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Parte XX

 

Data: 15/06/2009
Hora: 22:48:04
Publicado por: luis.campos
Publicado na página: biblioteca_ler

 

Profundamente abalada, Dorothy deixou a Sala do Trono e foi reunir-se
aos amigos, ansiosos por saber o resultado da entrevista. Ao tomarem
conhecimento da imposição de Oz, ficaram igualmente desanimados.
Dorothy foi para o quarto e chorou na cama até adormecer. Na manhã
seguinte o soldado de barbas verdes bateu no quarto do espantalho,
convocando-o à presença de Oz.
Ao entrar na sala, Scarecrow encontrou uma deslumbrante criatura
instalada no trono de esmeraldas. Vestia uma túnica de gaze verde e
trazia, sobre a verde cabeleira solta pelos ombros, uma coroa de
pedrarias. De seus ombros partiam duas asas de maravilhoso colorido,
tão leves que tremulavam ao menor sopro do ar. O espantalho curvou-se
numa reverência meio desajeitada, por causa do seu recheio de palha.
A linda jovem, olhando-o amavelmente, disse:

- Sou Oz, o Poderoso, o Terrível. Quem é você? Que deseja de mim?

Scarecrow, que contava defrontar-se com a enorme cabeça de que Dorothy
lhe falara, ficou perplexo. Depois, mais calmo, respondeu:

- Sou um pobre espantalho recheado de palha. Quer dizer, não tenho
cérebro, não sei pensar. Desejo pedir-lhe um pouco de inteligência.
Quero ser uma pessoa igual a todos os seus súditos!

- E por que haveria de fazer isso por você? - perguntou a jovem.

- Porque a senhora é sábia e poderosa e ninguém mais poderia ajudar-me!

- Não costumo conceder favores gratuitos. Prometo-lhe, no entanto, que
se você eliminar a malvada Bruxa do Oeste, hei de dar-lhe de presente
um cérebro tão perfeito que o fará a criatura mais inteligente do
Reino de Oz!

- Esse pedido já foi feito à Dorothy!

- E daí? Pouco me importa quem há de liquidar a Bruxa do Oeste. Mas,
enquanto ela viver, não atenderei a seu pedido. Pode ir agora e não
volte à minha presença enquanto não tiver conquistado o direito ao
cérebro de que tanto precisa!

Scarecrow voltou cabisbaixo para junto dos amigos, contando-lhes a
conversa com Oz. Dorothy achou estranha a mudança operada no poderoso
feiticeiro, agora não mais uma cabeça, e sim uma linda jovem.

- Seja lá como for, falta-lhe um coração, como acontece com o Tin Man!

O espantalho disse isto com ar aborrecido. Na manhã seguinte, foi a
vez do lenhador. Ao entrar na Sala do Trono, não sabia se o Mágico
iria apresentar-se como a enorme cabeça ou sob a forma da linda jovem,
preferindo esta última. Segundo seu raciocínio, a cabeça que não tinha
sequer um coração, não poderia dar corações de presente aos outros,
enquanto as jovens bonitas costumam ter bons corações. Qual não foi sua
surpresa quando viu surgir diante dele uma fera medonha, tão volumosa
que parecia um elefante e que, com dificuldade, se aboletou no trono
verde. A cabeça da Fera lembrava a dum rinoceronte com cinco olhos e
cinco também eram os braços. O tronco era sustentado por cinco pernas
compridas e finas e o corpo coberto por um pêlo grosso e enroscado.
Se o homem de lata possuísse coração, este teria disparado de medo.
Desapontado, ouviu a proclamação da Fera:

- Sou Oz, o Poderoso, o Terrível. Quem é você? Por que me procura?

- Sou um lenhador feito de lata. Por isso não disponho de coração e não
posso amar. Suplico ao Poderoso Oz que me conceda um coração e me torne
igual aos outros homens!

- Por que motivo eu iria fazer isso?

- Porque só o senhor pode dar-me um coração!

Oz grunhiu e replicou rispidamente:

- Se realmente deseja um coração, é preciso lutar para consegui-lo.

- Lutar como?

- Ajude Dorothy a matar a malvada Bruxa do Oeste. Uma vez eliminada
a Bruxa, volte à minha presença e eu lhe concederei o mais afetuoso dos
corações de todo o Reino de Oz!

