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CAPÍTULO 2: O LADO OBSCURO DA PRODÍGIO
| Data: | 05/08/2010 |
| Hora: | 17:35:09 |
| Publicado por: | bruno |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
CAPÍTULO 2
O LADO OBSCURO DA PRODÍGIO
O amor é a energia mais poderosa do universo e, de todo o infinito. Você quer saber por que os vilões não ganham? É exatamente porque eles se esquecem disso.
O ódio é destrutivo, sim, mas seu poder de destruição é limitado... Limitado ao objeto do ódio e ao que está no caminho de quem odeia e do objeto do seu ódio. Se uma pessoa odeia alguém, essa pessoa será capaz de destruir esse alguém e tudo o que estiver no caminho até este alguém.
No entanto, o amor é uma energia bem mais poderosa e avassaladora. O amor pode construir universos, mas pode, também, destruí-los. O amor não é limitado: alguém que perdeu um ente amado, pode destruir tudo, tudo mesmo, de maneira cega. O amor é tão assustador, que o próprio ódio é parte dele. O amor é tão assustador! Afinal, o amor é capaz de transformar demônios em anjos e, também, anjos em demônios.
Talvez seja por isso que Lisandra, quando sua mente remontou uma cena em que Emanuel torturava Almira, usou uma técnica tão obscura contra o adversário. E... Quem pensaria? Lisandra Sólen, a chefe do Conselho de Sábios do CONFEIT, a garota prodígio, alguém que sempre tem um sorriso no rosto, uma pessoa tão amável, usando uma técnica obscura? Inimaginável, não é? Mas é isso: o amor transforma mesmo anjos em demônios e, é por essa razão que ele é tão assustador, é por isso que eu tenho mais medo dele que do ódio.
_ Você queria me deixar com raiva, Emanuel? Excelente! Parabéns! Bravo! Você conseguiu! _ Lisandra falou, irritada e irônica. _ Mas, deixa eu te advertir... Você não vai gostar dos resultados.
Olhando para a cara de Lisandra, Emanuel pensou:
_ “Droga! Eu pensei que, deixando ela irritada, ela cometeria um erro, ela se distrairia e, aí, eu poderia escapar... Mas... Parece que não. O sorriso no rosto dela desapareceu. Tudo o que restou foi uma expressão fria e assustadora. Ela tem uma expressão mais fria que a minha... Se ela for capaz de ser tão cruel quanto eu sou, talvez, então, eu tenha ido longe demais.”.
Lisandra falou:
_ Muito bem, Emanuel, eu vou lhe dar o que você merece. Ah! E... Muito obrigada. Afinal, peguei os sacrifícios necessários do seu exército... Vim preparada para tudo, sabe? Eu não esperava usar esta técnica, mas, você a merece!
Lisandra retirou uma caixa do bolso de sua camisa. Então, ela colocou sua mão em cima de um símbolo triangular que havia na caixa, empurrou três gotas do seu sangue dentro do símbolo usando de sua energia interna e, por fim, colocou um pouco de energia interna lá dentro também, enunciando:
_ [Liberação!]
E, de dentro da caixa, saíram, milagrosamente, quatro caixões, os quais ficaram flutuando no ar.
Gonzalo era uma pessoa inteligente. Ele não era muito poderoso, não sabia usar muitas magias e, nem tinha idéia de como usar uma técnica. Porém, ele conhecia muito, lia muito. E... Ele conhecia a técnica que Lisandra usaria. Ele pensou:
_ “Ela está com raiva, muita raiva. O sorriso desapareceu do rosto dela... Tudo o que restou foi uma expressão fria e dura. Caramba! Ela é mais assustadora que meu mestre! Oh, não, não é possível! Ela não vai usar essa técnica, vai? Não, não pode ser! Ela é a chefe do Conselho de Sábios do CONFEIT! Ela supostamente é a líder da luz! Ela não deveria usar uma técnica tão obscura quanto essa... Não, não pode ser, meus olhos devem estar me enganando... Mesmo meu mestre não usaria essa técnica... Droga! Acho que ela vai mesmo usar isso!”.
Então, Lisandra desenhou um portal, perpendicular ao plano do chão e, o portal apareceu. E, quando ela fez o gesto de abertura, o portal se abriu. Mas, desta vez, o portal emitia um poder mortal, especialmente quando Hades, o governante do submundo, apareceu. Em seguida, com um gesto de mão rápido, dois dos caixões se abriram, revelando dois corpos que pareciam mortos. Entretanto, a garota prodígio usou mais uma vez de uma técnica de liberação, só que, desta vez, liberou a vida que estava adormecida dentro desses corpos. Então, os dois seres humanos voltaram à vida e, Emanuel reconheceu dois de seus conselheiros.
_ Basilho? Rafael? Como...?
_ Mestre! _ Os dois exclamaram, assustados.
Porém, os conselheiros não tiveram tempo de fazer muita coisa, porque, com mais gestos de mão, Lisandra os conduziu para dentro do portal, mais especificamente nas mãos de Hades. Ah, leitor, os gritos de terror que os conselheiros de Emanuel davam eram aterrorizantes. Hades recebeu os corpos, com as almas ainda dentro deles, e os mandou, ainda vivos, para um lugar no submundo que separa as almas dos corpos daqueles que foram sacrificados; evidentemente, essa separação é muito dolorosa para a pobre alma sacrificada ainda em vida.
Então, a chefe do Conselho de Sábios do CONFEIT fez novamente a técnica de liberação, abrindo os outros dois caixões, revelando mais dois corpos, os quais flutuaram no ar. Mas, agora, ela usou outra técnica. A garota prodígio desenhou um hexágono, perpendicular ao plano do chão, com uma ampulheta dentro; de um lado da ampulheta, ela desenhou uma foice. Então, ela enunciou:
_ [Técnica oculta: separação forçada da alma!]
E , as almas foram separadas dos corpos de maneira mais dolorosa ainda. Em seguida, Lisandra enviou essas almas para Hades. O governante do submundo aceitou grato os sacrifícios, enviou as almas para o lugar no submundo que recebe sacrifícios de almas separadas dos corpos. Daí, ele permitiu que a garota prodígio fizesse seu próximo movimento.
Por fim, Lisandra desenhou um triângulo no ar, perpendicular ao plano do chão, com dois corpos pontilhados dentro _ um à direita e outro à esquerda _ e um gato no centro. Concluindo, ela enunciou:
_ [Invocação obscura.]
Gonzalo pensou, em choque:
_ “Sim, ela vai mesmo usar essa técnica. Droga! Meu mestre corre perigo com isso! Eu tenho que me livrar destas cordas, mas... Como? Eu nunca ouvi falar de cordas tão fortes! Maldição!”.
Emanuel pensou, mais em choque ainda.
_ “Não, não é possível! Mesmo eu não usaria essa técnica! Ela é... Terrível! E... Dependendo de quem ela chamar, eu estou perdido! Quem ela vai chamar? Quem? Maldição! Eu estou insolúvel aqui! Maldição!”.
Então, Lisandra estendeu as mãos para o portal, concentrando uma quantidade monstruosa de energia. Por fim, ela enunciou:
_ [Almas submissas, eu as invoco!]
E, duas almas apareceram nas mãos da garota. Ela colocou as almas nos corpos, usando uma técnica de aprisionamento e, terminou usando uma técnica de liberação, a fim de liberar a vida que estava presa nesses corpos. Então, a ligação das almas submissas aos corpos foi terminada, e eles se transformaram nas pessoas que as almas eram, antes que elas fizeram a última passagem para o mundo dos mortos. Os corpos, leitores, eram, agora,... Dos pais de Emanuel.
_ Filho? _ Questionou o pai, meio atordoado.
_ Pai! Mãe! _ Exclamou o governante de Demnian, emocionado.
_ Filho! _ A mãe exclamou também. _ Filho, foi você que nos chamou?
_ Não... _ Emanuel respondeu, triste. _ Eu jamais faria isso, mãe.
