| Publicado por: | luis.campos |
| Data: | 15/06/2009 |
| Hora: | 23:18:07 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Livro | A História de danyl |
| Capítulo | 22 |
| Leituras: | 139 |
A Bruxa Malvada do Oeste não conseguiu arrear o leão para servi-la de
cavalo e ficou com muita raiva. Danyl, que assistia a cena, chegou a
pensar que ela poderia voltar-se contra ele, mas...
- Já que não posso arreá-lo, vou matar os dois de fome, a menos que
você resolva ser obediente! - gritou ela através das grades.
Por ordem da bruxa, nenhuma comida era dada aos dois, mas quando ela
perguntava ao leão se estava disposto a ser arreado, ele sempre dizia
que Não. Aqui havia um segredo: todas as noites, depois que a bruxa
dormia, Dorothy levava aos dois as sobras da cozinha. Depois que eles
comiam, o leão se deitava na cama de palha e Danyl e Dorothy, um de
cada lado, recostavam-se ao corpo do leão, descansando as cabeças na
juba farta de Lyon e os três conversavam até tarde, procurando um meio
de fugir. No fundo, não tinham muitas esperanças, pois o castelo era
guarnecido dia e noite pelos Pisca-Piscas. A menina trabalhava sem
parar, o dia inteiro, freqüentemente ameaçada de ser espancada com um
guarda-chuva, pela bruxa. Sem saber que a feiticeira não ousaria
tocá-la, Dorothy vivia apavorada, por si mesma e por Totó. Uma vez, a
bruxa acertou Totó com o guarda-chuva e o valente cachorrinho ferrou os
dentes na perna da malvada. Às vezes, Dorothy passava horas chorando,
enquanto Totó, enroscado a seus pés, sofria por não saber falar.
A ele pouco importava estar em Kansas ou no Reino de Oz, desde que se
achasse ao lado de Dorothy, mas, vendo a infelicidade da dona, ficava
triste também. A Bruxa Malvada estava louca para se apoderar dos
Sapatinhos de rubi que a menina usava. As abelhas, os corvos e os lobos
tinham sido mortos, acabara-se o poder da touca de ouro, mas a posse
dos sapatinhos poderia dar-lhe um poder maior do que o que perdera.
Vigiava Dorothy na esperança de roubar-lhe o tesouro ao menor descuido,
porém a menina tinha tanto orgulho dos lindos sapatinhos que só se
separava deles à noite e ao tomar banho. A bruxa, que tinha horror ao
escuro, não ousava entrar no quarto de Dorothy à noite, e seu pavor da
água era maior que o da escuridão. Nunca tocava em água, mas, muito
esperta, não demorou a imaginar um jeito de obter o que desejava.
Colocou uma barra de ferro no centro da cozinha, tornando-a invisível
aos olhos humanos e Dorothy não tardou a tropeçar no obstáculo, caindo
no chão. Embora não se machucasse, um dos sapatinhos de rubi saiu-lhe
do pé. Antes que pudesse apanhá-lo, a bruxa já o calçara no pé torto e
ossudo. As súplicas de Dorothy foram inúteis...
- A senhora é muito ruim. Não tem o direito de roubar o meu sapato!
A Bruxa Malvada zombou da menina:
- Pois, com direito ou sem direito, vou ficar com ele e um dia vou
roubar-lhe o outro!
Dorothy ficou tão furiosa que, agarrando um balde, despejou a água toda
em cima da bruxa, molhando-a da cabeça aos pés...
- Veja só o que você me fez! - gritou a malvada.
- Foi sem querer! - disse a menina.
- Vou ficar toda derretida! - falou a bruxa.
- Queira me desculpar! - disse Dorothy, assustada, ao ver a bruxa
dissolver-se como um torrão de açúcar.
- Não sabia que a água é a morte para mim?
- Claro que não. A senhora não me disse nada!
