| Publicado por: | vander.christian |
| Data: | 27/02/2010 |
| Hora: | 18:05:06 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Livro | KARINA - A MINHA HISTÓRIA |
| Capítulo | 21 |
| Leituras: | 218 |
CAPÍTULO 18
SOZINHA NO CORREDOR
Karina estava acompanhada pela mesma amiga que a levou no meu trabalho uma vez para perguntar se era verdade ou não que eu ia embora.
-Onde eu estou indo? – Respondi com outra pergunta.
-É aonde você esta indo? – Disse Karina dando mais ênfase a pergunta.
-Com licença – pediu a amiga de Karina deixando-nos a sós.
-Estava indo no banheiro – disse finalmente. Desejei estar em qualquer outro lugar, menos ali.
-Esta tudo bem?
-Sim, esta.
-A sua voz ta estranha. Você esta chorando?
-É que eu fui pego de surpresa pelo seu depoimento – menti. – Fiquei emocionado, foi isso.
-Eu precisava falar aquilo. Estou me sentindo mais leve agora, mas tem outra coisa que eu preciso te dizer.
-Karina, eu...
-É algo muito importante.
-Olha só, Karina eu...
-Pode ir ao banheiro, depois a gente conversa.
-Não é que... Acho melhor você dizer por quê...
-Vai ao banheiro, conversaremos melhor depois.
-Não é que...
-Eu falo depois Jéferson.
-Posso te dar um abraço então?
-Por que me dar um abraço? Tem certeza de que esta tudo bem?
Me joguei nos braços de Karina.
-Jéferson, o que esta acontecendo?
-Eu preciso ir ao banheiro – falei afastando-me dela.
-O que esta acontecendo, Jéferson? Você esta estranho!
-Conversaremos melhor depois!
Karina se calou. Eu também. Andei pelo corredor de costas e acenando para Karina; as lágrimas escorrendo pelo rosto. Antes de sair pela porta, dei um último adeus a Karina, que ficara parada, incapaz de ver um vulto sequer, a espera que eu voltasse.
Os três primeiros meses que passei na cidade de Altamira, conforme eu previ, não foi fácil. Minha tia saia para trabalhar, o meu primo estudava de manhã e a tarde também ia trabalhar em um lava - rápido não muito longe do bairro Tira Dentes onde morávamos. Resumindo, eu ficava em casa sozinho. E era ruim porque os meus pensamentos iam lá para São Paulo, onde estava Karina. E ela era a última pessoa em quem eu queria pensar.
Na vida, precisamos aprender a fazer de tudo, é verdade. Oito meses depois de estar morando no estado do Espírito do Santo, resolvi tentar fazer alguma coisa para ajudar a minha tia. Comecei a trabalhar de lavador na garagem de uma empresa de ônibus. Foi bom, fiz novas amizades e conheci várias pessoas que me ajudaram a se sentir mais a vontade naquela cidade.
Conversava algumas vezes com mamãe e papai, estavam todos muito bem, graças a Deus.
Um ano depois, aluguei uma casa, ainda na cidade de Altamira e consegui um outro emprego. O cargo de recepcionista em um hotel permitiu que eu voltasse a estudar. E foi mais ou menos nessa época que fiquei sabendo notícias de Karina.
Dentro do meu peito nascera um buraco. Não queria ficar relembrando os momentos em que eu estava com Karina, pois dava a impressão que aquele buraco ficava três vezes maior enquanto eu diminuía e me transformava num ser frágil. Por mais complicado que seja uma separação, com o tempo acaba caindo na rotina. E aquele buraco dentro de mim caiu na rotina também. O vazio já fazia parte de mim, mas o bom era que eu não precisava culpar alguém pelo buraco estar dentro do meu peito; o culpado era eu. E me punha a olhar para o retrato – uma foto que ela me dera quatro meses depois de ter me conhecido – ficava olhando para o retrato de Karina. Seus olhos castanhos, os seus cabelos longos e a pele branca e suave. Se pelo menos eu tivesse dito tudo que sentia por ela naquela época em que ela me dera o retrato, talvez as coisas tivessem tomado um outro rumo. Mas não falei. E ali estava eu, com o coração partido, distante do amor da minha vida e fingindo não querer notícias, mas implorando para que viesse um telefonema, uma carta, ou até mesmo, uma visita...
