A metade do sangue mineiro que nadava nas veias do cinqüentão começou a pirraçar, enquanto seu dono cofiava um descuidado e já grisalho cavanhaque.
A outra metade de seu sangue, provinda dos pampas, começou a ebulir, enquanto a voz de seu dono disputava de igual para igual aquele “converseiro”, demonstrando ser perspicaz e teimoso.
O olhar daquele homem, ainda, mantinha o brilho dos videntes, apesar de já há alguns anos viverem no mundo escuro.
Ninguém percebeu o momento, mas de repente, o diálogo era travado apenas por duas vozes.
De um lado o arrogante letrado, e do outro, aquele simples homem com sua bengala.
O primeiro: Arrogante como só, com sua voz de bom timbre trazia nos dedos orgulhoso anel de homem culto.
O portador da bengala, trazendo apenas seu temperamento indomável e seus humildes conhecimentos de autodidata, não deixava por menos, não fugia da refrega.
O calor daquela conversa levou o letrado a tentar humilhar o “pobre ceguinho”.
O do anel desafiou o homem da bengala para uma disputa, este aceitou no ato.
Nele, o orgulhoso sangue, oriundo do pai, apreciava uma boa demanda; E por sua vez, o maneiro sangue da mãe se entocai ou para a boa briga, assim era o da bengala.
O bonitão do anel disse com uma voz carregada de auto-suficiência:
--Então tiozinho, eu lhe faço uma pergunta, caso você não saiba, tu me paga dez reais...
O sangue do homem da bengala irritou-se, ferveu com aquele “tiozinho” e também com aquele “tu”, pois ambas colocações soaram em tom de escárnio provocador.
O sangue da mãe, que corria naquelas veias, fez um esforço danado para segurar a língua do seu dono, foi difícil, mas conseguiu.
O do anel continuou:
--E o tiozinho pode fazer qualquer pergunta, se eu... Se eu errar, pago cem reais para o tiozinho. Aquele tiozinho era pra matar, mas o calejado portador da bengala branca buscou a velha paciência de antigo botequeiro, pois em um passado não distante, esta antiga arte profissional fora mantenedora de sua vida e dos seus.
Aceitando o desafio de pronto, fez o letrado sustentar o que dizia, então sorrindo matreiro pediu humildemente:
--Posso fazer minha pergunta?
O outro, deixando escapar mais uma provocação, autorizou:
Manda ver, tiozinho!
O da bengala sorveu um generoso trago de sua cerveja e limpando despreocupadamente o, os lábios com o dorso da mão; aí então, soltou sua pergunta.
Todos que ali estavam mantinham-se em respeitoso silêncio, ouvindo a pergunta dirigida ao almofadinha.
--O que é... O que é?
Tem dez metros, pesa dez quilos, dentro de si comporta dez pessoas e consegue fazer uma volta ao mundo em dez dias?
Ninguém abria a boca, todos esperaram ansiosamente a resposta do orgulhoso dono do anel.
O silêncio era quase total, apenas o som dos alto-falantes continuava no ambiente.
Enquanto Zezé de Camargo e Luciano abriam suas gargantas, lá na caixinha de som, o do anel pensou, pensou, e pensou...
Remexeu-se inquieto em seu assento, engoliu um gole de sua bebida, pensou, pensou...
Deixou escapar contrariado suspiro e finalmente dando-se por vencido, exclamou:
--Não sei! Esta. Realmente eu não sei.
O braço direito do homem da bengala estendeu-se na direção do outro.
Então, como se sua mão falasse, ficou espalmada esperando sua paga.
Quando o do anel depositou ali duas cédulas, seu dono agradeceu e usando do mesmo remédio amargo, brincou com seu rival, devolvendo na mesma moeda a provocação de antes:
--Hei pessoal! Por obséquio, confirmem se o meu querido “sobrinho”, não se enganou com as notas!
O outro não gostou: claro, pois além de perder seus cem reais, ainda se via obrigado a agüentar aquela picuinha.
Ele chegou a imitar a cor de um tomate maduro, mas era educado e engolindo a ofensa, revidou:
--Bom meu senhor, já que o senhor fez a sua pergunta, então agora é minha vez.
Todos continuavam atentos, esperavam o desenlace da disputa.
O do anel, sorrindo amarelo e aborrecido quis saber:
--Qual é a resposta da pergunta que o senhor me fez?
O da bengala não pensou duas vezes e usando de uma voz macia e humilde respondeu:
--Eu também não sei...
E virando-se na direção do dono da lanchonete pediu:
--Hei seu Manoel, por favor, quebra uma dessas notas de 50, para que eu possa pagar os dez reais que acabei de perder!
A gargalhada dos presentes foi geral.

Deus Esteja

Autor: cisco.devair

 

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