- Ai! Ai! Estou desaparecendo! Você será a dona deste castelo. Nunca
poderia imaginar que uma menininha me destruísse. Opa... lá vou eu!
A Bruxa Malvada virou uma gosma pegajosa, que começou a correr pelas
tábuas lustrosas do assoalho. Ao ver que a bruxa desaparecera de fato,
Dorothy encheu novamente o balde e jogou água sobre a sujeira, varrendo
tudo depois bem varridinho. Enxugou o sapato de rubi antes de calçá-lo
e correu para o pátio a fim de comunicar a Lyon e Danyl que a Bruxa
Malvada do Oeste não existia mais. Os dois ficaram na maior alegria
quando souberam que a bruxa fora derretida por um balde d'água.
Libertados, acompanharam a menina ao interior do castelo, onde Dorothy
convocou todos os Pisca-Piscas para comunicar-lhes que não eram mais
escravos. Foi grande o contentamento do povo que, durante anos a fio,
havia trabalhado de graça para a Bruxa Malvada e fora sempre tratado
cruelmente. Aquela data passou a ser considerada feriado naquele país.
- É uma pena que Tin Man e Scarecrow não estejam aqui! - disse Lyon.
- Será que poderemos salvá-los? - sugeriu Dorothy, aflita.
- Não custa tentar! - disse Danyl.
- Vamos pedir a ajuda dos Pisca-Piscas! - Exclamou Dorothy.
Os homenzinhos amarelos prontificaram-se a fazer tudo pela menina.
Dorothy selecionou os que lhe pareceram mais espertos e puseram-se a
caminho. Viajaram durante todo aquele dia e uma parte do outro, até
alcançarem a planície rochosa, onde jazia o lenhador, todo amassado e
retorcido, tendo ao lado o machado com a lâmina enferrujada e o cabo
partido ao meio.
Os Pisca-Piscas transportaram o lenhador nos braços até o castelo e
Dorothy derramou algumas lágrimas, ao ver a triste condição do velho
amigo. No castelo, Danyl perguntou a um Pisca-Pisca se havia funileiros
no país...
- Oh, sim, excelentes! - foi a resposta do homenzinho.
Durante três dias e quatro noites os funileiros martelaram, torceram,
desentortaram, soldaram e poliram cabeça, tronco e membros do lenhador,
até que este recuperou afinal os movimentos. Alguns arranhões sempre
ficam, mas o Homem de Lata não era nada vaidoso. Quando foi agradecer a
Dorothy, começou a chorar de emoção, e a menina, enxugando depressa no
avental as perigosas lágrimas, pôs-se também a chorar sem medo de
ferrugem. O leão enxugou tanto os olhos que a ponta da sua cauda ficou
encharcada, exigindo um banho de sol...
- Se Scarecrow estivesse aqui, eu seria de fato feliz! - suspirou o
lenhador, depois de ouvir o relato dos últimos acontecimentos...
- Vamos procurá-lo !- declarou a menina.
Com os Pisca-Piscas, o grupo viajou um dia e meio, até chegar à árvore
em cuja copa os macacos voadores tinham lançado as roupas do amigo
espantalho. O tronco era imenso e liso, impossível de ser escalado e o
Tin Man se ofereceu para derrubá-lo. Enquanto esteve em conserto no
castelo, um excelente ferreiro fizera-lhe um cabo de ouro maciço para
o machado, cuja lâmina pusera a brilhar como prata. Agora, com a
ferramenta melhorada, em pouco tempo o lenhador derrubou a árvore, que
caiu com estrondo, trazendo nos galhos as roupas de Scarecrow. De volta
ao castelo, rechearam as roupas com uma palha novinha e de novo surgiu
o espantalho, ainda mais esperto e muito agradecido a todos.
Dorothy e os amigos passaram alguns dias no Castelo Amarelo, onde havia
tudo do melhor. Depois, lembrando-se da Tia Ema, a menina sugeriu que
voltassem à presença de Oz, para reclamar o cumprimento das promessas.
