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Parte X
| Data: | 14/12/2008 |
| Hora: | 16:50:22 |
| Publicado por: | luis.campos |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
Parte X
Onde eu parei mesmo? Ah, eu descrevia os trajes dos noivinhos. Como eu
dizia, o Marquês de Racabás estava muito elegante, mas a Princesa
Asoief que, como todas as noivas, era a protagonista principal desse
maravilhoso, emocionante e inesquecível dia na vida de uma mulher,
estava simplesmente deslumbrante. Ela vestia um longo de corpo justo
em crepe de seda na cor rosa "bebê" (Será que já...? - Rê rê rê!), sem
mangas, com uma cauda saindo das laterais. O decote em "V" realçava a
beleza do seu busto, sobre o qual caía um exuberante colar de pérolas
da Tiffany, combinando com os brincos e braceletes da mesma marca.
O cabelo armado num coque alto e um pequeno véu davam-lhe um charme
especial. Os sapatos altos e de saltos finos tornavam mais esguia sua
figura. Ela trazia nas mãos um buquê redondo de pequenos botões de
rosas naturais e um terço à volta deste. Nos braços, além dos
braceletes, apenas duas singelas pulseiras com três coraçõezinhos de
diamantes incrustados. Os dedos finos das delicadas mãos não traziam
anel algum. Se Iul enxergasse veria o quanto sua futura esposa estava
encantadora. Após os noivos dizerem o "sim", trocarem as alianças e
os juramentos de praxe, o Cardeal Laedrac, desejando felicidades a
ambos, deu por encerrada a parte religiosa do casamento e os nubentes,
padrinhos e alguns convidados dirigiram-se à sacristia para assinar
a papelada que oficializaria a parte civil do enlace. Depois de quase
uma hora de assina aqui, assina ali, todos foram para o castelo do Rei
Udib onde seria realizada a festança. À porta da igreja uma carruagem
prateada com frisos dourados, puxada por oito cavalos brancos com
plumas de avestruz na cabeça e arreios de ouro aguardava os noivos
para levá-los ao local da festa. Por causa das mais de cem carruagens
estacionadas no pátio do templo, houve um pequeno congestionamento que
foi logo resolvido pelos cocheiros e escudeiros que aguardavam seus
senhores e todas seguiram a carruagem dos noivos em cuja traseira os
amigos destes amarraram alguns barris de carvalho, penduraram pequenos
sinos e ainda escreveram frases picantes com chantili, fazendo alusão
ao enlace e à noite de núpcias do casal. (Rê rê rê!)
Como o trajeto era curto, logo a comitiva chegou ao castelo, que fora
todo pintado, reformado e ornamentado para receber os convivas. O Rei
Udib contratara um buffet da Capital e a nobreza camposlivrense que,
como sabemos, não perde uma boca livre, estava ali em peso, disposta a
comer e beber à vontade. Assim que pisaram o salão, os noivos foram
recebidos por uma chuva de pétalas de rosas e aplausos. Após receberem
os cumprimentos, Asoief achou que era chegada a hora de, como manda a
tradição, atirar o buquê para trás, por cima da sua cabeça. As damas
presumivelmente solteiras, presentes, entre estas, as baronesas Aneli,
Ceni Tespon e Mexines; as condessas Écari Lin, Ramisa Yltau, Tair
Desmen e Taline; as duquesas Ahtri Gon, Anne Lucy, Eliami, Marnele
Gars; a marquesa Pat Braill e as princesas Dreana, Duds e Zialu,
faziam o maior alvoroço e, sorrindo e dizendo gracinhas, no afã de
pegar o buquê, empurravam-se umas às outras por pura brincadeira, mas,
por superstição ou não, viam-no como um talismã para arranjar marido e
sair do barricão...
VUPT! TUMP!
O buquê voou, voou, voou e foi apanhado, ainda no ar, pela... como é
mesmo o nome dessa moça? Ah, deixa pra lá! Depois eu descubro!
