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Capítulo XV

 

Data: 31/01/2009
Hora: 15:34:27
Publicado por: luis.campos
Publicado na página: biblioteca_ler

 

O passarinho foi o primeiro a achar o que comer: cupins, mosquitos
e larvas, num tronco de uma árvore caída. O cachorro comeu algumas
frutas que lhe pareceram apetitosas e o quelônio comeu algumas folhas
tenras que encontrou ao pé duma samambaia. Saciada a fome, os três
decidiram continuar sua jornada...

- E agora, gente?

- Agora? Acho que cada um deve procurar sua turma!

- Eu irei procurar uma casa para morar! - disse o jabuti.

- Eu poderia encontrar uma casa para guardar! - falou o buldogue.

- E eu?

- Você, companheiro Pardal, deve procurar outros de sua raça e viver
voando por este mundaréu!

- Ora, companheiro Jabuti... esses passarinhos não fazem nada, além de
voar daqui para ali!

- Eu acho que o companheiro Pardal vai gostar dessa vida, afinal, há
coisa melhor do que a liberdade de ir e vir? Voar, voar... você vai
gostar disso, companheiro Pardal!

- É uma boa idéia, companheiro Buldogue! Então eu me vou!
Tchau para vocês! Fui!

- Até um outro dia, companheiro Pardal!

- Até, companheiro lerdo, digo, Jabuti!

- Até mais ver, companheiro Pardal!

- Até, pulguento, digo, companheiro Buldogue!

E o passarinho ganhou altura e voou sem destino...

- Agora ficamos nós dois, companheiro Buldogue!

- Pois é, companheiro Jabuti... vejamos para onde essa estrada nos
levará!

Após caminharem cerca de duas horas, eles viram fumaça saindo de uma
chaminé...

- Tem uma cabana ali adiante, amigo Buldogue... acho que ficarei por
lá!

- Faz muito bem, companheiro Jabuti... eu continuarei minha jornada!

Logo eles chegavam diante da cabana. O jabuti foi logo procurar um
cantinho para ficar e descobriu uma sombra sob uma jabuticabeira e foi
para lá, despedindo-se do amigo...

- Boa viagem, companheiro Buldogue! Tchau!

- Obrigado, companheiro Jabuti! Tchau!

Deixando o jabuti para trás, o buldogue continuou sua caminhada. Não
demorou muito, e ele ouvia ganidos, uivos e latidos...

- Deve haver outros de minha espécie adiante! Vou até lá!

Após caminhar mais alguns minutos, o buldogue encontrou uma alcatéia.
Ele pensou que os lobos eram cachorros, que nem ele, mas se enganou.
Assim que o viu, um dos lobos levantou-se e rosnou ameaçadoramente...

- Calma, companheiro... eu sou amigo!

- O lobo, que parecia ser o chefe do bando, avançou em direção ao
buldogue e, com um rosnado feroz, mordeu a pata do cachorro. Ao vê-lo
caído, outros lobos investiram contra o buldogue. Embora o cachorro
tentasse se defender, a luta era desigual. Ele fora cercado por cinco
lobos e, como estava em desvantagem, apanhou mais do que mala velha.
Percebendo que, se não fugisse acabaria morrendo, o buldogue, assim
que teve oportunidade, saiu em disparada, sendo perseguido por seus
desafetos ainda por uma centena de metros, até que estes desistiram e
voltaram para junto da alcatéia...

- Aiiiii! Uiiiii! Escapei por pouco! - disse o buldogue, gemendo.

Após andar um pouco, o cachorro encontro um regato e decidiu lavar seus
machucados e refrescar-se da refrega...


- Aqueles canibais quase me matam! Pra que tanta violência! Uiiiii!
Qualquer dia eu volto lá e me vingo deles! Aiiiii!

O buldogue viu que fora mordido em quase todo seu corpo. Assim que
se sentiu mais forte, retornou à estrada...

_ * _

Após rodar por mais uma hora, a carruagem lilás atravessava a ponte
levadiça do castelo de Mínima e parava no pátio interno. O cocheiro
gnomo desceu do seu posto e abriu a porta do veículo para que a bruxa
saltasse...

- Lole, veja se tem alguma carta na caixa de correspondências!

- Tá bem, Madame Mínima!

O gnomo foi cumprir a ordem da bruxa e esta adentrou o castelo com sua
corujinha no colo...

- Preciso escolher um nome para você, lindinha!

Logo que entrou, Madame Mínima se dirigiu à cozinha...

- Preciso fazer um chá! Por enquanto, você fica aqui em cima da mesa,
lindinha!