_ Ah... Eu vejo. Também, você não poderia ter nos chamado no estado em que você está. _ O pai disse. _ Bom, se não foi você, filho, quem nos chamou?
_ Foi Lisandra, pai... Lisandra sólen!
_ Oh! _ A mãe exclamou. _ Ah, meu filho, nós estamos tão tristes! Se essa garota nos chamou, usando uma técnica como essa, então, provavelmente... Nós teremos que lutar contra você, filho. Oh! Desculpe-nos, meu filho... Eu... Eu não queria...
_ Ah, filho, você está sem sorte. _ O pai afirmou. _ Se Lisandra Sólen nos chamou aqui, nós estamos na mercê dela. E, de todas as pessoas que eu posso imaginar, Lisandra Sólen é a última que eu gostaria de estar na mercê... A fama dela é terrível, mesmo no submundo. Sabe, filho? De alguma forma, usando um ritual antigo de Amazom, que todo mundo pensou que estava perdido, ela prendeu sua alma à terra... Ou melhor, a uma outra alma. E, isso deveria ter deixado Hades muito irritado; porém, ela já enviou mais almas ao submundo que todos os tiranos juntos. E, o pior: ninguém que ela quis realmente matar escapou.
_ Você não quer matar meu filho, não é? _ A mãe de Emanuel perguntou a Lisandra, com um tom esperançoso na voz.
_ Não, hoje não... Ainda não. _ Lisandra respondeu. _ A guerra não pode terminar ainda... Não seria bom para o CONFEIT, nem para o planeta Terra. Mas, claro, se Gonzalo não conseguir escapar das cordas que o prendem, Emanuel morrerá hoje mesmo. Eu vou torturá-lo até que seu corpo e sua alma não consigam sentir mais a dor e, então, eu o matarei, caso Gonzalo não consiga salvar seu mestre tão querido, é claro.
_ Por favor... Deixe meu filho ir... _ A mãe de Emanuel pediu, em prantos.
_ Não. _ Foi a resposta curta e grossa da garota prodígio.
_ Deixe-nos ir, então... Por favor... Eu não quero machucar meu próprio filho... _ Insistiu a mãe de Emanuel.
_ Mais uma vez, a resposta é não. _ Lisandra disse, firme. _ Emanuel merece sofrer e, ele vai.
_ É inútil tentar negociar, querida. _ O pai do tirano falou. _ Esta é Lisandra Sólen. Aqui no mundo dos vivos ela é conhecida como a garota prodígio, e todos olham para ela como se ela fosse a líder da luz. Porém, no submundo ela é mais conhecida como... A prodígio demoníaca... Ou, ainda, a prodígio impiedosa. Ah, querida... Nós estamos perdidos!
_ Eu... Eu não quero lutar contra meu próprio filho! _ A mãe de Emanuel gritou, desesperada.
_ Mas você não tem opção, senhora. _ Lisandra disse, friamente. _ Você é apenas uma alma submissa... A mim. E isso significa que você fará exatamente o que eu mandar.
_ Não! Eu não farei!
_ Ah, não? Sério? Você acha que pode lutar contra minhas ordens? Então, deixa eu tirar sua esperança, mulher idiota. Mova sua mão esquerda.
E a mãe de Emanuel moveu a mão esquerda.
_ Agora, vá até seu filho e golpeie-o na face esquerda, com sua mão direita aberta. _ Ordenou a garota prodígio.
E, mesmo não querendo, mesmo com lágrimas nos olhos, a mãe do governante de Demnian assim o fez. Lisandra falou:
_ E então, mulher? Você entende sua situação agora? Você e seu marido são meus escravos. As almas de vocês são minhas! E vocês farão o que eu mandar.
_ Não! Não! Não! _ A mãe de Emanuel bradava, chorando, em desespero.
_ Querida, nós... Nós não temos escolha. _ O pai de Emanuel afirmou, triste e também chorando.
_ Mas... Mas... Querido... Eu... Nós... Nós...
_ Eu sei, querida... Eu sei...
Os dois estavam em prantos. Lisandra assistia a tudo, calmamente e com uma cara impassível.
_ Você é um monstro! _ Emanuel bradou, com ódio na voz. _ Você é pior que eu! Você engana as pessoas, mostrando uma carinha anjelical, mas você é que é um demônio!
_ Ora, ora, Emanuel, acalme-se... _ Lisandra disse, friamente. _ O nervosismo pode lhe fazer mal. E, se você morrer por algum problema cardíaco, eu não vou ter a satisfação de torturá-lo.
_ Você... Você é... Uma mentirosa! Eu vou contar a todos!
_ E... Quem vai acreditar em você, Emanuel? Todo mundo te vê como o demônio e me vê como anjo... Você diz às pessoas o que você viu, eu digo que você está apenas tentando me difamar, a fim de tentar tirar a esperança do mundo... Em quem as pessoas vão acreditar, Emanuel? No anjinho? Ou no demônio, ele mesmo?
_ Maldita! Maldita! Eu vou...!!!
_ Você vê, Emanuel? Você não pode fazer nada. E, agora, você está aí, amarrado, indefeso... Oh! Eu tenho tanta dó de você!
_ Eu te odeio, maldita!
_ Eu compreendo, Emanuel. É natural que você me odeie. Mas... Eu quero que você saiba que... Eu não odeio você: eu te desprezo.
Após alguns segundos de silêncio, Lisandra continuou:
_ Bom, vamos aos negócios, agora. Vocês, pais de Emanuel, não educaram bem o filho de vocês. Mas não se preocupem... Nós vamos corrigir isso hoje.
Então, a garota prodígio desenhou um portal, fez o gesto de abertura, desenhou dois chicotes, estendeu a mão, concentrou energia interna na mão e, enunciou:
_ [Invocação obscura. Chicotes das trevas, eu os invoco!]
E dois chicotes vieram e apareceram na mão direita de Lisandra. Então, ela pegou um deles na mão esquerda, estendeu as mãos na direção dos pais de Emanuel e ordenou:
_ Peguem.
Os pais de Emanuel pegaram os chicotes. Lisandra, agora, comandou:
_ Chega de prantos! Parem de chorar! O momento da família acabou. Agora, vocês são inimigos de Emanuel. Agora, vocês vão se virar para ele e torturá-lo. Vocês vão colocar uma expressão fria e má na cara e, então, vão bater nele com o chicote. E os golpes serão dados com todas as forças que vocês têm. Comecem, agora.
E a tortura começou. Os pais de Emanuel, agora com expressão fria e má no rosto, chicoteavam o próprio filho.
Mas Lisandra ainda não estava satisfeita. Ela fez ainda mais uma invocação:
_ [Invocação obscura. Chicote de energia espiritual, eu o invoco!]
E um chicote apareceu na mão direita da garota prodígio. Então, ela entrou na festa.
E tudo o que podia se ouvir eram os gritos de Emanuel.
_ Aaaaaaaaaaaaa! Aaaaaaaaaaaaaa! Ai! Ui! Aaaaaaaaa!
Ééééé.... Eu estou meio sem palavras, leitor. Tudo o que podia ser visto era um ser humano, amarrado, indefeso e, sendo duramente torturado. Eu não estou defendendo Emanuel. Porém, a cena em questão me faz perguntar: quem é mocinho? Quem é vilão? Em uma guerra, leitor, não há lado certo e errado, há apenas dois lados de uma mesma moeda _ cara e coroa. Em que lado você aposta? Isso é decisão sua, mas mantenha em mente que sua escolha não é a escolha certa, é apenas uma aposta.
E Emanuel continuava a ser torturado. Os chicotes iam para trás, para frente, e acertavam o corpo do tirano, que gritava de dor; e, novamente, os chicotes iam para trás, para frente, e atingiam o corpo do ditador, o qual urrava de dor. E o chicote de Lisandra era pior, porque não atingia o corpo de Emanuel, mas sim a alma.
