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ALOÍSIO

 

Data: 06/02/2010
Hora: 19:26:54
Publicado por: vander.christian
Publicado na página: biblioteca_ler

 

CAPÍTULO 14

ALOISÍO


Janeiro de 2008


Quando eu saí casa de Karina de Sandra naquele sábado, tive o meu trajeto modificado por causa de uma ligação de Karina.
-Eu preciso que você venha até aqui – dissera ela no celular.
Muitas coisas haviam mudado desde o dia em que eu cheguei na casa da prima de Karina e o seu marido, juntamente com a filha Renata, riram da minha cara porque eu caíra do cavalo, fora picado por marimbondos e ainda caí no brejo ao tentar trazer o cavalo de volta pra sua casa.
No início de 2004 eu retomei a faculdade de biologia. Eu e Karina estávamos um pouco afastados um do outro. Ela estava trabalhando numa agência de viagens no shopping de Jundiaí. Mas era do trabalho pra casa e da casa para o trabalho.
O Leonardo estava de férias no trabalho – segundo Karina, ele tinha viajado para Recife e quando retornasse das férias entraria para a faculdade de análise de sistema.
Quanto ao Flavio e a Michele, eles estavam bem casados e felizes.
Já o Bruno, bem... este estava realmente se achando por ser vocalista e compositor da Banda Ponto de Vista.
E falando em “Ponto de Vista”, segundo Flavio o CD de estréia da banda estava marcado para ser lançado no meio do ano de 2008.
-O nome vai ser “Por do Sol” – disse Flavio se referindo ao nome do CD.
Na maior parte das vezes, essas novidades chegavam ao meu conhecimento através do computador. A maioria dos brasileiros tinha uma página de relacionamento na internet. Assim como os computadores, os celulares também estavam em alta. O Brasil havia mudado, o mundo mudara. Nos jornais, TVs e rádio a notícia era a mesma: aquecimento global. No Brasil também se falava em aquecimento global, mas também se falava em autorizar ou não pesquisa com células tronco. Também falavam da violência, da dengue e de quantas pessoas haviam morrido nos acidentes de carro. Há pouco mais de um ano, houve o maior acidente aéreo já registrado no país: 200 pessoas morreram na queda de um aerbâns em Congonhas... Novamente as lembranças do acidente daquele 10 de janeiro de 2003 veio em minha mente.
O Brasil mudara, o mundo mudara, a vida mudara, porém o meu amor por Karina continuava do mesmo jeito: pronto para ser oferecido a ela quando quisesse. Mas Karina estava jogando todo o seu charme para um cego chamado Aloísio, que ela conhecera no trem. Eu e Karina estávamos mais distante um do outro depois de uma viagem de trem que fizemos juntos de Jundiaí a Franco da Rocha. Karina ficou conversando com Aloísio a viagem toda, como se eu não estivesse a acompanhando.
Ela percebera que eu não gostei nada daquele comportamento, mas também não disse nada; fez como eu: não me procurou mais. Por isso, naquele sábado, fui até a sua casa completamente intrigado, isso porque ela não dissera o que queria falar comigo.
-É melhor você vir aqui pessoalmente - dissera quando perguntei se tinha acontecido alguma coisa.
Ao chegar em sua casa encontrei- a sentada na frente do computador. Após uma passagem rápida pelo Dosvox (que é um editor de texto, leitor de documentos, configuração de impressão, navegador de arquivos, entre outros utilitários falados), Karina estava usando o Jaws, um leitor de tela que converte a som todo conteúdo apontado na tela, permitindo o uso do ambiente Winds. O monitor estava desligado, mas ainda assim vi que Karina digitava algo.
-Pronto o que você quer? – Perguntei depois de dizer oi e dar um beijo em seu rosto.
-Nossa que frieza.
Puxei uma cadeira e me sentei.
-Desculpa, é que eu estou um pouco cansado, sabe, acabei de vir da casa da Sandra, nós estávamos fazendo um trabalho da faculdade...
Passei as mãos no rosto e deixei escapar um suspiro.
-Esta bem – disse Karina com uma expressão séria. – É que eu queria que você visse o texto, fizesse uma análise da minha peça.
-Peça? – Estranhei. – Você esta escrevendo uma peça?
-Escrevendo não, já terminei de escrever.
-Nossa que legal!
-Eu falei pra você – disse Karina radiante – o meu sonho era escrever uma peça de teatro e eu consegui!
-E cadê a peça, eu quero ler!
-Aqui no computador – falou ela.
-Karina o monitor esta desligado – falei curioso.
-Ah, é verdade. Eu gosto de trabalhar assim, com o monitor desligado; me sinto mais a vontade.
Karina ligou o monitor. Eu puxei a cadeira para mais perto da rack. Finalmente o clima ruim entre eu e ela havia ido embora.
-Antes de você ler e dar a sua opinião eu quero te falar outra ciosa – adiantou Karina prendendo o cabelo com uma presilha. – Uma amiga do Leonardo conseguiu falar com um grupo e esse grupo vai fazer essa peça que eu escrevi, a apresentação vai ser no dia 14 de agosto, no teatro Gloria, lá em Jundiaí.
-Maravilha! – Exclamei. – Ótima noticia!
-Eu não mereço um abraço?
-Claro, merece até dois! – Falei abraçando- a. Aquela noticia me pegou de surpresa, uma vez que eu estava achando que Karina não levaria adiante o sonho de ser escritora de peças teatrais.
Ainda estávamos abraçados quando dona Matilde apareceu na porta da sala, dizendo que iria ao supermercado. Percebi que ela me olhou de um jeito estranho. Apressei-me a dizer:
-A Karina me contou que a peça vai ser exibida no teatro de Jundiaí... Estava... dando os parabéns a ela.
-Claro – disse dona Matilde – a Karina esta mesmo de parabéns.
Achei estranho aquele modo de agir da mãe de Karina. Aquele olhar cheio de censura não fazia parte de sua personalidade. Dona Matilde sempre gostou de me ver junto com Karina, mas de repente...
-É uma peça infantil – declarou Karina me trazendo de volta a realidade. – Espero que você goste e lembre-se: a sua opinião é muito importante.
Peguei o mouse e cliquei na barra de rolamento e comecei a ler. O relógio marcava 16h: 07 minutos...
O título era:

“DONONÇA FAZ QUITUTES”

Os personagens eram: Dononça, Raposo, Levir e Lê.
O cenário era: praticável dividido ao meio por uma parede. Não havendo praticável giratório haverá só a parede, e os propios interpretes comporão o cenário à medida que entram. Do lado da floresta: o forno, a cadeira e a mesa da Dononça. Do outro lado, em correspondência: a televisão e o trono do rei Lê. Ou seja, de um lado a floresta, do outro o palácio. Ao iniciar a cena Dononça, na cadeira de balanço, faz tricô.


