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CASTELINHO

 

Data: 08/11/2009
Hora: 19:41:42
Publicado por: vander.christian
Publicado na página: biblioteca_ler

 




Se Karina me daria um beijo eu não sei. Na verdade, a resposta para essa pergunta (sei que os leitores vão perguntarem: “Karina iria te beijar ou não”?) eu só fui conseguir muitos anos depois. Eu estaria sendo leviano se não dissesse que estávamos no clima. Mas por ironia, um grupo de garotas passou em cima de uma caminhonete naquele exato momento jogando pedaços de papéis coloridos no ar e cantando:


HOJE A NOITE É BELA,
JUNTOS EU E ELA
VAMOS A CAPELA FELIZ A REZAR.
AO SOAR I SINO,
SINO PEQUENINO
VENHA O DEUS MENINONOS ABENÇOAR:
BATE O SINO, PEQUENINO, SINO DE BELÉM.
JÁ NASCEU DEUS MENINO PARA O NOSSO BEM
PAZ NA TERRA PEDE O SINO ALEGRE A CANTAR,
ABENÇOE DEUS MENINO ESSE NOSSO LAR!


-Nossa, o pessoal aqui adora cantar, não é? – Comentou Karina. Não sei se foi impressão minha, mas tinha um quê de desapontamento em sua voz.
-É parece que gostavam sim – disse pensativamente.




Depois disso, retornamos a casa de Rita. Conforme eu previra, a ceia de natal estava repleta de delicias caseiras. O melhor a se fazer era provar de tudo em pouco; nunca repetir as mesmas coisas, pois você corria o risco de não saborear nem metade das guloseimas. Parecia uma tradição do assentamento, cada família passava na casa de Rita para provar um pouco dos doces.
-O natal aqui é compartilhado com todo mundo – falou Davi comendo um espetinho de lingüiça. – Deveria em todo lugar! O povo tem que compartilhar o renascimento, o amor e paz!
A meia-noite o céu se iluminou com os fogos de artifícios. Ao longe um sino deu as suas badaladas. Abraçamos-nos desejando feliz natal e comendo panettone começamos a abrir os presentes.





No dia seguinte, eu e Karina tivemos o privilégio de levantar às dez da manhã. Isso porque só fomos deitar às quatro horas da madrugada. Rita estava na pia lavando uma enorme quantidade de louças sujas, enquanto Renata limpava o chão. Tomei uma xícara de café junto com Karina e saímos para o quintal. Davi já estava preparando a churrasqueira para assar mais carne.
-É uma pena que o revellion não seja como o natal – disse Davi depois de um breve comentário sobre a noite passada. Do dia vinte e oito em diante aqui vira um deserto. Todos vão para as cidades grandes, ver os fogos que demoram doze, quinze minutos de duração.
O fogo ficou bem aceso na churrasqueira. Estava pronto para receber os espetos.
-Davi, e o Castelinho? – Perguntou Karina bebendo refrigerante.
-O Castelinho esta bem, continua esbanjando saúde – completou Davi radiante.
Olhei de Karina para Davi sem entender nada.
-Onde ele esta? – Perguntou ainda Karina.
-Lá embaixo, perto do rio. Leva ela até lá, Jéferson.
-Até aonde?
-Aqui ó – explicou Davi indicando os pés de amora. – Você atravessa toda a lavoura de amora e segue o pasto até o rio, o Castelinho ta lá, pastando.
-Ah o Castelinho é um cavalo! – Conclui.
-Isso mesmo – confirmou Karina – vamos lá.
-Guiei Karina pelo caminho que Davi me mostrou. Chegamos perto de um rio estreito. E às margens do rio um cavalo marrom pastava tranquilamente. Karina se aproximou do animal e passou a mão de leve no tronco dizendo:
-Lembra de mim Castelinho? Sou eu a Karina, como você ta?
Eu também toquei de leve nos pelos do cavalo enquanto ouvia Karina dizer que montara no Castelinho da ultima vez que visitara a sua prima. Renata chegou minutos depois trazendo a cela do cavalo.
-Foi o pai que pediu pra eu trazer a cela – falou olhando pra mim – obviamente você vai montar né?
-Não – me apressei a dizer – eu não sei montar.
-Mas eu sei – disse Karina. – E já que a Renata trouxe a cela, nós dois vamos montar.
-Nós dois?! Olha Karina, eu não acho uma boa idéia!
-Não precisa ter medo Jéferson – declarou Renata.
Um pouco desconfiado, aceitei montar no Castelinho. Renata preparou as rédeas, posicionou a cela no lombo do animal e falou:
-Pronto, pode montar.
Meio sem jeito, montei no Castelinho. Renata me deu as rédeas e ajudou Karina a montar.
-Eu ainda acho que não é uma boa idéia – falei quando Karina passou os braços na minha cintura.
-Larga de ser medroso Jéferson – retrucou ela mandando o Castelinho ir.
-Até a volta! – Gritou Renata sorrindo.
Castelinho foi indo devagar pelo pasto.
-Deixa a rédea um pouco larga – pediu Karina. – Agora pode ficar tranqüilo que o Castelinho conhece tudo aqui.
-Eu não estou me sentindo bem guinado o Castelinho – confessei. - É a primeira vez que eu cavalgo!
-Sossega Jéferson. O Castelinho é um cavalo manso, até o Igor e a Renata montam nele.
Conforme os minutos foram passando eu comecei a me sentir mais confiante. Em um determinado momento, Castelinho parou e Karina disse para eu soltar mais a rédea e mandar ele ir.
-Vai, vai Castelinho, vai! – Ordenei. Castelinho recomeçou a andar.
Saímos então em uma estrada rodeada de eucaliptos. Mesmo aquela manhã o sol já estava forte, contudo as sombras dos eucaliptos não permitiam que o sol chegasse à estrada. Karina encostou o rosto nas minhas costas e ia dizendo que chegou a pensar que jamais andaria a cavalo novamente... Eu estava gostando daquele momento; quem nos visse juntos não era capaz de dizer que um dia Karina propôs que fossemos apenas colegas...
Estava bom demais pra ser verdade. Eu deveria ter imaginado...
Foi numa curva. Havia uma densa vegetação... Castelinho se assustou com uma caminhonete que vinha a toda arrancando poeira da estrada. E Castelinho imitou a caminhonete: disparou na corrida.

publicado por: cleudismar da silva

 

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