Deixando o filhote de coruja sobre a mesa, Mínima pegou seu caldeirão de
chá e o colocou sobre o fogão. Pegou alguns pedaços de lenha e enfiou
na abertura sob a grelha do fogão. Subiu numa cadeira e, abrindo um dos
frascos duma prateleira, meteu a mão, pegando um punhado da erva que
este continha e o colocou dentro do caldeirão. Despejou dentro deste um
pouco de água duma jarra de louça negra. Nesse momento Lole entrou na
cozinha...

- Aqui estão as cartas, Madame Mínima!

- Deixe-me ver, Lole! Contas, cobranças e mais contas... é só isso que
recebo! Droga!

- Ah, lembrei!

- Lembrou o quê, Lole?

- Enquanto a Senhora estava viajando chegou uma carta!

- Vá logo buscá-la, Lole! Talvez sejam boas notícias!

- Que boas notícias a senhora espera receber, Madame Mínima?

- Talvez um convite para filmar em Doowylloh... ou ser coordenadora
de cultura em Egegum!

- Faço votos de que sejam boas novas mesmo!

- Deixe de conversa, Lole, e vá logo pegar a tal carta!

- Tô indo... tô indo! - respondeu o gnomo, afastando-se.

- De quem será essa carta? Bem, deixa eu cuidar do fogo!

Madame Mínima pegou seu acendedor automático para acender o fogo. A
princípio a lenha demorou a pegar fogo, mas logo uma pequena chama
ardia sob o caldeirão...

- Aqui está a carta, Madame Mínima!

- Hã? Uma carta perfumada! Será de algum fã?

- Será que é de um certo rei, Madame Mínima?

- Eu não quero nada com esse "certo" rei, Lole!

- Mas ele quer com a senhora, Madame Mínima!

- Eu sei muito bem o que ele quer comigo, Lole!

- E o que ele quer com a senhora?

- Isso não é conversa para gnomos, Lole!

- Eu já sou grandinho, Madame Mínima!

- É... mas ainda é um gnomo!

- Eu sou quase do seu tamanho, Madame Mínima!

- Tá, Lole! Deixa eu ver logo de quem é esta carta...
o quê? Minha sobrinha íris vem me visitar, Lole!

- Que ótima notícia, Madame Mínima... ainda lembro da Íris... aquela
bruxinha era uma capeta!

- E vai passar as férias escolares aqui comigo!

- Oba! A gente vai brincar um bocado!

- Sei disso, Lole, mas, antes a obrigação, depois a devoção!

- A senhora adora esse ditado, né, Madame Mínima?

- É esse autorzinho que fica botando essas coisas em minha boca!

- Esse cara é um chato... mas é um chato porreta!

- Às vezes eu também penso assim, Lole, mas gosto da amizade dele!

- Ele parece gostar muito da senhora, Madame Mínima!

- Ele até que não é má pessoa... só precisa parar com a mania de querer
me...

- O que ele quer com a senhora, Madame Mínima?

- Já lhe disse que isso não é conversa pra gnomo!

- Mas eu até já sei ler... e conheço algumas regras!

- Então conheça mais esta... gente miuda não entra em conversa de gente
grande!

- Mas a senhora não é grande, Madame Mínima!

- Mas tenho idade de gente grande, tá?

- Tá, tá, tá... e quando aquela bruxinha bonitinha chega, Madame Mínima?

- Ela chega hoje, Lole! Estou tão feliz!

- Que bom, Madame Mínima! Folgo em saber!

- Já que você está tão folgado, Lole, vá arrumar o quarto da torre
Norte para ela!

- Tô indo... tô indo! Tudo eu, tudo eu!

Madame Mínima pegou o abano para avivar a chama do fogo e, enquanto
abanava, disse para sua vassoura e para o espanador:

- Aruossav, varra todo o castelo. Rodanapse, tire o pó dos móveis!

Imediatamente a vassoura e o espanador entraram em ação...

- Lole... Lole... cadê você? - gritou Madame Mínima.

- Tô indo, Madame Mínima, tô indo! - gritou Lole em resposta.

Alguns segundos depois o gnomo chegava na cozinha. Madame Mínima,
sentada à mesa, tomava seu chazinho de folhas de Cocazero e brincava
com seu filhote de coruja...

- Pois não, Madame Mínima!

- Lole, quero que você colha algumas flores e as coloque no quarto da
Íris. Vou fazer algumas bolachinhas de goma, sequilhos, suspiros e um
musse de maracujá para ela!

- E para mim, nada?

- Deixe de conversa que todo dia eu faço "Leitecau" pra você!

- Eu sei... mas não deixa eu comer tudo que quero!

- Claro! Estou zelando por sua saúde, seu gnomo bobo!

- Eu não sou bobo nada!

- Eu estou só brincando, bobão!

- Ah, pensei! Vou colher as flores e...

* DLIM DLOM! DLIM DLOM!

 

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