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Parte XVI

 

Data: 31/01/2009
Hora: 19:37:12
Publicado por: luis.campos
Publicado na página: biblioteca_ler

 

E eles continuaram a caminhada em direção à Cidade das Esmeraldas...

- Dorothy, calce o outro sapatinho de rubi! Cansei de andar mancando,
afinal, não somos sacis! Hahahahahaha!

- Hahahahahahahaha! - riram todos.

- Eu também cansei, Danyl! Obrigada!

Naquela noite, não encontrando nenhuma habitação por perto, acamparam
debaixo duma enorme e frondosa árvore. Dorothy acendeu uma fogueira a
fim de aquecer-se e sentir-se menos deprimida por estar com saudade de
sua casa e de seus tios e logo adormecera, tendo Totó ao seu lado.
Como a noite esfriara um pouco, Danyl pegou algumas folhas secas e
cobriu a menina. O cobertor improvisado manteve Dorothy aquecida até
que o dia amanhecesse. Depois de cobrir a menina, comeu umas frutas,
conversou um pouco com Lyon, Scarecrow e Tin Man e logo todos dormiam
também. Na manhã seguinte, Dorothy e Danyl lavaram o rosto num pequeno
regato e todos retornaram à estrada de tijolos amarelos...

- O que comeremos hoje? - perguntou Danyl.

- Se vocês quiserem, eu mato um veado para assarmos!

- Oh, por favor, não faça isso! - suplicou o Homem de Lata. - Não
quero chorar de novo!

- Nada disso, Lyon... comeremos frutas! Tome aqui uma castanha!

- Obrigado, Dorothy, mas eu sou um animal carnívoro!

- Era, Lyon, era! Enquanto estiver comigo será vegetariano!

- Argh! - exclamou Lyon com desalento.

Dorothy, Danyl e Totó comeram algumas frutas, mas Lyon embrenhou-se
na floresta que era cortada pela estrada de tijolos amarelos. Retornou
meia hora depois e alcançou os demais que já iam longe. O que ele
comeu ninguém ficou sabendo, pois não tocou no assunto. Danyl, pelo
caminho, colhia castanhas, morangos, cajus, pitangas, nozes, tâmaras,
maçãs, ameixas, jabuticabas, uvas, pêssegos, amoras, peras, carambolas,
damascos e outras frutas silvestres que encontrava, colocando todas num
cesto que fizera trançando alguns cipós e que, hora ele carregava nas
costas, hora era o homem de lata, o espantalho ou o leão.
E os seis companheiros viajaram muitos dias pela estrada de tijolos
amarelos, cantando, brincando, contando histórias, acampando sob
árvores, em casas desabitadas ou de pessoas hospitaleiras . Dorothy,
Danyl, Totó e Lyon bebiam água nos rios, regatos, lagoas e riachos que
encontravam e, à exceção do leão, alimentavam-se de frutas e plantas
comestíveis. Lyon, nas horas da fome, desaparecia entre as árvores,
voltando a juntar-se ao grupo após alguns minutos. Nunca dissera uma
palavra sobre o que fazia nessas suas escapadelas.
Um dia encontraram uma casinha à beira da estrada e, como já escurecia,
resolveram pedir pouso. Ali morava um casal simpático que, apesar de
receosos pela presença de um leão entre eles, resolveu acolhê-los. A
senhora preparou-lhes uma gostosíssima sopa de verduras, pedaços de
toucinho e grãos-de-bico. Dorothy, Danyl, Totó e Lyon comeram a
fartar-se, afinal, há muito que não comiam uma comidinha caseira.
Após a sopa, a dona da casa serviu-lhes um cafezinho com torradas e
queijo. Assim que acabaram de jantar, foram convidados pelo dono da
casa a prosearem um pouco, antes de dormirem. Todos foram para a
sala de visita e acomodaram-se como foi possível, pois a sala era
pequena...

- Então vocês estão indo à Cidade das Esmeraldas? perguntou o senhor.

- Isso mesmo! - respondeu Dorothy.

- E o que pretendem fazer por lá? - indagou a senhora.

- Iremos falar com o Mágico de Oz! - disse Danyl.

- E o que pretendem dele?

- Eu, Totó, meu cachorrinho e o Danyl queremos voltar para casa; o
espantalho Scarecrow deseja ganhar um cérebro; o homem de lata, Tin
Man, que é lenhador, deseja ganhar um coração e o Lyon, esse leãozão
aí, quer deixar de ser medroso e deseja ganhar um pouco de coragem!

- Os pedidos até que são razoáveis, mas será que o Mágico de Oz lhes
concederá esses desejos? - perguntou o dono da casa.

- Cremos que sim, pois a Bruxa Boa do Norte disse que só ele poderia
nos ajudar!

- Foi ela quem lhe deu esses sapatinhos de rubi?

- Sim, senhora! Além destes sapatinhos mágicos, ela, antes de ir, me
deu um beijo na testa dizendo que seria meu salvo-conduto nas Terras de
Oz! Veja aqui!

