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O UIRAPURU E A FLOR DO Jasmineiro

 

Data: 14/10/2007
Hora: 11:54:29
Publicado por: cisco.devair
Publicado na página: biblioteca_ler

 

O UIRAPURU E A FLOR DO Jasmineiro
"Uma fábula, uma lenda ou o retrato de um sonho, traduzem valores significativos”. Eles explicitam em seus âmagos mensagens singelas e infinitamente divinas.
Devemos vivenciá-las e usufruirmo-nos de suas essências, em toda sua plenitude".

Cisco Devair:

Introdução:
Narra antiga lenda, que nos primórdios da civilização humana, os seres viventes ainda não se conheciam em todo seu Universo terreno.
Naqueles tempos, todos eram livres para: irem e virem viviam e se comunicavam abertamente. Ainda não existiam às leis a amarrá-los.
Nada, impedia os seres na busca dos seus instintos naturais, nada impedia as criaturas ou as essências de suas almas em se comunicarem entre os diferentes estágios do simples viver.
Entre a Fauna e a Flora não existia barreiras a separá-las, todos eram iguais conforme a lei do Criador.
Conceitos prévios ainda não imperavam, deis doutrinárias não existiam a amar rilhar os viventes.
A liberdade vagava pelos quatros cantos do Planeta.
O Homem era apenas um caçador, dependia de sua caça para viver, suas leis ainda não em praguejara o antigo Paraíso, apenas sobreviviam.
Animais e plantas viviam a se conhecerem, harmonizavam-se. O Mundo irradiava felicidade e rumava seu caminho aventureiro. Reinava o Amor.
Na Fauna, as aves predominavam nos ares, voavam e voavam, cantavam e cantavam livres em todos os cantos e recantos.
O celestial e o sublime esvoaçavam ao vento, seus cantos trinavam encantando o mundo, a tristeza ainda não se aportara em ancoradouro algum. Os seres alados gorjeavam, trinavam e cantavam seus anseios e suas bem aventuranças.


Assim acontecia, assim retrata-se uma realidade em um maravilhoso sonho vivido...
Doravante imaginemos o sonho real vivenciado e vivido por um humilde cisco humano em seu caminhar evolutivo e "pecador"... Retornemos ao subconsciente do autor e acharemos duas almas humanas e seus profanos e sublimes corpos físicos, em um sinuoso ato de amor carnal...
Revivamos o último parágrafo:
"Os seres alados gorjeavam, trinavam e cantavam seus anseios e suas bem aventuranças".
Entre elas, encarnada em sua primeira existência terrena, uma humilde ave. O Uirapuru.
Também conhecido como: Arapuru. Uma ave desprovida de belas plumagens, porém dona de afinado e melodioso canto.
Nosso tenor, aqui protagonista principal, já meio alquebrado pela vida, nesse instante voava junto às estrelas, seguia o suave da brisa e buscava o calor aconchegante e perfumado do seio da primavera.
Trazia e levava consigo, os efeitos de uma antiga fratura. Lesão esta, que se achava enraizada em uma de suas asas.
Ele, enquanto arribava rumo ao norte, sozinho dentro de si, seguia seu caminho.
Seus vôos eram cautelosos, seus pousos eram demorados.
Quando pousava em descanso merecido, habituado estava á esconder-se nas sombras amigas das grandes folhagens. Assim acontecia.
No entanto, nestas oportunidades Ele enchia o peito afinava sua garganta e abrindo o bico, cantava e cantava.
Seu poético e melancólico canto atravessava densas florestas, subia e acarinhava montes, buscava as entranhas dos mais sinuosos labirintos, elevava-se ao infinito do céu, passeava sobre as nuvens indo estrondear e morrer junto às estrelas.
Afirmava-se quem viesse a presenciar seu canto de perto, nunca mais, nunca mais o esqueceria.
Na Flora, as flores predominavam, o mundo vivia respirando suas divinas fragrâncias perfumadas, suas belezas coloridas inundavam o Paraíso.
Entre muitas uma singela flor destacava-se pela sua raridade e também pelas partículas odoríferas que exalavam de sua brancura. Era à flor do jasmineiro.
Conforme conta a lenda um dia:

