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MEDO
| Data: | 13/03/2010 |
| Hora: | 17:31:36 |
| Publicado por: | vander.christian |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
CAPÍTULO 19
MEDO
Haviam se passado doze anos. E de repente uma frase dita por uma colega de trabalho não saía da minha cabeça.
-“Foi bom ter reencontrado o meu amigo de adolescência. Foi muito bom”.
Aquilo me deixou curioso. Fazia tempo que eu não pensava nela. E tão pouco em como ela estaria. O que estava fazendo da vida. Afinal, como seria reencontrar Karina depois de tanto tempo?
Não, eu não havia procurado Karina depois daquele recado. Vieram outros recados; outras cartas, mas eu não respondi. Até que chegou um momento que não mais recebi recados e cartas. E minha vida tomou um outro rumo em definitivo.
Me formei em professor de biologia, realizando assim um grande sonho. Conheci Mariza, professora de inglês, com quem me casei. Incrível, jamais imaginei que fosse amar alguém além de Karina. Mariza fazia de tudo para me ver feliz. Dois anos depois de termos casados, nasceu Fabiana, o meu tesouro.
Ano de 2020. O Brasil estava de cara nova. Cientistas eufóricos estudavam e pesquisavam, sem trégua, uma cura para o câncer. Em algumas partes do mundo, diziam que já havia uma vacina para a AIDS. Mas tal notícia não ficara comprovada. Após uma batalha entre cientistas e igreja, as pesquisas com células tronco fora permitido em quase todos os países, inclusiva no Brasil. Os presídios continuavam lotados, embora boa parte dos presos fossem pessoas que nunca sequer pegaram em uma arma ou roubou alguém, mas estavam ali, dividindo a cela com aqueles elementos perigosos, porque foram pegos jogando lixo nos rios e ateando fogo em reservas de mata fechada. A policia estava punindo com rigor qualquer cidadão que fizesse algo para prejudicar o meio-ambiente. Isso porque, doenças como o câncer e a AIDS poderiam até estarem com os dias contados, entretanto o mundo estava diante de um futuro incerto: a falta de um dos bens mais preciosos da humanidade: a água.
2020 estava sendo um dos anos mais estranhos que eu já vira. Os meios de comunicação faziam questão de mostrar a revolução em um país até então desconhecido para o resto mundo. Era uma revolução diferente das outras; uma revolução sem mortes. Um casal de deficientes físicos, demonstrando muita inteligência, acabou com as ondas de protestos e pancadarias que se espalhavam por todo o país do Sudão. Talvez um dia, o casal receberia o prêmio Nobel da Paz.
Alheio a destruição da natureza, a tecnologia fazia-se presente na vida do ser humano. Principalmente aquela pessoa portadora de deficiência. Demorou mais os transportes coletivos estavam equipados para receber todas as pessoas, fosse ela normal ou portadora de necessidades especiais. Um órgão do governo fiscalizava as faculdades, escolas e empresas, para garantir que estava tudo certo. Aquele era o caminho, mais havia muito a ser feito. As pessoas de baixa renda, por exemplo, não tinham contato com a tecnologia, isso deixava claro que quanto mais fantástica era a tecnologia, mais os pobres ficavam distantes dela.
Depois de assistir essa reportagem na televisão, saí para comprar frutas e fazer um suco, antes de mergulhar na preparação da prova para os meus alunos. E foi aí que encontrei Alice, colega minha de trabalho – ela dava aula de educação física – e ela começou a me falar da viagem que fizera para Minas Gerais. De tudo o que ela me contou, a frase “foi bom ter reencontrado meu amigo de adolescência” ficou martelando dentro da minha cabeça. Como seria rever Karina? O que ela estava fazendo da vida? Qual seria a minha reação ao vê-la? Qual seria a sua reação a me ver? Essas perguntas só seriam respondidas quando eu fosse a São Paulo.
Primeiro tinha que falar com Mariza. E conversamos naquela mesma noite.
-Você vai até São Paulo fazer o que? – Perguntou ela.
-Rever alguns amigos e aproveitar o final de semana prolongado, só isso.
Mariza fixou bem os olhos em mim e falou:
-Rever os amigos? Você vai atrás da Karina. Os seus amigos de infância não moram mais em Franco da Rocha.
Resolvi admitir que ela tinha razão e para amenizar a situação falei:
-Era bom que você e a Fabiana fossem comigo assim todos nós se divertíamos.
-Eu não vou. E não quero que a Fabiana vá com você.
-Mariza, por que isso agora? Por que essa crise de ciúmes por causa da Karina? Eu não estou pedindo que você fique aqui com a nossa filha, pelo contrário, estou pedindo que você e a Fabiana venham comigo.
-Não é crise de ciúmes Jéferson. Só acho que essa é uma viagem sem propósito nenhum, pelo menos pra mim.
Balancei a cabeça negativamente. Já havíamos brigado algumas vezes, mas sempre chegávamos num acordo. Contudo naquele dia parece que estávamos muito longe de chegar a um acordo.
-Mariza, olha só – disse eu chegando mais perto dela – eu preciso ir até Franco da Rocha; preciso conversar com a Karina ver como ela esta, ver a dona Matilde o seu Ademar, eu acho que chegou a hora. Desde o dia que nós se conhecemos que eu te falei desse passado que marcou a minha vida, as circunstâncias que eu vim embora pra cá, agora eu sinto que chegou o momento de tentar recuperar a amizade que eu tinha com eles, de explicar a atitude que tomei...