Decidiram partir no dia seguinte. Os Pisca-Piscas, desolados, tentaram
retê-los de todos os modos. Tinham ficado especialmente amigos de Tin
Man, ao qual ofereceram o posto de Governador Supremo do Reino Amarelo
do Oeste. Quando viram que o bando estava mesmo resolvido a partir,
presentearam Totó, Danyl e Lyon com coleiras de ouro e ofereceram à
Dorothy, um lindo bracelete cravejado de brilhantes. Scarecrow ganhou
uma bengala de castão dourado, para impedir-lhe trambolhões. Deram ao
homem de lata uma almotolia (aparelho próprio para lubrificar) de ouro,
prata e pedras preciosas. Todos eles fizeram um pequeno discurso de
agradecimento e apertaram as mãos dos Piscas-Piscas até ficarem com os
braços doloridos. Abrindo a despensa da bruxa, a fim de abastecer-se
para a viagem, Dorothy encontrou a touca de ouro e, como lhe servisse
perfeitamente, decidiu usá-la, guardando seu chapeuzinho na cesta.
Como lembram, não havia estrada nem trilha entre o castelo da bruxa e
a Cidade das Esmeraldas, mas nossos amigos sabiam, é claro, que deviam
caminhar para o Leste, em direção ao sol nascente. Estavam no rumo
certo, mas, ao meio-dia, com o sol escaldando-lhes as cabeças, já não
sabiam mais onde era o Leste e onde era o Oeste. Prosseguiram ao
acaso, deitando-se ao cair da noite entre flores de suave perfume. Na
manhã seguinte, com o Sol encoberto por nuvens pesadas, continuaram o
caminho, como se estivessem seguros do que faziam...
- Acabaremos chegando a algum lugar! - pensou Dorothy.
Mas os dias se passavam e eles nada encontravam. Scarecrow às vezes
resmungava:
- E claro que nos perdemos. Se não encontrarmos o caminho da Cidade
das Esmeraldas, jamais obterei a inteligência que Oz está me devendo!
Todos os outros mostraram o mesmo desassossego. Sentados sobre a relva,
entreolhavam-se em silêncio, cada um esperando do outro uma idéia...
- E se chamássemos os camundongos? - sugeriu Danyl, por fim.
- Exato! Por que não pensamos nisso antes? - disse a menina.
Dorothy soprou o apito de prata que trazia ao pescoço, desde que o
recebera de presente da Rainha dos Pequenos Roedores. Passados alguns
instantes, chegou-lhes aos ouvidos um tropel de passinhos minúsculos e
um bando de camundongos cinzentos não tardou a rodear a menina.
A rainha em pessoa adiantou-se e perguntou a Dorothy:
- Em que podemos ser úteis aos amigos?
- Perdemos o caminho. A senhora pode dizer-nos como chegar à Cidade
das Esmeraldas? - respondeu Dorothy.
- Com muito prazer, mas vocês estão muito longe, pois estão caminhando
em direção oposta à cidade! - disse a rainha.
- E agora?
Ao notar a touca de ouro que Dorothy usava, a rainha falou:
- Por que não utiliza o encantamento da touca, chamando em seu auxílio
os Macacos Voadores? Eles poderão levá-los à cidade de Oz em menos de
uma hora, por via aérea!
- Não sabia deste encantamento! - replicou Dorothy, surpresa.
- Agora já sabe!
- Qual é a fórmula que devo usar para chamá-los?
- A fórmula está gravada dentro da touca, mas se vai chamá-los, teremos
que sair correndo, pois eles adoram amolar meu povo!
- Não irão nos maltratar? - quis saber a menina, preocupada.
- Oh, não! São obrigados a prestar obediência ao portador da touca.
Adeus!
A Rainha sumiu com todo o séquito. No forro da touca, Dorothy descobriu
umas palavras inscritas...
