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Parte XIII
| Data: | 14/12/2008 |
| Hora: | 16:57:07 |
| Publicado por: | luis.campos |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
Parte XIII
E assim, o gato Danyl, o jegue Irmão, o cão Geléia, o galo Carijó e a
gata Mimi voltaram à estrada e iniciaram a caminhada rumo ao sucesso.
A cidade de Nemerb estava algumas léguas distante dali e, como estava
escurecendo, os cinco amigos decidiram pernoitar num bosque que
encontraram após caminharem algumas horas. Combinaram passar a noite ali
e reiniciarem a viagem na manhã seguinte. Irmão e Geléia deitaram-se sob
uma enorme árvore. Danyl e Mimi deitaram-se sobre uma grande pedra e
Carijó subiu num dos galhos mais altos dessa árvore. Ao dar uma olhada
em volta, o galo viu, ao longe, uma claridade. Observando melhor,
percebeu que a luz provinha de uma pequena cabana...
- Companheiros, companheiros... vejo uma cabana aqui perto!
- Lá estaremos mais protegidos da friagem da noite!
- Então o que esperamos, amigo Irmão? - disse Geléia.
- Vamos até la, gente! É possível que encontremos algumas almofadas!
- No mínimo é mais confortável do que essa pedra, Mimi! - falou Danyl.
Carijó deu um salto e caiu sentado sobre a cabeça do Irmão que, sobre
seu dorso, carregava Danyl e Mimi. Geléia, um pouco atrás, acompanhava
Irmão. Segurando as longas orelhas do jegue, Carijó o orientava. À
proporção que se aproximavam da cabana, a claridade aumentava. Quinze
minutos depois estavam diante da casa e, por segurança, pararam há uns
dez metros de distância desta...
- Tem alguém lá dentro! - disse Irmão.
- Será que é a casa da Madame Mínima? - perguntou Mimi assustada.
- Madame Mínima mora num velho castelo, Mimi!- respondeu Danyl.
- Será a casa da vovó da Chapeuzinho Vermelho? - perguntou Geléia.
- Aquela é outra história, Geléia! - respondeu Carijó.
- Fiquem em silêncio. Vou aproximar-me e olhar por aquela fresta na
janela! - disse Irmão.
Casco ante casco, Irmão chegou até a janela e observou o interior da
casa e viu, à volta duma mesa, quatro homens mal-encarados que comiam
e bebiam. Silenciosamente retornou para junto dos amigos e lhes contou
o que vira dentro da cabana...
- Devem ser ladrões! - disse Danyl.
- Também acho! - falou Geléia.
- Temos que expulsá-los de lá! - disse Carijó.
- Eu tenho um plano! - falou Mimi.
- Que plano é esse, Mimi? - perguntou Irmão.
- Abaixem-se aqui... blá blá blá!
- Brilhante idéia, Mimi! - falou Danyl.
- Vamos à execução desse mirabolante plano, pessoal! - disse Irmão.
Eles aproximaram-se da janela. Irmão colocou uma das patas dianteiras
sobre o peitoril desta, Geléia subiu em suas costas, Danyl e Mimi
subiram nas costas de Geléia e Carijó voou até ficar nas costas de
Danyl. A um sinal combinado, iniciaram uma horrorosa cantoria: Irmão
zurrava, Geléia latia, Mimi e Danyl miavam e Carijó cacarejava. Após
dois minutos desse estardalhaço, Irmão quebrou a janela e os cinco
entraram casa adentro, fazendo uma barulheira infernal. Assustados, os
homens, aos gritos de pavor, abandonaram a cabana numa só carreira e
foram esconder-se na floresta...
- Socorro!
- Com mil demônios!
- Fantasmas!
- Aiiiii! Assombrações!