"O Uirapuru voava pelos ares daquela bela manhã primaveril, vinha cansado pela longa jornada, pois, a muito percorria as léguas do infinito paraíso amazônico”.
Quando de repente, ao pousar em uma frondosa árvore frutífera, vislumbrou uma bela e rara flor.
Lá de onde se encontrava, seus espertos olhos miraram em puro êxtase, aquela até então por ele: desconhecida planta. Planta essa, que apenas trazia uma única flor.
A mesma, branca igual ao manto virginal, bela como se fosse uma princesa aprisionada a uma tétrica torre de frio e agourento castelo medieval.
Aquele recanto seria triste, se não fosse ela.
Assim aquela visão retratou-se na mente do viajante.
Um dolorido, porém maravilhoso quadro que naquele momento imediatamente encarcerou os olhos do pequeno cantor.
O sentimento de dor dava-se por conta que tudo indicava que o brilho dos raios solares não transpunha certas barreiras.
Pois, a perfumada encontrava-se ali, isolada naquele descampado, uma pequena clareira circundada por pequenos morros e grandes árvores com suas largas e densas copas a assombrar sem piedade.
O Rei Sol era quase que impedido a tocá-la; a princesa sombra oriunda das frondosas rainhas das grandes matas regateava de maneira quase pirracenta os deliciosos raios provindo de sua Majestade.
A curiosa ave ficou ali a observar aquela obra prima, sentindo e usufruindo o delicioso perfume que se desprendia cálido e insinuante do ventre da formosa e solitária flor.
Enquanto apreciava a beleza da imaculada brancura, o Uirapuru trinou seu canto. Este atravessou montes e florestas, rios e planícies e inundou ao longe.
O pequeno tenor ficou ali, a observar. Observava e observava... Então se pôs novamente a cantar.
Enquanto abria e abria seu peito e sinfonizava seu vasto repertório, assim agindo: tentava porque tentava atrair a atenção sobre si.
E assim poder encantar aquela misteriosa flor.
Ela aprisionada pelo julgo de seu caule não demonstrava ser iguais ás outras, que ali, se espalhavam ao seu redor.
Sua fragrância perfumada envergonhava e sufocava todas as outras essências perfumadas.
Enquanto assim acontecia o mundo girou sobre si.
Os Dias claros galoparam como se jovens potros fossem, as noites escuras e frias, iguais a tartarugas desprovidas de uma pata, se arrastaram.
O implacável tempo se foi. Os lépidos dias voavam em busca do esperançoso futuro, as noites desciam frias e inquietas, cobriam tudo com aquele manto enegrecido, as estrelas sorriam e piscavam brincalhonas lá no infinito céu, a princesa lua regozijava-se ao mudar suas feições.
Por sua vez, o Rei Sol ao escovar seus dentes e antes ainda de ativar suas turbinas centrais, bocejava preguiçoso.
Bocejava e bocejava, se espreguiçava e alongava seus raios. E quando olhava soberano para seus domínios, seus grandes olhos abriam-se ainda mais, pois:
Lá já estava ele. O Uirapuru. Bem desperto: madrugador e disposto, empoleirado firmemente em seu ponto de observação.
Ele apreciava presenciar quando o menino orvalho se ia, levado docemente pelas leves mãos da tia brisa, que aquecida e mansa pelo rei, em sua caminhada ia enxugando carinhosamente as lágrimas de todos que haviam pernoitado ao úmido relento.
O minuano maneiro e sinuoso começava a acariciar o mundo primaveril, pouco antes ordenara que as milhares de vozes noturnas da Mãe Natureza se calassem, muitas delas ainda teimavam em não acatar suas ordens.
Os clarins das passaradas ecoavam pelos ares, a ordem espalhava-se por todo o universo terreno.
Certo dia a atenção do Uirapuru foi desviada de sua musa inspiradora. O pequeno poeta viu ali perto de si, um minúsculo beija-flor.
O ágil e lépido aviadorzinho fazia suas acobracias, realizava com maestria verdadeiras peripécias nos ares daquela manhã ensolarada.
Beijoqueiro como ele só, ia e vinha, ali e acolá, roubando e distribuindo seus beijos e suas carícias.
O Uirapuru estacou-se naquilo que vinha fazendo, deixou-se a mirar aquele inoportuno companheiro de asas.
Ficou admirando as muitas façanhas praticadas pelo miúdo colibri.
O outro, demonstrando nem estar aí com sua presença, continuou o que fazia.
O fino biquinho do singelo aladinho, como se fosse ladino ladrãozinho, portador de seringa armada de fina agulha, ia roubando seus beijos, sugando as seivas das flores que se abriam indefesas.
O artistinha manobrava e estacionava milagrosamente nos ares, voava para todos os lados: para frente e até para trás, enquanto suas asinhas frenéticas e incansáveis batiam, ele trinava humilde gorjeio.
O poderoso cantor lá de onde estava, sentia-se um pouquinho despeitado. Assim naquele momento ele pensou:
"Que figurinha, que artistinha sem graça, nem sabe cantar!"
Mas lá no fundo de sua alma algo lhe dizia:
É! Ele é tudo isso, mas bem que você não consegue ficar planando no ar! E quem dirá: Possuir a capacidade de voar para trás!
Isso que eu apreciaria de presenciar. Será que você consegue?
De si para si nosso herói dizia:
"Claro que consigo!” Então não vou conseguir!
Assim pensando, seus olhos desviaram-se para sua bela prisioneira, mil pensamentos inundaram a cabecinha do danadinho.
Pensou, pensou, tentaria e tentaria imitar o colibri.
Neste momento, suas penas se eriçaram, aprumou seu pescoço e partiu igual a um foguete.
Voava atrás do beija-flor, que neste instante rumava na direção da branca e bela flor...
"Aí, não! Nela não! Seu picareta de meia taca!“ Botou o pequeno torpedo para correr...
Quer dizer: para voar para longe dali.
Com a fuga do outro e se vendo novamente dono da situação, então iniciou suas tentativas.
Sonhava por que sonhava em roubar alguns beijos de sua musa, não via o momento de degustar o mel perfumado que brotava dó pólen da linda flor.
A primeira tentativa foi um fracasso total:
Voou na direção da mesma e quando tentou planar no ar...
CATIPUM!!! Estatelou no duro chão!
Mais uma tentativa...
CRÁAAS!!! Desta vez, quebrou um galhinho do jasmineiro!
Mais uma... E outra... De novo...
Queda aqui! Arranhão acolá!
Nada. Nadinha de nosso herói conseguir realizar seus sonhos.
No entanto, ele era teimoso. Persistiu.
A bela ficava lá: No alto, parecia que "risava" do pobre coitado...
Seu perfume se desprendia ainda mais, ela se abrindo cada vez mais provocadora.
Aquele dia foi assim.
Quando o entardecer começou a cumprir sua missão; que era a de ser o mensageiro de sua Majestade: O Rei Sol.
Ele, o entardecer. Anunciou a todos, que iria chegar a quase viúva daquele dia que agonizava.
Então, finalmente o nosso amiguinho desistiu.
A grande montanha vinha buscar o Rei. Ele aparentando pequena febre, começou a deitar docemente. Era majestoso, suas turbinas se desligavam, seus grandes olhos antes arredondados e bem abertos, começavam a se rasgarem em novo formato.
Suas feições imitavam o povo Nipônico, dali a pouco sorriria para outros irmãos, lá no outro lado do mundo.
O Uirapuru fadigado como estava, quase não agüentando, retornou ao seu poleiro.
Morria de desejos, sofria por não haver conseguido realizar seus sonhos.
Pela primeira vez a tristeza achou ali um ancoradouro.
Só dentro de si, triste e fadigado, pensando nela que lá estava ao seu alcance, mas não estava. Ele adormeceu.
Então o Criador apiedado do amargurado bichinho, enviou-lhe um Anjo.
O querubim que portava suas infalíveis flechas e seu arco arremessador do amor chegou e vendo que o Uirapuru dormia um sono profundo, cafuneou seus próprios cachos alourados, sorriu matreiro e "endiabrado"; Então, enviou-lhe certeira seta. Um estonteante e maravilhoso sonho, um roteiro minucioso que causaria inveja aos maiores artistas da bela arte. Assim foi:

Um novo dia trazia todas as belezas celestiais.
O azul anil do céu brilhava, os perfumes das flores se multiplicavam e se misturavam, uns aos outros. A brisa era serena e ao mesmo tempo exuberante.
De repente um arco-íris se formou ali perto e se pôs próximo à singela flor.
O Uirapuru vendo aquilo voou sobre o colorido e finalmente conseguiu chegar onde estava a sua musa adorada.
Ela o recebeu bem, como se suspirasse irradiou uma beleza fulgurante cintilava como se pedra preciosa fosse.
O poderoso cantor deixou cair ali na brancura virgem imaculada, seu primeiro e doce beijo, este: suave e manso, cálido e amoroso, porém, ansioso e possessivo.
Seu bico foi pouco a pouco tomando posse do perfume que exalava das entranhas de sua amada.
Ela inicialmente: tímida e assustada revirava-se, se contorcia e suspirava.
Abrindo suas mais perfumadas partículas, buscando com força respirar o ar que lhe faltava, expunha seu mais doce desabrochar.
Mas, tudo que havia se iniciado manso e terno; sem que ambos o percebessem, transformou-se em um delírio avassalador. Uma batalha.
Ela entregue aos carinhos recebidos, começou a se desmanchar em frangalhos, usava de toda a sua energia para combater o intempestivo ataque, clamava aos céus sua redenção.
Cada carícia mais possessiva estraçalhava sua singela beleza.
O Uirapuru tornara-se guloso e ansioso, voraz e enlouquecido.
A energia que tomara conta de ambos, não padronizava nenhuma diferença do certo ou errado.
Ele tentando ser o vencedor, ela também. Ele jorrando seus anseios, ela feroz, não se dava. Exigia.
De repente, a natureza se revoltou.
Explodiu em mil fagulhas multicoloridas, o remanso chegou.
Ofegava medonhamente, porém satisfeito e feliz.
Então após passar o efeito da singela loucura, o Uirapuru: cabisbaixo e derrotado, inerte e vencido, olhou.
Ela. Sua Musa adorada. Estraçalhada estava.
Então. Chorou e chorou.
Aí então. Acordou.
E lá estava Ela.
Fora apenas um maravilhoso e inesquecível sonho!

“O amor e a paixão para ser vivido entre os seres, não exige o colóquio dos corpos físicos, devemos degustar e materializarmos as energias desprendidas!”.


Autor: cisco.devair

 

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