CENA I


Dononça (usa óculos, avental e birote, como uma avozinha, cantarola): Larilaralá... Um ponto... Duas meias; outro ponto... Outra meia... Larilaralá... Larilaralá...
Raposo (é espigado, muito ágil e gesticulador, entra cantando): Eu sou Rap Rap Oso, Rap Oso! Farejo qualquer coisa, e por isso sou famoso! (Pausa.) Ah! Quando falo em farejar... Meu nariz começa a coçar e a trabalhar! (Aspira, fechando os olhos, nariz para cima.) Humhum! Hum! Hum!
Dononça (olhando por cima dos óculos, a meia voz): Aiaiaiaiai! Que será que esse nariz fino veio fazer por aqui?
Raposo: Hum! Hum! Que sinto? Hum, que sinto?
Dononça espirra: Aaatchim!!...
Raposo (sem olhar para ela): Jasmim?
Dononça: Aí de mim!
Raposo (após farejar um instante): Algo esta a me cheirar nas ventas... (Dá uns passos por ali. Torna-se a cantar.) Eu sou o Rap Rap Rap Oso! Farejo qualquer coisa...
Dononça (o interrompe): É um intrometido!
Raposo (concluindo seu cantar): Por isso sou famoso!
Dononça (continua a cantarolar, sem tomar conhecimento do Raposo, que se aproxima): Larararilará...
Raposo (com hipocrisia): Ah! Mas que vejo! Dononça esta em casa!
Dononça (cínica): Não, estou na floresta!
Raposo (sem perder o jeito): Ora, ora...
Dononça (afastando Raposo, que mete o nariz no seu trabalho): Vá até lá e vê se me encontra.
Raposo (examinando o tricô): Que é isso?
Dononça: Tricô, não enxerga?
Raposo: Claro! Tenho uma excelente vista!
Dononça: Tem um grande nariz!
Raposo (fazendo mesuras): Obrigado... Obrigado... (outro tom.) Então, como vai Dononça?
Dononça (continuando a tricotar): Fala Raposo.
Raposo: Trabalhando?
Dononça: Então não vê?!
Raposo: Vejo; mas como bom repórter gosto que me confirmem os fatos! Um fato não confirmado é boato!
Dononça (em tom de mofa): Ora, como estamos...
Raposo: Por isso sou famoso!
Dononça (espirra): Aaaaaatchim!
Raposo: Deus te guarde Dononça!
Dononça: Aí de mim!
Raposo: A senhora trabalha bem... (examina o tricô.) Hum...
Dononça (afastando-se): Deixa pra lá... (outro tom.) Que novidades trás?
Raposo: Novidades?
Dononça: Você quase nunca vem pra estes lados da floresta; se veio é porque alguma coisa acontece...
Raposo: Não aconteceu e nem acontece nada!
Dononça: Então, o que quer aqui?
Raposo (dissimula): Nada... Nada... Procuro noticias novas para a televisão.
Dononça (como a entender): Ah!
Raposo: Tem visto televisão?
Dononça: Só as novelas.
Raposo: Ah! Ah!
Dononça: Ah, ah, por quê?
Raposo: E o telejornal?
Dononça: De vez em quando...
Raposo: Deve ouvir mais; para saber as novidades.
Dononça: Que novidades?
Raposo: Do mundo.
Dononça: Que me interessa o mundo? Ou o Raimundo?
Raposo: É preciso acompanhar o mundo!
Dononça: O mundo só tem barulho, fumaça e confusão! E que confusão!
Raposo: O mundo é vida! O mundo é alma!
Dononça: No mundo falta calma!
Raposo: Mas é no mundo que estão as novidades.
Dononça: Eu lá quero saber do mundo?
Raposo: Mas bem que gosta de novidades.
Dononça (concorda): É... Gosto... E que novidades me trás? Você que esta sempre farejando tudo?
Raposo: Farejando tudo e ficando famoso!
Dononça: Famoso bisbilhoteiro.
Raposo: Famoso repórter no mundo dos vivos!
Dononça (ri): Ah, ah, ah! Santa vaidade! (Cantarola, trabalhando.) Laralari... Laralari...
Raposo: Pode zombar, mas eu sou o Rap Rap Rap Oso, Rap Oso. Farejo qualquer coisa por isso sou famoso!
Dononça: Lá isso é... Tem o maior nariz do mundo!
Raposo: E estou farejando...
Dononça (espirra): Aatchim!
Raposo: Saúde!
Dononça: Que dizia mesmo?
Raposo: Estou farejando algo!
Dononça (apreensiva): Esta mesmo Raposo?
Raposo (concorda): Humhum!
Dononça: Tem certeza?
Raposo: Absoluta!
Dononça: Por aqui?
Raposo (farejando): Hum, hum!
Dononça: Não vem de lá não?
Raposo: De lá onde?
Dononça: Da serra... O vento sopra de lá.
Raposo: Não, não, não! Algo por aqui Dononça.
Dononça (a parte): Aiaiaiai! Esse nariz fino... (Para o Raposo): Por aqui?
Raposo (fareja): Humhum!
Dononça (intrigada): Que é?
Raposo: Coisa boa!
Dononça: Duvido, não há nada de bom por aqui!
Raposo: Tem certeza?
Dononça: Pois claro! Não moro aqui!
Raposo: Mora.
Dononça: Não vivo aqui?
Raposo: Vive.
Dononça: Esta parte da floresta não é minha?
Raposo: É.
Dononça: Então, se digo que não há nada aqui é porque não há.
Raposo (fareja pelos cantos, seguido por Dononça que larga o tricô): Hum, hum... Hum!
Dononça: Seu nariz farejador esta enganado!
Raposo (ri, contestando): Ah, ah, ah! Não, não, não! Meu nariz esta dando sinal de novidade... Novidade há. Raposo não se engana.
Dononça: Desta vez sim.
Raposo (continua farejando): Não, não, não! Sinto algo no ar que respiro... E não suspiro!
Dononça: É espirro!?
Raposo: Não!
Dononça: É o aroma das nuvens! Olha quantas nuvens lá em cima.
Raposo: Não é de lá não, elas estão muito altas.
Dononça: É o cheiro do sol!
Raposo: Sol cheira?
Dononça (fingida): Nossa! Você nunca sentiu o cheiro do sol Raposo?
Raposo: Eu não... Acho que não...
Dononça: Que vergonha!
Raposo: Pelo que consta, o sol não cheira!
Dononça: Cheira! Pode perguntar a qualquer um!
Raposo: É pode ser... (Outro tom): Mas não é cheiro de sol que eu estou sentindo!
Dononça: De chuva?
Raposo: Ah! De chuva não é, que eu já senti o cheiro de chuva. Cheiro de chuva é diferente!
Dononça: Hum! Tem certeza de que esta cheirando?
Raposo: Nem há dúvida... E coisa muito boa!
Dononça: Ah! Já sei.
Raposo: Que é?
Dononça: O vento!
Raposo: Hum, hum! Não, não é o vento!
Dononça: Das flores?
Raposo: Não são as flores.
Dononça: As estrelas?
Raposo (procurando lembrar): Estrelas...
Dononça: Ah! Acertei?
Raposo: A senhora já viu estrelas de dia?
Dononça: É verdade... Nunca vi. Estrelas de dia a gente não vê.
Raposo: Pois então, não são estrelas... Não é nada assim do céu... Meu nariz farejador não falha: é aqui da terra.
Dononça (espirra): Aaaatchim!
Raposo: Deus te guarde!
Dononça: Obrigada... E por falar em guarda, vou guardar meu tricô.
Raposo: Espere!
Dononça: Que é?
Raposo: Que é que a senhora esta fazendo Dononça?
Dononça: Um casaco de lã para o inverno.
Raposo: Ah! O inverno demora ainda.
Dononça: Gosto de me prevenir. (Outro tom.) Não viu como já estou espirrando.
Raposo: É já reparei que a senhora esta num espirra-espirra que não pára.
Dononça: Não vou sentir no inverno.
Raposo: Muito bem, muito bem! Vou dar a noticia em primeira mão, posso?
Dononça: Que noticia?!
Raposo: Que a senhora se prepara para o inverno.