Assim que as damas dispersaram, a retreta contratada pelo rei para
animar o baile deu os primeiros acordes da valsa nupcial e os noivos
saíram dançando, trocando olhares apaixonados. Quando eles pararam de
dançar, a galera explodiu em aplausos. Como a orquestra tocava todos
os ritmos populares da idade desmédia, atacou um forró pé-de-torre e
os pares se formavam para dançar, esbaldando-se na pista de dança,
indo, de vez em quando, às suas mesas para descansar um pouco, beber
um drinque e comer alguma coisa. As cinqüenta e uma garçonetes não
paravam de servir bebidas e passar com as bandejas de salgadinhos
entre todas as cinqüenta e uma mesas. Tanto o Rei Udib, quanto os
noivos, fizeram questão que seus súditos participassem da festa que,
segundo Danyl, tinha gente saindo pelo ladrão. Numa dessas idas e
vindas do gato pelo salão, ele resolveu dar um pulo, não literalmente,
claro, na mesa do amigo Iul. O Rei Lui Sopmac conversava animadamente
com o irmão e Asoief, pendurada no ombro do marido, entre um afago e
outro, sorria ao ouvir as histórias das muitas travessuras dos irmãos
quando crianças.
Nas sete mesas à volta desta, via-se toda a nobreza camposlivrense.
Ao passar entre algumas pessoas, alguém o chamou...
- Danyl... Danyl!
Imediatamente o gato reconheceu a voz do Conde Rodavlas e foi ao seu
encontro...
- Papai! Que prazer revê-lo! Como estão mamãe e as manas?
- Com muitas saudades, filho! Venha vê-las, elas estão aqui! - disse o
conde abraçando o filho e levando-o até a mesa onde estavam seus
familiares.
- Mamãe... Anadria... Enidale! - exclamou Danyl sem conseguir segurar
algumas lágrimas que teimavam em cair.
A Condessa Anigroj, entre lágrimas, abraçou o gato, digo, o filho...
- Meu filho, meu filho... que bom revê-lo! Volte pra casa... estamos
morrendo de saudades!
- Eu também tenho saudade de vocês, Mamãe, mas meu destino já está
escrito e dele ninguém foge, Mamãe! Eu quero bater perna, Mamãe!
- Mas, filho, isto não é vida!
- Ora, Mamãe... eu tenho sete vidas... deixe-me ao menos estragar
umazinha!
Nesse momento Anadria e Enidale aproximaram-se do irmão e o abraçaram
também. O Conde Rodavlas, com os olhos marejados, observava os quatro
abraçados, mas não quis intervir para não quebrar o encanto daquele
momento sublime que desejaria levar de lembrança quando voltasse para
Samlasadzurc. Danyl sentou-se com seus familiares e prosearam cerca de
duas horas, quando o gato decidiu que iria embora, pois sabia que,
quanto mais tempo ficassem juntos, mais eles sofreriam...
- Mamãe, Papai, manas... tenho que ir!
- Mas já, filho? Fique mais um pouco conosco, filho!
Não vai nem esperar cortar o bolo, filho?
- Não se vá, mano! - pediu chorosa Enidale.
- Não posso ficar nem mais um minuto com vocês! - cantarolou Danyl com
um sorriso triste.
- Tudo bem, mano... até mais! - disse Anadria.
- Vê se manda notícias, mano! - completou Enidale.
- Não se preocupem, maninhas... é só ler os próximos capítulos dessa
novelinha e vocês saberão o que ando fazendo! - disse Danyl sorrindo.
- Tudo bem, filho... falarei com a Marquesa de La Moderación para
inscrever-me na "CL"! - disse o Conde Rodavlas.
- Vá em paz, filho... e Deus o abençoe! - disse a Condessa com a voz
trêmula.
Para que seus pais e irmãs não sofressem mais, Danyl decidiu ir embora
da festa. Deixando os seus, foi até a mesa de Iul e Asoief para
despedir-se destes...
- Marquês, Princesa, Rei Lui... Estou indo!
- Está bem, Danyl... nos falamos amanhã!
- Certo, Marquês!
- Tchau, Danyl! - disse a princesa.
- Até amanhã, Danyl! Iul me contou como vocês se conheceram!
- É uma longa história, Majestade!
- Eu também quero ouvir essa história, Danyl! - disse a princesa.
- Bem... se vocês querem mesmo saber como tudo começou, é só ler os
primeiros capítulos dessa novelinha. Fui! - disse Danyl sorrindo
enquanto se afastava dos amigos.