Após alguns minutos disso, Emanuel estava pronto mesmo para implorar pela própria morte, que é algo jamais antes imaginado.
_ Pare! Por favor, pare! _ Suplicou Emanuel. _ Eu te dou qualquer coisa!
Ouvindo isso, Lisandra parou e questionou:
_ Você me entregaria Almira? Seus pais sabem onde você mora, mas, para que eles entrem em sua casa, eles precisam da sua autorização... Eles poderiam buscar Almira para mim... É só você autorizar. Entregue-me Almira e recue.
_ Não... Eu... Não posso... Fazer isso...
_ Bom, então... Vamos continuar a diversão. Continuem. _ Lisandra ordenou e, a tortura continuou.
Emanuel tentou novamente:
_ Você não está interessada em terminar esta guerra?
_ Sem Almira? Sem que você a entregue? Não, eu não estou interessada. Entenda, Emanuel, que tudo o que importa para mim é a vida daqueles que eu amo. Se eu puder salvar outras pessoas, tanto melhor, mas eu não me importo realmente com suas vidas. Então, o único acordo é o que eu já sugeri. Se você não está disposto a tomá-lo, prepare-se para a pior humilhação da sua vida.
E os chicotes iam para trás, para frente e, pá! E aquele som era música para os ouvidos de Lisandra Sólen.
_ "Que garota terrível!”. _ Gonzalo pensou. _ “Eu tenho que me livrar destas cordas! Eu preciso! Mas... Como?”.
Emanuel, por sua vez, pensou:
_ “Eu me sinto horrível. Será que as pessoas que torturei se sentiram assim? Não... Eu penso que não. Eu não cheguei a esse nível ainda. É terrível. Tudo o que eu gostaria é de morrer... Ao menos essa dor vai parar... Eu penso. Ah! Eu não posso perder assim! Ela me insulta.... Ela trouxe meus próprios pais, desrespeitou mesmo os mortos... Tudo para me torturar. Eu não faria isso com meu pior inimigo... Droga! Maldição! Eu vou... Não... Eu preciso sair desta situação!”.
Então, como em um milagre, Emanuel fechou os olhos e se deixou levar por seus instintos e, conseguiu, ninguém sabe como, lançar uma grande quantidade de energia, a qual destruiu as cordas que o prendiam, os corpos de seus pais e os chicotes. Então, Emanuel desenhou um hexágono, perpendicular ao plano do chão, com um gato dentro. Em um dos vértices do hexágono, o ditador desenhou um barco e um caminho. Por fim, ele desenhou dois corpos pontilhados e enunciou:
_ [Técnica elementar, espírito: caminho do submundo à alma!]
E as almas de seus pais foram enviadas novamente ao submundo. Porém, tudo isso tomou um grande pedágio no tirano: ele caiu no chão, esgotado e derrotado.
Lisandra zombou:
_ Ei, Emanuel! Cansado, tão cedo? Oh! Vejam só! Isso aí é o tirano mais temido? Isso aí, que está no chão, é alguém que fez um pacto com o demônio? Ainda bem que não fiz um, então... Afinal, se isso é o resultado, acho que os demônios são fracos. O que eu não entendo é... Por que as pessoas temem esse lixo?
Emanuel estava... O que ele estava mesmo? Irritado? Não, não era isso... Afinal, o que Lisandra dizia não era mentira, era? Todo o trabalho que ele fez, todos os rituais, tudo... Para quê? Para ser humilhado desse jeito? Talvez ela estivesse certa...
Agora, a garota prodígio se virou para Gonzalo e disse:
_ Gonzalo, eu pensei que você fosse escapar das minhas cordas e ajudar seu mestre. Porém, acho que eu me enganei sobre sua força: você é ainda mais fraco do que eu pensei. Então, eu vou lhe dar um pequeno incentivo para escapar do meu feitiço... O que você acha?
_ Um... Incentivo? _ Gonzalo perguntou, tremendo de medo.
_ Sim, um incentivo. Bem, eu vou lhe apresentar dois finais possíveis para esta batalha... Dois cenários. E, você é quem vai escolher um deles. Eu vou torturar seu mestre até me cansar e, então, vou matá-lo. Agora, vamos às possibilidades. No primeiro cenário, você não se liberta do meu feitiço, eu mato seu mestre, mato você e, depois, eu vou destruir Demnian, totalmente. Eu vou destruir cada um e todos os seres vivos de Demnian: não vai restar um vírus sequer. Eu vou arrasar Demnian: vou secar os rios, transformar florestas em desertos, vidas em mortes, e nada nascerá nunca mais. Eu vou limpar Demnian do mapa da Terra. É claro que isso significa que sua família vai morrer. Sua esposa, sabe? Ela está grávida... Você sabia?
_ Você... Está mentindo! Ela me contaria!
_ Não, ela não faria isso... Ela não quer preocupar você. E... Sua filha... Vou lamentar muito ter que matá-la, principalmente porque nós duas somos muito semelhantes... Nós duas sonhamos em ter um irmão... E o sonho dela está perto de se realizar... Oh, vai ser realmente uma pena ter que tirar a vida dela tão cedo! E... Eu vou ter que contar a ela por que ela está morrendo... Vou ter que dizer que ela está morrendo, porque o pai não foi capaz de salvá-la. Uma pena, você não acha, Gonzalo?
_ Maldita! Maldita! Você é... Um monstro!
_ Agora _, Lisandra prosseguiu, sem se importar com a raiva de Gonzalo _, tem o segundo cenário. Nele, você consegue salvar seu mestre, você vai se tornar Ministro-Chefe, vai guiar seu mestre à vitória na guerra contra Connan... Daí vocês vão atacar Fenixian, mesmo contra seu conselho: vocês vão atacar apenas porque Emanuel vai querer. Então, vocês vão perder a guerra no final do próximo ano, e a Terra terá uma nova ordem, sem países e sem tiranias. E, claro, apesar da sua própria morte e da morte de Emanuel, sua família sobreviverá. Agora, Gonzalo, tudo depende só de você. Bom, vamos começar o jogo!
E Lisandra, antes de começar a tortura, olhou nos olhos do tirano caído. E, quando fez, sua mente fez novamente o que ela não queria: remontou mais uma cena da relação entre Emanuel e Almira.
Flash Back
Almira tinha nove anos. Ela ainda não havia desistido de conseguir a aprovação de seu pai. Hoje, ela teve uma idéia... Bom, todo dia ela tinha uma. Nunca dava certo, contudo, ela não desistiria. Sua mãe não estava muito bem. Então, ela caminhou até a mãe e pediu:
_Mãe, eu posso fazer o jantar hoje?
_ Você sabe que seu pai não gosta, não é?
_ Eu... Eu prometo fazer direitinho, mãe. E... Ele não precisa saber que eu fiz...
_ Bom... Você pode fazer, então. Agora... Almira... Se você contar pra ele, o problema é seu.
_ Sim, mãe.
Henriqueta sabia que Almira contaria. Porém, o que importava? Ela não estava bem e, a menina fazia a comida direitinho... Aliás, geralmente, ficava bem melhor que a de Henriqueta. E Henriqueta sabia disso. Então, já que ela não estava bem, que mal havia em deixar a garota cozinhar para Emanuel?
E Almira fez o jantar. Henriqueta comeu e, achou excelente, muito embora ela não tenha dito nada. Emanuel gostaria, certamente. Afinal, esta era a melhor refeição que Almira havia feito. A garota era realmente incrível! Henriqueta não entendia a razão do ódio do marido por aquela menina... Ela era uma boa criança: educada, prestativa, tinha um bom caráter... E, era família, não era? Marta era família e, Almira era filha de Marta; então, Almira era família. Por que esse ódio, então? Henriqueta não entendia; mas, não questionaria o marido, jamais! Ele era um ótimo marido, um homem forte e admirável. Não, ela não o questionaria. Até por que, a garota não lhe significava nada.