Dononça (aliviada): Ah... Onde vai dar a noticia?
Raposo: Na televisão!
Dononça: Oh, meu Deus?
Raposo: Hoje em dia todo mundo vê televisão!
Dononça (depois de guardar o tricô, apanha uma enxada e vai cultivar um canteiro): Vou ficar calada!
Raposo: Garanto que vai gostar. Todo mundo gosta de ser famoso.
Dononça: Desse jeito vou virar noticia!
Raposo: Grande noticia!
Dononça; Mas tem de ser na televisão?
Raposo: A televisão é a maior divulgadora de noticias!
Dononça: E você esta mesmo na TV, Raposo?
Raposo: Claro!
Dononça: Com essa cara!
Raposo: Com essa cara que Deus me deu!
Dononça: Qual... esse mundo esta mesmo perdido!
Raposo: É por isso que sou famoso!
Dononça (a parte): Só se for por meter o nariz onde não é chamado.
Raposo (com ênfase, como locutor de vídeo): Todos os dias no telejornal do canal Um – o meu, o seu, o nosso: telejornal canal Um! Um sempre o primeiro!
Dononça: Se tiver tempo, vou ligar pra ver.
Raposo: Se tiver tempo?
Dononça: Claro!
Raposo: Mas eu sou Raposo, o famoso repórter!
Dononça: Não duvido.
Raposo: A senhora sabia que fui eu quem transmitiu a chegada do homem à lua?
Dononça: E o homem, ficou lá ou já voltou?
Raposo: Voltou lógico!
Dononça (falsa admiração): Ah!
Raposo: Entrevistei o primeiro macaco...
Dononça: Que virou gente?
Raposo: Que voou pelo espaço!
Dononça (novamente): Ah!
Raposo: Ganhei os maiores prêmios da floresta.
Dononça (a parte): Como o maior mentiroso!
Raposo: Como o melhor repórter.
Dononça (ainda a parte): Acho que foi de melhor linguarudo!
Raposo: O melhor entrevistador.
Dononça: O melhor gabola.
Raposo: O melhor melhor!
Dononça (finge indiferença): Ora... Isso não me impressiona.
Raposo (amuado): Ah... Não me dão valor...
Dononça (afastando Raposo): Cuidado... Não vá pisar nos meus alecrins...
Raposo (zangado): Pode ficar com seus alecrins, suas verduras; vou cuidar da minha vida!
Dononça: É melhor mesmo!
Raposo (resmungando): Lidar com gente tonta é o que dá! Tomara que se embarace com o tricô! Tomara que dê um nó danado!
Dononça: Que é que esta resmungando feito velho?
Raposo: Estou filosofando.
Dononça: Ora veja!
Raposo: Fique aí tratando de seus capins...
Dononça (corrigindo): Alecrins...
Raposo: A senhora pode falar de mim o que quiser, mas eu sou o Rap Rap Rap, o Rap Raposo farejo qualquer coisa, por isso sou famoso!
Dononça (espirra): Aaaaatchim!
Raposo: Outra vez!
Dononça (persignando-se): Que Deus me proteja ou me arrebento!
Raposo: Olha que ainda estou farejando!
Dononça (conformada): Então fareja!
Raposo: Não me provoque...
Dononça (insiste): Vá, fareja! Banca o cachorro de caça!
Raposo (adverte): A senhora ainda vai se arrepender!
Dononça (impedindo que Raposo fareje no forno): Que é que vai fazer?
Raposo (inocência fingida): Farejar!
Dononça (protesta): Aí não...
Raposo (como a entender qualquer coisa): Ah!
Dononça (imita): Ah!
Raposo (sagaz): Aha!
Dononça (imita): Aha!
Raposo (apontando para o forno): Aqui tem coisa!
Dononça: No meu forno não tem nada!
Raposo: Eu acho que tem!
Dononça (pondo-se a frente, procurando afasta-lo do forno): Não tem!
Raposo (teima): Tem!
Dononça: Tem teu nariz!
Raposo (canta, teimando): Tem, tem, tem! Tem, tem, tem!
Dononça (espanta Raposo com a pá do forno): Vá farejar noutro lugar.
Raposo (deixa fugir): Ah!
Dononça: Que é?
Raposo (levando a mão no nariz): Meu nariz farejador esta dando sinal... O forno esta funcionando.
Dononça (mão na cintura): Aqui não tem nada funcionando.
Raposo (aspirando o ar): Humhum!
Dononça: Que negócio de humhum! Vamos lá, dê o fora.
Raposo: Ah!
Dononça: Que é agora?
Raposo: A senhora esta assando pão de minuto!
Dononça: Não estou.
Raposo: Torta de morango?!
Dononça: Torta é a sua cabeça!
Raposo: Humhum!
Dononça: Tire esse nariz do meu forno!
Raposo: Ah!
Dononça: Que foi agora?
Raposo: Esta assando broa de milho!
Dononça: Broa de milho teu nariz!
Raposo (sempre farejando): Humhum... Agora sei! Bolo de chocolate!
Dononça (assustada – a parte): Oh, meu Deus!
Raposo: Acertei?!
Dononça: Que bolo nada!
Raposo (insiste): É sim!
Dononça: Acha que eu ia fazer bolo de chocolate?! O rei Lê não quer bolo de chocolate no reino. É uma coisa proibida!
Raposo (teima): Mas é bolo de chocolate que tem aí.
Dononça: É nada!
Raposo: E bolo de chocolate esta proibido por lei pelo rei Lê. (Fazendo menção de abrir o forno.) Quero ver!
Dononça (afasta-o): Não vai ver nada!
Raposo: Se o rei souber!
Dononça: Você é um bobo!
Raposo: Ah, ah, ah! Adivinhei! Adivinhei! Adivinhei!
Dononça (zangada, mão na cintura): Se não for embora daqui eu não sei o que faço!
Raposo: Bolo de chocolate esta proibido há cem anos!
Dononça: Não há bolo nenhum!
Raposo: Chiiii... Se o rei Lê souber!
Dononça: Ele não vi saber de nada, porque aí não tem nada!
Raposo (desafia). Então abre!
Dononça: Não abro!
Raposo: Por quê?
Dononça: Vai esfriar. Depois eu vou ter que esquentar tudo de novo! Esquentar o forno leva muito tempo!
Raposo: Então é porque tem bolo!
Dononça (enxotando): Dê o fora!
Raposo: Abra pra eu ver!
Dononça: Vou abrir a cabeça de alguém... (Ameaça-o com a pá e corre a volta do forno.) Deixe meu forno em paz!
Raposo (de longe, em desafio): Ahahah! Tem bolo de chocolate!
Dononça (corre atrás de Raposo, que foge; depois volta): Não gosto de gente abelhuda! (Espirra.) Aaaaatchim! Que coisa! Sempre que o Raposo esta por perto me da uma coceira no nariz. Parece que ele vive soltando pêlos pelo ar! (Abre o forno e olha seu interior.) Humhum! Vai ficar bem gostoso... Minha receita de bolo de alecrim é a melhor do mundo! (Fecha o forno e vai tricotar.) Se o rei nem pode ouvir falar em bolo de chocolate, não tenho nada com isso! Quem manda ser guloso: é o leão mais guloso que já vi. (Espirra.) Aaaaatchim!! Puxa! Ainda bem que Raposo já foi embora, senão meu nariz virava do avesso de tanto atchim! (Volta a cantarolar.) Lari larilará... Duas meias... Um ponto... Outra meia, outro ponto! Larilará... Lari... (Raposo entra ser visto pela Dononça; escondendo-se aqui e ali vai até o forno).
Raposo (espiando dentro, esfrega as mãos satisfeito): Ah! Meu nariz farejador não falha! (Aspira.) Ah! Hum... Que delicia! (Exclamativo.) Ahah! Hoje no meu, no seu, no nosso telejornal do canal Um, o primeiro! A grande noticia: bolo de chocolate ameaça todo o reino. (Ri.) Ah, ah, ah... (Sai cantando.) Eu sou Rap Rap Rap, o Rap Raposo farejo qualquer coisa, por isso sou famoso!