Em 2009 a comunicação pela internet entre as pessoas se tornou mais comum que os telefones fixos eram utilizados raras vezes por pessoas que não tinham condições de comprar um computador. Porém, não foram pela página de relacionamento que Karina me deu notícias. Era costume meu levar o notbook para o trabalho, chegava lá ficava ouvindo os programas das radias paulistas pela internet. Ao meio-dia, havia um programa que os ouvintes mandavam recados para alguém especial. O programa chamava-se Cantinho do Coração. E qual não foi a minha surpresa quando o locutor anunciou:
-“Nós temos aqui o recado da Karina de Franco da Rocha, ela escreveu para o Cantinho do Coração, e manda o seu recado para o Jéferson de Altamira no estado do Espírito Santo. Alô Jéferson da cidade de Altamira no Espírito Santo, aqui vai o recado da Karina de Franco da Rocha. Ela diz assim”:
JÉFERSON,
POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COMIGO? POR QUE ME DEIXOU AQUI SOZINHA? TUDO QUE EU FAZIA ERA PENSANDO EM VOCÊ, PENSANDO NO SEU BEM... FICOU UM ENORME VAZIO DENTRO DO MEU PEITO, ESSE VAZIO SÓ EXISTE PORQUE VOCÊ LEVOU UMA PARTE DE MIM, JUNTO QUANTO VOCÊ PARTIU.
SINTO TANTO A SUA FALTA. SINTO FALTA DA SUA VOZ, DO SEU SORRISO, DA SUA COMPANHIA, DOS NOSSOS PASSEIOS... PARECE QUE TUDO ISSO FAZ PARTE DE UM PASSADO TÃO DISTANTE, EU PRECISO DE VOCÊ AQUI, DO MEU LADO. VOLTA! VOLTA JÉFERSON! VEM PREENXER ESSE VAZIO DENTRO DO MEU PEITO. TALVEZ EU NUNCA TENHA DITO – NÃO TÃO CLARAMENTE – MAS VOCÊ, VOCÊ É A RAZÃO DO MEU VIVER. VOLTA, EU ESTOU TE ESPERANDO DE BRAÇOS ABERTOS... DE CORAÇÃO ABERTO.
Veio então a vinheta do programa. Baixei a cabeça e falei:
-Foi você que ficou com uma parte de mim, Karina. Acredite.
Quando terminei a frase, começou a tocar uma música. Uma música que marcou pra sempre a minha vida. Por isso, faço questão de escrever a letra desta música nessa história.
DE TARDE QUERO DESCANSAR
CHEGAR ATÉ A PRAIA E VER
SE O VENTO AINDA ESTA FORTE VAI
SER BOM SUBIR NAS PEDRAS.
SEI QUE FAÇO ISSO PRA ESQUECER,
EU DEIXO A ONDA ME ACERTAR
E O VENTO VAI, LEVANDO TUDO EMBORA...
AGORA ESTA TÃO LONGE, VÊ,
A LINHA DO HORIZONTE ME DISTRAI
OS NOSSOS PLANOS É QUE TENHO MAIS SAUDADE,
QUANDO OLHAVAMOS JUNTOS NA MESMA DIREÇÃO.
AONDE ESTA VOCÊ AGORA,
ALÉM DE AQUI, DENTRO DE MIM?
AGIMOS CERTO SEM QUERER, FOI SÓ O TEMPO QUE ERROU.
VAI SER DIFICIL SEM VOCÊ, PORQUE VOCÊ ESTA COMIGO O TEMPO TODO E QUANDO VEJO O MAR,
EXISTE ALGO QUE DIZ QUE A VIDA CONTINUA
E SE ENTRGAR É UMA BOBAGEM.
JÁ QUE VOCÊ NÃO ESTA AQUI,
O QUE POSSO FAZER É CUIDAR DE MIM.
QUERO SER FELIZ AO MENOS.
LEMBRA QUE O PLANO ERA FICARMOS BEM.
OLHA SÓ O QUE EU ACHEI: CAVALOS MARINHOS...
Após o término da música, percebi que os meus olhos estavam escorrendo lágrimas. Desliguei o computador e fui ao banheiro lavar o rosto. É, existem obstáculos na vida que precisamos superar. É difícil, na verdade, ninguém disse que era fácil. Por isso, segui em frente...
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