Almira estava muito feliz. Ela tinha feito tudo certinho, a comida tinha ficado boa. A mãe tinha comido e, não tinha falado nada, o que significava um elogio. Bom, o pai gostaria, certamente!
Quando Emanuel chegou, Almira correu até ele e disse, animadamente:
_ Boa noite, pai! Eu posso lhe servir o jantar?
Emanuel pensou, mas não viu problema nenhum nisso. Então, ele respondeu:
_ Sim, você pode.
A garota serviu o jantar, e Emanuel comeu. Quando ele terminou, Almira questionou:
_ E aí, pai? Gostou da comida?
_ Claro que sim! Foi sua mãe que fez, não foi? Então, não há maneira de que a comida estivesse ruim!
_ pai... _ Almira chamou, incerta, mas um pouco alegre. Quando Emanuel olhou para ela, Almira disse: _ Fui eu que fiz.
Emanuel estava irritado. Não, irritado era pouco, ele estava muitíssimo irado! A garota havia conseguido que ele a elogiasse? Maldita!
Emanuel jogou o prato em Almira e, o projétil acertou a cabeça de uma garota assustada. O que ela havia feito agora?
_ Maldita! _ Bradou Emanuel. _ Você quer me envenenar, não é, garota?
_ Não, pai... _ Almira respondeu, confusa. _ Eu... Jamais... Faria isso.
_ Então, por que você não avisou que você tinha feito essa porcaria?
Porcaria? Como assim? Emanuel tinha dito que gostou! Almira não entendeu...
_ Mas, pai, você disse que havia gostado! Eu...
Mas ela foi interrompida por um soco no rosto que a jogou na parede.
_ Garota inútil! Você é retardada mental, é? Entenda, infeliz, que tudo o que você faz fica ruim! Muito ruim! E eu não quero nada, nada mesmo, nada que venha de você! Lixo! Desprezível! Maldita! Eu te odeio!
E ele terminou os insultos com um pontapé que deixou a menina quase inconsciente.
Foi aí que Almira começou a entender que o problema não era o que ela fazia, mas ela mesma. Ela não fazia nada errado... O problema era ela. Mas... Por quê? Isso, ela ainda não entendia.
Fim do Flash Back
Lisandra falou, com uma frieza tão grande na voz, que conseguiu fazer o grande tirano temer:
_ Emanuel... Você gosta de fazer crianças indefesas sofrerem, não é? Bom... Eu vou mostrar a você o que é o sofrimento. Então, talvez, e apenas talvez, você será um ser humano melhor.
Então, a garota lançou:
_ [Magia da tortura do corpo!]
E o feitiço atingiu Emanuel, duramente. E ele gritou, como uma menininha, gritou muito de dor:
_ Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
E, quando seu corpo já não podia mais sentir a dor, Lisandra parou.
Então, mais uma vez, contra seus melhores julgamentos, a garota prodígio olhou nos olhos de Emanuel. E, mais uma vez, a mente dela remontou uma cena de tortura. Porém, esta cena era bem mais recente: era do dia anterior.
Flash Back
Almira não era uma garota feliz. No início, ela tentou conseguir a aprovação do pai de todas as formas. Ela fazia tudo direitinho, todavia, não conseguia nada, nem mesmo um elogio. Há algum tempo, ela entendeu que o problema não era o que ela fazia, não senhor! Ela fazia tudo certinho, tudo muito bem! No entanto, Emanuel não aprovava, não gostava. E... Por quê? O problema era ela. Sim, ela.
A partir daí, ela tentou mudar a si mesma: trocou o estilo de roupas, o visual, o jeito de ser... E, adivinha? Nada. Isso mesmo, nada! O pai continuava a desaprová-la. Ela demorou a entender, mas, agora, sim, finalmente, ela entendia: o problema não era o que ela fazia, nem o que ela era... O problema era que ela existia. Triste, não é? Sim, muito triste. Claro que Almira não conseguia entender a razão de a existência dela ser o problema, entretanto, era o que era. E... Nesse caso, qual era a solução? Ela não conseguiria a aprovação do pai, não importava o que fizesse ou o que fosse. Então, qual era a solução? Almira pensou, pensou e pensou ainda mais. E, só uma solução lhe veio à mente: morte.
_ Morte, escritor?
Sim, leitor, morte. Era a única solução para Almira, era o único jeito de ela se livrar daquele oceano de sofrimento.
Emanuel, mesmo que Almira não soubesse, estava pensando mais ou menos a mesma coisa... Ele queria matar Almira. E, hoje, ele conseguiria, finalmente! Ah, sim, ele conseguiria! Curioso, não é, leitor? Emanuel, que odiava tanto Almira, mesmo que não soubesse, queria dar à garota o destino que ela ansiava.
Ele chegou em casa e foi até o local onde Almira estava.
Almira viu a cara do pai. Sabia o que ele iria tentar... E, hoje, ela queria.
_ Boa noite, pai. _ A menina cumprimentou, sorrindo.
Hoje, finalmente, ela se livraria daquele sofrimento!
Emanuel tirou do bolso o chicote e disse:
_ Hoje eu mato você, infeliz! Você tem algo a dizer antes de morrer?
_ Sim, eu tenho. _ Almira falou. _ Perdoa-me, pai, por eu existir.
Emanuel não respondeu. Ele apenas começou a tortura. O chicote ia para trás, para frente e, acertava o corpo frágil de uma menina indefesa e desesperada; o chicote ia novamente para trás, para frente e, pá! Mas, hoje, Almira não se importava. Ela não se importava mais com a dor, não se importava com o sangue que escorria pelo seu corpo, não se importava que já estava no chão, quase inconsciente... Não se importava se morreria hoje. Não, Almira não se importava. Contudo, alguém se importava.
Almira sentiu uma presença em sua mente. Ela não sabia o que era, mas a presença sempre estava lá, ajudando-a. A presença em sua mente se importava com ela... Só ela e seu irmão se importavam. O irmão intervinha e interrompia as torturas, mas a presença em sua mente curava suas feridas e aliviava a dor de Almira. Normalmente, ela gostava; porém, hoje, ela não queria a ajuda daquela presença em sua mente. Ela sabia que podia se comunicar com aquela presença, por pensamentos. Ela estava sentindo a atuação da presença... O chicote não lhe tocava mais, mas sim uma capa de energia em volta de seu corpo, que parecia uma segunda pele. Os ferimentos dela estavam se curando. NO entanto, não era o que ela queria.
_ “Parta”. _ Almira ordenou em pensamento. _ “Eu não quero sua ajuda... Não mais. Eu quero morrer”.
_ “Eu não posso fazer isso... Não posso deixar você morrer”. _ A presença respondeu.
_ “Por que não? Ninguém se importa comigo”!
_ “Eu não conto, é? Assim você me deixa triste”.
_ “Você é só uma presença”.
_ “Eu sou muito mais que isso”.
_ “Por favor... Deixe-me morrer”.
_ “Não, eu não farei isso. Ei! Você não gosta daí? Não gostam de você? Muito bem! Saia daí! Vá para outro lugar”!
_ “Como? Como”?
_ “Eu posso ajudar você a fazer isso”.
_ “Eu... Não posso ir ainda”.
_ “Por que não”?
_ “Eu preciso descobrir... Por que me odeiam tanto”.
_ “E... Você pretende fazer isso morta”?
_ “Bom... Eu”...
_ “Viu só? Eu não posso deixar você morrer, posso”?
_ “Bom”...
Almira sentiu a presença sorrindo em sua mente. Droga! Essa presença... Havia ganhado novamente, havia conseguido mantê-la viva de novo.
O chicote ia para trás, para frente, mas, agora, já não acertava mais o corpo de Almira: acertava uma capa de energia em volta dela, que atuava como uma segunda pele. Mas, claro, Emanuel não sabia disso.
Daniel, que chegava agora e via a cena, também não sabia. Foi por isso que ele entrou na frente e segurou o chicote firme, dizendo friamente:
_ Pai... De novo com isso?