CENA II


Lê (é gordo, denotando gulodice; sentado no trono, geme, esfregando a barriga): Aí, aí, aí! Uí, uí, uí! (Fazendo caretas, gemendo longo.) Aiii... Uiii... Uí! (Levanta andando de lado pro outro.) Como é triste ser rei com a barriga doendo... Aiii... Aiii... Uiii... Uí! (Outro tom.) Se não fosse à televisão para me distrair, não sei o que faria! (Geme.) Uiii...
Levir (tipo versátil sabe ser vulgar quando ocupa função baixa, é refinado quando em posição melhor. Entra de avental correndo, balde e vassoura na mão como se fosse faxineiro).
Lê (de mau humor): Que é que você quer aqui Levir?
Levir: Não esta me chamando?
Lê: Não... Não estou não.
Levir: Eu ouvi: uuuu...
Lê: Estava gemendo!
Levir: E para gemer precisa uivar?
Lê: Sou rei, faço o que quero.
Levir: Então de um gemido de rei!
Lê: Como é gemido de rei!
Levir: Não sei não sou rei!
Lê (desdenhando Levir): Então dou gemido de dor de barriga!
Levir: Outra vez majestade?
Lê (concorda): Outra vez!
Levir: Essa barriga não pára, não é?
Lê: Ah! Daria metade do meu reino para sarar!
Levir: Hum... (Zomba.) E alguém vai querer?
Lê: Mas é um bom reino!
Levir: E daí?
Lê: É fácil de governar... Não se tem nada pra fazer.
Levir: Por isso mesmo. Um reino tão fácil de governar que nem precisa rei!
Lê: Quer dizer então que eu sou um inútil, não é senhor faxineiro real?!
Levir (irônico): Claro que não majestade. Um reino precisa ter quem lhe dê alegria...
Lê (geme): Aiaiaiai... Uiii... Como dói!
Levir: Vossa majestade andou comendo outra vez?
Lê (confirma): É... Andei...
Levir: Bolo de chocolate!
Lê (choroso): Foi um pedacinho só!
Levir (em tom de reprovação): Ah... Esses reis não endireitam mesmo! (Outro tom.) Não sabe que dá dor de barriga?
Lê: Sei...
Levir: Mesmo assim comeu, não é?
Lê (justificando-se): Estava tão gostoso!
Levir: Pois agora gema!
Lê: Ai... Ai... Uí... Uí... E agora, que é que eu faço?
Levir: Esfrega que passa!
Lê (esfregando a barriga): Ai... Ai... Não passa!
Levir: Esfrega com força!
Lê (esfregando freneticamente): Uí, ui, ui, ui!
Levir: Melhorou?
Lê: Esquenta pra burro!
Levir: Não passou?
Lê: Ai... Esta indo... (Levir continua a limpeza, enquanto o rei vai se acomodando – à medida que a dor some, ele adormece.) Ai... Ui...
Levir (falando sozinho): É. Nunca vi tão guloso! Já sabe que bolo de chocolate da dor de barriga e fica comendo! Parece criança! Como até pelos olhos! (Outro tom.) Agora geme rei! Rei também tem barriga! (Pausa.) “Comi um pedacinho só!” Sim, garanto que comeu um bolo desse tamanho (abre os braços.) E sozinho... (Procurando pelo chão.) Será que não sobrou nada pra mim! Bem feito que deu dor de barriga!
Lê (desperta, subitamente, gemendo): Ai, ai! Ui, ui!
Levir (de um salto esta junto de Lê): Vossa majestade esta chamando?
Lê: Não estou chamando!
Levir: Eu ouvi!
Lê: Estava gemendo!
Levir: Pensei que chamava: uuuuuuu!
Lê: O que é isso?
Levir: É assim que nós chamamos alguém.
Lê: Pois então sossegue. No palácio só eu posso urrar!
Levir: Pois urre majestade!
Lê: Ai, ai! Não posso.
Levir: Esta vendo?
Lê: Acha que posso urrar, com dor de barriga?!
Levir: A gente que só urra com dor de barriga!
Lê: Ah... Queria ver se fosse com você.
Levir: Comigo nunca acontece! (A parte.) Nunca sobra um cisquinho de bolo!
Lê (fazendo careta): Ui, como dói!
Levir: Quem manda ser guloso? (A parte.) Pensa que bolo de chocolate é água? Agora geme “seu”!
Lê (chegando por trás): Que é que esta dizendo?
Levir (assustado desculpa-se): Nada majestade... O reino é vosso... Pode gemer, pode urrar... Quando quiser!
Lê: Que é que faz aí, com esse balde e vassoura?
Levir: Estou varrendo e lavando.
Lê (em dúvida, desconfiado): É mesmo?
Levir: Ou se quiser: lavando e varrendo. Ou então, se vossa majestade insiste: estou lavando e varrendo...
Lê: Aí, você me deixa tonto, Levir.
Levir (fingindo): Eu majestade?
Lê (mudando de assunto): Ah! Se eu pudesse cuidar desse palácio.
Levir: Eu cuido!
Lê: Você é um relaxado!
Levir (espanto fingido): Eu majestade?
Lê: Faz três dias que procuro aquela caixa de bolo de chocolate e não encontro!
Levir: Mas bolo de chocolate é proibido!
Lê: E daí?
Levir: Há mais de cem anos que esta proibido!
Lê: Quem proibiu?
Levir: Vossa majestade...
Lê (conformado): Proibi, mas gosto. E se gosto, mando buscar noutro lugar, se mando buscar noutro lugar, quero comer, entendeu?
Levir: Sim, majestade.
Lê: Onde esta a caixa?
Levir: Vossa majestade comeu.
Lê: Tudo?!
Levir: Tudo! (A parte.) Por isso esta com essa bruta dor de barriga!
Lê: Procurei até de baixo da cama. Nada!
Levir: Não tem mais majestade: só mandando buscar.
Lê (desapontado): Só no mês que vem parte um avião para Chocolatolândia.
Levir: Já procurou no depósito?
Lê (geme esfregando a barriga): Ui, ui, ui! Só de pensar em chocolate me dói... Ai, ai! Eu morro!
Levir: Uma dorzinha não mata.
Lê: Queria ver se fosse na sua barriga.
Levir: Vou buscar um remedinho que passa.
Lê: Que “remedinho” é esse?
Levir: Chá de alecrim!
Lê: Bah! Isso é pra criança!
Levir: É lógico. Criança vive com dor de barriga. (A parte.) Principalmente criança gulosa!
Lê (mão na barriga): Me traga logo Levir. Eu não agüento mais!
Levir (calmo): Trago já. (Enquanto o rei geme num lado, Levir diz a parte.) Tudo cai nas minhas costas. É pra limpar: Levir! Pra cozinhar: Levir! Atender a porta: Levir! Fazer chazinho: Levir! Ir à feira: Levir! Ligar a televisão: Levir! Remendar as meias: Levir! Contar historinhas pra dormir: Levir! (Pausa.) Este palácio é muito grande para uma pessoa só cuidar. Tudo eu!
Lê (geme): Ai, ai...
Levir (saindo): É pra já majestade.
Lê: Ah... Ah... (Outro tom.) A cara desse criado me da dor... Ah, ah... Esta passando... (Aliviado, cara alegre): Esta passando...
Levir (volta, trazendo o chá numa bandeja): Prontinho majestade.
Lê: Obrigado Levir amigo... (Senta-se para tomar chá).
Levir (cerimonioso): Com a televisão ligada, vossa majestade se sentirá melhor.
Lê: É mesmo. (Interessado.) Liga, liga.
Levir: Esta na hora do telejornal.
Lê: Não tem desenhos?
Levir: Ainda é cedo. Desenho só bem mais tarde da noite.
Lê (decepcionado): Ah... (Interessado.) E filme de bandido?
Levir: Também só mais tarde.
Lê: Que televisão chata!
Levir (procurando acertar a imagem na tevê): O telejornal do canal Um-o primeiro, é bom... Traz novidades.
Lê: No meu reino nunca há novidades!
Levir: Vamos ver.
Lê (aborrecido): Meu reino é chato! Não acontece nada. Nunca vi lugar mais parado do que esse.
Levir (a parte): Parado porque não é ele que se vira! Eu é que me mato de tanto trabalhar! (Noutro tom.) Fica aí, belo e folgado, comendo tudo quanto é bolo de chocolate que aparece.
Lê (pedindo silêncio): Shhh! Vai começar.
Levir (contesta): Shhh... Você.
Lê: É assim que fala com seu soberano?!
Levir (desculpando-se): Perdão majestade...
Lê (ao aparecer a imagem): Aí esta. (A televisão se ilumina ao som do prefixo do telejornal. Aparece Raposo que, solenemente, começa a locução).
Raposo: Senhores telespectadores, boa-noite.
Lê (responde): Boa-noite.
Raposo: Mais uma vez em seu lar: O meu, o seu, o nosso telejornal Quaráquaquá!
Lê: Isso é jornal ou conversa de pato!
Levir (pede silêncio): Shhh...
Raposo: Temos, nesta noite, sensacional revelação a fazer. Mas antes, porém, a mensagem de nossos patrocinadores.
Lê (protesta): Da a noticia agora!
Raposo: Primeiro a mensagem majestade.
Lê: É perder tempo!
Levir: A televisão é assim.
Raposo: Depois da propaganda, darei a noticia.
Lê: Mas é boa mesmo?
Raposo: Pra lá de boa majestade.
Lê (conformado): Então eu espero! (Raposo coloca um cartaz à frente, com a figura do produto anunciado. Uma voz feminina faz a locução).
Voz: Você é jovem?
Lê (responde): Claro que sou!
Voz: Pra frente?
Lê (mostra a barriga estufada, concorda): Olhe só!
Voz: Ou você é ainda daquele tempo que os homens falavam e os animais não entendiam?
Lê: Que nada sou moderno.
Voz: Lembre-se que de agora os tempos são outros.
Levir (a parte.) A gente trabalha demais!
Voz: Hoje me dia, já os animais falam e os homens não se entendem.
Lê (impaciente): Anuncia logo!
Voz: Já vai majestade.
Lê: Fica aí com frescura!
Voz: Já que você é moderno, pra frente, então tome chá de alecrim!
Lê: Já estou tomando!
Voz: É bom pra você é bom pra mim!
Levir (a parte): Que coisa boba!
Voz (encerrando): Chá de alecrim é o fim!
Lê (zangado): Ainda vou fazer um decreto. Na televisão só desenhos animados.
Levir: Só desenho vai enjoar... Pode até dar dos de barriga.
Lê (geme, esfregando a barriga): Ai, ai! Não fale disso!
Raposo (retornando a aparecer): E agora, a grande novidade: Num furo de reportagem nosso enviado especial descobriu que neste reino, veja bem, neste reino, estão fazendo bolo de chocolate!
Lê (pula do trono, bravo): No meu reino?!