Antes de deixar o salão, Danyl foi despedir-se do Rei Udib e de alguns
nobres que conhecia. Segundo as revistas semanais Óia, Digo e Período,
a festa durou três dias, sem a presença dos noivos que viajaram ainda
na primeira noite para a lua-de-mel numa maravilhosa e afrodisíaca
praia do litoral nordestino no Lisarb, reino vizinho ao Reino dos
Campos Livres, só retornando a Satobedotag três semanas depois.
Durante esse tempo, Danyl administrava a vida no castelo e, nas horas
vagas e à noite, confortavelmente instalado sobre enormes e macias
almofadas de seda e veludo, lia os poemas e contos escritos por Iul,
os gibis do Blind Kid, do Mandblind, Capitão Blind, Super-Blind,
Inspetor Blind, entre outros da coleção que Iul guardava com o maior
esmero e carinho, ouvia a FM51, uma das emissoras de rádio local ou
assistia tevê em imagens captadas pela antena "paranóica" que Iul
mandou instalar para assistir desenhos animados, seriados, novelas e
filmes do Babenco, Chaplin, Fellini, Glauber, Hitchcock, Polanski e
Spielberg, bem como a alguns de faroeste e selva.
Quando a carruagem que trazia Iul e Asoief apontou na curva, Danyl
e os serviçais do castelo já os esperavam na ponte levadiça com buquês
de rosas brancas para ofertar à princesa. A carruagem adentrou o
castelo e todos foram atrás gritando hurras, vivas e batendo palmas.
Asoief, emocionada com a recepção calorosa dos seus futuros serviçais,
não pôde conter as lágrimas, mas, com um largo sorriso recebia as
flores e apertava a mão de todos que se aproximaram dela. Após essa
manifestação de carinho, os empregados se retiraram e o casal,
acompanhado pelo Danyl, foi até o salão de armas para prosear um
pouco. Duas horas mais tarde, o casal retirou-se para seus aposentos.
Durante o jantar, Danyl contou tudo que ocorrera na ausência de Iul e
o colocou a par das novidades e providências que deveriam ser tomadas
para o bom andamento dos serviços no castelo. Falou que os serviçais
estavam cientes de suas responsabilidades e vinham trabalhando com
afinco e dedicação, merecedores de todos os elogios. Segundo ele, Iul
e Asoief nunca teriam qualquer aborrecimento com seus serviçais.
No almoço do dia seguinte, Danyl disse aos amigos que iria partir...
- Mas por que quer nos deixar, Danyl? - indagou tristonha a princesa.
- Já fiquei tempo demais aqui, amigos... quero viver novas aventuras!
- Eu o compreendo, Danyl! Espero que volte para nos visitar, amigão!
- Claro, Iul! Talvez nos encontremos em uma outra novelinha!
- Eu espero que sim, Danyl! Devo a você minha felicidade, amigo. Se
não fosse você, eu nunca conheceria o amor da minha vida!
- Ora, Iul... ninguém foge ao seu destino, amigo!
- Eu também quero agradecer-lhe, Danyl, por haver dado uma mãozinha ao
meu destino e colocado Iul em minha vida!
- Mesmo que eu não tivesse ajudado, Princesa Asoief, seu destino já
estava traçado!
- Fique mais alguns dias, amigo Danyl... eu gostaria de ouvir algumas
das suas histórias! - disse a princesa.
- Não se preocupe, Asoief... haverá sempre alguém interessado em
narrar minhas aventuras!
Eles continuaram conversando enquanto almoçavam e, logo após a sesta,
Danyl estava pronto para partir...
- Bem, amigos... estou indo!
- Está bem! Ficaremos aguardando notícias!
- Eu escreverei para vocês, Iul!
- Vá com Deus, Danyl! - disse a princesa chorando.
Danyl deu um forte abraço no amigo, abraçou Asoief, beijou-lhe a mão e
desceu a escadaria que o levaria ao pátio externo do castelo. Ali, os
serviçais o esperavam para despedir-se daquele que os salvara do seu
terrível algoz...
E entre abraços, lágrimas e aplausos, Danyl deixou o castelo!
- - -
Fim da Parte X.
- - -
Luís Campos (Blind Joker)
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