_ Daniel... _ Emanuel falou. _ Eu... Não entendo... Por que você fica do lado dessa garota? Por que, meu filho?
_ Porque não é certo o que você faz, pai.
_ Bom... _ Emanuel falou, prendendo sua raiva... _ Acho que... Terei que completar o serviço um outro dia. Você conseguiu escapar, Almira... Mais uma vez.
Então, o ditador saiu do lugar. Daniel perguntou:
_ Você está bem, Almira?
_ Sim, eu estou.
A garota pensou:
_ “Graças a você, que está sempre comigo”.
E a presença em sua mente respondeu:
_ “Estou muito feliz em ser útil”.
E Almira sorriu, porque o tom da resposta foi muito divertido. Aliás, a presença em sua mente era sempre divertida. O que ela era? Uma personalidade interna? Ou era alguém em sua mente? Se fosse alguém, quem seria? Almira não sabia e, agora, não questionaria... Não era o momento para isso.
Fim do flash back
Lisandra estava agora pra lá de irritada... E ainda era pouco. Ela falou, em um tom tão gélido, que mesmo as paredes tremeram:
_ Emanuel... Você... Você queria... Matar Almira, não é? Você queria matar uma garota de doze anos, que não lhe fez nada, certo? Você... Você é repugnante. Mas... Tudo bem. Eu vou lhe dar o que você merece. Eu não posso mais torturar seu corpo. No entanto, posso torturar a sua alma.
Então, a garota prodígio lançou:
_ [Magia da tortura da alma!]
E Emanuel experimentou novos níveis de dor, uma dor que ele jamais pensou ser possível existir.
E ele sentiu essa dor... Por muito tempo. Muito, muito mesmo. E, quando nem mesmo sua alma era mais capaz de sentir dor, Lisandra disse:
_ Bom... Agora, eu mato você. E... Depois, mato Gonzalo. Ei, Gonzalo! Parece que você não vai conseguir salvar sua família, não é?
Então, Lisandra desenhou no ar um corpo de anjo, com uma ampulheta na mão esquerda e uma foice na mão direita. Por fim, ela enunciou:
_ [Magia da morte!]
E um raio vermelho saiu das mãos da garota prodígio e foi lentamente na direção de Emanuel.
Gonzalo pensou:
_ “Não, eu não posso permitir isso! Tenho que salvar meu mestre! Preciso salvar minha família!”.
E, milagrosamente, Gonzalo conseguiu escapar das cordas mágicas, pegar seu mestre e desaparecer dali. A dupla, derrotada, reapareceu na sala do trono de Emanuel.
No exército do CONFEIT, tivemos treze mil mortos. Do exército de Emanuel, composto por três milhões de seres humanos, somente duas pessoas sobreviveram: Gonzalo e, o próprio Emanuel.
Lisandra Sólen não estava feliz. Sim, ela havia ganhado a batalha; sim, ela havia destruído e humilhado Emanuel Demoni, que era o objetivo. Entretanto, o que ela havia visto na mente do tirano era terrível. E, tudo, por causa de uma escolha dela, um erro dela, o maior de sua vida até então. Droga! Mas agora não era o momento para isso. Agora ela precisava fazer um discurso e, antes, cuidar de Mary.
_ Ares _, Lisandra Chamou _, por favor, leve Mary para o hospital... Ela não me parece muito bem. Parece que ela desmaiou assim que comecei a enfrentar Emanuel.
Nesse momento, um garoto alto, negro, com cabelos curtos e castanhos (a mesma cor de seus olhos), que se escondia nas sombras, apareceu e concordou:
_ Sim, Lisandra... Farei isso rapidinho! Você me quer presente no seu discurso?
_ Se você puder sim, mas a prioridade agora é Mary. Eu quero que ela melhore rápido... Deus sabe que vamos precisar dela e, muito! Além do mais, esse tipo de devoção... Não pode ficar sem recompensa.
_ É... Você tem razão. Bom, levarei Mary ao hospital e, assim que ela for atendida, estarei ao seu lado... Das sombras, como sempre.
_ Ei, Ares, eu sei que isso não te agrada. Isso também não me agrada de tudo, mas, é a melhor solução. Nós não podemos deixar sua identidade verdadeira aparecer, não é? Ao menos não ainda...
_ Eu sei. Você ainda me quer treinar aquele garoto, não é? Você ainda me quer ser o braço direito dele quando o tempo vier, não é?
_ Sim, Ares, eu quero. É a melhor maneira de proteger Alan.
_ Eu sei... Mas isso não me agrada.
_ Você tem alguma outra idéia, Ares?
_ Não, eu não tenho. Ei! Você é quem sempre tem as idéias, lembra?
_ Então estamos sem sorte... Eu não tenho nenhuma além dessa. Agora, Ares... Será que podemos falar sobre isso uma outra hora? Agora eu... Eu não estou bem e, tenho que dar um discurso inspirador, que vai levar muitas pessoas à morte, mas, esperançosamente, vai atrasar os planos de Emanuel...
_ Você não está bem? Por que não?
_ Depois do discurso, Ares... Agora não.
_ Tem certeza?
_ Sim, eu tenho. Agora, por favor, leve Mary para o hospital...
_ Tudo bem, então, eu irei.
_ Depois do discurso... Eu... Preciso falar com você, se você puder e estiver disposto a me ouvir...
_ Lisandra, eu sempre estou disposto a te ouvir. Depois de tantos anos, você deveria saber disso... Eu sempre estive ao seu lado...
_ Eu sei... Mas um dia você pode se cansar, não é? Eu não sou exatamente a melhor pessoa do mundo...
_ Pra mim sim, você é. E eu sempre estarei com você... A não ser que você não me queira por perto.
_ Você sabe que isso não vai acontecer.
_ Bom, por que não?
_ Simples: eu preciso de você. Eu gosto de você.
_ Bom... É bom saber. É uma pena que você siga tão fielmente aquela regra... Não há alguma forma de mudar isso, há?
_ Não, Ares... Relacionamento é mesmo só depois que Alan se casar.
_ Ah... Eu vejo. Mas... Eu esperarei. Você vale a pena. Mas... Você acha que vai ver o casamento de Alan? Acha que vamos conseguir sobreviver à guerra final?
_ Não... Infelizmente não. Eu perecerei... Você sobreviverá por mais tempo que eu e, então, poderá proteger Alan mais... Mas, então, mesmo você não sobreviverá.
_ Bom, nesse caso... Nós só poderemos ter um relacionamento no outro lado, não é?
_ Eu penso assim...
_ Ah... É realmente uma pena. Bom, fazer o quê? Eu espero, então... Eu sempre faço. Afinal, eu amo você.
Lisandra sorriu e disse:
_ Eu também amo você, Ares. Bom, agora, vamos deixar de lado esses sentimentos e ir aos negócios, não é? Leve Mary e... Eu irei fazer aquele discurso.
_ Certo, então.
Ares se foi, levando Mary.