Levir: Não acredito!
Raposo (confirma): É a pura verdade.
Levir (para Raposo): O proibido, combatido, banido, o detestado bolo de chocolate esta sendo feito?
Raposo (confirma): Exatamente!
Levir (incrédulo): No nosso reino?
Raposo: Neste reino.
Lê (interessado): Por quem? Por quem?
Levir (a parte): Quem será esse danadinho?
Lê: Diga quem é essa pessoa?
Raposo: Dononça.
Levir e Lê: Dononça?
Raposo (concorda): Humhum.
Levir: Dononça da geringonça?
Raposo: Ela mesma!
Lê (para Levir): Não é geringonça é forno.
Raposo: É no forno que ela esta fazendo!
Levir: Na floresta?
Lê: Ela não sabe que é proibido?
Raposo: Sabe.
Levir: E faz? É proibido fazer bolo de chocolate!
Lê (enquanto isso geme, esfregando a barriga): Ai, ai, ui, ui! Não falem que dói mais!
Levir (para Raposo): Você pode provar?
Raposo: Eu vi!
Levir: Olhe que se for mentira... Sabe muito bem que eu também sou o delegado deste reino, hein!
Raposo: Não se esqueçam que eu sou o Rap, o Rap Oso. Farejo qualquer coisa e por isso sou famoso!
Lê: Como dói!
Raposo: Tome um gole de água majestade.
Lê: E vou ficar com barriga de água?
Levir: Tome chá de alecrim!
Raposo (enquanto Lê toma o chá servido por Levir): E após esta sensacional noticia, encerramos o meu, o seu, o nosso telejornal.
Lê (para Levir): Chame esse camarada aqui.
Levir: Pra que majestade?
Lê: Vai ter de contar tudo direitinho.
Levir (para a televisão): O seu repórter, o rei quer falar com você.
Raposo: Agora?
Levir (ordena): Venha já!
Raposo: Esta bem, eu vou.
Levir (para o rei): Ele já vem.
Raposo (entrando): Que quer de mim?
Lê: Conta aí, como é esse negócio de Dononça.
Raposo: Já contei.
Lê: Quero ouvir tim-tim por tim-tim.
Raposo: Eu estava passeando na floresta... (Vai demonstrando e se abaixando enquanto fala.): Assim, farejando, farejando... Nariz pra cá... Nariz pra lá... Quando, de repente: pumba!
Levir: Deu com o nariz no chão!
Raposo: Comecei a sentir um cheiro...
Lê: Ah! E cheirou?
Raposo: Cheirei... (Representando.) Fui cheirando: hum, hum! Fui cheirando: hum, hum... E de repente: pumba!
Levir: Agora deu com o nariz no chão!
Raposo: Vi a casa de Dononça. Fui chegando... Farejando... Farejando e chegando... Chegando e farejando...
Lê (interessado): E daí?
Raposo: Cada vez mais perto... De repente: pumba!
Levir: Desta vez! Deu com o nariz no chão.
Raposo (para desapontamento de Levir): Vi o forno de Dononça.
Lê: E daí?
Raposo: Meu nariz começou a funcionar. Tic, tac, tic, tac, tic, tac.
Levir: É nariz ou relógio?
Raposo (continuando): Ia de um lado para o outro. Hum, hum...
Lê: Sentia cheiro de que?
Raposo: De bolo.
Lê: Que bolo?
Raposo: De chocolate!
Lê (exclama): Ah!
Raposo: Chocolate gostoso; e cheiro vinha do forno de Dononça.
Levir e Lê (ao mesmo tempo): Dononça! Quem diria!
Levir: Justo Dononça da geringonça!
Lê: Aquilo é forno.
Levir (corrige-se): Dononça do forno!
Raposo: Meu nariz não se engana. Fareja e pumba!
Levir: Nariz no chão!
Raposo (desaponta mais uma vez Levir.) Vi com meus próprios olhos. Era bolo de chocolate que estava assando. O bolo proibido.
Lê: Dononça vai ter de explicar direitinho essa historia de fazer bolo proibido. Se não... Era uma vez uma onça!
Raposo: Isso mesmo majestade, castigo nela!
Lê (para Levir): Secretario, telefone para Dononça. Quero vê-la imediatamente!
Levir (dirige-se ao telefone, disca, aguarda, e fala): Alô? Dononça? Aqui é secretario social de sua majestade, o rei Lê. (Pausa.) Como que rei!? Rei deste reino! (Pausa.) Como que reino!? A senhora vive no mundo da lua? (Pausa.) Olhe, preste atenção, eu sou o secretario do rei. (Pausa.) O rei Lê. (Pausa.) Entendeu? Bem... A senhora precisa vir urgentemente até aqui. (Pausa.) Aqui, é o palácio. Sim tem que ser agora. (Insiste.) Já! (Pausa, ouvindo para o rei.) Diz que esta ocupada.
Lê: Mas eu sou o rei! Eu mando!
Levir (no telefone): Ele é o rei. (Ouve, depois para Lê.) Diz que não tem condução.
Lê: Que tome um táxi.
Levir: Pode tomar um táxi que rei paga.
Lê (protesta): Eu não pago nada; quem paga é você.
Levir: Tudo comigo! (Ao telefone.) Mas vem logo. (Desliga.) Ela disse que num piscar de olhos estará aqui.
Lê: Se não for num piscar de olhos de bicho preguiça!
Raposo (dissimulador): Bem... Já que não precisam mais do meu nariz farejador... Acho que vou indo...
Lê: Não quer ficar?
Raposo (desculpa-se): Tenho muito que fazer.
Levir (oferece): Tome um chazinho.
Raposo (com urgência): Prefiro morrer a tomar essa água choca!
Lê: Se não quer ficar...
Raposo: Preciso ir, sabem como é a vida de repórter. A gente tem farejar aqui, farejar ali... De repente: pumba!
Levir (insiste): Nariz no chão!
Raposo: Acha-se uma boa noticia.
Levir (sem se conter): Não acerto uma!
Lê: Apareça de vez em quando, Raposo.
Raposo: Quando puder eu volto. (Sai, mas quando Dononça chaga volta às escondidas e fica ouvindo a conversa).
Lê: E Dononça que não chega.
Levir: Ela disse num piscar de olhos!
Lê: Já estou cansado de piscar e ela não vem!
Dononça (vem de chale na cabeça, avental e cesta no braço, cantarolando): Larilari larilará... (Da umas voltas em cena; depois se dirige aos outros.) Olá, cheguei! (Outro tom.) Que querem de mim?
Lê: É verdade que você esta fazendo bolo?
Dononça (fingindo): Eu?!
Levir (zomba): Não, eu.
Dononça: Fazer bolo é crime?
Lê: Bolo de chocolate é.
Dononça: De cho-co-la-te?
Lê: É.
Dononça: Eu não faço...
Lê (interrompendo): Faz sim!
Dononça: Eu?!
Lê: Não adianta fingir que eu sei de tudo!
Dononça: Se sabe por que pergunta?
Levir: Soubemos pela televisão.
Dononça: Ah! (Espirra.) Aaaaaaatchim!
Lê: Saúde!
Dononça (olhando desconfiada para os lados, enquanto Raposo se esconde): Sinto pêlo outra vez no meu nariz e não sei por que... Então foi o Raposo que contou.
Levir: Não sabe que é proibido fazer bolo de chocolate?
Lê: Que eu sou doido por chocolate?
Dononça: Todo mundo sabe!
Lê: Que quando vejo bolo de chocolate, eu quero comer?
Dononça: Todo mundo sabe!
Lê: Que nem posso sentir o cheiro?
Dononça: Todo mundo sabe!
Lê: Todo mundo. A senhora não!
Dononça: Não é o caso de derrubar o mundo. Eu fiz um bolinho “assim”.
Levir: Sabe que se o rei comer, fica com dor de barriga? Não pensa na barriga real? Por que meu bolo não faz mal.
Lê: Não existe bolo que não me faça mal. Vivo com dor de barriga.
Dononça: Meu bolo não faz mal.
Levir: Esta é contando vantagem.
Dononça: Moço, mais respeito comigo, ouviu? Nunca dei essas confianças pra me falar assim.
Levir: Sou secretario do rei.
Dononça: Secretario ou não, mais respeito.
Lê: Esse bolo é bom mesmo?
Dononça: É muito bom.
Lê: Tem mesmo chocolate?
Dononça: Muito chocolate.
Lê: Não faz mal? Não dói a barriga?
Dononça: Nem um pouco.
Lê: Não acredito!
Dononça: Não quer acreditar, não acredite. Mas palavras de boleira. Meu bolo de chocolate não da dor de barriga de jeito nenhum! Nem que coma uma tonelada!
Lê: De verdade?
Dononça: Palavra de Dononça.
Lê: Será que ela esta falando a verdade, ou é mentira?
Levir: É preciso ter certeza majestade.
Lê: Tenho uma bruta vontade de provar o bolo dela.
Levir: Se fizer mal? Pode dar uma bela dor de barriga!
Lê (concorda): É pode... (Outro tom.) Uma dor a mais, uma dor a menos... Vou me arriscar. A senhora pode provar o que diz que o bolo não faz mal?
Dononça: Posso provar!
Levir: Como podemos saber se o seu fabuloso bolo não faz mal?
Dononça: Fazendo um bolo para o rei!
Lê (interessado): Não demora?
Dononça: É rápido majestade; faço e mando entregar.
Lê: Não, a senhora mesma vai trazer.
Dononça: Tenho que trazer?
Lê: Se me der dor de barriga... (Faz um gesto como a indicar pescoço cortado).
Dononça: Pode confiar.
Levir: Ele confia a barriga não.
Lê (despedindo Dononça): Pode ir e traga o bolo.
Dononça: Quem paga a despesa?
Lê (para Levir): Tesoureiro pague a cidadã.
Levir (a parte): O pior é que é do meu bolso. (Para Dononça.) Vinte moedas dão?
Dononça: Vinte moedas eu gastei de táxi até aqui.
Levir: Por que não veio de ônibus?
Dononça: mandaram vir de táxi.
Levir (pagando): Mais cinqüenta para o bolo.
Dononça (protesta): Não, não... Para o bolo mais mil.
Levir: Mil?!
Dononça (para Lê): Então não faço bolo!
Lê (para Levir): Não seja pão duro! Pague logo mil moedas!
Levir (cede): Esta bem... Mil.
Dononça (guardando as moedas e saindo): Trago o bolo amanhã, sem falta. (Espirra.) Aaaaatchim!! Puxa vida, não é que estou espirrando outra vez?!
Lê (assim que Dononça saí): Ai, ai, ai... Eu, ui... Acho que tenho que ir lá dentro...
Levir: Não quer mais chá?
Lê (saindo em seguida a Lê, levando a bandeja): Será que o Raposo nunca da com o nariz no chão?!
Raposo (após a saída de todos, deixando o esconderijo): Ahah! Dononça pensa que vai fazer o bolo para o rei, mas esta muito enganada... (Retira-se rindo.) Ahahaha... Ahahahah!