Tin Man voltou abatido para junto dos amigos, narrando-lhes, triste e
decepcionado, o encontro com a terrível fera. Começaram logo a imaginar
as diversas formas que o Grande Mágico poderia ainda assumir, mas Lyon
tomou a palavra:

- Amanhã é o meu dia de enfrentá-lo. Se me aparecer sob o aspecto duma
fera, soltarei um dos meus terríveis rugidos, capaz de atemorizá-lo, a
ponto de conceder-me o que desejo. Se vier sob a forma da linda jovem,
ameaçarei atacá-la, obrigando-a a aceder ao meu pedido. Se surgir como
a cabeça, não me escapará, pois a farei rolar pela sala, até conseguir
o que desejo. Coragem, amigos... vai dar tudo certo!

Na manhã seguinte, o soldado de barbas verdes conduziu o leão à Sala do
Trono. No local onde devia estar o trono, reluzia uma bola de fogo, tão
ameaçadora e brilhante que ele mal ousava fixá-la. Chegou a pensar que
Oz, calculando mal um passe mágico, houvesse pegado fogo. Ao tentar
aproximar-se, o calor intenso crestou-lhe as pontas dos bigodes,
obrigando-o a recuar. Da bola de fogo elevou-se uma voz grave e
tranqüila:

- Sou Oz, o Poderoso, o Terrível. Quem é você? Que deseja de mim?

- Sou um triste leão covarde, receoso de tudo. Venho pedir-lhe a graça
de conceder-me a coragem necessária para tornar-me o Rei dos Animais.

- E por que lhe faria eu esse favor?

- Porque o senhor é o Mágico dos Mágicos, o único com poder suficiente
para atender ao meu pedido!

A bola de fogo ardeu ameaçadoramente durante alguns segundos, antes
de responder:

- Traga-me a prova de que a Bruxa Malvada está morta e eu lhe darei a
coragem. Enquanto ela viver, você há de ser um covarde!

O leão não gostou da resposta, mas nada encontrou para replicar.
O ambiente foi ficando tão irrespirável que não teve outro remédio,
senão correr para fora da sala e relatar aos amigos a desagradável
entrevista...

- Bem, gente... amanhã é minha vez. Verei se posso persuadir Oz a
conceder-nos o que desejamos!

Na manhã seguinte, assim que adentrou a Sala do Trono, Danyl procurou
o mágico e não o viu. Havia na sala apenas uma grossa coluna de água
esverdeada que descia do teto e desaparecia no chão de granito verde.
Danyl ficou sem saber o que dizer, até que uma voz, saindo de dentro
da cachoeira, elevou-se no ar:

- Sou Oz, o Poderoso, o Terrível. Quem é você? Que quer comigo?

- Sou Danyl e ando viajando em busca de aventuras. Preciso que o
senhor me ajude a voltar para o Reino dos Campos Livres!

- E por qual motivo eu lhe faria esse favor?

- Porque eu não quero continuar nas Terras de Oz e só um grande mago,
como o senhor, poderia mandar-me de volta a minha terra de origem!

A cascata ameaçou molhar o gato e este deu um salto para trás...

- Ajude seus companheiros de jornada a matar a Bruxa Malvada do Oeste e
voltará para sua vidinha medíocre no Reino dos Campos Livres!

- Se você tem tanto poder, por que ainda não a eliminou?

- Porque, se assim fosse, não haveria ação nesta novelinha!

- Nisto o senhor tem razão!

- Agora vá, antes que lhe dê um banho caprichado!

Danyl nem esperou Oz completar a frase e já estava fora da sala. Contou
aos demais sua conversa com o mágico...

- E agora, pessoal? - perguntou Dorothy, desolada.

- Só há uma alternativa: matar esta tal bruxa! - respondeu Danyl.

- E se isso não for possível? - indagou Dorothy.

- Eu nunca terei coragem!

- Eu nunca vou ter um coração!

- E lá se foi o meu cérebro!

- E eu nunca mais verei Tia Ema e Tio Henrique! - finalizou Dorothy,
pondo-se a chorar.

- Cuidado! As lágrimas poderão manchar-lhe o vestido! - preveniu a
mocinha verde.

A esse aviso, Dorothy enxugou as lágrimas, observando:

- Acho que temos de tentar, embora não me agrade matar alguém, mesmo
para ver de novo Tia Ema!

- Eu também não gosto disto, mas, fazer o quê? - disse Danyl.

- Vou com você, apesar de muito covarde para liquidar uma bruxa!

- Vou também, mas, sem inteligência, quase não sirvo para nada!

- Ai de mim! Não tenho sentimento nem para fazer mal a uma feiticeira
de mau caráter, mas, é claro, vou com vocês! - gemeu Tin Man.