Às gargalhadas, os cinco amigos sentaram-se à mesa, comeram e beberam
até ficarem saciados. Depois desse lauto jantar, procuraram um lugar
para dormir: Irmão deitou-se num monte de palha que havia no quintal;
Geléia deitou-se junto à porta, como a vigiá-la; Danyl e Mimi
deitaram-se sobre as laterais do fogão e Carijó empoleirou-se numa das
vigas do telhado. Como todos estavam muito cansados, logo adormeceram.
Minutos após a meia-noite os homens viram que a luz fora apagada e o
silêncio reinava na casa, então decidiram voltar. O que parecia ser o
chefe, disse aos demais:
- Não devemos ter medo! Vamos voltar à cabana!
Fulano... vá até lá ver como estão as coisas!
Fulano obedeceu e entrou na casa. Dirigiu-se ao fogão para acender uma
vela. Tomando os olhos dos gatos, que brilhavam no escuro, por brasas,
tentou acender um fósforo num dos olhos do Danyl. Danyl acordou,
acordando Mimi e os dois avançaram contra o home, cuspindo-o e
arranhando-o. Fulano tomou um grande susto e correu em direção à porta
dos fundos, mas Geléia, não gostando de ser atropelado, mordeu-lhe a
bunda. Fulano saiu pela porta do quintal a fora, mas ao passar perto
de Irmão, levou um tremendo coice. Carijó que acordara com o barulho,
voou para a cabeça do coitado e deu-lhe boas bicadas. Fulano, todo
machucado e tremendo de medo, conseguiu fugir e foi juntar-se aos
parceiros, contando-lhes sua versão do ocorrido:
- Há uma terrível bruxa lá dentro! Ela me cuspiu a cara e me arranhou
com suas unhas afiadas. Na porta da cozinha fica um anão mau que me
cortou a bunda com um canivete. No quintal levei uma paulada nos
peitos de um dragão cinzento e várias bicadas na cabeça do corvo da
bruxa horrorosa! Acho melhor não voltarmos lá... é muito perigoso!
- Eu é que não entro nessa casa! - disse Beltrano.
- Nem eu! - falou Sicrano.
- Covardes! Tenho em meu bando três grandes covardes!
- E por que o Senhor não vai lá, Chefinho? - perguntou Fulano.
- Porque eu sou o Chefe aqui, porque não está no script e porque não
ganho pra isso! Vamos procurar serviço numa novelinha menos violenta!
- Certo, Chefe! - disseram Fulano, Beltrano e Sicrano ao mesmo tempo.
Depois disso nunca mais os bandidos voltaram à casa e os cinco amigos
ficaram morando por ali. Estavam tão bem que decidiram esquecer Nemerb
e, despreocupadamente levavam a vida a cantar, compor, comer, beber e
dormir.
De vez em quando alguém da redondeza os contratava para animar bailes
pastoris, batizados, aniversários e até quermesses. e eles, contentes
e felizes, iam mostrar suas músicas. E assim o tempo transcorreu sem
novidades, até que num belo alvorecer de primavera...
- Amigos, tenho que deixá-los!
- Por que, Danyl?
- Porque este é meu destino, Carijó!
- Que destino que nada, Danyl... isso tá mais pra script de novelinha
abestada! - disse Irmão irritado.
- Fazer o quê, Irmão? A vida de um personagem é um eterno vai e vem!
- Eu disse alguma coisa que o magoou, Danyl?
- Claro que não, Mimi!
- E nós o ofendemos alguma vez, Danyl? - perguntou Geléia.
- Claro que não, amigos, mas compreendam...
- Compreender o quê, Danyl? - perguntou Mimi.
- Se eu ficar por aqui mais tempo, esse autorzinho vai ter motivo pra
levar mais outro tempão sem escrever um novo capítulo dessa novelinha!
- Você tem razão, Danyl! Esse baiano é mais enrolado do que abará!
- E mais escorregadio do que quiabo em azeite de dendê, Irmão! Hahaha!
- Hahahahahaha! - riram todos.
