Página Artigos

O AMIGO DE KARINA

 

Data: 12/09/2009
Hora: 20:02:19
Publicado por: vander.christian
Publicado na página: biblioteca_ler

 



A conversa com a diretora não foi nada satisfatória. A diretora alegou que Karina não poderia matricular-se nas aulas da sala de recursos, porque ela já havia terminado os estudos, exatamente como o professor Rogério previra.
-Lamento, mas não podemos abrir exeçoes – finalizou a diretora.
-E agora? – perguntei preocupado ao telefone.
-Eu não sei – respondeu Karina – na verdade eu nem estou preocupada.
-Como não esta preocupada? O professor Rogério falou que você precisa aprender a escrever naquela rege te – falei com firmeza.
-Não é rege te Jéferson é reglete.
-Tudo bem, mas não é importante você aprender a usar essa reglete?
-É importante sim, mais olha, eu não quero falar disso agora, eu estou sozinha em casa, queria sair um pouco, dar umas voltas. Tem como você vir aqui?
-Tenho eu só preciso tomar um banho.
Ao chegar à casa de Karina, notei que dona Matilde havia deixado algumas frutas sobre a mesa para caso Karina quisesse pegar encontra-las com mais facilidade. E não foram só as frutas, dona Matilde deixara também as roupas que Karina iria vestir, fora do guarda-roupa. Fiquei sentado no sofá da sala enquanto Karina se arrumava.
-Preciso de sua ajuda aqui – disse ela ao chegar à sala. Vinha segurando a bengala. Vestia um vestido não muito curto vermelho e os cabelos estavam molhados. – Fecha pra mim, por favor – e virou- se de costas. Fechei o zíper... e também os olhos ao sentir o seu cheiro.
-Algum problema Jéferson?
Saí de trás dela completamente sem graça. Tinha certeza que se ela estivesse enxergando, teria olhado diretamente nos meus olhos.
Enquanto caminhávamos, senti que Karina não estava muito a vontade, motivo: a bengala. Tentei argumentar dizendo que a bengala era um objeto muito útil para um cego e que já estava na hora dela deixar de lado o que os outros falavam e pensavam. Mas não teve jeito, ao chegarmos perto da câmara municipal, Karina pediu para sentar.
-Conheci um grupo bem legal lá no instituto – disse ela cruzando as pernas.
-Um grupo legal? – perguntei.
-Isso, eles são todos os amigos – continuou ela. Dois deles mora aqui em Franco, o outro mora em Jundiaí e os outros dois em Francisco Morato.
-Nunca vi um cego em Franco.
-Eles estavam me contando, aqui em Franco tem mais ou menos quarenta e dois cegos e em Jundiaí mais quarenta e seis.
-Nossa que interessante!
-Tem mais uma coisa.
-O que é?
-Talvez eu vá ter aulas de Braille com um deles.
-E pode?
-Pode, o importante é eu aprender.
Fiquei muito contente com aquelas noticias. Karina estava começando a se entusiasmar com as descobertas; aquilo era um ótimo sinal.
De repente...
-Eu queria te pedir uma coisa Jéferson – falou ela escolhendo as palavras.
-Pedir o que? – perguntei com receio.
-Eu tenho que ir à minha casa em Perus.
Fiquei em silêncio e baixei os olhos. Não encontrei nada pra falar.
-Eu quero pegar a minha carteirinha primeiro – disse como se aquilo justificasse alguma coisa. Continuei em silêncio.
-Mais eu vou entender se você não quiser ir.
-Imagina, eu vou sim! – falei rapidamente.
-Que bom. É que depois do acidente eu não fui lá mais... Preciso ver umas coisas.
Novamente o silêncio.
-Obrigada Jéferson – declarou ele de cabeça baixa. – Você é um anjo.
-Não precisa agradecer – falei pegando em sua mão. Eu vou estar sempre do seu lado, porque eu te amo...
Falei sem pensar. Quando percebi já tinha falado. Karina puxou a sua mão da minha lentamente. Um clima constrangedor pairava no ar. Não tive nem coragem de dizer algo para amenizar aquele clima; desconfiei que não houvesse nada a dizer.
-Me leva pra casa Jéferson, por favor.
Não sei se foi impressão minha, mas no caminho de volta pra casa, Karina parecia tensa. Chegou até a parar para me dizer que eu estava guiando-a de maneira errada.
-Deixa que eu seguro no seu braço e quando for passar em um lugar estreito você vai à frente!
E eu obedeci.