- Então está decidido. Amanhã partiremos à caça desta bruxa malvada!

- Como você disse, Danyl... fazer o quê? - exclamou Dorothy.

Tin Man afiou o machado e verificou se todas as suas juntas estavam
devidamente lubrificadas. Scarecrow conseguiu uma nova porção de palha
para rechear o corpo, e Dorothy renovou-lhe a pintura dos olhos.
A mocinha verde, sempre muito amável, encheu a cesta de Dorothy com
o fino das iguarias, atando um sininho à fita verde do pescoço de Totó.
Foram deitar-se muito cedo. Acordaram com o canto dum galo verde, que
vivia nos fundos do palácio e com o cacarejar duma galinha também
verde, que acabara de pôr um ovo da mesma cor. Até o canto das aves
pareciam verdes. Eles se despediram da mocinha verde e o soldado de
barbas verdes reconduziu-os pelas ruas da Cidade das Esmeraldas até o
Guardião. Este abriu o cadeado que prendia os óculos de cada um e,
depois de guardá-los, abriu o portão para eles...

- Qual é o caminho para o castelo da Bruxa Malvada do Oeste? -
perguntou Danyl.

- Não existe caminho. Ninguém tem o menor interesse de se aventurar
por aquelas bandas! - respondeu o anão.

- Então, como haveremos de encontrar a bruxa? - perguntou a menina.

- Será fácil! Logo que ela souber da presença de vocês no País dos
Pisca-Piscas, há de localizá-los e escravizá-los!

- Talvez não, pois nossa intenção é eliminá-la! - disse Scarecrow.

- Ah, bem, nesse caso é diferente. Mas tomem muito cuidado, pois se
trata duma velha perversa e violenta e que dispõe de poderosos meios
de luta. Sigam no rumo Oeste, onde o sol se põe, e irão encontrá-la,
fatalmente!

Eles agradeceram e despediram-se do Guardião e tomaram o rumo Oeste,
passando por campos de relva macia, salpicados de margaridas. Dorothy
usava ainda o bonito vestido que ganhara no palácio, verificando agora
com espanto que não era mais verde, e sim dum branco imaculado. Também
a fita do pescoço do Totó tornara-se branca. À medida que avançavam,
o terreno tornava-se mais acidentado e não se viam casas, sítios,
estradas ou árvores. Antes de anoitecer, a menina, Danyl e Lyon, dando
mostras de cansaço, deitaram-se sobre a relva para dormir, enquanto o
homem de lata, o espantalho e Totó montavam guarda.

Embora a Bruxa Malvada do Oeste possuísse um único olho, este era tão
poderoso como um telescópio e alcançava uma longa distância. A bruxa
descansava na varanda do castelo, quando avistou, ao longe, o grupo.
Enfurecida por vê-los em seus domínios, deu um demorado alarme com o
apito de prata que trazia ao pescoço. Lobos, de longas pernas, olhos
ferozes e dentes aguçados, acorreram de todas as direções, e a bruxa,
apontando-lhes o grupo, ordenou que estraçalhassem os invasores...

- Não é melhor escravizá-los? - perguntou o chefe do bando.

- Não! Um é feito de metal, outro de palha e há ainda uma menina, um
gato, um cachorrinho e um leão. Não servem para o trabalho. Ordeno que
sejam estraçalhados!

- Ótimo! - disse o lobo-chefe, partindo como um raio, acompanhado
pelos demais.

Felizmente o espantalho e o lenhador estavam acordados e perceberam a
aproximação das feras...

- Isto é comigo! - disse Tin Man, pegando seu machado bem amolado.

Quando o primeiro lobo avançou, decepou-lhe a cabeça com um golpe
certeiro. Mal erguera de novo o braço, quando outro lobo se aproximou
e caiu também sob o gume afiado do machado. Eram, ao todo, quarenta
lobos e todos tiveram a mesma sorte. No final, todos os lobos, com as
cabeças decepadas, jaziam diante do lenhador de lata...

- Bom trabalho, amigo! - comentou, com simplicidade, Scarecrow.

Na manhã seguinte, quando Dorothy e Danyl despertaram, o Tin Man lhes
contou a aventura. Assustados com a enorme pilha de lobos mortos, a
menina e Danyl ficaram muito agradecidos ao homem de lata. Fizeram uma
ligeira refeição e voltaram a caminhar. Naquela mesma manhã, a Bruxa
Malvada examinou o horizonte com o seu olho-de-alcance e avistou os
cadáveres dos lobos e viu que o grupo de invasores avançava. Ainda mais
furiosa, soprou duas vezes no apito de prata. Imediatamente um bando
de corvos selvagens veio voando, escurecendo o céu. A bruxa ordenou
ao rei dos corvos:

- Voem direto sobre aqueles forasteiros e arranquem-lhes os olhos e
os transforme em carne picadinha!

