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O ABRAÇO QUE NÃO VEIO

 

Data: 12/09/2009
Hora: 19:59:04
Publicado por: vander.christian
Publicado na página: biblioteca_ler

 

Estávamos em janeiro de 2003. O Brasil inteiro estava na maior expectativa com o novo presidente. Pelas ruas o comentário de alguns era: ”dessa vez o país sai da lama”, ou: ”o salário agora vai aumentar”. Outras pessoas porem, dizia que Luiz Inácio Lula da Silva iria ser pior que Fernando Henrique quando descobrisse o peso do poder. Havia pessoas que chegaram a dizer numa possível mudança de moeda.
Estava de férias na faculdade. Tinha finalmente dado um jeito na minha vida. Comprei uma casa melhor e quando tinha que viajar ia de avião. Sempre tive medo de altura, mas viajar de avião não era tão ruim assim como algumas pessoas diziam.
A minha vida estava ótima. Das poucas vezes em que ouvi falar de Karina, soube que ela estava morando em Perus. Fiquei satisfeito de ver que eu já não me incomodava com a lembrança de Karina estar casada.
Conheci outras garotas, fiz novas amizades. Estava me sentindo bem, e então... Karina entrou em minha vida. Para algumas pessoas foi o destino, mas para mim foi coisa de Deus.
Eu ia voltar estudar no dia 28 e ia retornar ao trabalho no dia 04. Resolvi visitar a cidade de Teresópolis no Rio de Janeiro. Passei a véspera da viagem na casa dos meus pais. No dia seguinte às 13 horas, lá estava eu no saguão de entrada do aeroporto.
Era a primeira vez que estaríamos visitando a cidade de Teresópolis e o combinado era que se gostássemos da cidade, nas próximas férias voltaríamos lá.
-Espero que não chova – comentou Sandra uma amiga minha.
O grupo era: eu e o Marcelo, Sandra e Tatiana.
-Acho que vai demorar pra chover no Rio – disse Tatiana – a tal frente fria que os meteorologistas anunciaram não é muito forte.
De fato, o tempo estava nublado e batia um vento moderado; estava melhor do que os dias anteriores – onde os termômetros marcaram 31graus.
As 14horas e trinta minutos o avião decolou, conforme previsto. Era um focker 100 de uma companhia nacional e famosa. Enquanto me acomodava se na confortável poltrona, eu avistei, a umas três fileiras a minha frente, aquele rapaz acompanhado por um rosto familiar. Por um momento, achei que estava enganado, mas então ela se virou de lado e tive certeza, era Karina.
Fiquei ligeiramente inquieto. De repente toda aquela sensação boa que eu sentia ao ver Karina despertou dentro de mim. “Não, eu não posso ir até ela”, disse para mim mesmo. “Deixa de bobagem”, disse uma voz dentro da minha cabeça, “você só vai dizer um oi pra ela”. Não fui, consegui me segurar. Nesse momento, Fabiano olhou em minha direção. Seu olhar se deteve por um momento em mim. Ele se virou para Karina... e tenho certeza que não conseguiu dizer a ela uma só palavra, pois uma voz feminina deixou – se ouvir naquele instante.
-Atenção senhores passageiros, apertem o cinto de segurança, vamos passar por uma grave turbulência!
E o pânico tomou conta. Era como se todos estivessem levando um choque. Não tardaram, algumas pessoas começaram a passar mal. Até eu fiquei enjoado.
-Ah, meu Deus, o que é isso?! – ouvi Tatiana gritar ao meu lado. E a tal turbulência não parou. Uma mulher que estava sentada a minha frente teve que se livrar do cinto para poder ajudar o senhor sentado ao lado. Eles não eram os únicos. Várias pessoas estavam passando mal. O curioso é que a comissária de bordo não disse mais nada. Não se via ninguém...
Os meus olhos cruzaram com os de Karina. Ela desviou o olhar, em seguida olhou de novo. Disse qualquer coisa para o Fabiano e veio pra minha direção. Destravei o cinto e fui ao seu encontro.
-O que esta fazendo Jéferson?! – falou Marcelo enquanto eu segurava firme no encosto da poltrona mais próxima de mim. Agora os pertences dos passageiros já estavam todos no chão.
-Jéferson! – exclamou Karina.
Do outro lado, Fabiano abriu a boca para dizer alguma coisa, mais novamente não conseguiu dizer nada. Eu cheguei a abrir os braços pra abraçar Karina...
Naquele momento, a minha cabeça encheu-se de pensamentos. Pensei em meus pais. É angustiante saber que vai morrer e não poder fazer nada. Saber que você vai deixar tantas coisas pra trás.
O abraço não veio.
O que veio foi um tremendo choque, seguido por uma enorme bola de fogo e milhares de estilhaços de vidro e metais... depois veio a escuridão.