CENA III


Diante da mesa cheia de sacos e latas, formas etc. Dononça abre uma livro à cata da receita e prepara o bolo; vez em quando da uma espiada no forno. Raposo, sem se deixar ver, ora mexe aqui, ora mexe ali, procurando atrapalhar.
Dononça (cantarolando): Larilará... Larilará... Hum... Vejamos: primeiro a página do livro... (Folheia.) Página vinte e sete... Ah! Aqui esta: bolo, bolo de chocolate. (Deixa o livro aberto e vai fechar o forno. Raposo vira a página do livro; Dononça, lendo.) Primeiro escolha uma dúzia de morangos bem maduros... Morangos?! O bolo é de chocolate! (Começa a procurar no livro.) Ah! Esse vento vai virando a página...
Raposo (vai até o forno e o deixa aberto).
Dononça (continuando): Página vinte e sete... Bolo... (Olha o forno.) Puxa vida! Eu tinha fechado o forno! (Lendo.) Primeiro um quilo e meio de manteiga... (Abre um pote e põe o ingrediente na vasilha maior, de preferência uma grande tigela): Vamos pondo aos pouquinhos... (Espirra.) Aaaatchim! (Olha desconfiada para os lados, enquanto Raposo se esconde.) É melhor fechar o forno.
Raposo (enquanto Dononça se afasta, saí do esconderijo e toma o leite que esta na mesa).
Dononça (volta cantarolando): Larilará... Larilará... (Limpando as mãos no avental.) Bem... Agora vem... (Olhando a garrafa de leite vazia.) Ué! (Verifica se ela não esta furada.) Onde foi parar o leite?
Raposo (escondido): Hi, hi, hi!
Dononça (ouvindo à escuta; depois sem desconfiar): Os passarinhos hoje estão alegres!
Raposo (continua rindo): Hi, hi, hi!
Dononça (continuando): Em segundo lugar o açúcar! (Abre várias latas à procura do que precisa, prova o conteúdo de uma delas, faz careta, cuspindo forte.) Ahah! É bicabornato puro “seu”!
Raposo (ainda ri): Hi, hi, hi!
Dononça (coça a cabeça, intrigada): Onde estará o açúcar? (Prova de outra lata.) Ah, aqui! Vamos por o quanto basta.
Raposo (enquanto isso vai por baixo da mesa e fura o saquinho de farinha, depois fica ali escondido).
Dononça (espirra): Aaaaatchim! Aaaatchim! (Exclama.) Minha nossa senhora! Meu nariz cheio de pêlos! (Olha desconfiada para os lados.) Aquele Raposo larga pêlos em todo lugar! Aaaaaaaatchim!
Raposo (ri): Hi, hi, hi!
Dononça (mão ao ouvido à escuta): Hum... A passarada hoje não pára...
Raposo (continua): Hi, hi, hi!
Dononça (continuando): Agora a farinha de trigo. (Apanha o saquinho.) Onde foi mesmo que coloquei a balança? (Procura de um lado para o outro, andando com o saquinho furado, derramando tudo.) Coloquei essa balança... Onde mesmo? (Cantarolando enquanto procura, derramando farinha pelo caminho.) Larilarálarilará... (Procura dentro do forno.) Larilarálarila... (Vai à direção da mesa, olha por baixo justo a tempo de o Raposo escapar sem ser visto.) Não esta aqui! Lariralá... (Lembrando-se.) Ah! (Vai apanhar a balança na cesta; volta para a mesa).
Raposo (rindo, vai abrir o forno outra vez): Hi, hi, hi!
Dononça (quando vai pesar, vê que o saquinho esta vazio): Ué! Quede a farinha?! (Olha à volta e para o chão.) Meu Deus! A farinha do rei toda espalhada! (Pausa.) Bom agora tenho que usar a minha farinha! (Vai até a cesta, de passagem nota o forno novamente aberto.) Onde será que estou com a cabeça? Desse jeito esfria! (Torna a fechá-lo).
Raposo (Enquanto isso, junto à mesa, enche os bolsos de ovos).
Dononça (volta com a farinha e pesa): Larilará... Lari... Lara... Dois quilos de farinha... Mas vamos devagar!
Raposo (ri): Hi, hi, hi!
Dononça (ouvidos à escuta): Não esta me parecendo passarinho!
Raposo (corta o riso, à espreita, assustado): Hum!
Dononça (voltando ao trabalho): Acho que são os ratinhos que saíram para tomar sol.
Raposo (aliviado continua rindo): Hi, hi, hi!
Dononça (espirra): Aaaaaatchim!
Raposo (deixa escapar): Deus te crie!
Dononça (desconfiada): Ué!
Raposo (Esconde-se, calado, encolhido).
Dononça (finge espirrar): Aaaaaathcim! (Não obtém resposta.) Acho que ando tonta; esse negócio de fazer bolo de fazer bolo mandado deixa a gente nervosa. (Outro tom, lendo.) Vinte e cinco ovos... Onde estão os ovos?!
Raposo (ri): Hi, hi, hi!
Dononça (depois de olhar na cesta): Aqui não estão! (Vão olhar dentro do forno.) Hum, aqui também não. (Deixa o forno fechado).
Raposo (Sem ser visto por Dononça, abre o forno e vai se esconder debaixo da mesa).
Dononça: Será que dona galinha veio buscar os ovos de volta? Não podia, ela sabe que é para o rei Lê! (Pausa.) Será que deixei debaixo da mesa?
Raposo (Assustado, faz o sinal da cruz e fica de mãos postas rezando).
Dononça (mudando de idéia): Não, não, não... Não estão debaixo da mesa – eu já olhei não tinha nada!
Raposo (Tira um lenço do bolso e enxuga o suor).
Dononça: Palavra que se não achar os ovos eu telefono para a policia e faço virar a floresta de cabeça pra baixo! Viro tudo pelo avesso. (Ameaça.) Quem pegou os ovos vai acabar frito! Frito sem gordura ainda por cima! (Indo até o forno.) Raio de forno que não fica fechado! Ta sempre de boca aberta, feito bobo!
Raposo (Aproveita para por os ovos no lugar, enquanto Dononça atende ao telefone).
Dononça: Alô? (Pausa.) Sim, é ela mesma. (Pausa.) Como vai senhor secretário social... (Outro tom.) Não é? Mas eu conheço sua voz senhor Levir! (Pausa.) Ah! Agora você esta como relações públicas... (Outro tom.) Muito bem... E sua majestade, como vai? (Pausa, ouvindo.) Ah coitadinho... Não sai do troninho?! (Outro tom.) Não tem tomado chazinho? Tem? Mas isso é bom. (Pausa.) Vai indo... Estou preparando... Demora porque tenho andado um pouco distraída. Como? Acho que é por causa da idade.
Raposo (aproveita para sair de baixo da mesa e, de passagem torna a abrir o forno).
Dononça: Fica pronto amanhã. Pode esperar, sem falta. (Pausa.) Esta bem; obrigada, muito obrigada... Tchau! (Desliga, sai cantarolando.) Larilará... (Olha o forno, desanimada, mão na cintura.) Puxa, forno, como você cansa a gente! (Deixa o forno fechado e volta para a mesa.) Ah! Os ovos. Bem no meu nariz! Desse jeito vou ter de trocar de óculos! (Vai quebrando os ovos e colocando na tigela.) Larilará... Larilará.
Raposo (Vai abrir o forno, quando Dononça se volta).
Dononça: Onde deixei acolher de pau?
Raposo (Rápido se esconde debaixo do forno).
Dononça (acha a colher): Aqui esta. (Senta-se na cadeira de balanço, defronte ao forno e começa a bater o bolo na tigela.) Agora quero ver “seu” forno, se o senhor é capaz de abrir a boca de novo! Não vou tirar os olhos daí... Nem uma vez. Nem que você se arrebente de esquentar. (Espirra.) Aaaaaatchim!