- Deve ser a fórmula, Dorothy! - disse Danyl.
- Acho bom decorá-la, Dorothy! - completou Scarecrow.
Dorothy passou alguns minutos decorando a fórmula e depois firmou-se
na perna esquerda e disse:
- Ep-pe... pep-pe... kak-ke!
- Que foi que disse? - indagou Tin Man, espantado.
Dorothy, desta vez equilibrando-se sobre a perna direita, prosseguiu:
- Hil-lo... hol-lo... hel-lo!
- Alô! - respondeu o lenhador, sem saber do que se tratava.
- Ziz-zy... zuz-zy... zik! - proclamou Dorothy, apoiada agora sobre os
dois pés.
O efeito foi fulminante: um grande vozerio e o ruflar de asas logo
anunciaram a aproximação dos Macacos Voadores. O rei deles curvou-se
diante de Dorothy...
- Quais são suas ordens?
- Queremos chegar à Cidade das Esmeraldas!
- Nós os levaremos até lá!
Mal acabara de falar, os macacos apanharam um por um, levando-os pelos
ares, com Totó tentando morder o macaquinho que o agarrara. Scarecrow
e Tin Man mostravam-se, a princípio, bastante apreensivos, recordando o
que havia acontecido antes, mas acabaram divertindo-se com o passeio
aéreo. Lyon foi carregado por uns dez enormes macacos, enquanto
Danyl voava seguro por outro dos grandes macacos. Dorothy planava
suavemente, amparada por dois macacões, um dos quais era o próprio rei.
Com os braços cruzados, eles fizeram uma cadeirinha para que ela se
sentasse comodamente. Durante a viagem, o rei explicou-lhe que tinha
o direito de exigir por mais duas vezes o auxílio da tribo alada. Em
menos de uma hora, Dorothy avistou as verdes e cintilantes muralhas da
Cidade das Esmeraldas. Após deixarem os viajantes diante do portão
principal da cidade, as estranhas criaturas levantaram vôo rapidamente
e desapareceram no horizonte...
- Foi uma ótima solução! - disse a menina.
Danyl tocou a campainha do portão...
- Como? Vocês de novo? - perguntou o Guardião, surpreso.
- Assim parece! - retrucou o espantalho.
- Pois eu pensava que tivessem ido visitar a Bruxa Malvada do Oeste!
- E fomos! - replicou o homem de lata.
- E ela deixou vocês voltarem?
- Foi obrigada a deixar, depois de derretida! - explicou Danyl.
- Derreteu-se? Mas que notícia fabulosa! Quem teve essa idéia genial?
- Ela, Dorothy! - disse o leão, com respeito.
O Guardião inclinou-se reverente, diante da menina. Depois colocou em
todos, os óculos esverdeados. Difundida a notícia, uma multidão imensa
acompanhou os visitantes até o palácio de Oz, onde o conhecido guarda
de barbas verdes encontrava-se de plantão. A mesma mocinha verde
reconduziu os vitoriosos aos seus aposentos e o soldado transmitiu logo
a Oz a notícia de que Dorothy e os companheiros estavam de volta,
depois de terem destruído a Bruxa Malvada.
Nenhuma resposta chegou do Grande Mágico. Esperaram por três dias, até
que se cansaram desse tratamento pouco amável e Danyl resolveu enviar
outra mensagem a Oz: caso não fossem logo recebidos, chamariam em seu
auxílio os Macacos Voadores, para saberem se o Mágico mantinha ou não
a palavra empenhada. Oz sentiu-se a tal ponto horrorizado que expediu
ordens urgentes para que todos se apresentassem na Sala do Trono às
nove horas e quatro minutos da manhã seguinte. Já conhecia os Macacos
Voadores e não desejava revê-los tão cedo. Os cinco viajantes passaram
a noite sem dormir, cada um com a idéia fixa na recompensa prometida.
