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O Castigo

 

Data: 05/07/2008
Hora: 09:07:40
Publicado por: cisco.devair
Publicado na página: biblioteca_ler

 

O CASTIGO

Cisco Devair: Tudo parecia igual, ali estava ELE.
O mesmo cabelo rebelde, o mesmos olhos, a mesma boca que insinuava ligeiro desdenho, as mesmas sárdas a pintar aquele rosto imberbe.
Igual, igualzinho, era ELE, era ELE revivido ao passado.
Um passado saído das cinzas, um retrato fiel, era ELE.
O sorriso amargo que brotava de seus lábios, deixava a mostra aquele dentinho enraizado fora de uma dentição perfeita.
Os ombros altaneiros ainda juvenis mas já diziam ser másculos, empertigavam se.
Era ELE.
Igual, até as roupas aparentavam iguais de Outrora.
O meu coração doía. Era ELE.
O olhar teimoso e arredio, era ELE.
Outrora eu já vira um joelho tão ralado, prova concreta das várias peraltices. era ELE, assim era ELE.
Ali estava ELE, a minha frente, estava ELE.
Revivendo, castigando, cobrando minhas atitudes.
De seus lábios nada ouvira, apenas ELE estava presente, era ELE.
Aquele menino, antes bastardo, até então por mim ignorado, era tudo ELE.
Igual, igualzinho. Era ELE, mas não era meu.
Até sua voz, era a DELE:
--Adeus excelência, eu só vim com a finalidade exclusiva de assistir ao enterro de meu pai.
Impotente e amargurado, observo o rapazinho dar-me as costas e se afastar.
Igual, igualzinho, seu andar era igualzinho, o mesmo gingado, a mesma indisciplina ao caminhar, a mesma indolência ao subir os degraus e entrar naquele maldito avião, lembrava ELE.
“Meu Deus! Porquê eu não aceitei este neto! Que estupidez foi esta minha? “
Só. Muito só, fico.
ELE, frio como este que partia, agora descansa naquele negro e triste caixão. A úmida terra cobrira seu amado corpo.
ELE, meu único filho se fora para sempre.
E o DELE também se ia, a porta daquele maldito avião já se fechara e das portas do meu coração neste instante brotam amargas lágrimas de sangue, elas quentes banham meu rosto pobre de homem rico. Eles se foram. Meus lábios, tremem, eles balbuciam:
“Adeus meu neto”.
Ele não me ouve.
Eu sozinho ouço minha própria voz, que murmura: “Quem sabe um dia você consiga me perdoar”. O pranto escorre silencioso e amargo, sufoco um gemido que morre na garganta, do mesmo modo ELE morreu naquela maldita piscina.

 

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