Os corvos lançaram-se em formação cerrada sobre o grupo. A menina teve
medo, mas Scarecrow e Danyl procuraram tranqüilizá-la:

- Deixe por minha conta. Deitem-se todos no chão!

- Eu vou ajudá-lo, Scarecrow! - completou Danyl.

O espantalho permaneceu de pé e abriu os braços. Danyl postou-se ao seu
lado. Os corvos ficaram assustados, pois os espantalhos são feitos para
isto e não ousavam se aproximar do grupo. Mas o Rei dos Corvos falou:

- Ora, aquilo não passa dum homem empalhado. Vou arrancar-lhe os olhos!

Dizendo isto, investiu contra o espantalho, que o agarrou pela cabeça,
torcendo-lhe o pescoço até matá-lo. O segundo corvo teve a mesma sorte.
Danyl, ao ver como Scarecrow liquidava, um a um, os corvos, passou a
fazer o mesmo.
Eram quarenta corvos e, assim, o espantalho e Danyl torceram quarenta
pescoços. Deixando na estrada a pilha de corvos mortos, os teimosos
amigos recomeçaram a jornada.
Quando a bruxa viu os seus queridos corvos amontoados no chão, teve um
acesso de fúria, soprando três vezes no apito de prata. Ouviu-se um
terrível zumbido e um enxame de abelhas negras avizinhou-se da perversa
criatura:

- Avancem sobre aqueles estranhos e mate-os!

Ao ver o enxame ameaçador vindo na direção deles, o espantalho tomou
uma decisão rápida, dizendo ao homem de lata:

- Cubra Dorothy, Danyl, Totó e Lyon com a palha do meu corpo!

Assim foi feito. Quando as abelhas chegaram, não encontrando ninguém
mais, investiram contra o lenhador, quebrando seus ferrões de encontro
ao corpo de lata deste. Como não sobrevivem sem os ferrões, as abelhas
negras acabaram espalhadas pelo solo como montinhos de carvão. Dorothy,
Danyl, Totó e Lyon saíram então do esconderijo e a menina e Danyl
ajudaram Tin Man a recolocar o recheio de palha de Scarecrow, até vê-lo
novamente em forma. Isto feito, retomaram a caminhada. A bruxa ficou
tão furiosa que começou a sapatear e a arrancar os cabelos, rangendo os
dentes de raiva. Convocou então doze de seus escravos Pisca-Piscas e
deu-lhes lanças pontudas para que destruíssem os intrusos.
Os Pisca-Piscas não eram famosos pela valentia, mas, como escravos,
tinham de obedecer às ordens recebidas. Puseram-se em marcha até se
aproximarem do grupo. Foi a vez do leão intervir. Soltando um rugido
aterrador, investiu sobre os atacantes, aterrorizando a tal ponto os
pobres Pisca-Piscas que estes deram meia-volta e bateram em retirada.
De volta ao castelo, foram impiedosamente espancados pela bruxa, que
estava habituada a ser obedecida e não lhes perdoou o fracasso.
Tratando-se duma feiticeira tão poderosa quanto malvada, não tardou a
imaginar um novo plano para matar os invasores de suas terras. Guardada
num cofre, a bruxa possuía uma touca de ouro, cercada por um anel de
brilhantes e rubis. Qualquer pessoa que a usasse, poderia convocar por
três vezes os Macacos Voadores e estes obedeciam a qualquer ordem que
lhes fosse ditada. Mas ninguém poderia comandar por mais de três
vezes essas estranhas criaturas e já por duas vezes a Bruxa Malvada se
servira do poder mágico da touca. Uma, quando escravizara os pequenos
Pisca-Piscas, passando a dominar o país; outra, quando brigara com o
próprio Oz, expulsando-o das terras do Oeste. Restava-lhe uma única
oportunidade de usar o poder da touca e não queria desperdiçá-la antes
de lançar mão de todos os outros recursos. Não contando mais com os
lobos ferozes, os corvos selvagens e as abelhas venenosas e, ante o
fracasso dos escravos, a bruxa resolveu retirar do cofre a touca.
Após colocá-la na cabeça, apoiando-se na perna esquerda, disse devagar:

- Ep-pe... pep-pe... kak-ke!