Ás nove em ponto da manhã seguinte, o soldado veio buscá-los e, quatro
minutos mais tarde, eram introduzidos na Sala do Trono de Oz, o
Magnífico. Ficaram surpresos quando não viram ninguém no aposento.
Ficaram perto da porta, juntinhos, pois o silêncio do salão ainda lhes
parecia mais aterrador do que o Mágico, fosse qual fosse a sua forma.
Uma voz, que parecia partir dum ponto qualquer da cúpula imensa,
pronunciou com solenidade:
- Sou Oz, o Magnífico, o Terrível. Que esperam de mim?
Voltaram a esquadrinhar com os olhos todo o aposento e, como não
descobrissem ninguém, Dorothy atreveu-se a perguntar:
- Onde está o senhor?
- Estou em toda parte, embora isto seja incrível aos mortais comuns.
Vou sentar-me no trono para que possam conversar comigo!
De fato, daí por diante a voz parecia provir do próprio trono. Nossos
amigos colocaram-se em fila e Dorothy tomou a palavra:
- Estamos aqui para cobrar a promessa que nos fez, Magnífico!
- Que promessa?
- O senhor prometeu que me mandaria de volta para Kansas, caso nós
destruíssemos a Bruxa Malvada do Oeste!
- A mim prometeu um cérebro para pensar!
- E a mim, um coração!
- E eu iria ganhar a coragem que me falta!
- E que eu voltaria para o Reino dos Campos Livres!
- É verdade que a Bruxa Malvada foi destruída? - indagou a Voz, meio
trêmula.
- É verdade! Eu mesma a derreti com um balde d'água!
- Caramba! Como foi rápido! Bom, voltem amanhã à minha presença.
Preciso de tempo para refletir!
- Já teve tempo de sobra! - disse, irritado, o lenhador.
- Não esperaremos nem mais um dia! - declarou o espantalho.
- É isso aí, rapazes! - disse Danyl.
- O senhor tem de manter a palavra! - exclamou Dorothy.
O leão covarde, julgando ser uma boa idéia assustar o mágico, emitiu
um rugido tão feroz que Totó, apavorado, fugiu, derrubando um biombo.
Todos olharam naquela direção e ficaram assombrados: de pé, no canto
que ficara escondido pelo biombo, estava um homenzinho já idoso, a
cabeça completamente calva e o rosto enrugado. Parecia tão espantado
quanto os outros. Tin Man, erguendo no ar o machado, rumou na direção
do velhinho...
- Quem é o senhor?
- Sou Oz, o Magnífico, o Terrível - respondeu o velho com voz trêmula.
- O quê? - exclamou surpreso o homem de lata.
- Não me bata, por favor! Farei tudo o que me pedir!
O grupo estava assombrado...
- Pensava que Oz fosse uma cabeça enorme!
- E eu, que fosse uma jovem linda!
- E eu, que fosse uma fera!
- Pois eu pensava que fosse uma bola de fogo!
- E eu que era uma imensa queda-d'água!
- Não, não, estão todos enganados... eu estava só fingindo! - falou de
novo o homenzinho, com humildade.
- Fingindo? Afinal de contas, o senhor é ou não é um grande mágico?
- Cuidado, meu bem. Não fale tão alto que podem ouvi-la! Seria um
desastre. Todos acreditam que eu seja um grande mágico!
- E não é?
- Nem de longe, meu bem. Não passo dum homem comum!
- Nem isto! Não passa dum grande vigarista! - sentenciou o espantalho,
ressentido.
- Exatamente! Sou um grande vigarista! - disse o homenzinho, esfregando
as mãos como se estivesse muito satisfeito.
- Mas isto é o fim! E agora? E o meu coração?
- E a minha coragem?
- E o meu cérebro? - gemeu o espantalho, enxugando duas lágrimas na
manga do paletó.
- Meus queridos amigos, peço-lhes que ponham de lado essas ninharias.