- A marca do beijo é quase imperceptível, Dorothy!

- Eu sei, senhor, mas ela disse que quem precisaria ver, que a veria!

- É bom viajar com as graças da Bruxa Boa do Norte, pois os obstáculos
a transpor podem ser bastante difíceis!

- Sabemos disso, senhora, mas estamos dispostos a lutar por nossos
objetivos, mesmo que nossa caminhada seja árdua!

- Gostei da perseverança! É uma atitude muito importante para quem
deseja alcançar suas metas!

- Senhor Scarecrow, fiquei curioso em conhecer sua história!

- Minha história é curta: fui criado por um fazendeiro para proteger
seu milharal de corvos e alguns outros pássaros. Por uns dois meses,
cumpri bem meu papel, mas um corvo mais velho e esperto descobriu que
eu pouco faria se ele resolvesse comer as espigas e debochou de mim,
comendo alguns grãos pousado em meu ombro. Os outros corvos e pássaros,
ao verem a atitude dele, tomaram conta do milharal e comeram quase todas
as espigas. O fazendeiro que me criara, ao ver aquele desaforo, me pegou
pelo cangote e me pendurou numa árvore. Alguns dias depois, Dorothy e
Danyl me encontraram e salvaram minha vida... meu pescoço estava quase
sem palha!

- Interessante! E para que você quer um cérebro?

- Eu sou um fracasso porque não tenho um cérebro. Se eu tivesse um,
saberia raciocinar, poderia pensar, tomar decisões, discernir entre
o bem e o mal, sonhar e imaginar coisas maravilhosas e até poderia
aprender a ler!

- Tem lógica e sensatez! E qual é sua história, senhor Tin Man?

- Eu era lenhador, senhor, nas terras da Bruxa Má do Oeste!

- Mas quem o fez assim de lata?

- Eu não era de lata, senhor, mas sim um homem normal! Como eu não
quis fazer as vontades dessa bruxa má, ela enfeitiçou meu machado!

- E o que ela queria que você fizesse?

- Que eu derrubasse, indiscriminadamente, as árvores de uma floresta
que cercava sua casa, para criar gado e plantar arroz!

- Mas ela era agricultora e pecuarista?

- Ela era só má, Senhor... ela tinha os Pimpolhos sob seu domínio e
os fazia trabalhar dia e noite para ela!

- E daí?

- Como meu machado estava enfeitiçado, cada vez que eu dava uma
machadada numa árvore seca ou podre que ameaçava as demais, o machado
saía do cabo e cortava um dos meus membros. Depois todo meu corpo e
até minha cabeça foi cortada pelo machado enfeitiçado!

- E como o senhor acabou assim todo de lata?

- Um grande amigo era ferreiro e, cada vez que eu tinha um membro
cortado pelo machado, ele fazia um de lata... até que fiquei assim!

- Mas você não tem coração?

- Não... nem cérebro!

- Você deseja um coração... e o cérebro?

- Para mim, Senhor, um coração é mais importante do que um cérebro!

- Ué! Por quê? - admirou-se a dona da casa.

- Senhora, após experimentar os dois, prefiro mil vezes o coração!

- Essa eu não entendi!

- Por ser muito sensível e romântico, preciso urgentemente um coração!
A inteligência nunca fez ninguém feliz, e não há nada melhor no mundo
do que a felicidade!

- Faz muito bem, Senhor Tin! - disse a senhora.

- E você, Senhor Lyon... por que é tão covarde?

- Eu já nasci assim, Senhor!

- Mas você tem medo de tudo? De qualquer outro animal?

- Só se ele for maior do que eu ou "estranho"!

- Animal estranho? Você, por acaso, está falando do canguru ou do
onintorrinco?

- Que bichos são esses, Senhor?

- São mais feios do que um gambá, Lyon! - disse Danyl, sorrindo.

- Ai meu Jesuszinho! Esse tal de gambá é muito feio!

- Não é não, Lyon... você é que é medroso! - falou Dorothy a sorrir.

- E vocês, Scarecrow e Tin Man... têm medo do que?

- Eu, sendo de palha, só tenho medo de fogo!

- E eu, como sou de lata e cheio de dobradiças, tenho medo da chuva...
posso enferrujar!

- Pessoal, a prosa está boa, mas amanhã teremos que acordar cedo!

- É verdade, mulher... acho melhor irmos dormir, gente!

- Vocês se acomodarão no quartinho da despensa... acho que dá pra todo
mundo!

- Eu dormirei no celeiro! - disse Lyon.

- Eu e Tin Man, que não precisamos dormir, ficaremos na varanda olhando
as estrelas e conversando!

- Mas vejam se falam baixinho para não incomodar os donos da casa, viu,
Scarecrow?

- Tudo bem, Dorothy, não se preocupe!

- Boas noites, gente!

- Boa-noite, Dorothy!