-Não há o que explicar Jéferson. A mãe, o pai da Karina e ela sabem por que você veio embora.
-O que você precisa entender é que ela esta casada e tem uma filha, assim como eu; temos responsabilidade, não é como éramos adolescentes.
-Tudo bem Jéferson, você pode ir; vai fica o final de semana e o feriado lá. Só não se esqueça que a sua família esta aqui e que você passou boa parte da sua vida esperando por essa mulher e ela nunca que deu importância pra isso.
Dizendo isso, Mariza saiu da sala e foi para o quarto, me deixando sozinho com os meus pensamentos. De certa forma era normal que Mariza sentisse ciúmes de Karina. Mas pro outro lado ela era que não estava ajudando quando disse que não iria junto comigo na viagem. Acho que Mariza chegou a conclusão que eu precisava fazer aquela viagem sozinho, pois era uma história do meu passado. Uma pessoa incrível, a Mariza. Quando perdi a minha mãe ela não me deixou sozinho um estante sequer... Por isso, eu a amava muito.
No dia seguinte, liguei para o meu irmão. Precisava de um lugar para ficar os três dias em Franco da Rocha.
-Pode ficar tranqüilo Jéferson, tem lugar pra você aqui em casa – disse Paulo. – A Mariza e a Fabiana não vem?
-Não. Acho que elas chegaram a conclusão que essa viagem não vai ser bem um passeio, entende?
-Entendo. E também não vai ser nada fácil.
-É eu imagino que não vai ser fácil. De qualquer forma eu as chamei para virem comigo, mas elas não quiseram.
-Beleza então, mano, estarei te esperando.
-Obrigado Paulo. Até sábado.
-Até.
Na sexta-feira, arrumei a minha mochila. No sábado de manhã, me despedi de Mariza e Fabiana. Depois, rumei para a estação e embarquei em uma das coisas que era a maior novidade no Brasil: o trem-bala. Foi em alta velocidade que fui ao encontro de Karina.
Tive sorte. Ao chegar à casa de Paulo ele me informou que Karina estava na casa de sua mãe.
-Ela veio visitar dona Matilde – disse meu irmão. – Parece que vai passar o feriado por aqui.
Até onde eu sabia, Karina estava morando na cidade de Caieiras, e eu não sabia onde era o endereço, mas uma vez ela estando na casa de seus pais, fui poupado da tarefa de ter que descobrir o endereço.
Dei um longo suspiro e fui para a casa dos pais de Karina. Franco da Rocha mudara pouco. Havia menos espaços e mais casas, as ruas estavam asfaltadas, era verdade, mesmo assim, Franco ainda mantinha aquele jeito de cidade que nunca vai pra frente. Talvez a novidade estivesse no corredor de ônibus, localizado no centro da cidade.
Antes de ir para a casa de dona Matilde, passei pela vila em que eu morava. Lá estava a casa que morei com os meus pais. Fiquei ali, parado, olhando para a casa que foi uma parte da minha vida. Os novos moradores haviam construído mais três cômodos. A cor também mudara, de verde limão, passara a um cinza quase branco. Mas ainda tinha um pouco daquela casa que me viu crescer. Na frente do portão, no meu tempo, passava água de esgoto... Com alegria, constatei que não havia mais nem sinal de esgoto; o asfalto tampara tudo. Na frente de cada casa, uma muda de árvore dava um toque especial, naquela rua que um dia foi uma das piores de Fraco da Rocha.
A mãe de Karina não morava mais no Jardim Progresso. Por isso tive que pegar um ônibus até o parque Vitória, local onde ela estava morando. Haviam me informado que era um sobrado rosa, localizado de frente com o ponto final do ônibus. Não tive dificuldade para encontrar. Dificuldade mesmo eu senti, quando me vi parado de frente ao portão.
Senti medo. Senti um frio na barriga. Uma vontade de entrar no ônibus e voltar para trás; esquecer que estive ali. Esquecer que dentro daquela casa estava a mulher que fora o grande amor da minha vida. Fora, ou era? Fazia tempo que eu não pensava nela. Havia esquecido como era pensar em Karina. Ela fazia parte do meu passado, da minha vida de adolescente, inconformado porque ela não queria saber de mim, eu fugira para outro estado e já haviam se passado doze anos... De repente ali estava eu, no portão da casa da mãe de Karina e com a plena certeza de que ela estava ali dentro.
O que dizer? Pensei. Ela estava casada com Aloísio – parece que aquela atração que uma vez ela me disse sentir por Aloísio se transformara em amor. Juntos, eles tinham uma menina da mesma idade de Fabiana.
Olhei para o interfone. Não toquei. Bati palma, uma, duas, três vezes. Surgiu então, uma linda garota de mais ou menos oito anos de idade, na soleira da porta.
-Fala moço.
Fiquei olhando para aquela garota. Era como se eu estivesse vendo a Karina quando criança, bem ali, na minha frente. Exceto a cor dos cabelos, que eram mais claros com relação aos de Karina.
-O que você deseja moço? – Repetiu a garota.
-A Karina, ela esta? – Perguntei com a voz rouca.
-Esta sim. Quer que eu vá chamá-la?
-Por favor.
A garota entrou, fechou a porta em seguida e eu fiquei na frente do portão com o coração quase saindo pela boca. Tentei entender o porquê daquele medo que eu sentia, afinal eu não me lembrava de ter feito nada de errado. Claro, só tinha abandonado a Karina naquele corredor...
Dois minutos depois a porta se abriu. Era Karina.
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