Descansando depois o corpo sobre a perna direita, disse:

- Hil-lo... hol-lo... hel-lo!

E, apoiando-se enfim sobre as duas pernas, gritou em voz estridente:

- Ziz-zy... zuz-zy... zik!

O feitiço começou imediatamente a funcionar. O céu ficou escuro de
repente, enquanto um ronco surdo enchia o ar, seguido dum ensurdecedor
barulho de asas, acompanhado de vozes e risadas. Um pálido raio de sol,
rompendo a escuridão, veio revelar um espetáculo muito pouco comum: a
Bruxa Malvada cercada por uma multidão de macacos, cada um deles
trazendo nos ombros asas assustadoras. O maior de todos voou até junto
da bruxa e falou:

- É a terceira e última vez que nos chama. Quais são as ordens?

- Ordeno que destruam os estranhos que invadiram meu território, menos
o leão. Quero a fera viva para ser o meu cavalo!

- Suas ordens serão obedecidas!

Os macacos levantaram vôo com enorme algazarra na direção de Dorothy
e seus amigos e, em poucos segundos, estavam sobre eles. Alguns deles
conseguiram pegar o homem de lata, transportando-o nos ares até se
encontrarem sobre uma região de rochas pontiagudas onde o deixaram
cair. O pobre lenhador, de tão amassado, nem conseguia gemer. Outros
macacos arrancaram toda a palha do espantalho e atiraram seus sapatos,
a roupa e o chapéu para o alto duma árvore. Os macacos restantes
amarraram cordas fortes em torno do corpo, do focinho e das
patas do leão, impossibilitando-o de qualquer movimento. Fizeram o
mesmo com Danyl e carregaram os dois pelos ares até o castelo da
bruxa, onde os colocaram num pátio cercado por altas grades de ferro.
Dorothy, imóvel, com Totó nos braços, assistia ao trágico fim dos
companheiros, pensando que logo chegaria sua vez. O chefe dos Macacos
Voadores esvoaçou sobre ela, os longos braços peludos ameaçadoramente
estendidos, a face contraída numa careta de dar medo, mas, ao perceber
na testa da menina o sinal do beijo da Bruxa Bondosa, deteve-se
imediatamente, dizendo:

- Não podemos fazer mal àquela menina, pois está protegida pelo poder
do bem, ainda mais forte que o poder do mal. Vamos transportá-la para
o castelo da bruxa!

Com a máxima delicadeza, ergueram Dorothy nos braços e a colocaram na
soleira do portão principal do castelo. O Rei dos Macacos dirigiu-se
à bruxa:

- Seguimos suas instruções na medida do possível. O homem de lata e o
espantalho foram destruídos. O leão e o gato estão amarrados no pátio.
Não ousamos maltratar a menina e o cãozinho que ela traz ao colo. Seu
poder sobre o nosso bando aqui termina. É a última vez que nos vemos!

Com grande algazarra, os macacos levantaram vôo e sumiram no horizonte.
À vista da marca que Dorothy trazia na testa, a Bruxa Malvada ficou ao
mesmo tempo surpresa e furiosa, pois sabia que não poderia fazer nenhum
mal à menina. Ao ver os sapatinhos de rubi, começou a tremer de medo.
Conhecendo muito bem o encanto dos mesmos, quis, de início, fugir para
longe, mas, olhando melhor a menina, compreendeu que, na sua candidez,
Dorothy não tinha noção do poder extraordinário que lhe conferiam os
sapatos de rubi. Rindo-se por dentro, a Bruxa Malvada pensou que ainda
poderia transformá-la numa escrava e, dirigindo-se à menina em tom
rude, ordenou:

- Siga-me e faça tudo o que eu lhe mandar, se não quiser ter o mesmo
fim dos seus amigos!

Dorothy seguiu a bruxa através duma infinidade de ricos aposentos até
chegarem à cozinha, onde lhe foi dito que lavasse a louça, as panelas,
varresse o chão e colocasse lenha no fogo. Dorothy tratou de cumprir
com humildade as ordens da bruxa, feliz por haver escapado da morte.
Deixando-a na cozinha, a feiticeira dirigiu-se ao pátio, planejando
colocar arreios no leão e atrelá-lo à carruagem como se fosse um
cavalo...

- Será divertido chicoteá-lo à vontade! - pensou a bruxa.

Porem, ao abrir o portão do pátio, o leão soltou um urro tão forte e
avançou sobre ela com tamanho ímpeto que, assustada, a bruxa recuou...

 

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