Lisandra ordenou que seu exército se juntasse e caminhou até eles. Então, ela começou a discursar:
_ Nós éramos trinta mil pessoas. Nós enfrentamos três milhões de soldados impiedosos. A média não era boa, as probabilidades não estavam do nosso lado... Cada um de nós teria que enfrentar cem soldados, os quais nos matariam sem sequer pensar. E, nós jamais faríamos isso. Nós jamais conseguiríamos matar sem ficar com peso na consciência. Então... As probabilidades estavam todas contra nós. Porém, eu lhes pergunto...: Pode o mal vencer a guerra? Pode o mal triunfar contra o bem? Pode um tirano ganhar de pessoas que anseiam pela liberdade? Hoje, colegas, nós respondemos a essas perguntas. Hoje, nós enviamos uma mensagem. E... Qual é a mensagem? Não, o bem jamais triunfará contra o mal; não, a tirania nunca vence o anseio de liberdade das pessoas. Hoje, nosso exército ganhou a batalha! Dos três milhões de soldados, só dois escaparam vivos! Nós devemos lamentar os treze mil mortos do nosso lado... Nós perdemos treze mil camaradas. E... A morte deles será inútil? Não, porque vamos usar essas mortes como inspiração para ganhar esta guerra. Não, porque o espírito de luta deles vive ainda em nós. Não, porque o exército de Emanuel foi esmagado! E... O que de Emanuel? O que aconteceu com o tirano que todos temem? Emanuel Demoni foi humilhado e, fugiu. Sim, colegas, ele fugiu, fugiu como um covarde! Ele morreria hoje, mas, teve medo da morte, teve medo de enfrentar o destino de todo tirano e, como um covarde, ele fugiu! Fugiu, sem se importar com os corpos dos seus soldados; fugiu, sem sequer olhar para ver se alguém do seu exército sobreviveu; fugiu, porque não conseguiu me enfrentar, não conseguiu enfrentar a si mesmo. Vocês percebem? Emanuel tem medo, é covarde e, perdeu a batalha, mesmo tendo todas as vantagens possíveis. Então, por que vocês o temem? Se todos nós lutarmos juntos, Emanuel vai fugir mais vezes e, um dia, nós vamos encurralá-lo e ele não terá pra onde ir! Hoje, eu convido todos a lutar contra Emanuel. Não importa onde você esteja, não importa sua situação, eu te convido a lutar contra Emanuel. Vença-o, tome controle da sua vida, livre sua família, seus vizinhos e, seu país! Hoje, todos vocês, colegas que estão aqui... Vocês vão ajudar a livrar Mutlend! Eu fiz minha parte, eu lutei contra Emanuel... O Conselho de Sábios ajudou nesta batalha, aqui, nestes três quarteirões. Mas... Agora, nós não vamos interferir. E... Por quê? Porque eu quero que vocês saibam que vocês são capazes de vencer batalhas, mesmo sem o Conselho de Sábios! Nós, do conselho, ajudaremos sempre que necessário. Mas... Ei! Emanuel foi vencido, um exército de três milhões de soldados foi vencido. Agora, vocês podem lutar sozinhos. Hoje, colegas, nós vamos recuperar Mutlend! Aliás, vocês vão recuperar Mutlend! E, eu acredito em vocês. Vocês confiam em mim?
_ Sim! _ Todos responderam, alto.
_ Então, acreditem em si mesmos! Vão e, ganhem a próxima batalha! Vão e me façam orgulhosa de vocês! Vão, livrem Mutlend e, mostrem ao mundo que todos nós podemos livrar o mundo de Emanuel! Ao ataque! À vitória!
E, com um grito de guerra, os soldados do CONFEIT partiram para a guerra, mais uma vez, tentando livrar Mutlend das mãos de Emanuel.
Lisandra Sólen foi deixada sozinha, no meio do quarteirão do CONFEIT.
_ Belo discurso, Lisandra.
_ Você ouviu tudo, Ares?
_ Bom... Grande parte. Essas são as pessoas que você está enviando à morte?
_ Não... Mutlend será recuperado hoje, em três horas: tenho certeza disso. Porém, com isso, outros países vão tentar se libertar e, a maioria não vai conseguir.
_ Ah... Entendo. Bom, você quer falar sobre algo, não é?
_ Sim... Eu... Eu vi como Almira é tratada, Ares. Eu vi tudo... Ela é torturada, de todas as formas! Ares... Eu... Eu condenei minha irmã ao inferno... Ao inferno! Eu não devia ter deixado ela com Marta... Eu não devia...
_ Acalme-se, Lisandra. Você não sabia como as coisas seriam... Você fez o melhor que pôde.
_ Mas... Mas... Eu... Eu poderia ter ficado com ela!
_ Sim, você poderia. Mas... Teria sido melhor?
_ É claro que sim! Eu jamais machucaria Almira! Eu jamais torturaria minha própria irmã!
_ Fisicamente não, mas... Lisandra, diga-me... Você trataria Almira e Alan da mesma forma?
_ Não.
_ E... Será que Almira não ficaria triste? Veja, Lisandra... Imagine... Uma garotinha de dois anos, que percebe que o irmão é mais querido, mais amado... Que o irmão tem preferência. E... Ela tenta de todas as formas chamar a atenção de sua guardiã, essa garotinha tenta de todas as formas ganhar o mesmo tratamento, mas não consegue. Isso não seria tortura, Lisandra? Uma tortura emocional, mas, ainda assim, uma tortura... Não é?
_ Bom... Pelo menos ela seria bem cuidada... Ela não seria minha preferida e, nunca será. Porém, comigo, ela seria bem tratada...
_ Talvez... Mas... Almira teve cinco anos de felicidade completa. O encantamento que você lançou em Marta proporcionou a Almira um tratamento de rainha e, ela era a mais importante. Lisandra, você acha que esses cinco anos não fariam falta?
_ Mas, e os outro sete? E o inferno que ela vive agora?
_ E a tristeza que ela sentiria se não tivesse tratamento igual ao irmão? E o desespero por atenção que ela enfrentaria? Ela nunca seria tão querida quanto Alan! E... Nunca! Nem quando bebê, nem quando criança, nem agora, nem depois... Nunca! Isso não seria pior? Ela viveu sete anos no inferno, sim. Porém, ela teve cinco anos de Céu! Um Céu que ela jamais teria com você. Agora... O que é melhor? Viver cinco anos no Céu e sete no inferno, ou viver doze anos no purgatório? O que é melhor? Ter ao menos cinco anos de Céu para recordar, ou nunca tê-los, mas também não ter vivido no inferno? O que é melhor, Lisandra?
_ Eu... Eu não sei!
_ É isso: aí está. Você não sabe... Eu também não sei. Percebe? Não há como saber. É por isso que você não deve se culpar. Você fez o que pensou ser o melhor na época. Bom,... Talvez não tenha sido o melhor, mas... E daí? Isso é passado! Tudo o que você pode fazer sobre ele é lamentar! E... Lamentar-se não é algo bom.
_ Você... Tem razão. Mas... O que eu vi... Não me agrada.
_ Eu sei. Bom, vamos torcer para que Almira saia dessa. E... Ei! Com a surra que você deu em Emanuel, ele não poderá torturar Almira tão cedo!
E isso fez efeito: Lisandra sorriu, que era exatamente o que Ares desejava. O guerreiro das sombras pensou por um momento e questionou:
_ Lisandra, eu tenho uma curiosidade... Por que você não aprisionou Emanuel?
_ Aprisionar... Emanuel? Por quê?
_ Você poderia trocar ele por Almira... Acho que o povo de Demnian trocaria, sem pensar.
_ Oh! Eu... Eu não pensei nisso.
Lisandra baixou a cabeça, triste. Ela falou:
_ É... Parece que todas as decisões que faço sobre Almira são erradas, não é? Eu... Eu sou uma péssima irmã.
_ Ei, Lisandra... Você não precisa ficar assim. Você não é uma péssima irmã. Alan é um ótimo garoto! Ele está muito bem cuidado, bem educado e, o principal, feliz! Então, como você poderia ser uma péssima irmã?
_ Bom, eu... Eu sempre acerto com Alan. Mas, eu sempre erro com Almira. Eu... Eu só queria acertar um pouco com ela também, pra variar, sabe? Eu... Eu queria tomar para Almira decisões tão boas quanto as que tomo para Alan.
_ Pra isso, Lisandra, você teria que tentar cuidar de Almira tanto quanto você tenta cuidar de Alan... Você teria que dar a mesma atenção aos dois. Você está disposta a fazer isso?
_ Não. _ Foi a resposta da garota prodígio. _ E... Eu penso que eu jamais estarei.
_ Então, não se cobre tanto.
_ Bom... Eu... Eu vou para casa. Alan deve estar me esperando.
_ Sim. Até mais, Lisandra!
_ Até mais, Ares.
E os dois se foram dali.