- Boa-noite, pessoal!

- Boa, Danyl!

Lyon se dirigiu ao celeiro, acomodando-se sobre as palhas de milho e
a alfafa. Danyl, Dorothy e Totó se acomodaram no quarto indicado pela
dona da casa. Os donos da casa foram para seu quarto e logo todos
dormiam o sono dos justos. Por volta das cinco horas da manhã, o dono
da casa já ordenhava uma vaquinha e sua mulher acendia o fogão à
lenha para preparar o desjejum. Lyon, assim que ouviu barulho na casa,
levantou-se e foi procurar o que comer numa mata próxima. Por volta das
oito horas, Dorothy e Danyl acordaram. Totó acordara antes deles e
estava no quintal brincando com os pintos e as galinhas. A dona da
casa deixara uma bacia cheia de água e uma toalha limpa para que ela
lavasse o rosto. Após os cumprimentos matinais, Dorothy lavou o rosto e
foi, juntamente com Danyl, sentar-se à mesa, conforme indicação da dona
da casa. A primeira refeição do dia, além do gostoso café, tinha leite,
cuscuz de milho, batata-doce cozida, banana frita, ovos mexidos e
requeijão. Logo os donos da casa juntavam-se a eles. Totó, sentado aos
pés de Dorothy, comia tudo que sua dona colocava em sua boca. Da
varanda, o espantalho e o homem de lata viram quando o leão saiu para
caçar seu "café da manhã", mas nada comentaram. Eles entraram em casa
quando viram que o povo tomava seu desjejum...

- Bom-dia, amigos! - disseram os dois em uníssono.

- Bom-dia! - responderam os demais.

- E o Lyon, ainda dorme?

- Não, Danyl... ele foi dar uma volta!

- Sei, Scarecrow!

- Logo partiremos, amigos, precisamos chegar na Cidade das Esmeraldas o
mais cedo possível!

- Acalme-se, menina... vocês ainda vão caminhar alguns dias!

- Tudo isso, Senhor?

- Pois é! Por isso acho melhor que descansem mais um pouco!

- Não podemos nos demorar, Senhora... estou com muita saudade do Tio
Henry e da Tia Emma!

- Compreendo, Dorothy! Então vou preparar uma cestinha com algumas
coisas para vocês comerem durante a viagem!

- Oh, Senhora... não é preciso! Temos ainda algumas frutas no cesto!

- Não importa, Danyl... será um complemento!

- A senhora é muito generosa, aliás, vocês são pessoas muito especiais!

- Nada disso, Dorothy! Apenas dividimos aquilo que Deus nos proporciona
sem que peçamos!

- Seremos sempre gratos a vocês!

- É isso aí, Dorothy! - falou Danyl.

- Au au au au!

- Acho que o Totó também está agradecendo a hospitalidade!

- Com certeza, Dorothy!

Assim que acabaram de comer, Dorothy, Danyl, Totó, Lyon, Scarecrow e
Tin Man, despediram-se do simpático casal...

- Nem perguntamos seus nomes? - disse Dorothy.

- Eu me chamo Maria e ele, José!

E, entre lágrimas e acenos, foi a despedida!

Após caminharem umas duas horas, os viajantes pararam sob a sombra de
um enorme jacarandá para um pequeno descanso. Totó era o único que não
parava quieto. Corria daqui e dali, hora atrás de uma borboleta, hora
brincando com as flores que a brisa balançava. Após uns quinze minutos
reiniciaram a caminhada. Quando haviam caminhado cerca de uma légua,
foram surpreendidos por um abismo que cortava a estrada. Lá embaixo,
rochas pontudas esperavam os incautos. As escarpas do desfiladeiro eram
tão íngremes que não havia como descer por um lado e subir pelo outro.
O desânimo tomou conta dos viajantes...

- Acho que nossa viagem acabou! - disse o homem de lata.

- Que não podemos voar, já sabemos. Também sabemos que não poderemos
descer por paredes tão íngremes e lisas. Portanto, se não conseguirmos
pular este precipício, teremos que ficar por aqui!

- Scarecrow tem razão! - disse Lyon.

- E o que poderemos fazer?

- Não tenho a menor idéia! - replicou o espantalho.

Lyon sacudiu a juba como se quisesse desembaraçá-la. Ficou pensativo
por alguns instantes a calcular a distância dos paredões e disse:

- Acho que serei capaz de saltar!

- Então está tudo resolvido! - afirmou Danyl.

- Bem, não custa tentar! Quem será o primeiro?

- Eu, Lyon! Se você errar o pulo não me acontecerá nada, afinal, sou
feito de palha!

- Mas eu não! Se eu, Dorothy, Danyl ou Totó cairmos nesse abismo,
certamente morreremos! - disse Lyon.

- E eu ficarei todo amassado!

- E lá embaixo acabaria se enferrujando todo, Tin!

- É verdade, Scarecrow!

- Então trate de não errar esse pulo, amigo Lyon!

 

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