Os quarenta dias que o médico me deu acabaram-se rapidamente. Foi com muita alegria que os meus amigos me receberam de volta no trabalho. De alguma forma, eu sabia, a vida estava tentando voltar ao ritimo de antes. Entretanto, eu havia me acostumado a ficar em casa. Não pude deixar de sentir alívio, quando a primeira semana de trabalho chegou ao fim.
E não foi só a minha vida que estava voltando ao normal. O meu cabelo já estava do tamanho que sempre gostei, cobrindo assim a cicatriz no topo da cabeça. Até a cicatriz do meu rosto já não era muito nítida quando a barba ficava um pouco grande.
Depois de sair da casa dos meus pais, naquele sábado, rumei para a casa de Karina. Ela havia conseguido, depois de quase dois meses, pegar a sua carterinha de identificação. Após a entrevista com o médico, passou-se quinze dias para ser entregue o laudo com o resultado da entrevista. Depois, Karina ligou para e EMTU e agendou a hora de mais uma entrevista. E seguiu-se o mesmo processo: diálogo com a assistente social, exame com o médico e – finalmente – a carterinha foi entregue. Para Karina conseguir a carterinha da Companhia de Trens Metropolitanos foi a mesma coisa.
Na noite anterior, Karina tinha me chamado para conhecer um dos seus amigos, o que estava ensinando-lhe a escrever na reglete.
-Como é mesmo o nome do seu professor? – perguntei a ela no ponto de ônibus.
-Leonardo, e ele não é o meu professor, ele é meu amigo e esta me ensinando a usar a reglete.
Leonardo morava no Jardim Bandeirante, bairro que ficava na divisa de Franco da Rocha com Francisco Morato. Descemos do ônibus e então eu avistei Leonardo no ponto. Era um rapaz alto e magro, um pouco branco e de olhos azuis. Dirigimos até ele discretamente.
-Leonardo? – chamou Karina.
-Oi, tudo bem com você? – falou ele sorrindo.
-Tudo. Esse é o Jéferson – acrescentou Karina. Leonardo me estendeu a mão e perguntou:
-Como você esta Jéferson?
-Bem e você?
-Tudo bem. Sabia que você é a segunda pessoa de quem mais a Karina fala?
-Sério? – falei sorrindo. – E quem é a primeira pessoa de quem ela mais fala?
-Dela mesma – disse Leonardo sorrindo.
Karina defendeu-se:
-Ah eu falo de mim um pouquinho só.
-Claro, só um pouco – emendou Leonardo com sarcasmo.
Gastamos quatro minutos do ponto de ônibus até a casa do Leonardo e durante o trajeto demos boas risadas, pois o novo amigo de Karina adorava brincar.
Leonardo morava em uma casa grande, mas de pouco quintal. Ele nos conduziu até a sala. Era um cômodo confortável e com muito espaço. Do lado direito havia dois sofás e uma mesinha ao centro com um troféu. Uma escada indicava que os demais cômodos ficavam no segundo andar e vários quadros com fotos da família na parede encerravam a decoração da sala. Depois de uma breve conversa, Leonardo nos convidou para visitar o escritório da casa, que segundo ele, era um “local mais reservado”. No caminho passamos pela cozinha. Era menor do que a sala, tanto em largura quanto em comprimento. O fogão ficava do lado da pia, no meio uma mesa com seis cadeiras e do lado oposto a geladeira e o armário. Para se chegar no “local mais reservado”, tinha que subir uma pequena escada, mas já do lado de fora da casa. O “local mais reservado” era um cômodo médio com uma estante cheia de livros e algumas caixas de papelão nas prateleiras. Uma parede dividia o cômodo em duas partes. Sentamos em uma mesa de a única janela existente ali.
-Muito bem Karina – disse Leonardo – então podemos começar?
-Podemos – respondeu Karina. Havia várias folhas de sulfite em cima da mesa e também a reglete junto com o punção.
Lentamente Karina introduziu a folha na reglete, pegou o punção e em seguida começou a escrever. Leonardo havia me explicado que Karina estava aprendendo a posição dos pontos e a sua maior dificuldade era lembrar essas posições, uma vez que ela estava acostumada a escrever na máquina. Leonardo disse ainda, que depois de aprender a posição dos pontos Karina iria treinar a alfabeto de A a letra J, sempre formando frase coma as letras utilizadas.