Enquanto isso, Gonzalo colocava o corpo batido de seu mestre no chão da sala do trono. Emanuel Demoni, imperador de Demnian, o tirano mais temido de todos os tempos, estava... Morrendo.
_ Morrendo?
Sim, isso mesmo, leitor, morrendo! Ele havia sido torturado de todas as formas: fisicamente, emocionalmente e, também, espiritualmente. Seu corpo não resistiria por muito mais tempo aos ferimentos, sua mente não conseguiria lidar muito mais com tudo o que aconteceu na batalha e, mesmo sua alma não estava lá em grandes condições.
Gonzalo, por sua vez, não estava tão mal assim, porém não estava tão bem. Mas uma coisa era certa: ele não deixaria sua majestade morrer. Ele pensou:
_ “Eu não posso deixar meu mestre morrer! Ele é meu mestre, ele é grande, é suposto ser um deus! Não, eu não o deixarei morrer! Mas... O que eu posso fazer? Eu não conheço nenhum feitiço nem encantamento que possa ajudá-lo... Mas... Espera! Há um ritual. Sim, um ritual, que eu posso fazer. Não vai ser fácil, porque minha energia interna está em frangalhos, mas, vai dar certo! Sim, é isso!”.
E, o empregado mais fiel do tirano começou um ritual:
_ [Ritual da divisão da dor! Soberano do submundo, eu venho a ti propor um contrato. Divida a dor de meu mestre, deixe-a em níveis suportáveis, a fim de que ele possa sobreviver e se recuperar. Deixe-o um dia ser grande, e, em troca, eu lhe ofereço minha alma depois da minha morte; eu ofereço minha alma ao inferno. Que assim seja!]
Pronto: o ritual foi feito e, deu certo. Emanuel acordou.
_ Majestade! _ Gonzalo exclamou, feliz.
_ Gonzalo... Eu... Ainda estou vivo? _ Emanuel questionou, incrédulo.
_ Sim, mestre! Eu consegui salvar o senhor.
_ Ótimo...
_ Mas, mestre, perdoe-me... Eu não pude fazer muito... Eu... Bom, o senhor viverá, mas a recuperação será lenta. O senhor ainda terá que lidar com a dor, mesmo que ela seja mais... An... Suportável. E... Eu não recomendaria ao senhor ir a qualquer batalha... Não até, pelo menos, o final deste ano. O senhor só recuperará sua força completa no final do próximo ano, mas, no final deste ano o senhor já estará forte o suficiente para vencer a maioria dos seus inimigos.
_ Tudo bem, Gonzalo... Estar assim é melhor que estar morto, eu penso. Agora... Computador, informe a situação.
_ Sim, majestade. _ Respondeu o computador. _ Mutlend foi perdido... Em três horas. Estamos enfrentando revoltas em todos os países dominados... E estamos perdendo em dois deles: Vulcanian e Temporan.
_ Ah... Eu... Vejo. Bom, podia ser pior, não é? _ Emanuel murmurou, pensativo. _ E então, Gonzalo? O que você me recomenda fazer agora?
_ Bom, majestade... _ Gonzalo respondeu, incerto do porquê de ele, um faxineiro, ser perguntado isso... _ Eu penso que nós devemos recuar nesses dois países e nos concentrar em suprimir as revoltas onde estamos ganhando. Penso que nós não devemos tentar tomar Mutlend, porque acho que será impossível agora. Acho que devemos suprimir as revoltas onde nós pudermos fazer isso e, nos prepararmos para atacar Connan. Vamos segurar por um tempo e, quando estivermos totalmente prontos, atacaremos Connan e, venceremos. Mas... Majestade... O senhor deve fazer o que achar melhor... Depois de tudo, meus conselhos são só conselhos de um faxineiro... São indignos.
_ Ah, sim... Se fossem conselhos de um faxineiro seriam indignos mesmo... Porém, eu não poderia ignorar os conselhos do mais novo ministro-chefe de Demnian, eu poderia?
_ Majestade... Eu... Eu...
_ Sim, Gonzalo, parabéns! Você é o novo ministro-chefe!
_ Oh! O... Obrigado! Muito obrigado, mestre!
_ Bom, acho que vou seguir seus conselhos.
E assim foi feito: Vulcanian e Temporan conseguiram se libertar de Emanuel. Os outros países não tiveram tanta sorte: as revoltas foram suprimidas, causando inúmeras mortes.
_ E Mutlend, escritor?
Ei, leitor! Fique mais atento, por favor! Eu já respondi a essa pergunta... Mutlend também foi libertado.
Enquanto tudo isso acontecia, um garoto assistia às informações na TV. Alan Sólen não temia pela vida de Lisandra, porque sua irmã era apenas muito boa em combates e, não havia ninguém capaz de enfrentá-la no momento. Mas... Um pouco de preocupação ele tinha... Afinal, embora Lisandra fosse uma excelente pessoa e uma irmã ainda melhor, ela era um pouco arrogante. E se essa arrogância conduzisse ela a ferimentos? E se essa arrogância conduzisse Lisandra à derrota? Não... Não aconteceria, não contra Emanuel: a arrogância de Emanuel era ainda maior que a de Lisandra. Então, tudo estava seguro, não é? Alan esperava assim. E, enquanto esperava, ele assistia a tudo na TV, esperando pegar alguma coisa. Não que isso fosse fazer falta... Ele descobriria tudo depois mesmo. Afinal, Lisandra era arrogante e o subestimava. Não que ele fosse reclamar ou dizer isso a ela, porque não lhe seria bom. Se Lisandra soubesse que ele descobria as senhas que ela colocava nos arquivos proibidos no computador, ela mudaria as senhas, não é? Alan sorriu nesse pensamento... Lisandra jamais descobriria.
Aquele Yank dela não fazia efeito nele, há muito tempo. Parecia que o Yank de Alan era mais forte... Bom pra ele, ruim pra ela, não? E... Um Yank forte lhe tornava talvez a única pessoa que podia esconder os pensamentos de Lisandra. Isso sim era algo a se orgulhar. Mas essa habilidade não veio com um objetivo mesquinho de apenas esconder pensamentos sem motivo nenhum, mas sim com o objetivo de esconder pensamentos para proteger Lisandra.
Flash back
_ Como foi na escolinha, irmãozinho? _ uma Lisandra de doze anos questionou.
Alan tinha sete anos. Ele respondeu:
_ Normal... Eu conheci a professora e todo mundo se apresentou.
_ E... Você fez amigos hoje?
_ Não, Li... Eu não consigo fazer amigos.
_ Por que não, Alan?
_ Eu... Não posso dizer.
Lisandra olhou-o nos olhos, com aquele olhar... Ah, aquele olhar! Aquele olhar que fazia todo mundo dizer qualquer coisa que ela queria... Não, ele não podia dizer! Afinal, o motivo de ele não fazer amigos era que todos que se aproximavam dele só queriam usá-lo como um caminho para chegar até Lisandra, conseguir um autógrafo, pedir treinamento, ou algo assim... Então, o motivo para ele não fazer amigos era a própria Lisandra, ou melhor, a fama dela. E, claro, Alan sabia que Lisandra se culparia se ele dissesse a verdade; por isso, ele não podia dizer, não mesmo!
Lisandra perguntou:
_ Alan... Por que você não pode me dizer?
O tom de voz era doce e aquele olhar era intenso e persuasivo.
Contudo, pela primeira vez, ele conseguiu resistir ao olhar. Mantendo sua expressão facial do mesmo modo que estava antes, Alan respondeu:
_ Eu não posso dizer, Li.
Lisandra foi surpreendida: era a primeira vez que alguém resistia ao Yank. Alan sabia que ela tinha sido surpreendida, porque, por um breve milésimo de segundo, ela mostrou isso no olhar, mesmo que mantivesse a expressão facial inalterada. O tempo do olhar surpreendido foi pequeno, muito pequeno; como eu disse antes, foi um breve milésimo de segundo. Todavia, Alan foi capaz de perceber isso.