Acordei doze horas depois no quarto de um hospital de uma cidade que eu nunca ouvira falar. Senti que a minha cabeça estava enfaixada assim como o meu tronco. Reparei que os meus braços estavam cheio de escoriações e arranhões; inclusive na altura do meu punho esquerdo, estava uma pequena faixa com uma gaze. O relógio que papai havia dado de presente desaparecera. Com a minha perna esquerda parecia estar tudo bem, diferente da direita, que eu não sentia. Tentei falar, mas a minha boca parecia ter sido anestesiada – então tentei-me mecher, não dava, o meu corpo estava todo dolorido.
-Filho, você acordou! – falou uma voz abafada. Mamãe surgiu no meu campo de visão. Ela estava junto de meu pai e de meu irmão.
-Como vocês chegaram aqui? – perguntei com a boca dura. Mamãe me abraçou emocionada.
-Você precisa descansar filho – disse papai se aproximando da cama.
Fechei os olhos e adormeci.
Acordei horas depois, raios de sol penetravam pelo quarto. Adormeci novamente, tive pesadelos. Acordei assustado. Levantei-me rapidamente e senti uma dor terrível nas costas, havia queimaduras na região da minha coluna.
-Karina, cadê você Karina?!
Tentei sair da cama, a agulha do soro que estava preso no meu braço soltou – se.
-O que você esta fazendo?
Com um grande esforço o meu irmão conseguiu impedir que eu me levantasse.
-A Karina, Paulo – continuei a falar me lembrando do pesadelo – ela... ela tava no avião, cadê ela?! – percebi que a minha boca estava aparentemente normal, sem aquela dormência. Mas ao gritar, senti o lado direito do rosto doer e repuxar.
-Você precisa se acalmar Jéferson – disse Paulo me cobrindo com o lençol.
-Mais e a Karina? – insisti.
-Cara, eu não sei dela. Olha só, é melhor você ficar aí. Você não ta bem. Amanhã quem sabe...
-Eu preciso saber como ela esta!
Levantei – me novamente, joguei o lençol de lado. Só então vi que estava sem roupa.
-Onde estão as minhas roupas?
-Que roupas Jéferson? – falou Paulo segurando no meu ombro. – Você se esqueceu; tiraram você do meio de um desastre. Acabou de dar na televisão, já encontraram cento e cinco mortos... Você teve sorte de estar vivo, ta cheio de gente na UTI, por isso é melhor você se deitar e descansar. A mãe ta comendo um lanche junto com o pai, daqui a pouco eles estarão aqui.
-A Karina não pode estar entre esses mortos – balbuciei.
E voltei a mergulhar na escuridão.


Não foi fácil para mim se acostumar com a nova rotina. Teria que ficar mais sete dias naquele hospital. Segundo os médicos, eu tinha um corte na cabeça e na face – o que explicava a dor que surgiu quando gritei com meu irmão. Na altura da coluna, havia queimaduras de primeiro grau e também no punho esquerdo. A minha perna direita permaneceria imobilizada por mais alguns dias.
-Retiramos um pedaço de metal da sua perna – disse o cirurgião calmamente. – Media uns quinze centímetros, mais ou menos.
No todo, eu estava bem. Só ficaria com algumas marcas daquele trágico acidente. Tive que raspar a cabeça para os médicos darem ponto no corte. Os sinais das queimaduras ficariam pra sempre no corpo. E todas as vezes que eu vestisse um short, deixaria a mostra aquela cicatriz em minha canela.
Algumas pessoas não tiveram a mesma sorte que eu. No terceiro dia que estava no hospital, papai me informou que ao todo morrera cento e quarenta pessoas.
-É o maior acidente aéreo do país – afirmou Paulo.
Mas havia algo mais importante pra mim. Na manhã seguinte, após tomar café, fiz a pergunta que não estava querendo calar a minha mãe.
-Mãe a Karina estava naquele avião. Diz-me que ela não esta entre os cento e quarenta mortos. E então?
A resposta não veio de imediato. O que me deixou ainda mais aflito.
-Filho a Karina esta bem – disse mamãe cautelosamente. Respirei aliviado ao ouvir aquelas palavras. – Acredito – continuou mamãe – que a Karina vai receber alta antes de você.
-Que bom – falei ansioso – por um momento eu achei que ela estaria morta.
-Mais ela ta com um problema.
-Como assim? Mãe você acabou de dizer que a Karina esta melhor do que eu!
Mamãe se aproximou da cama. Puxou uma cadeira e sentou – se. Desde o dia do acidente ela estava ali, do meu lado. Parecia bastante cansada, mas se recusava a me deixar sozinho. Grande figura a minha mãe.
-O Fabiano não teve a mesma sorte que a Karina filho – explicou ela. – O Fabiano esta morto e a Karina não sabe.
Eu não consegui acreditar: Karina amava o Fabiano e ele estava morto.
-Como ela não sabe?! – perguntei indignado.
-Ela esta tentando superar uma outra grande perda: a visão.
-Que?!
-É Jéferson, a Karina perdeu a visão no acidente.
Abri a boca, porem não disse nada. Foi difícil de acreditar. Karina, com aqueles olhos tão bonitos, jamais voltaria a enxergar a luz do mundo. E tinha o Fabiano – ela o amava. Karina não suportaria tantas perdas de uma só vez.
Foi então que entendi aquele velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Aquele era o momento para eu estar ao lado de Karina. Não foi por um acaso que eu entrei no mesmo avião que ela... Entendi que nunca estamos livres do passado. Eu achei que ir ao casamento de Karina seria a ultima coisa que faria a ela. Eu estava completamente enganado.


Foi ótimo estar de volta em casa. Eu estava me sentindo péssimo naquele hospital. As cicatrizes em meu corpo ainda estavam recentes, por isso qualquer cuidado era pouco. Contudo, o alivio de estar de volta em casa, logo desapareceu. Vizinhos e parentes chegaram para me visitar e todos queriam ouvir como fora o acidente, e isto era uma coisa que eu queria esquecer. E para aumentar o tédio, mamãe e papai não deixaram que eu entrasse em contato com Karina.
-É uma situação complicada – disse papai. – Os pais dela podem não gostar de sua visita.
Eu não via motivo algum para os pais de Karina não gostarem da minha visita. Mais tentar convencer os meus pais não era fácil.
-O que você precisa filho é se alimentar direito e descansar – insistiu mamãe. Não teve jeito, só fui visitar Karina no dia seguinte, ainda depois de muita insistência.

 

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