CENA IV


Sala do trono, deserta. Raposo entra arrebentado, vem cantando desafinado e se arrastando.
Raposo: Eu sou Rap Rap, o Rap Raposo... Farejo qualquer... Qua- qua- qualquer coisa... E por is- is- por isso... por isso sou fa- fa- famoso! (Deixa-se cair no trono.) Aí, meu Deus! Pareço um pato assado! Como me queimei debaixo daquele forno! (Outro tom.) A danada da Dononça ficou dez horas ali, mexendo o bolo, derretendo o chocolate... Nada de sair, eu me queimando... Ai!
Levir (entra como faxineiro, espanando a poeira, canta): É pó pra cima, é pó pra baixo, é pó pra todo lado! Se eu não fosse tão bobo, não estaria como criado!
Raposo (esconde-se): Se ele me encontrar, estou frito! (Corrige-se.) Aí, frito eu já estou!
Levir (limpando o trono): Preciso ter tudo em ordem. Dononça já esta a caminho, trazendo o bolo de chocolate. Se não der dor de barriga, o rei Lê ficará muito feliz! (Outro tom.) Sempre cai tudo nas minhas costas. (Canta.) É pó pra cima! É pó pra baixo! É pó pra todo lado! E se não fosse tão bobo! Não estaria como criado!
Raposo (depois que Levir sai): Mas o bolo ainda não foi entregue. (Astuto.) Até lá muita água vai correr... (Outro tom.) Duvido que o bolo não dê dor de barriga. O rei Lê é um barriga mole! (Nesse instante uma campainha din-don anuncia alguém à porta. Raposo se esconde depressa).
Levir (passa para atender, vestido de mordomo): Ai, ai! É um corre-corre nesta casa.
Lê (fora de cena): Vê quem é!
Levir: Já estou indo.
Lê: Se for Dononça, manda entrar que eu já vou.
Levir (resmungando): Vê quem é! Manda entrar! (Outro tom.) Gosta de mandar! Eu sei das minhas obrigações. (Ouvindo novamente a campainha.) Já vou, já vou!
Raposo (rindo, astuciosamente, esfrega as mãos satisfeito): Ah, ah, ah, ah! Ah, ah, ah, ah!
Levir (volta acompanhado de Dononça): Pode esperar que o rei já vem.
Dononça: Não demora?
Levir: Vem já, esta saindo do banho.
Dononça (com a cesta na mão): Onde deixo o bolo de chocolate?
Levir: Aí mesmo no trono.
Dononça (coloca a cesta no trono; não percebe Raposo que esta ali escondido.) Aaaaaaatchim! Aaaaaatchim!
Levir (a cada espirro): Saúde!
Dononça: Nossa! Se não estivesse no palácio ia dizer que Raposo anda por perto.
Levir: Ele não aprece aqui desde aquele dia.
Dononça: É bom mesmo. Vive metendo o nariz onde não é chamado.
Levir: Mas nunca enfia o nariz no chão.
Dononça: Seria bem feito.
Raposo (Enquanto eles conversam vai comendo o bolo às escondidas, gulosamente).
Levir (imita Raposo no modo de farejar): A senhora vê, ele vai farejando, farejando, farejando e pumba!
Dononça: Bate com o nariz no chão!
Levir (contesta): Até agora não bateu.
Dononça: Além de nariz grande, acho que ele tem boca muito grande também.
Levir: A boca?!
Raposo (Suspende a comilança; à espreita).
Dononça: E linguarudo...
Levir (concorda): Tem razão.
Dononça (outro tom): Como é o rei vem ou não vem?
Levir: Tem que vir. (Grita para dentro.) Ô rei! Vem ou não vem?
Lê (responde): Já vou!
Levir (para Dononça): Já vem.
Dononça: Espero que não demore toda vida.
Levir: Pode esperar, o rei vem logo. (Saindo.) Com sua licença... Tenho muitas coisas para arrumar...
Dononça (ficando a sós, começa a passear pela sala, cantarolando): Larilará... Lari-lará... (Curiosa vai olhando, ora aqui, ora ali, enquanto isso Raposo, comendo o bolo, vai trocando de lugar para não ser encontrado.) Larilará, larilará... Larilará, larilará.
Lê (entrando, bem arrumado, seguido por Levir em roupa bem elegante): Ora, ora... Que surpresa Dononça! A que devo a honra da visita?
Dononça: Vim trazer o bolo.
Lê (fingindo surpresa): Oh, o bolo... (Para Levir.) Ouviu caro ministro, a cidadã veio trazer um bolo para seu rei! (Para Dononça.) E que bolo?
Dononça: De chocolate!
Lê (leva a mão à barriga): Ai!
Dononça: Não foi o que combinamos? Eu faria um bolo de chocolate que não desse dor de barriga.
Lê (geme, esfregando a barriga): Ai, ai, ai, ai! Não fale que dói!
Levir (balançando a cabeça): Hoje ele esta pior...
Dononça: Mas foi ele que mandou fazer o bolo!
Lê (amuado): Puxa vida, a senhora não sabe nem brincar...
Dononça: Que brincadeira?
Lê: De rei e sua cidadã!
Levir: Como fazem os homens: o rei é tratado com respeito e os cidadãos trazem presentes.
Dononça: Ah! E rei gosta de brincar?
Lê: Quem é que não gosta?
Dononça: Então desculpe, eu não sabia!
Levir: Trouxe o bolo?
Dononça (tirando o cesto para o rei sentar): Esta aqui.
Lê (alegre, gulosamente): Ah!
Levir: É de chocolate?
Dononça (confirma): Cho-co-la-te!
Lê: Só de ouvir falar...
Levir: Da água na boca!
Lê: Da dor de barriga!
Dononça: Esse não da. É uma receita minha...
Tira o pano enfeitado e mostra a cesta ao rei.
Lê (olhando a cesta, admirado): Ah!
Dononça: Uma beleza, não?
Levir (olhando): Aqui não tem nada!
Dononça (virando o cesto): Ora essa! O bolo estava bem aqui em cima.
Lê: Tem certeza?
Dononça: Tenho sim!
Lê (desapontado): Fiquei sem meu bolo.
Raposo (escondido ri): Hi, hi, hi, hi, hi!
Dononça (ouvido à escuta): Ué... Será que os ratinhos vieram para cá?
Lê: Que fizeram com meu bolo? O bolo que eu paguei!
Levir (à parte): Quem pagou fui eu!
Dononça (removendo um segundo pano também enfeitado de dentro do cesto): Aqui esta.
Lê (exclama): Ah!
Dononça: O que estava em cima era um bolo comum.
Lê: Não era de chocolate?
Dononça: Era de chocolate, mas não era minha receita. Era um bolo que da dor de barriga. Meu bolo é este aqui (mostra) feito com minha receita.
Raposo (Começa a esfregar a barriga, aflito).
Levir (consultando Dononça): Não dói a barriga?
Dononça: Não.
Lê: Por que não?