A resposta da irmã foi calma e tranqüila:
_ Tudo bem, Alan... É realmente uma pena que você não possa me dizer. Bom, se você mudar de idéia algum dia, eu sou toda ouvidos! Quem sabe? Talvez eu possa te ajudar, não é?
_ Ah, Li... Infelizmente, desta vez, você não pode... Eu gostaria que você pudesse, mas, você não pode.
_ Oh, irmãozinho,... Eu também gostaria que eu pudesse te ajudar... Eu gostaria de te proteger do mundo, de todas as coisas ruins... Porém, infelizmente, eu não posso. Bom, a vida é assim, não é?
_ Sim, é.
Fim do flash back
Alan perdeu parte do sorriso ao se lembrar dessa memória. Ele tinha atualmente um único amigo, que ele conseguiu ganhar mais tarde... Ele queria ter mais amigos e, ele sabia que Lisandra também queria isso; infelizmente, nem sempre as coisas são como a gente quer.
_ Ei, irmãozinho! Sentiu minha falta? _ Lisandra questionou.
_ Claro que sim! Eu sempre sinto sua falta quando você não está.
_ Naturalmente... Você não poderia sentir minha falta quando eu estou, certo? Se você sentisse, seria ruim pra mim...
_ E aí? Como foi?
Ao fazer a pergunta, Alan olhou nos olhos de Lisandra. E, quando fez, ele conseguiu pegar algumas coisas, algumas partes da luta, sem que a irmã notasse. Ele conseguiu ver um breve resumo: o início do combate, a tentativa de engano de Emanuel, bolada por seu empregado Gonzalo, algumas partes da batalha magnífica e, algumas partes da humilhação...
_ “Almas submissas?” _ Alan pensou. _ “Essa é uma técnica horrível! Normalmente eu não aprovaria o uso dela, mas... Em Emanuel? Perfeito! Lisandra deve ter visto as torturas de Emanuel... As torturas a que Almira é submetida... Bom, parece que Lisandra gosta de Almira, após tudo, mesmo que seja só um pouquinho. Oh! Essa técnica elementar mista que consegui ver... Eu não conheço ela... Vou pesquisar depois. Eu não posso ler sobre magia, porém, minha irmã não disse nada sobre técnicas de guerreiros, não é? Hahahaha!”.
Lisandra, ignorante de todas as travessuras e pensamentos de Alan, respondeu:
_ Foi tudo muito bem, irmãozinho. Nós ganhamos a batalha!
Alan conseguiu ver mais algumas coisas... Ele viu o discurso de Lisandra, viu partes da conversa dela com Ares... Não viu muito da conversa, mas, uma coisa ou outra ele viu. Ele pensou:
_ “Ela não acredita que muitos países vão se livrar de Emanuel... Bom, eu também não. Bom discurso, no entanto. Agora... Quem é esse Ares? Quem ele é mesmo? Espera... Ah, sim! Lembrei! Ares é um dos três guerreiros pós-doutores que a Terra possui; ele, Emanuel e um tal de Thomas. Lisandra é uma Kindler, o que, em Amazom, significa líder. Mas a identidade de Ares é desconhecida... Ele certamente não se chama Ares. O que estou curioso para saber é... Como ele se chama realmente? Bom, isso eu não vou conseguir extrair da mente de Lisandra, porque ela esconde muito bem! Terei que esperar, então, até que ela esteja disposta a me dizer.”.
Apesar de todo esse pensamento, Alan não externou nada disso. Lisandra queria um irmão ignorante e, assim ela teria. Afinal, Alan sabia que Lisandra só desejava protegê-lo e, descobrir que o irmão sabia muitas coisas a deixaria triste, faria ela pensar que falhou... O que não era verdade. Alan sabia dos horrores da guerra, porque ele procurava saber; ele entendia os interesses e as razões de Lisandra, mas queria, mesmo assim, saber sobre coisas que a irmã não lhe contaria. Então, tudo o que ele via e sabia não era culpa de Lisandra, mas dele mesmo; claro, porém, Lisandra não veria desse modo; então, Alan fingia ser ignorante. Ei! A irmã queria protegê-lo, não é? Alan também queria proteger a irmã. Cada um tem seus segredos e suas maneiras de proteger o outro.
_ Bom, Alan _ Lisandra falou _, Vou tomar um banho e, depois, vou preparar o nosso lanche, tudo bem?
_ Tudo bem, Li.
Lisandra sorriu e foi tomar seu banho. Enquanto se banhava, ela pensou:
_ “Alan é a única pessoa capaz de esconder os pensamentos de mim... Eu não penso que ele faz nada demais, contudo, isso me incomoda um pouco.”.
Depois do banho, Lisandra preparou o lanche. Os dois irmãos lancharam, conversaram um pouco e foram dormir.
No dia seguinte, Alan estava dormindo tranquilamente, até que ouviu uma voz o chamar:
_ Ei, irmãozinho, acorda!
_ Li? _ Ele questionou, meio dormindo ainda.
_ Quem mais seria? _ Lisandra retrucou, em um tom divertido.
_ Não sei... Talvez... Um monstro? _ Alan retornou a brincadeira.
_ Ah... É... Poderia ser... Mas... Um monstro teria uma cara feia, não é?
_ É, mas... Eu não estou com meus olhos abertos, então... Faria diferença?
_ Ah... Não... Nesse caso não... Mas... E a voz? Não seria um pouco mais áspera?
_ Ah, sim, nisso você tem razão. Bom, de qualquer maneira, você tinha que me acordar tão cedo?
_ Sim, claro que sim! Hoje é dia da nossa caminhada, lembra?
_ Ah, isso... Sim, sim, eu me lembro. Bom, vamos lá, então.
Os dois tomaram café e foram para a caminhada.
O dia estava ensolarado, bonito, o Céu estava azul, limpo. Os dois caminhavam tranquilamente, até que, de repente, cordas mágicas prenderam os dois. Alan se assustou, mas, quando olhou para Lisandra, viu a calma nos olhos dela. Na frente dos dois, apareceu Marta Demoni.
_ Ah, Marta... _ Lisandra falou, calma, com um sorriso no rosto. _ O que você quer?
_ O que eu quero? Você tem coragem de perguntar isso? O que eu quero? Matar esse garoto! Ontem você humilhou o meu irmão! Hoje, eu vou destruir você emocionalmente! Eu vou matar seu irmãozinho precioso!
_ Sério? Você pensa mesmo que vai conseguir? E... Usando esse feitiço que você está pensando?
_ O... O quê? Você não sabe...
_ O que você está pensando? Oh, sim, eu sei. E... Você não vai conseguir. Usar esse feitiço só vai destruir você mesma, Marta.
_ Você não sabe o que eu estou pensando!
_ Ah, sim, eu sei.
_ Então... Que feitiço eu estou pensando em usar? Diga-me!
_ Por que eu faria isso? Se eu disser, você vai mudar de feitiço... E, pra mim, é bom que você use esse mesmo.
_ Você está mentindo!
_ Pense o que quiser, Marta.
Marta estava irada. Aquela garota sempre a desafiava! Aquela garota, Lisandra, era tão arrogante! Mas, hoje, Marta mostraria a essa garota! Mostraria o que é bom!
Alan estava calmo. Ele confiava em Lisandra e, se a irmã estava calma, ele também ficaria. Não é como se Lisandra fosse deixar nada acontecer com ele, certo?
Marta, então, lançou em Alan:
_ [Maldição da matriarca!]
E um raio de magia saiu da mão direita de Marta e foi na direção de Alan, lentamente.
_ “Que feitiço é este?” _ Alan pensou. _ “Ei! Lisandra não vai interferir? Eu não entendo”...
E o feitiço continuava seu caminho... Lentamente... Lentamente... Até que, por fim, o feitiço lançado por Marta Demoni atingiu Alan Sólen na testa.
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