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Beijo

 

Data: 19/06/2010
Hora: 20:07:03
Publicado por: vander.christian
Publicado na página: biblioteca_ler

 

Eu e Karina olhamos para a direção da porta e lá estava Angélica com um olhar de censura estampado no rosto.
-Mãe o que você esta fazendo? – Tornou a perguntar ela se aproximando do sofá.
-Eu e o Jéferson, nós estávamos conversando...
-Mãe você ta chorando!
Angélica parou na minha frente parecendo bastante zangada.
-O que você fez com ela?
-Angélica! Não fala assim com o Jéferson! Nós estávamos conversando sobre o passado e eu me emocionei, foi só isso.
-Achei que você era um moço bom! – Disse Angélica para mim sem dar atenção para a explicação de sua mãe.
-Angélica! – Gritou Karina ficando de pé.
-Eu não fiz nada pra sua mãe, Angélica – falei me explicando.
-Peça desculpas para o Jéferson, filha, agora!
-Não vou pedir desculpas!
-Peça agora!
-O pai falou para eu cuidar de você mãe, esse moço esta fazendo você chorar! Eu não gosto dele, quando o papai chegar vou contar tudo! Vou contar que vocês estavam...
-Chega! Vai já para o quarto antes que eu perca a paciência!
Angélica saiu da sala resmungando baixinho.
-Nós vamos ter um boa conversa mais tarde! – Gritou ainda Karina. E lá do quarto a garota respondeu:
-Vou contar tudo para o papai, tudo que eu vi!
Por um momento nem eu e nem Karina pronunciamos palavra alguma. Senti que era hora de ir embora, mas antes precisava perguntar...
-Bem... Acho que esta na hora de eu ir andando, o Aloísio pode chegar e não vai gostar de me ver aqui, só que antes eu preciso te fazer uma pergunta.
-Não vai ainda Jéferson, por favor, eu quero te mostrar uma coisa. Venha comigo.
-Tem certeza disso Karina?
-Sim, você vai gostar.
Segui Karina por um corredor que dava acesso à lavanderia. Atravessamos o quintal e seguimos em direção a um cômodo que parecia servir para guardar ferramentas. Karina abriu a porta e ascendeu a luz do cômodo. Havia sim algumas ferramentas ali dentro conforme eu imaginara, mas elas estavam amontoadas no canto da parede oposta a que se localizava a porta em que entramos. No centro, havia uma longa bancada com muitas telas, pincéis e embalagens de tinta óleo espalhadas por toda a mesa.
-Aqui esta o local onde eu invento desenhos e pinto. Um bom passa tempo que eu descobri já faz algum tempo.
Peguei uma tela para ver. Havia dois tigres sentados na beira de um lago.
-O Aloísio me inspirou a desenhar esses tigres – falou Karina. – Ele adora tigres.
Fiquei olhando o desenho. A Karina me surpreendeu quando vivíamos juntos e ainda continuava me surpreendendo.
-Esta eu pintei em homenagem a minha mãe.
E ela mostrou uma tela com o rosto de dona Matilde sorrindo.
-Não sabia que você desenhava tão bem – disse eu sorrindo. – Vejo que me enganei.
-Fui descobrindo aos poucos que eu era capaz de desenhar faces e animais, até flores... Aprendi a fazer muitas coisas para afastar o pensamento de você, ou melhor, da sua ausência.
Ficamos olhando um para o outro por mais ou menos um minuto. Depois ela se virou e foi até o canto da parede, retirou umas telas ainda sem uso e fazendo cara de mistério falou:
-Esta aqui eu pintei pensando só em você. Esta tela se chama “Jéferson”.
E virou a tela para a minha direção. A sensação era de estar olhando a minha própria imagem no espelho de tão parecido com o meu rosto que era o desenho.
-Como você conseguiu fazer o rosto tão parecido com o meu?
-Não foi difícil. Uma vez que eu nunca esqueci o seu rosto...
Novamente ficamos olhando um para o outro.
-Esta eu não vendo e não dou para ninguém. Quando bate saudade sua eu venho e fico olhando para o seu rosto. Chego até a conversar com ele.
Fiquei em silêncio tentando imaginar o que falar. Eu estava sentindo uma coisa estranha dentro do peito; uma pulsação que eu sentia quando, no passado, saía de casa e ia me encontrar com Karina.
-No que esta pensando? – Perguntou Karina.
- Tava pensando que...
A porta do cômodo se abriu deixando-se revelar um rosto que eu vira pela ultima vez dentro do teatro abraçado com a mulher que eu amava.
-Cheguei em casa a Angélica veio me contar que a Karina estava recebendo uma visita muito especial que se chama Jéferson, eu precisei vir até aqui ver se era verdade. Estou vendo que a Angélica não se enganou...