Dononça: Chá de alecrim não é bom pra dor de barriga?
Levir e Lê (ao mesmo tempo): Claro que é!
Dononça: Então, eu misturei chá de alecrim no chocolate e fiz um bolo com chá de alecrim.
Lê: Que inteligência! (Para Levir.) Por que você nunca pensou nisso?
Levir: Eu é que tinha que pensar?
Lê: Você não é cientista real?
Levir: Já nem sei mais o que sou!
Dononça: Quem quiser, pode comer bolo que não fica com dor de barriga.
Lê (ansioso): Me da logo um pedaço.
Dononça (servindo): Coma devagar.
Lê: Não vai doer nada, não é?
Dononça: Doer não dói, mas engolir depressa faz mal.
Levir: Engasgar é pior que dor de barriga.
Lê (já com a boca cheia): Hum... É gostoso.
Dononça: Esta bom?
Lê (de boca cheia): Hum, hum.
Levir: Mastiga direito rei!
Lê: Vê se come um pedaço e não me amole.
Levir: Sou mestre de etiqueta real, exijo que me respeitem.
Lê: Exijo que comas o bolo!
Levir: Esta bem, esta bem...
Dononça: Não é uma delícia?
Lê (contente): Muito bom muito bom! (Enquanto isso Raposo continua aflito a esfregar a barriga; faz caretas de dor).
Dononça: A minha receita é boa mesmo.
Lê: A senhora até merece uma medalha. Quer saber mais? A senhora, Dononça, fica nomeada a boleira oficial do reino.
Dononça: Obrigada.
Levir (para Dononça que ia saindo): Espere!
Dononça: Que é?
Levir: Diga-me uma coisa: que vai acontecer com quem comeu o primeiro bolo? Aquele que estava aí no cesto?
Dononça: Quem comeu aquele bolo vai ficar com uma bruta baita dor de barriga!
Raposo (Nesta altura esta dando pulinhos de dor).
Lê: Bem feito!
Levir: Uma dor de barriga de arrebentar!
Raposo (não agüentando mais, geme): Ai, ai... Ui, ui!
Lê: Estão ouvindo?
Dononça: Parece uma porta enguiçada.
Lê: É gemido.
Raposo (torna a gemer): Ai, ai...
Levir: É gemido mesmo!
Dononça (espirra): Aaaaaaatchim!
Levir: Deus te salve!
Dononça: Aaaaaaatchim! Não tenho dúvidas, Raposo deve andar por aqui.
Levir: O Raposo?
Raposo (não agüentando a dor, saí do esconderijo, esfregando a barriga): Ai, ai, ui, ui... Me ajudem! Como dói! Como dói! Como dói! Ui, ui, ai, ai!
Lê: Você comeu o bolo?
Raposo: Comi, comi... (Geme.) Ai... Comi, comi...
Lê: Bem feito!
Raposo: Eu vinha farejando... Sabe majestade... Farejando e de repente: pumba!
Levir: Bateu com o nariz no chão!
Raposo (desapontando Levir): Vi o bolo. Tão bonito, tão cheiroso, tão fofinho... Não agüentei! Me deu uma baita vontade de comer... Eu comi!
Dononça: Agora agüenta guloso.
Raposo: Eu quero sarar...
Levir: Quem mandou comer o bolo que não é seu!
Raposo: Eu queria ver Dononça castigada.
Dononça (entendendo): Ah... Bem que eu ficava espirrando e não achava nada em casa!
Raposo: A, ai, ai, ai, ai... Me curem que eu não faço mais...
Lê: Promete?
Raposo: Prometo palavra.
Levir: É preciso tomar chá.
Raposo (protesta com repugnância): Não vou tomar essa água choca.
Levir: Ou toma ou fica com dor de barriga. Escolha.
Raposo (geme): Ai, ai, ai...
Levir: Como é, quer chá ou não?
Raposo (após indecisão, não contendo a dor): Ai, ai... Tomo o chá!
Levir (grita para fora): Chá para todos na sala real! (Sai correndo).
Lê (comendo o bolo, oferece): Comam... Esta uma delícia.
Dononça (comendo): E não dói a barriga.
Raposo (mão na cabeça e na barriga): Ai, não fale em barriga... (Geme.) Ai, ai, ui, ui...
Dononça (espirra): Aaaaatchim!
Lê: Saúde!
Levir (entra vestido como criado, empurrando um carrinho de chá): Chá para todos na sala real!
Lê (exclama): Levir!
Levir: Que é majestade?
Lê: Um pouco de música.
Levir (em voz alta): Maestro musica para todos! (Enquanto se servem do chá, Levir corre para o trono, apanha um microfone e um violão e se põe a tocar, todos cantam).
Coro: Viva o bolo
Viva o bolo,
Chocolate e alecrim!
Viva o bolo,
Viva o bolo,
Cantemos sempre assim.
Viva o bolo
Viva o bolo,
Chocolate e alecrim
Viva o bolo,
Cantemos sempre assim!


(O pano fecha lentamente, enquanto Dononça convida: “Venham comer... Comam bolo de chocolate!!)”




-E então? – Perguntou Karina sorrindo.
-Gostei, gostei muito – respondi também sorrindo.
-Diga uma nota de zero a dez.
-Bem – disse eu fazendo uma cara de displicência – considerando que foi você que escreveu e, por ser a primeira peça, dou nota dez!
-Credo Jéferson você falou de um jeito!
-Você sabe que é brincadeira. A peça esta ótima, agora me responde uma coisa: como é que você conseguiu escrever sem me contar nada?
-Eu queria fazer uma surpresa, de modo que pedi sigilo absoluto ao Aloísio, ele era o único que sabia.
-Ah, ta.
Fiquei em silêncio. Então o Aloísio estava por dentro do assunto, não é? Pensei. O relógio na parede marcava 16h00minh e 36 minutos. Foi o momento que a campainha tocou...
Levantei para atender ao pedido de Karina. Abri a porta e reconheci na hora que era o Aloísio. Destranquei o portão em silêncio e ele se virando falou:
-Karina?
-Olá Aloísio – falei.
-Jéferson?
-Eu mesmo.
Aloísio ficou parado. Karina surgiu na porta.
-Quem é Jéferson? – Perguntou. Antes que eu respondesse, Aloísio falou:
-Sou eu Karina.
-Aloísio! Que surpresa! Você não falou que vinha em casa hoje!
Karina se aproximou do portão lentamente. Aloísio entrou, eu fechei o portão com uma sensação estranha por dentro.
-Eu queria te fazer uma surpresa – disse Aloísio estendendo o braço para cumprimentar Karina. – No entanto, acho que cheguei em uma hora imprópria. – Aloísio beijou a bochecha de Karina e depois disparou: - O que você estava fazendo Jéferson? No caminho, eu encontrei dona Matilde, ela me disse que você estava aqui; o que exatamente você estava fazendo?

 

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