Nas outras vezes em que eu fui à casa de Leonardo aconteceu algo estranho. Estavam reunidos lá, em sua casa, os outros amigos que Karina tinha me lado. Um casal de namorados, Flavio e Michele, e Bruno o mais novo da turma. Incrível que cada um deles possuía qualidades especiais. O Flavio trabalhava em uma escola particular em Suzano, grande São Paulo. O Leonardo era professor de informática em Santana. Quanto ao Bruno e a Michele, ambos tinham uma voz maravilhosa.
-Nós temos uma banda – disse ela quando eu elogiei a sua voz.
-Uma banda?! – estranhei.
-Exatamente – confirmou Bruno. – Eu e a Michele nos vocais e o Flavio no baixo.
-E o Leonardo? – perguntei perplexo.
-Bem, ele cuida da sonoplastia – falou Flavio.
-E qual é o nome da banda?
-Ponto de Vista! – disseram todos em uníssono.
E todas aquelas pessoas não mostravam nenhum abatimento por serem cegas. Cada uma delas tinha um motivo para seguir em frente na vida. Para elas não importava o fato de não enxergarem, muito pelo contrario, era isso que fazia brotar aquela coragem de ver os sonhos se realizarem e a cada conquista significava uma porta que se abria em suas vidas. E isso foi muito importante para Karina. E eu comecei a me sentir estranho ali naquela sala, rodeado por cinco cegos. Eles pareciam que sabiam das coisas melhor do que eu. Mas não era. Eles só enxergavam as coisas de maneira diferente e muitas das vezes, eles é que tinham razão; aquela sensação estranha, aquele algo estranho que eu comecei a sentir significava o reconhecimento de que aqueles cegos eram fantásticos. De que aqueles cegos enxergavam o que eu e boa parte da sociedade não éramos capaz de enxergar.
Com efeito, eu aprendi muitas coisas. Um dos amigos de Karina, Leonardo, Flavio, Michele e Bruno era radialista em uma emissora de rádio AM em Jundiaí. Eu não sabia que o cantor Roberto Carlos tinha um filho cego (em 2005, o Brasil o conheceria melhor por sua participação na novela América). Não sabia também que a banda de reguee Tribo de Jah tinha cinco integrantes cegos. Cheguei à conclusão que eu não sabia nada e tinha muito a aprender.
Aprendi também que existem no mundo pessoas oportunistas que agem de má fé para obter algum lucro. Estávamos saindo da estação de trem e de repente um homem de terno e gravata com uma bíblia na mão e falou:
-Com licença, moça, você é cega?
Karina virou o rosto na minha direção e deu um longo suspiro. O moço, não obtendo resposta, falou:
-Você já pensou em procurar Deus?
-Eu tenho Deus no coração desde criança – disse Karina um pouco alto, algumas pessoas que passavam na rua viraram os rostos com uma expressão de curiosidade.
-Na sede da nossa igreja – argumentou o sujeito – acontece muitos milagres, tenho certeza de que se você, irmã, for lá, o milagre vai acontecer, e você vai voltar a enxergar porque nós da...
-Olha aqui, senhor – retrucou Karina novamente – eu estou cansada, quero chegar logo em casa...
-Moça é importante ouvir a palavra de Deus...
-Senhor, eu tenho minha religião e acredito muito nela, vamos Jéferson?
-Vamos – falei guiando- a. O moço ainda insistiu:
-Tenho o endereço aqui da nossa igreja, não quer levar para nos fazer uma eventual visita?
Karina parou e virando-se disparou:
-Não quer anotar o endereço da matriz Cristo Ressuscitado para uma eventual visita?
-Não entendi – respondeu o moço com cara de quem havia entendido muito bem o significado daquela frase.
-Cristo Ressuscitado é o nome da igreja que vou todos os domingos rezar, porque não vai lá no próximo fim de semana?
Diante destas palavras, o homem disse um até logo meio-sem graça e seguiu o seu caminho.
-Incrível como tem gente idiota não é? – disse Karina batendo a bengala na precária calçada da Rua Sete de Setembro. –Até parece que se eu fosse à igreja dele eu voltaria a enxergar. Será que ele estava pensando que estou cega porque não freqüento a igreja dele?
-Essas pessoas são assim mesmo Karina – falei astutamente. – O mundo esta cheio de falsos fiéis, cuidado – preveni – tem uma caçamba de lixo bem à frente – dizendo isso, eu puxei-a para o lado direito.