-Como vai Aloísio? – Falei um pouco baixo. Percebi que o Aloísio também usava um par de óculos assim como Karina.
-Bem. E você?
Ao perguntar Aloísio veio até a minha direção e estendeu a mão para mim que a apertei com educação.
-Quanto tempo – continuou ele. – O que aconteceu para desaparecer assim e não dar mais sinal de vida? E agora resolve aparecer sem avisar...
-Aloísio, pára – disse Karina o repreendendo.
-O que foi? Falei alguma besteira?
Eu baixei os olhos para fingir que não notara a ironia na fala de Aloísio.
-Vejo que a Karina já mostrou a sua caricatura – ele pegou das mãos de Karina a tela e mostrou para mim debochando. – Parece que do jeito que o seu rosto esta representado aqui, era quando você tinha dezenove anos, ou vinte, porque esta diferente do seu rosto de agora.
Olhei para Karina que tinha uma expressão de fúria estampado no rosto. Continuei em silêncio sem saber como quebrar aquele clima estranho. Foi a chegada do pai de Karina que me livrou daquela situação incômoda.
Seu Ademar ficou feliz em me ver. Me abraçou e até me beijou antes de começáramos a conversar. Foi indo acho que o Aloísio se cansou de ouvir a minha voz e saiu deixando eu, Karina e seu Ademar falando sobre a sua saúde precária. Minutos depois, ele também foi embora e novamente eu estava sozinho com Karina.
-Gostei muito das telas que você pintou, da até para ganhar um dinheiro com elas. Mas eu preciso ir embora; estou ocupando o seu tempo demais...
-Antes eu preciso fazer uma coisa.
Karina se aproximou de mim e quando percebi os seus lábios já estavam grudados no meu. Não foi como da vez em que eu a beijei quase forçado. A sensação era de estarmos girando no meio de um jardim com todos os tipos de flores que se pode imaginar. O gosto do seu beijo era algo que eu não havia sentido ainda... uma suavidade sem tamanho, não dava mais vontade de parar. Assim era beijar Karina.
Quando ela afastou os lábios do meu, me senti tentado a puxá-la para junto de mim e continuar beijando-a por horas e horas. Acho que ela sentiu o mesmo porque ficou algum tempo com os olhos fechados como se me esperasse para continuar o beijo.
-Se eu não te beijasse era capaz de enlouquecer – disse ela sorrindo.
-Você é maluca mesmo – só consegui dizer isso.
-Pode ser. Agora você pode ir embora. E não liga para o que a Angélica falou e nem com o que o Aloísio disse sobre o seu rosto, mais tarde eu converso com os dois.
-Não quero que brigue com a sua filha por minha causa, deixa pra lá, não tem a menor importância... Estou muito feliz por te ver assim da até a impressão que o tempo não passou. Por um momento eu me vi sentado no degrau da porta da sua casa e você do meu lado, ali ficávamos horas conversando, lembra disso?
-Como poderia esquecer...
-O que aconteceu com a gente? Por que nos separamos?
-Porque eu deixei o sentimento de amizade falar mais alto, foi isso.
-Pode ser. Mas você continua linda...
-Você – disse Karina corando um pouco – sempre com o dom de me deixar sem graça.
-Não precisa ficar sem graça.
Olhei para a tela que Karina havia reproduzido a minha face. Era hora de perguntar.
-Antes que eu vá embora quero que me responda umas perguntas se for possível.
-Quais perguntas?
-Você me perdoa por aquele beijo do passado?
-Faz tempo que eu te perdoei – respondeu Karina sem hesitar.
Sorrimos um para o outro.
-Agora sim estou mais aliviado – confessei. – E o Aloísio, você o ama?
Karina pensou para responder.
-Eu o amo do meu jeito.
-E eu? O que sente por mim?
-Acredita mesmo, Jéferson, que um grande amor a gente esquece?
Sorri e lhe dei um abraço. Saímos para o quintal e caminhamos lentamente para a direção do portão. Ficou combinado que se eu conseguisse publicar o meu romance, ela seria a minha convidada e me ajudaria a autografar os livros. Quando já estava na rua ela me disse:
-Vê se não some. Mande-me noticias.
Eu sorri para ela. E antes de virar as costas para a minha amiga, meus olhos encontraram um rosto na janela da sala assistindo a nossa despedida. Não sei quanto tempo Aloísio estava ali nos observando, mas mesmo de longe pude perceber que ele tinha uma expressão séria no rosto.

 

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