Pensem um pouco em mim. Imaginem a trapalhada em minha vida quando
souberem de tudo!
- Ninguém sabe que o senhor é um vigarista? - perguntou Dorothy.
- Ninguém, além de vocês e de mim. Enganei durante tanto tempo, a tanta
gente, que nunca pensei em ser descoberto. Meu grande erro foi tê-los
admitido à Sala do Trono. Em geral, não me apresento aos meus súditos,
que assim fazem de mim as imagens mais aterradoras!
- Não estou entendendo nada! Como é que o senhor virou aquela cabeça
quando apareceu para mim?
- Ah, é um dos meus truques. Sigam-me, por favor, vou explicar-lhes
tudo!
Oz conduziu o grupo a uma saleta, atrás da Sala do Trono e mostrou-lhe
a um canto a cabeça, uma enorme máscara pintada...
- Ela ficava presa ao teto por um fio de arame. Eu, atrás do biombo,
por meio de fios, mexia a boca e os olhos!
- E a voz? - perguntou Dorothy.
- Acontece que sou ventríloquo. Posso colocar o som da minha voz onde
quiser. Você pensou que ela viesse da cabeça. Aqui estão os outros
objetos de que me servi para enganá-los. Exibiu ao espantalho o vestido
e a máscara que usara para fingir-se de jovem bonita; o homem de lata
pôde verificar que a fera terrível não passava dum monte de peles
costuradas uma às outras e esticadas sobre uma armação de arame; quanto
à bola de fogo, era feita de algodão, que ardia quando lhe ateavam fogo
porque estava embebida em gasolina. E a cachoeira não passava de um
grande tubo plástico transparente com uma bomba que fazia a água cair
e subir novamente... uma espécie de chafariz!
- Francamente! O senhor devia ter vergonha de ser um farsante! - disse
o espantalho.
- Não pense que não sinto vergonha, mas não havia outro recurso.
Sentem-se, por favor, vou contar-lhes minha história: nasci em Omaha...
- Ué, Omaha não fica muito longe de Kansas! - interveio Dorothy.
- Não, mas fica muito longe daqui. Quando cresci, recebi lições de um
famoso mestre e tornei-me um ventríloquo. Posso imitar qualquer
animal...
Oz soltou um miado tão perfeito que Totó levantou as orelhas, pondo-se
a procurar o gato por toda a sala...
- Passado algum tempo, cansado, tornei-me aeróstata!
- Que coisa é esta? - indagou Dorothy.
- É o homem que sobe num balão nos dias de circo, chamando o povo para
o espetáculo. Um belo dia, encontrando-me no balão, as cordas se
desprenderam e o balão foi subindo até chegar acima das nuvens. Fui
levado pelo vento a muitos quilômetros de distância, durante um dia e
uma noite. Na manhã do dia seguinte, ao despertar, percebi que flutuava
sobre um país estranho. O balão desceu aos poucos e pousei em terra,
são e salvo. Fui logo cercado por uma gente esquisita que, ao me ver
descer das nuvens, tomou-me por um grande mágico. Deixei que assim
pensassem, pois me respeitavam e prometeram obedecer-me em tudo. Por
divertimento e também para manter essa boa gente ocupada, ordenei-lhes
que construíssem esta cidade e um palácio para mim. Como houvesse nos
arredores muitas campinas verdejantes, dei-lhe o nome de Cidade das
Esmeraldas e determinei que seus habitantes usassem óculos verdes, para
que tudo que vissem lhes parecesse dessa cor!
- E não é? - perguntou Danyl.
- Esta cidade é igualzinha a qualquer outra. O verde é dos óculos. A
Cidade das Esmeraldas já é bem antiga, pois eu era um rapazinho quando
aqui cheguei. Faz tanto tempo que o meu povo usa óculos verdes que a
maioria acredita tratar-se realmente duma cidade de pedras preciosas.