- Bem... estou indo! Até qualquer outra aventura, amigos!
- Até, Danyl! - disse Carijó.
- Tchau, Danyl! - falou Geléia.
- Até mais, Danyl! - Completou Irmão.
- Adeus, Danyl!
- Adeus não... me diga até breve, Mimi!
- Até breve, Danyl! - disse Mimi com uma lágrima caindo dos olhos.
E Danyl enveredou pelo bosque e logo sumia entre as árvores...
- * -
Após uma caminhada de léguas, Danyl percebeu que a paisagem mudara um
pouco, mas como tudo pode acontecer nessas novelinhas, nem ligou.
Continuou caminhando e logo chegava numa pequena fazenda. Na margem de
uma lagoa, Danyl viu uma menininha brincando com um cachorrinho e
aproximou-se deles...
- Bom-dia, menina!
- Bom-dia, gato!
- Posso beber água dessa lagoa?
- Claro que sim, gato... eu e Totó sempre bebemos e nunca sofremos
qualquer distúrbio intestinal!
- Então dê licença!
* CHOMP CHOMP CHOMP CHOMP CHOMP CHOMP!
- Você estava com sede, hein, gato?
- Estou andando desde cedo, menina!
- Me chame de Dorothy, gato!
- Seu nome é muito bonito, men... Dorothy! Eu me chamo Danyl!
- Muito prazer, Danyl! De onde você vem?
- É uma longa história, Dorothy!
- Eu tenho todo o tempo do mundo para ouvi-la, Danyl!
- Então eu posso contá-la, mas antes gostaria de comer alguma coisa!
- Venha comigo, Danyl! Venha também, Totó!
Danyl e Totó acompanharam Dorothy até o interior da casa...
- Que bonita casa de madeira, Dorothy!
- Foi o Tio Henrique quem a fez! Vamos pra cozinha!
- Você está passando férias com seu tio, Dorothy?
- Não, Danyl... eu vivo aqui com a Tia Ema e o Tio Henrique...
- Au au au!
- E com o Totó, meu companheiro de brincadeiras!
- Você é um cãozinho simpático, Totó!
- Au au au au!
- Obrigada pelo elogio ao Totó, Danyl!
- De nada, Dorothy!
Dorothy fez alguns sanduíches e preparou uma jarra de suco de goiaba
para eles e sentou-se ao lado de Danyl...
- Pode se servir, Danyl!
- Obrigado, Dorothy!
- Tome aqui, Totó... mas coma devagar, garoto!
- Humm! Estão uma delícia, Dorothy!
- São naturais, Danyl! Aqui só comemos comida natural!
- Nunca pensei que comida natural fosse tão gostosa, Dorothy!
- Muita gente pensa que é ruim, Danyl... mesmo sem experimentarem!
- E cadê seus tios?
- Eles foram à cidade! Logo estarão de volta!
* CABRUM!
- Parece que vai chover, Danyl... vou fechar as janelas!
- É bom mesmo... a ventania está aumentando!
* VUUUUCH! TRASSC! TRESCH!
De repente, um redemoinho elevou a casa nos ares e começou a viajar
com ela no seu topo...
- Socorro, Danyl!
- Au au au!
- Segure-se, Dorothy... a casa está sendo levada pelo vento!
- Vou sentar-me ao seu lado, Danyl!
- Venha... isso... segure-se na mesa!
- E agora, Danyl?
- Vamos esperar o desenrolar dessa novelinha, Dorothy!
- Au au au!
- Totó pressentiu algo, Danyl!
- É que estamos descendo, Dorothy!
- É mesmo!
* THUBUM! PLESSG!
- Chegamos ao chão, Dorothy!
- Vamos esperar um pouco, Danyl!
- Au au au!
- Totó não quis esperar, Dorothy... já está la fora! Hahahahaha!
- Esse Totó não é brincadeira! Hahahahaha!
- - -
Fim da Parte XIII
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