Entrementes, a rotina seguiu. Todas as quintas – feiras, Karina ia ao instituto. No momento que o mês de maio entrou, ela conseguiu avançar para a terceira série nas aulas de Braille. Estava também aprendendo a usar o sorobã, objeto utilizado para fazer contas no sorobã, mais para mim era muito complicado.
-Você não esta se esforçando o bastante Jéferson! – criticou ela quando Leonardo me deu a reglete e pediu que eu escrevesse meu nome.
-Cuidado como fala comigo – contestei sorrindo – até ontem você não sabia nem fazer a letra “A”.
-Só que tem uma coisa, o papai e mamãe já aprenderam você bem que podia seguir o exemplo deles.
-Quem sabe o sorobã? – ofereceu Leonardo.
-Não. Cada macaco no seu galho. Reglete e sorobã não são comigo – disse tentando me livrar.
-Ótimo Karina – emendou Leonardo. –Assim nós podemos escrever tudo que achamos e pensamos dele sem correr nenhum risco.
Finalmente Karina estava se divertindo. A chegada de novos amigos cegos em sua vida afastou de vez aquele jeito deprimente dela encarar as coisas. Quando saímos juntos, era como nos velhos tempos, nem parecia que ela não estava enxergando. Todas as vezes que eu descrevia algo de interessante, ou ajudava a desviar de algum obstáculo na rua, sentia uma enorme sensação de gratidão nascer dentro de mim; era um prazer de ajudá-la sempre que fosse possível.




Na medida em que o mês de maio foi chegando ao fim, recebi uma ligação do dono da empresa aérea dizendo que alguns pertences dos sobreviventes estavam à disposição na delegacia da cidade onde o avião caiu. E saiu também o resultado das investigações na caixa-preta da aeronave. Segundo os laudos, a turbulência não teria provocado a queda do avião, mas um dos motores falhou junto com a turbulência.




Eu, particularmente, não fazia a menor questão de sair de Jundiaí e viajar até a cidade onde o avião caiu para por as mãos nas poucas coisas que restauram.
-O mais importante eram os meus documentos – disse para o meu pai – seja lá o que eles tenham conseguido recuperar para mim não faz diferença alguma.
-Ainda acho que você deveria ver as suas coisas – teimou ele.
-Ah, eu não vou pedir licença do serviço para viajar daqui até aquele lugar só para reaver uma mala com alguns pertences que provavelmente vão estar todos destruídos.
-E se o Paulo for ao seu lugar?
-Bem se ele quiser ir... Sem problemas.
O Paulo foi. Karina viajou com a sua mãe, não fazendo questão de esconder a expectativa de recuperar os pertences do marido.




 

Notícias

 

Entre em contato

 

Comentários