Sempre tratei bem o meu povo e todos gostam de mim. Mas, desde que
terminou a construção deste palácio, tranquei-me aqui, recusando-me a
ver qualquer pessoa, pois tinha medo das bruxas: eu não tinha nenhum
poder mágico e elas podiam fazer coisas extraordinárias. Havia quatro
delas no país, governando os povos do Norte, do Sul, do Leste e do
Oeste. Felizmente as bruxas do Norte e do Sul eram boazinhas, mas as
outras duas eram danadas de perversas e só não me destruíram porque
acreditavam que eu fosse mais poderoso do que elas. Vivi muitos anos
apavorado. Por aí, vocês podem imaginar a minha alegria ao ter notícia
de que a casa desta menina caíra sobre a Bruxa do Leste. Quando vieram
procurar-me, eu estava disposto a lhes fazer qualquer promessa, desde
que me livrassem da outra feiticeira. Mas, agora, que conseguiram
eliminá-la, confesso, envergonhado, que não posso cumprir o prometido.
- Acho que o senhor é um homem péssimo! - observou Dorothy, enérgica.
- Oh, não, queridinha, até que sou, no fundo, um homem bom. Porém, como
mágico, sim, reconheço que sou péssimo!
- Não pode me arranjar um cérebro? - indagou Scarecrow.
- Não precisará dele. A cada dia que passa, vai aprendendo alguma
coisa. Um bebê, por exemplo, tem cérebro e não lhe serve para nada. Só
a experiência pode trazer entendimento e essa experiência só se adquire
com o tempo!
- Tudo isso pode ser verdade, mas sem um cérebro vou sentir-me infeliz!
O falso mágico olhou para ele, pensativo...
- Bem, como sabe, não sou grande coisa como mágico, de qualquer forma,
procure-me amanhã pela manhã e tratarei de rechear-lhe a cabeça com
miolos. Só não sei explicar-lhe como usar os miolos. Terá de descobrir
por si mesmo!
- Muito obrigado! Hei de descobrir um jeito, não se incomode! - disse
o espantalho, radiante.
- E a minha coragem? - perguntou o leão, ansioso.
- Para mim, você já tem bastante coragem. Falta-lhe apenas confiança em
si mesmo. Toda criatura viva sente medo ao se defrontar com um inimigo.
A verdadeira coragem consiste em enfrentar o perigo quando se tem medo
e isto você já demonstrou que tem até demais! - replicou Oz.
- É possível, mas não gosto de ter medo. Vou ficar infeliz enquanto não
arranjar um tipo de coragem que me tire o medo!
- Pois bem... amanhã dou um jeito!
- Que me diz do meu coração? - perguntou Tin Man.
- Quanto a isto, acho que está bobeando. O coração faz todo mundo
infeliz. Se soubesse a sua sorte!
- Isto deve ser uma questão de ponto de vista. Sou capaz de agüentar
toda a infelicidade deste mundo só para possuir um coração!
- Pois bem. Venha à minha presença amanhã. Há tantos anos banco o
mágico que talvez encontre um meio de satisfazer ao seu desejo!
- E eu? E eu, ué! Como vou voltar para Kansas?
- E eu, como voltarei ao Reino dos Campos Livres?
Isto é um caso a estudar. Concedam-me dois ou três dias para pensar
sobre o assunto e procurarei encontrar um jeito de levá-los através
do deserto. Enquanto isto, serão meus hóspedes e meu povo lhes farão
todas as vontades. Peço-lhes, apenas em troca, que não revelem meu
segredo, não deixem ninguém saber que sou um impostor!
Concordaram todos com a condição imposta, retirando-se animados para os
seus aposentos. A própria Dorothy alimentava a esperança de que o
"Grande e Terrível Vigarista", como passou a chamar o velho, achasse um
meio de enviá-la de volta para Kansas. Caso isso acontecesse, era capaz
de perdoar-lhe tudo.
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